Há uma pergunta que talvez sobreviva às urnas de domingo:
quem efetivamente conduziu o debate eleitoral brasileiro em 2026?
Os candidatos, evidentemente.
Os partidos, naturalmente.
E o eleitor continuará tendo a palavra definitiva quando estiver diante da urna.
Mas seria impossível contar a história desta eleição olhando somente para eles.
Estados Unidos, Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral, plataformas digitais e a maior emissora de televisão do país estiveram, por razões distintas e muitas vezes conflitantes, no centro de acontecimentos capazes de modificar o ambiente em que a campanha presidencial ocorreu.
Isso não significa afirmar que todos tenham atuado com a mesma intenção. Muito menos que tenham trabalhado para favorecer determinado candidato.
Significa algo diferente:
atores que não estavam disputando votos exerceram poder relevante sobre as circunstâncias em que os candidatos chegaram às urnas.
Os Estados Unidos entraram na eleição brasileira
Talvez o elemento mais extraordinário tenha vindo de fora.
As relações entre o governo brasileiro e a administração Donald Trump deixaram de ser exclusivamente um assunto diplomático e econômico e passaram a integrar o próprio debate eleitoral.
A situação adquiriu dimensão ainda maior nesta semana.
Uma investigação da Reuters revelou que integrantes da Agência Brasileira de Inteligência teriam relatado a representantes da França e da Alemanha a existência de supostas interferências dos Estados Unidos e da Rússia no processo eleitoral brasileiro.
Segundo relatório das reuniões consultado pela agência, autoridades da Abin teriam afirmado que a atuação americana iria da utilização do sistema jurídico àquilo que classificaram como interferência assumida abertamente.
Não foram apresentados detalhes equivalentes sobre a suposta atuação russa. A Reuters também registrou que Estados Unidos e Rússia já haviam negado anteriormente acusações de interferência eleitoral.
Essa distinção é fundamental.
Há uma alegação de interferência atribuída a integrantes da inteligência brasileira e registrada por uma agência internacional de notícias. Isso não equivale, por si só, à comprovação independente de cada ação atribuída aos governos estrangeiros.
Mas também já não permite tratar a discussão simplesmente como uma teoria surgida nas redes sociais.

Trump diz acompanhar a eleição “muito de perto”
Nesta sexta-feira, a apenas dois dias da votação, Donald Trump voltou a colocar os Estados Unidos dentro da narrativa eleitoral brasileira ao declarar que acompanha as eleições do país “muito de perto”.
O presidente americano evitou fazer um endosso explícito a Flávio Bolsonaro, mas a declaração ocorre depois de meses de tensões políticas e diplomáticas entre Washington e Brasília.
Uma potência estrangeira possui interesses diplomáticos e econômicos legítimos.
A questão democrática surge quando manifestações ou ações externas passam a ter capacidade de alterar o ambiente político interno de outro país.
É justamente essa fronteira que merece fiscalização.
O Judiciário no centro da campanha
A judicialização das eleições brasileiras não começou em 2026.
O pleito de 2022 já produziu forte atuação da Justiça Eleitoral, especialmente diante de desinformação, propaganda irregular e ataques ao sistema eleitoral.
Mas 2026 acrescentou uma nova dimensão.
O TSE passou a exigir de grandes plataformas digitais planos específicos de conformidade para as eleições.
Nove empresas apresentaram seus mecanismos.
As medidas incluem remoção de conteúdos, suspensão de perfis, fornecimento de dados e interrupção de propaganda considerada irregular.
O Google informou que utiliza sistemas automatizados e revisão humana, além de mecanismos para identificar material manipulado por inteligência artificial.
O X adotou uma medida particularmente relevante: contas oficiais de candidatos e suas publicações deixaram de ser recomendadas no “Para Você” para usuários que ainda não as seguem.
As plataformas justificam essas políticas como mecanismos destinados a proteger a integridade eleitoral.
Mas existe uma consequência inevitável:
aquilo que milhões de eleitores veem — ou deixam de ver — também depende das regras dos algoritmos e das determinações do sistema de Justiça.

