Ana
Clara Gomes Machado tinha apenas cinco anos. Brincava na porta de casa, ao lado
do irmão de dois anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil e morreu, em
2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, no Rio de
Janeiro. Mais de cinco anos depois, sua família ainda espera pelo julgamento do
policial militar acusado de efetuar o disparo.
O
caso ganhou novamente repercussão nacional após o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva questionar, durante debate eleitoral na Band, em 18 de outubro, por
que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República,
participou da defesa do militar. A pergunta ficou sem resposta pública no
debate, segundo o relato que motivou a repercussão.
A
história de Ana Clara, entretanto, vai muito além do embate eleitoral. É também
um retrato doloroso das consequências da violência armada, da espera por
justiça e da necessidade de discutir a responsabilidade de quem exerce o poder
e pretende governar o país.
O disparo e a espera
por justiça
Segundo
denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), o cabo da
Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, lotado no 12º Batalhão de Polícia Militar
de Niterói, efetuou disparos em direção a uma área residencial e de lazer onde
estavam as crianças.
A
acusação sustenta que moradores alertaram os policiais, aos gritos, sobre a
presença de pessoas no local, mas os disparos continuaram. Para a promotoria, o
militar assumiu o risco de matar.
Delaroli
chegou a ser preso preventivamente após a morte da menina. Em novembro de 2021,
a prisão foi substituída por medidas cautelares. Posteriormente, a Justiça
determinou que ele fosse submetido ao Tribunal do Júri, responsável pelo
julgamento de crimes dolosos contra a vida.
Em
2024, Flávio Bolsonaro, então senador, integrou a defesa do policial e assinou
um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar
reverter a decisão que determinava o julgamento popular. O pedido foi negado.
Apesar
da manutenção da decisão judicial, o julgamento ainda não ocorreu. A família de
Ana Clara continua aguardando uma resposta definitiva da Justiça.
A dor de uma mãe e a
pergunta que permanece
A
atuação de Flávio Bolsonaro no caso voltou à discussão pública com o episódio ‘O
Julgamento que Nunca Aconteceu’, da série jornalística ‘Revelando’, que
reconstrói a morte da menina e acompanha a luta de seus familiares.
Cristiane
Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, expressou indignação diante da participação
do presidenciável na defesa do policial acusado e da tentativa de impedir que
ele fosse levado ao Tribunal do Júri.
“Ele
tentou anular o júri de um cara que impediu uma criança de 5 anos de viver”,
declarou Cristiane, em trecho divulgado pela produção.
A
dor dessa mãe não deveria ser transformada em mero instrumento de disputa
eleitoral. Mas tampouco pode ser ignorada quando se discute a trajetória
pública de um candidato à Presidência da República.
A
questão central é objetiva: por que um parlamentar decidiu atuar juridicamente
para contestar uma decisão que submetia um policial acusado de matar uma
criança ao julgamento popular?
O
direito à defesa é uma garantia fundamental e vale para todos,
independentemente da gravidade da acusação. A participação de um advogado em um
processo, por si só, não comprova cumplicidade com o crime atribuído ao
acusado. Isso, porém, não impede que os eleitores questionem escolhas
políticas, prioridades e critérios de atuação de quem pretende governar o
Brasil.
Segurança pública:
discurso ou compromisso efetivo?
Lula
voltou a abordar o caso em vídeo publicado nas redes sociais e relacionou o
episódio à tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança
Pública, apresentada pelo governo federal.
O
presidente cobrou o apoio de Flávio Bolsonaro e da bancada do PL à proposta,
questionando o compromisso do adversário com medidas destinadas a fortalecer o
combate ao crime organizado.
A
PEC busca ampliar a integração entre União, estados, Distrito Federal e municípios,
constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e fortalecer
instrumentos de coordenação e compartilhamento de informações entre as
instituições responsáveis pela segurança.
Após
a aprovação na Câmara dos Deputados, em março de 2026, a proposta teve sua
análise concluída na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 14
de outubro. A votação em plenário foi adiada em meio a divergências políticas
sobre o texto, incluindo a discussão relativa à redução da maioridade penal.
A
segurança pública é um dos maiores desafios brasileiros. Exige planejamento,
recursos, inteligência, integração entre instituições e políticas de prevenção.
