A América Latina vive uma de suas mais inquietantes encruzilhadas políticas. Depois de um período marcado pela ascensão de governos progressistas, o continente assiste ao fortalecimento de forças conservadoras, algumas delas identificadas com a extrema direita, que prometem restaurar a ordem, combater a criminalidade e recuperar a economia por meio de reformas profundas, redução do Estado e alinhamento mais estreito com os Estados Unidos.
Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Peru estão entre os países que experimentaram mudanças políticas recentes em direção à direita, embora suas realidades nacionais sejam diferentes. O Paraguai, por sua vez, já possui uma longa tradição de governos conservadores. Não se trata, portanto, de uma onda uniforme, mas de um movimento regional que revela o desgaste de antigas forças políticas e a capacidade da direita de transformar o descontentamento popular em capital eleitoral.
O fenômeno merece atenção. Mas há outro acontecimento que impede qualquer conclusão precipitada sobre a vitória definitiva do conservadorismo: a juventude está nas ruas.
Em diferentes países, jovens protestam contra a corrupção, a precarização do trabalho, a insegurança, a desigualdade, o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos. Em muitos casos, também denunciam a violência policial, o autoritarismo e a tentativa de silenciar vozes divergentes. No Peru, por exemplo, mobilizações identificadas com a chamada Geração Z levaram às ruas jovens insatisfeitos com a corrupção e a crise de representação política.
A pergunta que se impõe é simples: se a direita avança nas urnas, por que tantos jovens se recusam a aceitar passivamente os caminhos escolhidos por seus governos?

A promessa de mudança e o preço da desilusão

Uma das explicações para o avanço da direita latino-americana está no desencanto com a política tradicional. Governos progressistas que não conseguiram responder às expectativas populares, crises econômicas, denúncias de corrupção e problemas persistentes na segurança pública abriram espaço para discursos que prometem soluções rápidas e rupturas radicais.
A direita soube explorar esse cenário. Com uma comunicação direta, presença intensa nas redes sociais e uma retórica que divide a sociedade entre os que defendem a ordem e os que supostamente a ameaçam, seus representantes conquistaram parcelas expressivas do eleitorado, inclusive entre os jovens.
Entretanto, conquistar votos não significa resolver os problemas que deram origem à insatisfação.
A experiência latino-americana demonstra que promessas eleitorais precisam ser confrontadas com resultados concretos. A austeridade fiscal pode produzir consequências sociais profundas quando reduz a proteção dos mais vulneráveis. A flexibilização de direitos pode ampliar a insegurança de trabalhadores. E o discurso da segurança pública pode servir de justificativa para abusos quando o combate ao crime deixa de respeitar as garantias fundamentais.
A questão central não é saber se um governo se apresenta como de direita ou de esquerda. É verificar a quem suas políticas beneficiam, quem paga por elas e se a população conquista melhores condições de vida.
A análise regional publicada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 2026 chama a atenção para o desgaste da confiança nas instituições, a desigualdade, a desinformação e a dificuldade de as democracias transformarem eleições em melhorias efetivas para a população. A democracia não se sustenta apenas nas urnas: precisa produzir direitos, oportunidades e dignidade.

A juventude não aceita ser espectadora

É nesse contexto que a presença dos jovens nas ruas ganha significado especial.
Uma geração que cresceu conectada ao mundo, que acompanha acontecimentos em tempo real e que tem acesso a informações de diferentes origens não está necessariamente disposta a aceitar as respostas oferecidas pelas estruturas tradicionais de poder. Ela convive com o paradoxo de possuir mais ferramentas de comunicação do que qualquer geração anterior e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades para conseguir emprego digno, moradia acessível e perspectivas concretas de futuro.
Para muitos desses jovens, o diploma já não representa a garantia de ascensão social. O trabalho pode não assegurar independência financeira. E a promessa de que o esforço individual será suficiente para vencer na vida perde credibilidade quando as oportunidades são distribuídas de maneira profundamente desigual.
A rua torna-se, então, um espaço de expressão política.
É importante não idealizar essa juventude. Os jovens não pensam todos da mesma maneira, não defendem necessariamente projetos progressistas e também podem aderir a discursos conservadores ou autoritários. A própria direita tem conquistado seguidores entre as novas gerações.
Mas existe uma diferença fundamental entre a disputa eleitoral e a mobilização social: quando milhares de jovens ocupam as ruas para cobrar explicações, denunciar abusos e exigir mudanças, demonstram que a sociedade não se resume à escolha de representantes a cada quatro ou cinco anos.
A cidadania não termina no dia da eleição. Começa ali uma nova etapa de fiscalização, cobrança e participação.

O perigo de confundir ordem com silêncio

Uma das características preocupantes do avanço de correntes autoritárias é a tentativa de apresentar a contestação como ameaça à sociedade. Manifestações são tratadas como perturbação da ordem; jornalistas críticos são acusados de inimigos; adversários políticos são transformados em traidores.
Essa lógica precisa ser combatida com firmeza democrática.
Nenhum governo, seja de direita ou de esquerda, possui autorização para se colocar acima da Constituição. O direito de protestar pacificamente, a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o respeito às minorias não são concessões de governantes. São pilares de qualquer democracia que mereça esse nome.
Isso não significa que toda manifestação esteja certa em suas reivindicações ou que qualquer ato praticado em nome de uma causa seja legítimo. A violência deve ser rejeitada, e os direitos de quem protesta precisam coexistir com os direitos da população. Mas a crítica política não pode ser confundida com crime, e a repressão não pode substituir o diálogo.
A juventude que vai às ruas exerce uma função democrática essencial quando transforma indignação em participação cívica, reivindicação em debate público e protesto em pressão legítima por mudanças.

