Não foi apenas uma eleição. Foi uma demonstração de força das redes
Os números de 2026 colocaram diante da política brasileira algo difícil de ignorar.
Nikolas Ferreira ultrapassou 3,1 milhões de votos para deputado federal em Minas Gerais. Lucas Pavanato passou dos 3 milhões em São Paulo. A Folha identificou influenciadores de direita alcançando votações recordes para deputado em nove estados.
O PL terminou a eleição com 121 deputados federais, enquanto a federação formada por PT, PCdoB e PV elegeu 88.
Seria simplista atribuir esses resultados exclusivamente às redes sociais. Partido, recursos, conjuntura política, território, identificação ideológica e estrutura eleitoral continuam importantes.
Mas existe uma transformação impossível de ignorar:
a audiência digital tornou-se capital político.
E talvez exista algo ainda mais importante do que possuir milhões de seguidores:
fazer milhões de seguidores diferentes receberem versões da mesma mensagem.
Um assunto. Dezenas de vozes.
Observe o funcionamento de uma narrativa política bem-sucedida nas redes.
Surge um acontecimento.
Uma liderança publica um vídeo.
Outro político aborda o mesmo episódio sob outro ângulo.
Um influenciador transforma a declaração em corte.
Outro produz um meme.
Um terceiro reage ao adversário.
Páginas reproduzem.
Seguidores compartilham.
O conteúdo chega aos grupos de WhatsApp.
Não são necessariamente publicações iguais.
Mas todas reforçam uma mesma interpretação do acontecimento.
É aí que aparece uma das grandes diferenças entre simplesmente produzir conteúdo e construir narrativa.
Narrativa não significa que todos repitam exatamente a mesma frase.
Significa que diferentes personagens contam capítulos da mesma história.
Não é preciso existir uma “central de comando”
Aqui é necessária uma distinção fundamental.
Não há evidência para afirmar genericamente que exista alguém distribuindo diariamente ordens sobre o que toda a direita brasileira deve publicar.
Redes políticas podem convergir por diversos mecanismos: coordenação partidária, grupos de comunicação, observação mútua entre influenciadores, incentivos algorítmicos, identificação ideológica e, principalmente, percepção rápida daquilo que está mobilizando sua audiência.
Quando determinado assunto começa a funcionar, outros atores percebem.
E entram na conversa.
O resultado pode parecer uma gigantesca campanha coordenada mesmo quando parte da propagação é espontânea.
Mas pesquisas mostram que essa convergência efetivamente aparece nas redes.
Um caso ajuda a entender
Quando Elon Musk entrou em confronto público com Alexandre de Moraes em 2024, pesquisadores da FGV analisaram X, Facebook, WhatsApp e Telegram.
No X, grupos de direita concentraram 63,5% das interações analisadas, contra 18,3% da esquerda.
A FGV identificou uma articulação robusta envolvendo políticos, influenciadores e veículos hiperpartidários, com diferentes atores reforçando argumentos relacionados principalmente a censura, liberdade de expressão e atuação do Judiciário.
Independentemente de concordar ou discordar dessa interpretação política, comunicacionalmente o mecanismo interessa:
muitos emissores, uma narrativa reconhecível.
E a esquerda?
Aqui aparece o outro lado da questão.
A esquerda brasileira possui grandes comunicadores digitais, movimentos sociais organizados e perfis capazes de produzir enorme repercussão.
O problema não é necessariamente falta de conteúdo.
Em determinadas discussões, acontece justamente o contrário.
Pesquisa da FGV sobre os ataques a escolas mostrou que parlamentares da esquerda produziram maior volume de publicações, mas parlamentares da direita obtiveram mais interações.
Isso revela uma distinção importante:
publicar mais não significa necessariamente comunicar melhor ou dominar uma narrativa.
Parte do campo progressista também carrega uma característica histórica: sua diversidade de movimentos e agendas.
Direitos trabalhistas.
Meio ambiente.
Movimento negro.
Feminismo.
Direitos LGBTQIA+.
Educação.
Saúde.
Economia.
Direitos humanos.
Políticas sociais.
São pautas substantivas e não há problema intrínseco em haver pluralidade.
A dificuldade aparece quando ocorre uma grande disputa pela atenção pública.
Enquanto dez lideranças podem estar discutindo dez temas relevantes, dez adversários podem estar falando, cada um à sua maneira, sobre o mesmo acontecimento.
10 contra 10 — mas não é a mesma disputa
Imagine duas redes políticas hipotéticas.
