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CUSTO DE VIDA

Alimentos e salário mínimo: o que mudou no poder de compra dos brasileiros desde 2019

Levantamento do Hoje Bahia compara a inflação dos alimentos, os reajustes do mínimo e a cesta básica de Salvador. Dados mostram recuperação da capacidade de compra desde 2022, mas sem retorno ao patamar de dezembro de 2019 na capital baiana.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 21 de outubro de 2026 às 10:26 • Salvador - BA
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A evolução dos preços dos alimentos e os reajustes do salário mínimo ajudam a explicar as mudanças no poder de compra desde 2019. Em Salvador, houve recuperação em relação a 2022, mas a cesta básica continua comprometendo uma parcela expressiva da renda.
A evolução dos preços dos alimentos e os reajustes do salário mínimo ajudam a explicar as mudanças no poder de compra desde 2019. Em Salvador, houve recuperação em relação a 2022, mas a cesta básica continua comprometendo uma parcela expressiva da renda. — Ilustração gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

A comida ficou mais cara ou mais barata? O salário mínimo está comprando mais ou menos? Em meio à disputa de narrativas sobre o custo de vida, essas perguntas frequentemente aparecem misturadas. Os dados mostram, porém, que é possível os alimentos encarecerem e, ao mesmo tempo, o trabalhador conseguir comprar uma quantidade maior deles — desde que sua renda aumente mais do que os preços.

Uma apuração do Hoje Bahia, com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), identificou dois movimentos: forte perda da capacidade de compra de alimentos entre 2019 e 2022 e recuperação a partir de 2023.

Essa recuperação tem limites. Em Salvador, o salário mínimo bruto comprava aproximadamente 2,77 cestas básicas em dezembro de 2019. A relação caiu para 2,12 em dezembro de 2022 e chegou a 2,55 em setembro de 2026. Portanto, houve melhora em relação ao encerramento de 2022, mas a capacidade de compra ainda estava abaixo daquela registrada no fim de 2019.

A análise utiliza setembro como referência mais recente. Os números de 2026 são parciais e não representam o resultado do ano inteiro.

Inflação menor não significa retorno aos preços antigos

O primeiro cuidado é distinguir a velocidade dos aumentos do nível dos preços.

Quando a inflação dos alimentos diminui, isso pode significar apenas que a comida está encarecendo mais devagar. Para haver redução média dos preços em determinado período, o indicador precisa registrar uma variação negativa.

Um exemplo ajuda a entender: se uma compra passa de R$ 100 para R$ 120 e, depois, aumenta mais 5%, chega a R$ 126. A inflação desacelerou, mas o consumidor continua pagando mais.

No Brasil, a alimentação no domicílio — indicador do IPCA que acompanha os alimentos e bebidas adquiridos para consumo em casa — apresentou o seguinte comportamento:

Ano Variação dos preços
2019 +7,84%
2020 +18,15%
2021 +8,24%
2022 +13,23%
2023 −0,52%
2024 +8,23%
2025 +1,43%
2026, até setembro +4,44%

Fonte: IBGE/SIDRA. De 2019 a 2025, os resultados correspondem a janeiro–dezembro; em 2026, a janeiro–setembro.

A série mostra queda média em 2023, seguida por novas altas. Também evidencia que a desaceleração de 2025 não representou redução generalizada dos preços: naquele ano, os alimentos para consumo em casa ficaram, em média, 1,43% mais caros.

Quanto os alimentos encareceram em cada período

Considerando todo o intervalo de janeiro de 2019 a dezembro de 2022, os alimentos consumidos em casa acumularam alta de 56,16%. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, o aumento acumulado foi de 14,06%.

Os percentuais foram calculados pelo Hoje Bahia a partir das taxas do IBGE, considerando que cada variação incide sobre o preço já alterado no período anterior. Não se trata de uma soma simples das inflações anuais.

Há uma diferença importante: o primeiro intervalo tem 48 meses e o segundo, 45 meses. Assim, os números descrevem os períodos disponíveis, mas não podem ser apresentados como resultados de dois mandatos completos.

Para comparar durações iguais, o levantamento também examinou dois intervalos de 36 meses. Entre 2019 e 2021, a alta acumulada foi de 37,91%. Entre 2023 e 2025, de 9,21%.

Os resultados indicam um ritmo de encarecimento menor no segundo recorte. Isso, entretanto, não significa que o nível de preços tenha retornado ao anterior, nem permite atribuir toda a diferença exclusivamente à atuação de um governo.

