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INVESTIGAÇÃO

Além da amizade: conta bancária, jatinho e mensagens no Confide levantam questões sobre relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz

E-mails obtidos pela Polícia Federal apontam vínculo bancário com empresa do advogado; cruzamento de documentos do Santander, registros do Senado e reportagens anteriores revela uma relação que ultrapassa encontros ocasionais, mas cuja dimensão financeira ainda precisa ser esclarecida

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 15 de outubro de 2026 às 00:36 • Salvador - BA
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Montagem ilustrativa reúne Flávio Bolsonaro, o advogado Willer Tomaz, um avião executivo e referências ao Santander e ao aplicativo Confide. Registros bancários e documentos analisados pela Polícia Federal levantam questionamentos sobre a natureza da relação entre os dois, que negam a existência de vínculos financeiros.
Montagem ilustrativa reúne Flávio Bolsonaro, o advogado Willer Tomaz, um avião executivo e referências ao Santander e ao aplicativo Confide. Registros bancários e documentos analisados pela Polícia Federal levantam questionamentos sobre a natureza da relação entre os dois, que negam a existência de vínculos financeiros.

A relação entre o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz ganhou novos contornos após a divulgação de documentos obtidos pela Polícia Federal que associam o nome do parlamentar a uma conta bancária vinculada à Alcazar Holdings, empresa administrada pelo advogado e sediada em Portugal.

As informações, divulgadas inicialmente pelo UOL e posteriormente aprofundadas pelo jornal O Globo, indicam que Flávio figurava como usuário master em registros bancários relacionados à empresa. Em maio de 2025, uma funcionária de Tomaz solicitou ao Santander a retirada de uma conta identificada com o nome do senador de um cadastro compartilhado.

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam que tenham mantido conta conjunta, sociedade ou qualquer relação financeira. Ambos afirmam que o vínculo se limita à amizade.

O caso, entretanto, apresenta elementos que justificam uma apuração mais aprofundada: a associação bancária, a participação empresarial em uma aeronave utilizada pelo senador, viagens internacionais, contatos profissionais antigos e comunicações por um aplicativo de mensagens privadas chamado Confide.

O Hoje Bahia cruzou informações publicadas sobre a investigação policial com documentos oficiais do Senado, normas bancárias do Santander e registros jornalísticos anteriores para identificar o que já está documentado e quais perguntas permanecem sem resposta.

O e-mail de 22 de maio de 2025 e a conta no Santander

O ponto de partida é uma correspondência eletrônica localizada pela Polícia Federal nos arquivos da conta iCloud de Willer Tomaz.

Em 22 de maio de 2025, uma funcionária do advogado, identificada como Fayla Zulmira Menezes, solicitou ao Santander que uma conta associada ao nome de Flávio Bolsonaro fosse desvinculada de um perfil bancário relacionado ao advogado. A instituição confirmou a exclusão naquela mesma data, segundo as informações divulgadas pela imprensa.

O episódio ocorreu cerca de um mês após a deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto, investigação sobre descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.

A proximidade das datas desperta questionamentos, mas não comprova que a operação policial tenha motivado o pedido de desvinculação.

Posteriormente, reportagem de Malu Gaspar, Yago Godoy e Johanns Eller, em O Globo, acrescentou um elemento relevante: segundo documentos descritos pela publicação, Flávio Bolsonaro figurava como usuário master de uma conta vinculada à Alcazar Holdings.

A Polícia Federal considerou essa condição um possível indício de participação econômica ou societária de fato na empresa, hipótese que ainda depende de comprovação.

A questão central é saber como o nome do senador foi incluído no cadastro, quem autorizou o procedimento e se ele chegou a utilizar o acesso.

Os documentos descritos publicamente não demonstram, por si só, que Flávio tenha movimentado valores, recebido recursos da empresa ou sido titular conjunto da conta.

O que significa ser usuário master? O regulamento do Santander ajuda a entender

A expressão usuário master tem um significado específico no sistema de Internet Banking Empresarial do Santander.

