Testes jornalísticos identificaram tratamento desigual entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto pesquisas no WhatsApp mostram sugestões assimétricas de canais políticos. Campanha petista recorre ao TSE, Meta nega favorecimento e especialistas apontam a necessidade de transparência nos sistemas que distribuem informações a milhões de eleitores.
Essa disputa tem colocado a Meta, empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, no centro de questionamentos sobre transparência, distribuição de conteúdo e igualdade de oportunidades entre candidatos.
Nos últimos dias, episódios distintos passaram a compor o debate: restrições relatadas pela campanha de Lula, resultados de busca que apresentam canais ligados ao adversário, diferenças verificadas no funcionamento da Meta AI e a identificação de redes coordenadas de amplificação de conteúdo político.
Algumas dessas situações já foram documentadas por veículos jornalísticos e organizações de monitoramento. Outras continuam sob investigação e dependem de dados técnicos que somente as plataformas podem fornecer.
A questão central é saber se essas diferenças são consequência de mecanismos normais de personalização, falhas de programação, estratégias de mobilização digital ou práticas capazes de produzir favorecimento político-eleitoral.
Quando a pessoa procura um canal, mas recebe a sugestão de outro
Um dos exemplos mais concretos da controvérsia envolve a ferramenta de pesquisa por canais do WhatsApp.
Reportagem publicada nesta quarta-feira (14) pelo Congresso em Foco identificou que, ao procurar o canal "Exército do Lula", administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG), o aplicativo também apresentou entre as sugestões a "Tropa do Flávio", canal ligado à campanha do candidato do PL.
O resultado foi registrado em captura de tela verificada pelo veículo.
O aspecto mais relevante veio da comparação inversa: ao pesquisar "Tropa do Flávio", os jornalistas não encontraram sugestões equivalentes de canais relacionados a Lula ou ao Partido dos Trabalhadores.
Trata-se de uma assimetria observada em buscas específicas, não de uma demonstração de que todos os usuários do aplicativo receberão os mesmos resultados.
O comportamento é especialmente importante porque os sistemas de busca não se limitam a localizar palavras idênticas. Eles também podem sugerir conteúdos relacionados, populares ou considerados relevantes para cada usuário.
Assim, um canal pode aparecer diante de pessoas que estavam procurando outro.
Uma situação semelhante foi relatada ao Hoje Bahia: ao digitar a expressão incompleta "Tropa da", surgiu como primeira sugestão "Tropa do Flávio", mesmo sem correspondência literal com a sequência pesquisada.
Esse exemplo específico ainda precisa ser reproduzido de forma controlada pelo portal. Entretanto, o registro independente feito pelo Congresso em Foco demonstra que associações entre canais de candidaturas adversárias efetivamente apareceram no sistema de pesquisa do WhatsApp.
A pergunta que surge é objetiva: quais critérios levam a plataforma a recomendar determinado canal político antes de outros com maior correspondência textual à busca realizada?
Popularidade não é sinônimo de neutralidade
Os sistemas de recomendação geralmente utilizam diferentes informações para selecionar e organizar resultados.
Entre elas podem estar o histórico de interações, a popularidade das contas, a atividade recente e a semelhança entre o conteúdo procurado e o conteúdo recomendado.
Uma pesquisa que apresenta determinado canal em primeiro lugar não comprova, isoladamente, manipulação intencional.
Entretanto, a repetição sistemática desse resultado entre diferentes usuários, sobretudo quando buscas equivalentes produzem respostas assimétricas, pode revelar um problema de classificação que merece explicação.
Existe também um fenômeno conhecido como retroalimentação algorítmica.
Quando uma publicação recebe maior exposição, pode conquistar novos seguidores, curtidas e compartilhamentos. Esses resultados passam a produzir novos sinais de popularidade, potencialmente utilizados para ampliar ainda mais sua circulação.
O mesmo mecanismo pode atuar sobre canais políticos.
Quanto maior a exposição inicial, maior poderá ser a oportunidade de conquistar uma audiência adicional.
Por isso, especialistas em sistemas digitais defendem que a avaliação da neutralidade das plataformas não deve considerar apenas a existência de bloqueios explícitos.
É necessário examinar também os mecanismos de recomendação, descoberta de contas e distribuição de visibilidade.
Meta AI cria material eleitoral para Flávio e recusa pedidos para Lula
Outro episódio trouxe elementos verificáveis à controvérsia.
Nesta quarta-feira, reportagens da Folha de S.Paulo, do UOL e do Metrópoles registraram resultados diferentes na inteligência artificial da Meta integrada ao WhatsApp.
As equipes fizeram solicitações semelhantes para produzir peças eleitorais dos dois candidatos.
Quando os comandos continham referências a Lula e ao número 13, a ferramenta recusou a criação das imagens.