Exige também que a atuação policial esteja submetida à lei, porque combater o
crime não pode significar conceder a qualquer agente do Estado o direito de
agir acima dela.
O
enfrentamento ao crime organizado não se fortalece com a impunidade, seja ela
praticada por criminosos comuns, integrantes de organizações armadas ou agentes
públicos. A credibilidade das instituições depende da capacidade de investigar,
julgar e responsabilizar quem comete crimes, respeitando o devido processo
legal.
Outros episódios
envolvendo Flávio Bolsonaro e agentes de segurança
A
atuação do senador no caso Ana Clara não é o único episódio de sua trajetória
política que voltou ao debate em razão de suas relações com integrantes das
forças de segurança do Rio de Janeiro envolvidos em investigações ou
condenações criminais.
Quando
era deputado estadual, Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete na Assembleia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) Raimunda Veras Magalhães e
Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano
da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar apontado pelo Ministério Público como
líder do grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime.
Outro
caso envolve Ronald Paulo Alves Pereira, ex-policial militar que recebeu uma
moção de louvor apresentada por Flávio em 2004, em reconhecimento aos supostos serviços
prestados ao Rio de Janeiro.
A
homenagem foi concedida poucos meses depois de Ronald passar a ser investigado
por seu possível envolvimento no caso da casa noturna Via Show, em São João de
Meriti. Em dezembro de 2003, quatro jovens foram sequestrados e executados por
policiais militares após saírem da casa de shows.
Ronald
Pereira foi condenado, em 2022, a 76 anos e oito meses de prisão pelas mortes
dos jovens. Em fevereiro de 2026, recebeu nova condenação do Supremo Tribunal
Federal (STF), de 56 anos de prisão, por participação no planejamento dos
assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes,
além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves.
Há
ainda o episódio envolvendo quatro policiais militares acusados pelo Ministério
Público fluminense de matar quatro homens durante uma emboscada no Morro do
Vidigal, na Zona Sul do Rio, em 16 de janeiro de 2020.
Flávio
Bolsonaro também assinou recurso no STJ em defesa dos militares. Segundo a
acusação, os policiais teriam se posicionado dentro de um imóvel e disparado de
surpresa contra as vítimas, reduzindo suas possibilidades de defesa. Os agentes
alegaram que participavam de uma operação de combate ao tráfico de drogas.
Esses
episódios precisam ser examinados individualmente, com atenção aos documentos
judiciais, às acusações e às decisões efetivamente proferidas. Não se pode
equiparar uma investigação a uma condenação, nem transformar relações políticas
ou atos de defesa jurídica em prova automática de responsabilidade criminal.
Ainda
assim, a repetição de controvérsias envolvendo a atuação parlamentar em favor
de agentes de segurança acusados ou condenados por crimes graves é um tema
legítimo para o escrutínio público.
O direito à justiça não
pode esperar indefinidamente
O
caso Ana Clara deixa uma pergunta que ultrapassa os limites de qualquer
campanha eleitoral: que mensagem é transmitida à sociedade quando uma criança
morre em uma ação policial e, anos depois, o julgamento do acusado ainda não
aconteceu?
A
presunção de inocência deve ser respeitada. O direito de defesa, garantido. Mas
a família da vítima também tem direito a uma Justiça que funcione, apure os
fatos e ofereça uma resposta em prazo razoável.
Nenhuma
criança deveria morrer brincando na porta de casa. Nenhuma mãe deveria precisar
esperar anos a fio para que um processo avance. E nenhum debate sobre segurança
pública deveria esquecer que a autoridade do Estado só é legítima quando
exercida dentro da lei.
Em
uma eleição presidencial, os brasileiros têm o direito de conhecer a
trajetória, as decisões e as prioridades dos candidatos. Não basta falar em
combate ao crime: é necessário explicar que modelo de segurança pública se
pretende construir, quais compromissos serão assumidos e como se garantirá que
a lei valha para todos.
Ana
Clara tinha cinco anos. Não participava de disputas políticas, não conhecia as
estratégias eleitorais e não tinha como compreender o perigo que a cercava.
Sua
história exige mais do que discursos. Exige justiça, transparência e
responsabilidade pública.
Porque a vida de uma
criança não pode valer menos do que os interesses de quem disputa o poder.