Conforme regulamento publicado pelo próprio banco, esse perfil corresponde a uma pessoa física indicada pelo cliente empresarial para acessar contas, realizar consultas e utilizar os serviços contratados, observadas as permissões e regras de autorização.

A instituição estabelece que a responsabilidade pelas autorizações e revogações de acesso cabe ao cliente.

O sistema permite a existência de múltiplos usuários, inclusive com diferentes níveis de autonomia, e pode envolver consulta a saldos, transferências, pagamentos e gerenciamento de outras credenciais.

Portanto, ser usuário master não é necessariamente o mesmo que ser proprietário dos recursos depositados.

Por outro lado, trata-se de uma condição administrativa que pode oferecer poderes relevantes sobre a operação bancária de uma empresa.

A documentação geral do Santander indica que o cadastramento de usuários segue procedimentos de autorização e controle. Isso torna especialmente importante esclarecer se a inclusão atribuída a Flávio foi formalmente solicitada e aprovada ou se decorreu de um erro cadastral, como sustentam os envolvidos.

Há perguntas objetivas que permanecem abertas:

  • Quem solicitou a inclusão do nome de Flávio Bolsonaro?
  • Em que data o cadastro foi realizado?
  • Quais contas e operações estavam disponíveis ao perfil?
  • Houve alguma movimentação efetiva por meio desse acesso?
  • Qual foi a justificativa formal apresentada para a exclusão em maio de 2025?

Sem o histórico bancário e os registros de autorização, nenhuma dessas respostas pode ser afirmada como fato.

Alcazar Holdings: a empresa que liga a conta ao jatinho

A conta bancária mencionada nas reportagens está relacionada à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, associada a Willer Tomaz.

A companhia detinha participação de aproximadamente 33,33% na Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa vinculada à propriedade de um avião executivo Embraer Legacy 650, de prefixo PP-NLR.

A estrutura empresarial ganhou notoriedade porque o avião foi utilizado por Flávio Bolsonaro em janeiro de 2025, durante uma viagem de retorno dos Estados Unidos ao Brasil, acompanhado de familiares e de Willer Tomaz.

Outra participação na estrutura da aeronave estava relacionada à Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi sócio até setembro de 2025.

É importante estabelecer uma distinção: a participação de empresas em uma mesma estrutura de propriedade aeronáutica não significa, necessariamente, que seus respectivos sócios tenham negócios diretos entre si.

Também não comprova que Flávio Bolsonaro fosse proprietário de qualquer parcela do avião.

O que existe, documentalmente descrito, é uma relação entre a holding de Willer, a administração bancária sob questionamento e a estrutura empresarial de uma aeronave utilizada pelo senador.

Se a vinculação bancária era apenas um erro, por que ela ocorreu justamente no ambiente empresarial de alguém com quem o parlamentar mantinha uma relação tão próxima?

A pergunta é legítima, mas sua resposta depende de documentos ainda não disponibilizados publicamente.

A investigação sobre a aeronave chegou ao Senado

O interesse sobre a estrutura empresarial do jatinho não surgiu apenas com as revelações de outubro.

Em março de 2026, a CPI do Crime Organizado do Senado analisou requerimentos envolvendo a Fraction 024, a Prime Aviation e Willer Tomaz.

Na reunião de 18 de março, foi aprovado o Requerimento nº 260/2026, apresentado pelo senador Humberto Costa (PT-PE), solicitando a transferência de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da Fraction 024, referentes ao período de fevereiro de 2023 a abril de 2024.

Na mesma sessão, também foi aprovado requerimento referente à Prime Aviation, ligada à estrutura de serviços de aviação executiva.

Já o pedido de transferência dos sigilos de Willer Tomaz, previsto no Requerimento nº 261/2026, foi retirado da pauta.

Essas decisões estão registradas no sistema de atividade legislativa do Senado Federal e confirmam que empresas relacionadas à aeronave já haviam despertado interesse de uma investigação parlamentar.