Já pedidos equivalentes envolvendo Flávio Bolsonaro e o número 22 foram atendidos em diferentes testes.
Em uma das verificações, a inteligência artificial chegou a produzir peças com referências explícitas à candidatura de Flávio.
Questionada sobre o tratamento desigual, a ferramenta atribuiu o comportamento a filtros automáticos de segurança, que poderiam bloquear determinados nomes e permitir outros de maneira inconsistente.
É importante observar que explicações fornecidas pelo próprio chatbot não constituem uma auditoria independente de seus mecanismos internos.
O fato efetivamente documentado foi a diferença nas respostas.
A Meta afirmou que havia proibido temporariamente a recomendação de candidatos e a geração de imagens eleitorais para cumprir a regulamentação brasileira.
A companhia informou também ter adotado providências adicionais para bloquear solicitações formuladas apenas com o primeiro nome dos candidatos e seus números eleitorais.
Mesmo depois dessa manifestação, novos testes realizados pela Folha identificaram a criação de imagens associadas a Flávio e a continuidade de restrições envolvendo Lula.
Já o Olhar Digital relatou que, em uma verificação posterior, a ferramenta passou a bloquear também o pedido relacionado ao candidato do PL.
As diferenças entre essas verificações sugerem que o comportamento pode variar conforme o momento, o comando e outros fatores técnicos.
Elas demonstram inconsistência observável, mas ainda não permitem determinar a causa ou afirmar que a empresa tenha programado deliberadamente uma preferência eleitoral.
Campanha de Lula aciona o TSE
A controvérsia chegou formalmente ao Tribunal Superior Eleitoral.
No dia 10 de outubro, a campanha de Lula denunciou supostas restrições na distribuição de publicações, problemas em contas de anúncios e dificuldades no impulsionamento de conteúdos.
O ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Meta apresentasse esclarecimentos técnicos e preservasse registros relacionados à moderação e à distribuição das publicações questionadas.
A decisão reconheceu a importância de obter informações que não estão disponíveis publicamente, como os registros internos dos sistemas de recomendação.
Em resposta apresentada ao tribunal, a Meta negou qualquer atuação destinada a favorecer ou prejudicar candidatos.
A empresa informou que uma falha global, registrada em 7 de outubro, entre 15h50 e 20h49, afetou os sistemas de contagem de visualizações de Reels em mais de cem países.
Segundo a companhia, o problema poderia provocar a exibição de números zerados ou temporariamente paralisados, mas não teria alterado a distribuição real das publicações.
A empresa acrescentou que o desempenho da conta oficial de Lula naquele dia ficou acima de sua média recente.
Nesta quarta-feira, a campanha petista apresentou uma nova petição, utilizando também os testes de inteligência artificial como fundamento para questionar a atuação da Meta.
A coligação solicita providências para interromper eventuais restrições indevidas, verificar perfis inautênticos e enfrentar o que considera tratamento desigual.
O ponto central da disputa é que uma falha na contagem de visualizações não equivale necessariamente à redução da entrega real de conteúdos.
Para distinguir as duas situações, é preciso acessar dados internos, incluindo impressões, alcance efetivo, recomendações, registros de moderação e histórico de alterações dos sistemas.
Até o momento, as informações públicas não permitem comprovar uma manipulação deliberada e generalizada da distribuição eleitoral em favor de um candidato.
Rede de 255 perfis alcançou 58 milhões de visualizações
Além dos questionamentos sobre o funcionamento das plataformas, outra investigação identificou estratégias organizadas de amplificação de conteúdo político.
Reportagem do Aos Fatos, publicada em 23 de setembro, apresentou dados de um levantamento do Instituto Democracia em Xeque sobre uma rede de 255 perfis no Instagram vinculados à circulação de conteúdos alinhados ao bolsonarismo.
Entre 15 de agosto e 15 de setembro, as contas publicaram ou participaram como coautoras de 1.204 publicações.
O conjunto acumulou aproximadamente 58 milhões de visualizações e cinco milhões de curtidas e comentários no período analisado.
Quase metade das publicações utilizou o recurso de colaboração entre contas, permitindo que o mesmo conteúdo fosse apresentado simultaneamente a diferentes audiências.
Essas publicações colaborativas concentraram 63% do engajamento identificado.
A estrutura analisada envolvia conteúdos produzidos com inteligência artificial, ataques a instituições e promoção de figuras políticas associadas ao campo bolsonarista.
Os números demonstram a dimensão alcançada pela rede investigada, mas precisam ser interpretados corretamente.
As 58 milhões de visualizações não correspondem necessariamente a 58 milhões de pessoas diferentes. Também não representam, por si só, prova de que a Meta tenha favorecido intencionalmente os conteúdos.
O levantamento documenta uma estratégia de produção e amplificação em rede, que pode aproveitar os mecanismos de circulação disponíveis na plataforma.