O salário mínimo também precisa entrar na conta

O preço da comida, isoladamente, não revela quanto o trabalhador consegue comprar. É necessário observar a evolução da renda.

O salário mínimo passou de R$ 998 em 2019 para R$ 1.212 em 2022. Em 2026, o piso nacional chegou a R$ 1.621.

Ano Salário mínimo vigente no fim do ano ou no mês analisado
2019 R$ 998
2020 R$ 1.045
2021 R$ 1.100
2022 R$ 1.212
2023 R$ 1.320
2024 R$ 1.412
2025 R$ 1.518
2026 R$ 1.621

Fonte: DIEESE, Nota Técnica 289.

Dois anos exigem observações: em 2020, o mínimo foi de R$ 1.039 em janeiro e passou a R$ 1.045 em fevereiro. Em 2023, começou em R$ 1.302 e foi elevado a R$ 1.320 em maio. Portanto, os valores da tabela não são médias anuais.

Ao comparar o crescimento do mínimo com a inflação nacional dos alimentos em casa, o levantamento encontrou uma perda de 18,64% na capacidade de compra entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022. De dezembro de 2022 a setembro de 2026, houve recuperação de 17,26%.

Esses percentuais medem especificamente a capacidade de adquirir alimentos segundo esse índice. Não representam o poder de compra de todas as despesas do trabalhador, nem o ganho real oficial dos reajustes salariais, cuja referência é o INPC.

Também não se pode subtrair diretamente uma porcentagem da outra: a recuperação ocorre sobre uma base que já havia diminuído.

Salvador: a cesta encareceu, mas o mínimo recuperou parte da capacidade de compra

Para observar a situação da capital baiana, o Hoje Bahia utilizou a série da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do DIEESE.

A cesta pesquisada em Salvador reúne doze produtos alimentícios, com quantidades de referência para um adulto. A comparação divide o salário mínimo bruto pelo custo da cesta em cada mês.

Referência Preço da cesta Cestas compráveis com um mínimo bruto
Dezembro de 2019 R$ 360,51 2,77
Dezembro de 2020 R$ 479,08 2,18
Dezembro de 2021 R$ 518,21 2,12
Dezembro de 2022 R$ 570,70 2,12
Dezembro de 2023 R$ 560,81 2,35
Dezembro de 2024 R$ 583,89 2,42
Dezembro de 2025 R$ 607,48 2,50
Setembro de 2026 R$ 634,67 2,55

Fontes: DIEESE e Conab. Cálculos: Hoje Bahia. Os resultados são fotografias dos meses indicados, não médias anuais.

O avanço do custo foi especialmente forte em 2020, quando a cesta de Salvador acumulou alta de 32,89%. Naquele ano, a pandemia também levou o DIEESE a adotar uma coleta especial de preços a distância.

Em 2023, a cesta recuou 1,73%, para R$ 560,81. Em 2024, voltou a subir, encerrando dezembro em R$ 583,89. No fim de 2025, chegou a R$ 607,48.

Entre dezembro de 2022 e setembro de 2026, a cesta encareceu 11,21%, enquanto o mínimo aumentou 33,75%. Como o salário avançou mais do que o custo dos alimentos pesquisados, a quantidade de cestas compráveis cresceu 20,27%.

Ainda assim, em setembro de 2026, essa capacidade permanecia 7,74% abaixo da registrada em dezembro de 2019, considerando os valores completos, antes do arredondamento.

A alimentação ainda compromete uma parcela expressiva da renda

A melhora relativa não elimina o aperto no orçamento.

Em dezembro de 2019, a cesta de Salvador consumia 36,12% do salário mínimo bruto. Em dezembro de 2022, a parcela chegou a 47,09%. Em setembro de 2026, ficou em 39,15%.

Considerando o salário líquido, após o desconto previdenciário de 7,5%, o boletim de setembro de 2026 informa comprometimento de 42,33% da renda.

Esse gasto corresponde apenas à cesta alimentar de referência para um adulto. Não inclui aluguel, energia, água, gás, transporte, higiene e outras necessidades. Também não representa todas as despesas de alimentação de uma família.

Por isso, dizer que o mínimo compra 2,55 cestas não significa afirmar que ele sustenta confortavelmente uma família.