A aprovação de um requerimento de sigilo não representa comprovação de irregularidade. Significa que a comissão considerou necessária a obtenção de informações para sua investigação.

O conteúdo integral dos registros bancários eventualmente obtidos não está disponível para exame público neste levantamento.

Por isso, ainda não é possível determinar se os pagamentos relacionados ao avião envolveram apenas despesas aeronáuticas, aportes societários, reembolsos ou outras operações.

Viagens internacionais revelam proximidade entre o senador e o advogado

A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz também aparece em deslocamentos internacionais.

Em janeiro de 2025, os dois viajaram no Legacy 650, juntamente com a esposa e as filhas do senador, no retorno de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília.

Willer declarou que a utilização da aeronave ocorreu por meio de sua participação na estrutura de propriedade e que os familiares de Flávio viajaram como convidados.

Em março do mesmo ano, os dois participaram de um safári na África do Sul, em viagem que também contou com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), posteriormente citado nas investigações relacionadas ao INSS.

Há ainda registros relatados pela imprensa sobre deslocamentos europeus envolvendo o advogado, Flávio Bolsonaro e familiares.

O compartilhamento de viagens, por si só, não demonstra a existência de negócios ou irregularidades.

Entretanto, quando relacionado à participação empresarial no avião e aos registros bancários, o histórico amplia a necessidade de conhecer a natureza financeira desses deslocamentos.

Quem contratou os serviços? Quem assumiu os custos? Houve despesas registradas pelas empresas? Os passageiros receberam benefícios sem contrapartida?

A resposta exige contratos de transporte, notas fiscais, comprovantes de pagamento e informações sobre utilização das cotas da aeronave.

Confide: o aplicativo de mensagens privadas identificado na relação

Outro elemento chama a atenção na investigação: o aplicativo Confide.

Segundo informações divulgadas sobre os dados analisados pela Polícia Federal, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz utilizavam o serviço para comunicação, e o número do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado.

O Confide é um aplicativo desenvolvido para conversas privadas, com recursos de criptografia, proteção contra capturas de tela e mensagens que podem desaparecer após a leitura.

A utilização desse tipo de tecnologia não configura crime nem demonstra, isoladamente, qualquer tentativa de ocultar atividades ilícitas. Ferramentas de comunicação privada podem ter finalidades pessoais e profissionais legítimas.

O aspecto investigativo é outro: qual era a natureza das conversas mantidas entre os dois e elas tinham alguma relação com os negócios e acessos bancários agora questionados?

Até o momento, as informações públicas não permitem conhecer o conteúdo das mensagens, sua frequência ou os assuntos abordados.

Por essa razão, seria incorreto afirmar que o Confide foi utilizado para tratar de movimentações financeiras ou para esconder operações ilegais.

O aplicativo demonstra uma modalidade de comunicação reservada entre pessoas cuja relação econômica está sendo questionada, mas não esclarece o teor desse vínculo.

Uma aproximação profissional identificada desde 2022

A ligação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz antecede as viagens de 2025 e as atuais investigações.

Em junho de 2022, a Agência Pública publicou uma reportagem sobre a sociedade individual de advocacia de Flávio Bolsonaro, registrada em Brasília.

Na ocasião, Letícia Caetano dos Reis, apresentada como administradora do escritório, afirmou ter sido convidada para trabalhar na empresa por intermédio de Willer Tomaz, amigo do senador.

Ela também informou que o escritório possuía contratos de valores consideráveis, embora não tivesse acesso completo à identidade dos clientes.

Procurado na época, Willer declarou desconhecer Letícia. Flávio não respondeu às perguntas da reportagem sobre a indicação.

O episódio demonstra que o nome de Willer já aparecia em relatos sobre a organização profissional de Flávio anos antes das revelações sobre a Alcazar Holdings.

Isso amplia o histórico público da relação, embora não comprove vínculo societário, participação em honorários ou irregularidade financeira.

Para que serviria a vinculação bancária?