Na primeira:
10 influenciadores → 10 assuntos diferentes.
Na segunda:
10 influenciadores → 1 assunto → 10 abordagens diferentes.
Ambos produziram dez conteúdos.
Mas somente um grupo criou a sensação de que:
“todo mundo está falando disso”.
Essa sensação é extremamente poderosa nas redes sociais.
Porque o usuário encontra o assunto no Reels.
Depois nos Stories.
Depois outro influenciador comenta.
Depois recebe no WhatsApp.
Depois aparece um meme.
Depois alguém responde.
A mensagem deixa de parecer uma publicação isolada.
Transforma-se em ambiente.
O algoritmo entra nessa história
As plataformas não precisam escolher uma ideologia para que isso aconteça.
Elas privilegiam conteúdos capazes de produzir reação: compartilhamento, comentário, retenção, resposta, repetição e circulação.
Quando diversos perfis falam simultaneamente sobre determinado assunto e suas comunidades interagem entre si, eles podem alimentar o interesse pelo tema.
Um levantamento da Zeeng divulgado em julho de 2026 ajuda a dimensionar essa assimetria.
Foram analisadas 546 mil publicações de 3.100 políticos brasileiros entre janeiro e junho.
Entre os 100 políticos classificados como mais influentes no Instagram, 76% eram identificados como de direita ou centro-direita. O PL sozinho respondia por 40% do ranking.
Eduardo Prange, fundador da empresa, apontou justamente a capacidade desses perfis de compartilhar pautas, dialogar com comunidades semelhantes e amplificar uns aos outros.
Mas existe uma descoberta ainda mais interessante
A engrenagem não pertence ideologicamente à direita.
Ela pode ser utilizada por qualquer campo político.
Um episódio recente mostrou exatamente isso.
Em monitoramento de 469 perfis ligados ao universo evangélico, pesquisadores observaram uma situação incomum na disputa envolvendo Nossa Senhora Aparecida: segundo a análise da socióloga Andréa Laís, naquele episódio setores da direita passaram à defensiva diante de uma narrativa impulsionada pelo campo progressista. A controvérsia, porém, também envolveu uma alegação falsa sobre um projeto de lei, o que mostra o risco de a velocidade narrativa atropelar a verificação factual.
Ou seja:
quando a esquerda consegue concentrar atenção em uma narrativa comum, a dinâmica também pode se inverter.
Isso reforça a hipótese de que estamos diante menos de uma vantagem ideológica inevitável e mais de uma diferença de organização comunicacional.
A eleição de 2026 talvez tenha encerrado uma era
Durante décadas, uma carreira política seguia aproximadamente este caminho:
partido → base eleitoral → mandato → exposição pública.
As redes introduziram outra possibilidade:
audiência → comunidade → influência → candidatura → mandato.
O político pode nascer influenciador antes de possuir estrutura eleitoral tradicional.
Nikolas Ferreira talvez seja hoje o exemplo mais evidente desse fenômeno.
Em julho, levantamento da Zeeng já o apontava como o político brasileiro de maior influência média no Instagram, com aproximadamente 1,47 milhão de interações por publicação no período analisado.
Três meses depois, recebeu mais de 3,1 milhões de votos.
Correlação não prova que seguidores se converteram diretamente em votos.
Mas ignorar a relação entre audiência, construção de comunidade e poder político tornou-se igualmente impossível.
A verdadeira disputa pode ter mudado de lugar
Durante muito tempo, partidos disputaram principalmente tempo de televisão, alianças, palanques e inserções publicitárias.
Tudo isso continua existindo.
Mas há agora outra batalha acontecendo diariamente no celular de milhões de brasileiros:
quem decide sobre o que o país estará falando amanhã?
Talvez essa seja uma das principais lições políticas de 2026.
A vantagem não pertence necessariamente a quem possui mais perfis.
Nem a quem publica mais.
Nem sequer a quem possui individualmente mais seguidores.
Pertence, em determinados momentos, a quem consegue transformar centenas de vozes em uma história que o público reconhece.
A direita brasileira demonstrou enorme capacidade de fazer isso nos últimos anos.
A esquerda possui grandes audiências, comunicadores e capacidade de mobilização, mas frequentemente aparece distribuída entre diferentes agendas.
E a eleição deixou uma pergunta que provavelmente acompanhará a política brasileira nos próximos anos:
num país em que qualquer celular pode se transformar em um canal de comunicação de massa, vence a batalha das redes quem fala mais — ou quem consegue fazer mais gente falar sobre a mesma coisa?
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