A comida ficou mais cara ou mais barata? O salário mínimo está comprando mais ou menos? Em meio à disputa de narrativas sobre o custo de vida, essas perguntas frequentemente aparecem misturadas. Os dados mostram, porém, que é possível os alimentos encarecerem e, ao mesmo tempo, o trabalhador conseguir comprar uma quantidade maior deles — desde que sua renda aumente mais do que os preços.
Uma apuração do Hoje Bahia, com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), identificou dois movimentos: forte perda da capacidade de compra de alimentos entre 2019 e 2022 e recuperação a partir de 2023.
Essa recuperação tem limites. Em Salvador, o salário mínimo bruto comprava aproximadamente 2,77 cestas básicas em dezembro de 2019. A relação caiu para 2,12 em dezembro de 2022 e chegou a 2,55 em setembro de 2026. Portanto, houve melhora em relação ao encerramento de 2022, mas a capacidade de compra ainda estava abaixo daquela registrada no fim de 2019.
A análise utiliza setembro como referência mais recente. Os números de 2026 são parciais e não representam o resultado do ano inteiro.
Inflação menor não significa retorno aos preços antigos
O primeiro cuidado é distinguir a velocidade dos aumentos do nível dos preços.
Quando a inflação dos alimentos diminui, isso pode significar apenas que a comida está encarecendo mais devagar. Para haver redução média dos preços em determinado período, o indicador precisa registrar uma variação negativa.
Um exemplo ajuda a entender: se uma compra passa de R$ 100 para R$ 120 e, depois, aumenta mais 5%, chega a R$ 126. A inflação desacelerou, mas o consumidor continua pagando mais.
No Brasil, a alimentação no domicílio — indicador do IPCA que acompanha os alimentos e bebidas adquiridos para consumo em casa — apresentou o seguinte comportamento:
| Ano | Variação dos preços |
|---|---|
| 2019 | +7,84% |
| 2020 | +18,15% |
| 2021 | +8,24% |
| 2022 | +13,23% |
| 2023 | −0,52% |
| 2024 | +8,23% |
| 2025 | +1,43% |
| 2026, até setembro | +4,44% |
Fonte: IBGE/SIDRA. De 2019 a 2025, os resultados correspondem a janeiro–dezembro; em 2026, a janeiro–setembro.
A série mostra queda média em 2023, seguida por novas altas. Também evidencia que a desaceleração de 2025 não representou redução generalizada dos preços: naquele ano, os alimentos para consumo em casa ficaram, em média, 1,43% mais caros.
Quanto os alimentos encareceram em cada período
Considerando todo o intervalo de janeiro de 2019 a dezembro de 2022, os alimentos consumidos em casa acumularam alta de 56,16%. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, o aumento acumulado foi de 14,06%.
Os percentuais foram calculados pelo Hoje Bahia a partir das taxas do IBGE, considerando que cada variação incide sobre o preço já alterado no período anterior. Não se trata de uma soma simples das inflações anuais.
Há uma diferença importante: o primeiro intervalo tem 48 meses e o segundo, 45 meses. Assim, os números descrevem os períodos disponíveis, mas não podem ser apresentados como resultados de dois mandatos completos.
Para comparar durações iguais, o levantamento também examinou dois intervalos de 36 meses. Entre 2019 e 2021, a alta acumulada foi de 37,91%. Entre 2023 e 2025, de 9,21%.
Os resultados indicam um ritmo de encarecimento menor no segundo recorte. Isso, entretanto, não significa que o nível de preços tenha retornado ao anterior, nem permite atribuir toda a diferença exclusivamente à atuação de um governo.
O salário mínimo também precisa entrar na conta
O preço da comida, isoladamente, não revela quanto o trabalhador consegue comprar. É necessário observar a evolução da renda.
O salário mínimo passou de R$ 998 em 2019 para R$ 1.212 em 2022. Em 2026, o piso nacional chegou a R$ 1.621.
| Ano | Salário mínimo vigente no fim do ano ou no mês analisado |
|---|---|
| 2019 | R$ 998 |
| 2020 | R$ 1.045 |
| 2021 | R$ 1.100 |
| 2022 | R$ 1.212 |
| 2023 | R$ 1.320 |
| 2024 | R$ 1.412 |
| 2025 | R$ 1.518 |
| 2026 | R$ 1.621 |
Fonte: DIEESE, Nota Técnica 289.
Dois anos exigem observações: em 2020, o mínimo foi de R$ 1.039 em janeiro e passou a R$ 1.045 em fevereiro. Em 2023, começou em R$ 1.302 e foi elevado a R$ 1.320 em maio. Portanto, os valores da tabela não são médias anuais.
Ao comparar o crescimento do mínimo com a inflação nacional dos alimentos em casa, o levantamento encontrou uma perda de 18,64% na capacidade de compra entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022. De dezembro de 2022 a setembro de 2026, houve recuperação de 17,26%.
Esses percentuais medem especificamente a capacidade de adquirir alimentos segundo esse índice. Não representam o poder de compra de todas as despesas do trabalhador, nem o ganho real oficial dos reajustes salariais, cuja referência é o INPC.
Também não se pode subtrair diretamente uma porcentagem da outra: a recuperação ocorre sobre uma base que já havia diminuído.
Salvador: a cesta encareceu, mas o mínimo recuperou parte da capacidade de compra
Para observar a situação da capital baiana, o Hoje Bahia utilizou a série da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do DIEESE.
A cesta pesquisada em Salvador reúne doze produtos alimentícios, com quantidades de referência para um adulto. A comparação divide o salário mínimo bruto pelo custo da cesta em cada mês.
| Referência | Preço da cesta | Cestas compráveis com um mínimo bruto |
|---|---|---|
| Dezembro de 2019 | R$ 360,51 | 2,77 |
| Dezembro de 2020 | R$ 479,08 | 2,18 |
| Dezembro de 2021 | R$ 518,21 | 2,12 |
| Dezembro de 2022 | R$ 570,70 | 2,12 |
| Dezembro de 2023 | R$ 560,81 | 2,35 |
| Dezembro de 2024 | R$ 583,89 | 2,42 |
| Dezembro de 2025 | R$ 607,48 | 2,50 |
| Setembro de 2026 | R$ 634,67 | 2,55 |
Fontes: DIEESE e Conab. Cálculos: Hoje Bahia. Os resultados são fotografias dos meses indicados, não médias anuais.
O avanço do custo foi especialmente forte em 2020, quando a cesta de Salvador acumulou alta de 32,89%. Naquele ano, a pandemia também levou o DIEESE a adotar uma coleta especial de preços a distância.