Essa é a pergunta mais importante da investigação e, até agora, permanece sem resposta comprovada.

A relação identificada nos registros poderia, em tese, estar vinculada à administração de interesses empresariais, consultas bancárias, despesas compartilhadas ou alguma outra finalidade financeira.

Também pode ter resultado de um cadastramento indevido, possibilidade defendida pelos envolvidos.

O cruzamento entre a Alcazar Holdings, a Fraction 024 e as viagens internacionais torna pertinente verificar se os acessos bancários tinham alguma relação com despesas de aviação ou com a estrutura de propriedade da aeronave.

Mas não existe, nas informações públicas verificadas, um contrato ou comprovante que demonstre essa conexão.

O mesmo cuidado vale para qualquer tentativa de relacionar a conta a suspeitas de lavagem de dinheiro, ao Banco Master, ao mercado de apostas ou aos recursos desviados de aposentados.

A existência de uma relação pessoal com alguém investigado não demonstra participação nos crimes atribuídos a essa pessoa.

A resposta definitiva exige identificar os titulares e beneficiários efetivos da conta, as autorizações de acesso, eventuais movimentações e a destinação dos recursos.

O que dizem Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz

A assessoria de Flávio Bolsonaro nega que o senador tenha mantido conta bancária compartilhada ou acesso autorizado a empresa de Willer Tomaz.

Segundo a defesa, a própria solicitação de desvinculação indica que a associação era indevida e precisava ser corrigida.

O parlamentar também critica a divulgação das informações durante a campanha presidencial e afirma que eventuais notícias falsas terão consequências judiciais.

Willer Tomaz igualmente nega a existência de negócios ou de uma relação financeira com Flávio Bolsonaro.

O advogado afirma que os dois mantêm apenas uma relação de amizade e que as viagens mencionadas ocorreram como deslocamentos de lazer, sem pagamentos ou contrapartidas dos convidados.

A defesa também questiona a divulgação de informações protegidas por sigilo extraídas de seus dispositivos e arquivos digitais.

As manifestações dos dois são relevantes e precisam ser consideradas juntamente com os documentos, já que as hipóteses investigativas ainda não constituem conclusões definitivas.

As perguntas que permanecem abertas

O levantamento permite identificar fatos que precisam ser esclarecidos, mas não autoriza afirmar que existia uma sociedade oculta ou que foram realizadas movimentações ilícitas.

Persistem dúvidas fundamentais sobre a origem do cadastro bancário, os poderes efetivamente atribuídos ao perfil master, a eventual utilização da conta e a relação desses registros com os negócios da Alcazar Holdings.

A documentação parlamentar também reforça a importância de esclarecer a composição financeira da Fraction 024 e os pagamentos relativos à aeronave.

No caso do Confide, o desafio é determinar se existem documentos externos capazes de revelar a natureza das comunicações relevantes, sem presumir que o uso de mensagens privadas represente comportamento criminoso.

Além da amizade, o que ainda precisa ser explicado?

A amizade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz é reconhecida por ambos e está documentada em encontros, viagens e declarações públicas.

A questão que ganhou importância com os registros bancários é se essa proximidade também possuía uma dimensão econômica, empresarial ou administrativa não esclarecida.

A investigação policial descrita pela imprensa, o regulamento bancário e os documentos parlamentares oferecem caminhos concretos para responder a essa pergunta.

Mas há uma fronteira fundamental entre a existência de indícios, a formulação de hipóteses e a comprovação de fatos.

Até o momento, não está comprovado que Flávio Bolsonaro tenha movimentado recursos da Alcazar Holdings, mantido participação societária oculta ou recebido dinheiro de atividades ilegais. Tampouco foi esclarecida a finalidade da associação bancária identificada nos e-mails.

A questão exige documentos, respostas dos envolvidos e investigação com respeito ao contraditório.

O Hoje Bahia seguirá acompanhando o caso, com atenção às informações oficiais e aos esclarecimentos que possam confirmar ou afastar as hipóteses levantadas.

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