Mendonça, Dino e Fux: quando uma publicação atravessa tribunais
Poucos episódios demonstram melhor a intensidade dessa judicialização que a controvérsia envolvendo publicações que associavam Flávio Bolsonaro a um suposto ataque a Nossa Senhora Aparecida.
André Mendonça, atuando no TSE, determinou a retirada das publicações.
Flávio Dino posteriormente derrubou a ordem.
Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu a retirada das postagens até análise do plenário do STF.
No mesmo episódio, o presidente do TSE, Nunes Marques, enviou ofício ao presidente do Supremo reclamando de interferências sobre decisões da Justiça Eleitoral.
Independentemente da posição que se tenha sobre o conteúdo original, a sequência revela uma situação institucional incomum:
uma mesma controvérsia eleitoral atravessou decisões divergentes de diferentes ministros das mais altas Cortes do país em plena reta final da campanha.
Então veio o debate da Globo
Na noite desta quinta-feira (1º), toda essa tensão institucional encontrou seu símbolo mais visível.
A Globo havia preparado o último debate presidencial antes do primeiro turno.
Lula comunicou previamente que não participaria e optou por conceder entrevista ao Flow Podcast.
A emissora manteria no cenário o púlpito destinado ao candidato ausente, conforme regra anteriormente acordada pelos partidos.
Mas a ministra Estela Aranha, do TSE, determinou que a Globo não poderia manter o púlpito vazio de Lula.
Dias antes, Nunes Marques já havia alterado entendimento sobre a contagem da representação parlamentar e determinado a participação de Romeu Zema.
Pouco antes do debate, Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão de Renan Santos, cujo partido não atingia o critério parlamentar originalmente utilizado pela emissora.
Flávio Bolsonaro desistiu de comparecer horas antes do programa.
A Globo então cancelou o debate.
A emissora classificou as sucessivas decisões judiciais como interferência indevida em sua liberdade de organizar o encontro e alegou insegurança jurídica. Essa é a posição da Globo, não uma conclusão deste editorial.
O resultado concreto, entretanto, é indiscutível:
a dois dias da votação, o eleitor brasileiro ficou sem o último grande debate televisivo entre candidatos à Presidência.
A Globo também exerce poder
Isso não transforma uma emissora de televisão em simples vítima ou espectadora das eleições.
Uma empresa de comunicação também exerce poder.
Decidir quem participa de um debate, estabelecer critérios, selecionar assuntos, definir perguntas, determinar quanto espaço cada acontecimento receberá e escolher aquilo que abre ou não o principal telejornal do país são decisões editoriais.
E a história brasileira já mostrou como essas escolhas podem tornar-se politicamente controversas.
Em 1989, a edição realizada pelo Jornal Nacional do debate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se um dos episódios mais discutidos da história da televisão brasileira.
Por isso, discutir criticamente a atuação da maior emissora do país durante uma eleição não é atacar a liberdade de imprensa.
Fiscalizar a imprensa também faz parte de uma sociedade democrática.
Mas fiscalização exige evidência.
E existe pressão americana sobre a Globo?
Aqui entramos na parte mais delicada desta discussão.
Circula nos bastidores políticos e nas redes sociais uma suspeita: interesses econômicos ou patrimoniais dos controladores da Globo nos Estados Unidos poderiam tornar a empresa vulnerável a eventuais pressões relacionadas à política americana de sanções — inclusive à Lei Magnitsky — e isso poderia, em tese, repercutir sobre sua cobertura eleitoral.
É uma hipótese grave.
E exatamente por ser grave precisa ser tratada com rigor proporcional.
Até o momento, o Hoje Bahia não encontrou evidência documental que permita afirmar que isso esteja acontecendo.
Não encontramos ordem editorial vazada, documento do governo americano, ameaça de sanção dirigida aos controladores da emissora ou investigação jornalística independente que estabeleça uma relação causal entre interesses da Globo nos Estados Unidos e uma orientação para favorecer Flávio Bolsonaro ou poupar determinados ministros.
Portanto, o Hoje Bahia não apresenta essa hipótese como fato.
Fazer isso seria substituir investigação por especulação.

Mas existe uma pergunta que pode ser investigada
A inexistência de prova dessa hipótese não impede uma pergunta jornalística muito mais objetiva:
a Globo tratou com o mesmo peso editorial acontecimentos potencialmente negativos ou positivos envolvendo os principais candidatos e decisões de ministros do Judiciário durante esta campanha?
Isso pode ser medido.
Pode-se levantar quantas reportagens foram produzidas.
Quanto tempo receberam.