A América Latina e os interesses de Washington

O avanço da direita no continente também precisa ser compreendido no cenário internacional.
Os Estados Unidos continuam considerando a América Latina uma região estratégica por suas riquezas naturais, seu potencial energético, sua produção de alimentos, seus recursos minerais e sua posição geopolítica. A disputa internacional por mercados, matérias-primas e influência política torna as escolhas dos países latino-americanos particularmente importantes.
Governos alinhados a Washington podem ampliar a cooperação econômica, militar e diplomática com os norte-americanos. Essa aproximação, por si só, não significa submissão. O problema começa quando a parceria internacional deixa de atender aos interesses nacionais e passa a condicionar as decisões soberanas do país.
A história latino-americana oferece exemplos suficientes dos custos da dependência política e econômica. Por isso, defender a soberania não significa rejeitar relações com os Estados Unidos, mas exigir que elas sejam estabelecidas em condições de respeito mútuo.
O Brasil tem peso especial nesse debate. Por seu território, sua população, sua economia e sua capacidade diplomática, o país pode desempenhar um papel independente na construção de uma América Latina mais integrada ou optar por um alinhamento que reduza sua margem de decisão.
A possibilidade de uma mudança de governo no Brasil recoloca essa discussão no centro do debate público. O que está em jogo não é apenas a preferência por um candidato, mas o projeto de país que os brasileiros desejam construir, a relação com seus vizinhos e o espaço que pretendem ocupar em um mundo marcado por disputas entre grandes potências.

Brasil: a democracia não pode depender apenas das urnas

O Brasil conhece os riscos de transformar adversários em inimigos e de desacreditar as instituições quando seus resultados contrariam determinados interesses. A experiência do governo Jair Bolsonaro demonstrou como a retórica antidemocrática pode tensionar as relações entre os Poderes, atacar a imprensa e colocar em dúvida a legitimidade das regras do jogo político.
A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva interrompeu aquele ciclo de governo. Mas a vitória eleitoral não eliminou as forças sociais, econômicas e políticas que sustentaram o bolsonarismo. Elas permanecem presentes e disputam corações e mentes, especialmente em um ambiente de polarização e desinformação.
Diante de uma nova disputa presidencial, seria um erro imaginar que a democracia está assegurada apenas porque existem eleições. Ela depende também da disposição de candidatos e partidos para respeitar os resultados, da autonomia das instituições, da liberdade de imprensa e da capacidade da sociedade de reagir a qualquer tentativa de ruptura democrática.
Nesse cenário, a juventude brasileira tem uma responsabilidade histórica, mas não exclusiva. Defender a democracia não pode ser uma tarefa delegada apenas aos jovens, assim como a preservação das conquistas sociais não pode depender exclusivamente da atuação de um partido.
É necessário construir pontes entre gerações, movimentos sociais, trabalhadores, estudantes, organizações populares e todos aqueles que, independentemente de suas preferências eleitorais, compreendem que não existe liberdade verdadeira sem direitos e que não existe democracia sólida quando parte da população é tratada como descartável.

O futuro não está escrito

A história ensina que movimentos de rua não garantem, por si sós, transformações duradouras. A indignação pode perder força, as manifestações podem se fragmentar e grupos políticos tradicionais podem tentar se apropriar das reivindicações populares sem alterar as estruturas que provocaram a revolta.
Por isso, a resistência precisa ir além das grandes concentrações. Deve alcançar escolas, universidades, locais de trabalho, associações comunitárias, sindicatos, redes sociais e espaços de decisão política. Precisa converter protestos em organização, consciência crítica e propostas concretas.
A juventude também precisa compreender que a democracia não se resume à oposição a determinado governante. É preciso apresentar alternativas para os problemas reais da população: emprego, educação, saúde, moradia, segurança, combate à corrupção, proteção ambiental e redução das desigualdades.
Não basta denunciar o que está errado. É preciso demonstrar que outro caminho é possível.
A América Latina não está condenada a oscilar eternamente entre governos que prometem salvação e administrações que deixam frustrações. A superação desse ciclo exige instituições confiáveis, políticas públicas consistentes e participação popular permanente.
Quando os jovens saem às ruas, levando cartazes, palavras de ordem e a disposição de contestar o poder, mostram que o futuro ainda está em disputa. Nem sempre suas reivindicações serão atendidas. Nem sempre suas manifestações produzirão resultados imediatos. Mas sua presença impede que a política seja tratada como propriedade exclusiva de governantes, partidos e grupos econômicos.
A mensagem que emerge dessas mobilizações é clara: nenhuma vitória eleitoral concede aos vencedores o direito de ignorar a sociedade.

A extrema direita pode conquistar governos. A direita pode vencer eleições. Mas nenhuma força política conquista definitivamente o futuro de uma nação enquanto houver cidadãos dispostos a defender seus direitos e a exigir que o poder preste contas.

É por isso que a resistência da juventude merece ser observada não como uma ameaça à democracia, mas como um dos sinais de que ela continua viva.
E o Brasil, diante de suas escolhas, precisa compreender que a democracia não se defende sozinha. Ela depende de instituições fortes, de uma imprensa livre, de cidadãos conscientes e de uma juventude que não aceite trocar seus direitos por promessas de ordem nem sua liberdade por soluções autoritárias.

Os fatos são sagrados, as opiniões são livres. E o futuro da América Latina deve pertencer aos seus povos, não àqueles que pretendem decidir por eles.

Hoje Bahia - Jornalismo comprometido com a democracia, a soberania nacional e os interesses do povo brasileiro.