Arroz, café e feijão contam histórias diferentes

Outro fator que alimenta a disputa de narrativas é a escolha de produtos isolados para representar toda a alimentação.

No IPCA nacional, o arroz subiu 76,01% somente em 2020, mas apresentou quedas e novas altas nos anos seguintes. Já o café acumulou aumentos expressivos mais recentemente.

Produto — IPCA nacional Alta ou queda acumulada em 2019–2022 Alta ou queda acumulada em 2023–setembro de 2026
Arroz +56,86% +3,91%
Feijão carioca +112,85% +3,04%
Carnes +72,51% +18,49%
Leite longa vida +63,53% +21,20%
Óleo de soja +140,72% −12,22%
Café moído +70,10% +44,31%
Açúcar cristal +79,85% −12,02%
Farinha de mandioca +44,04% +4,05%
Pão francês +33,82% +18,10%

Fonte: IBGE/SIDRA. Cálculos: Hoje Bahia. O primeiro período tem 48 meses; o segundo, 45. “Carnes” corresponde ao agrupamento do IBGE.

O café ilustra os limites da recuperação: entre dezembro de 2022 e setembro de 2026, sua alta nacional de 44,31% superou o crescimento de 33,75% do mínimo. Nesse caso específico, a capacidade de compra do produto caiu aproximadamente 7,32%.

Em Salvador, os movimentos também foram diferentes. Em 2025, o café em pó subiu 48,14%, enquanto o arroz caiu 24,05%. A cesta completa avançou 4,04% naquele ano.

Já entre dezembro de 2025 e setembro de 2026, o feijão carioca ficou 32,61% mais caro na capital baiana e o leite integral, 19,61%. No mesmo intervalo, o café recuou 14,40% e o arroz, 3,91%.

Assim, duas pessoas podem perceber mudanças diferentes no supermercado, dependendo dos produtos que compram, das quantidades consumidas e dos estabelecimentos frequentados.

O que influencia os preços — e qual é o papel dos governos

Os períodos analisados abrangem contextos distintos, incluindo a pandemia de Covid-19, problemas logísticos, alterações no câmbio, conflitos internacionais e eventos climáticos.

Os boletins consultados apontam fatores como oferta das safras, demanda externa, exportações, custos de produção, secas, geadas e enchentes.

Na análise de 2024, por exemplo, o DIEESE relacionou aumentos a restrições climáticas, condições de oferta e demanda e à desvalorização do real. Também destacou os efeitos das enchentes e das dificuldades de escoamento sobre o mercado de arroz.

A atuação do poder público também integra esse cenário, por meio de políticas de renda, salário mínimo, tributação, crédito, abastecimento e estoques.

Entretanto, uma comparação entre os preços registrados em dois governos não permite, sozinha, calcular quanto de cada alta ou queda foi provocado por um presidente. Os dados mostram o que aconteceu; a identificação das causas exige examinar os fatores e as medidas envolvidos.

Como a comparação foi feita

A apuração separou dois indicadores: o IPCA nacional da alimentação no domicílio, para acompanhar a inflação dos alimentos consumidos em casa, e a cesta básica do DIEESE em Salvador, para calcular sua relação com o mínimo.

Os valores da cesta da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) não foram encaixados nessa série. Trata-se de outra pesquisa, cuja composição foi ampliada em 2023.

Para incluir toda a inflação de 2019, a comparação começa em dezembro de 2018. Para avaliar o período iniciado em 2023, a base é dezembro de 2022. Os acumulados foram calculados pela composição das taxas, com arredondamento apenas na apresentação.

A comparação entre dezembro e setembro também está sujeita à sazonalidade dos alimentos. Além disso, o resultado de quem recebe exatamente um salário mínimo não pode ser automaticamente estendido a desempregados, trabalhadores informais ou pessoas com outras rendas.

O quadro encontrado é de recuperação parcial da capacidade de compra, acompanhada de diferenças importantes entre os produtos. Em Salvador, o mínimo voltou a comprar mais cesta do que no fim de 2022, mas ainda menos do que em dezembro de 2019. Para o consumidor, as duas informações importam: quanto custa a comida e quanto da sua renda é necessário para levá-la para casa.

Fontes: IBGE/SIDRA, tabelas 1419 e 7060; Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do DIEESE e da Conab; Nota Técnica 289 do DIEESE. Dados até setembro de 2026. Cálculos e organização: Hoje Bahia.

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