🌤️ Previsão do tempoConsultar →
EDITORIAL

Ana Clara: cinco anos, um tiro de fuzil e um julgamento que nunca aconteceu

Flávio Bolsonaro atuou na defesa de policial militar acusado de matar a menina em Niterói; mais de cinco anos depois, família continua à espera de julgamento. Histórico de homenagens e vínculos políticos com agentes de segurança condenados ou investigados volta ao centro do debate eleitoral.

Jorge Matos | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 21 de outubro de 2026 às 08:56
Ouça esta matéria
Compartilhe:
Flávio Bolsonaro é um dos advogados do PM acusado de matar uma menina de 5 anos com um tiro
Flávio Bolsonaro é um dos advogados do PM acusado de matar uma menina de 5 anos com um tiro

Ana Clara Gomes Machado tinha apenas cinco anos. Brincava na porta de casa, ao lado do irmão de dois anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil e morreu, em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, no Rio de Janeiro. Mais de cinco anos depois, sua família ainda espera pelo julgamento do policial militar acusado de efetuar o disparo.

O caso ganhou novamente repercussão nacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionar, durante debate eleitoral na Band, em 18 de outubro, por que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, participou da defesa do militar. A pergunta ficou sem resposta pública no debate, segundo o relato que motivou a repercussão.

A história de Ana Clara, entretanto, vai muito além do embate eleitoral. É também um retrato doloroso das consequências da violência armada, da espera por justiça e da necessidade de discutir a responsabilidade de quem exerce o poder e pretende governar o país.

O disparo e a espera por justiça

Segundo denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), o cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, lotado no 12º Batalhão de Polícia Militar de Niterói, efetuou disparos em direção a uma área residencial e de lazer onde estavam as crianças.

A acusação sustenta que moradores alertaram os policiais, aos gritos, sobre a presença de pessoas no local, mas os disparos continuaram. Para a promotoria, o militar assumiu o risco de matar.

Delaroli chegou a ser preso preventivamente após a morte da menina. Em novembro de 2021, a prisão foi substituída por medidas cautelares. Posteriormente, a Justiça determinou que ele fosse submetido ao Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.

Em 2024, Flávio Bolsonaro, então senador, integrou a defesa do policial e assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinava o julgamento popular. O pedido foi negado.

Apesar da manutenção da decisão judicial, o julgamento ainda não ocorreu. A família de Ana Clara continua aguardando uma resposta definitiva da Justiça.

A dor de uma mãe e a pergunta que permanece

A atuação de Flávio Bolsonaro no caso voltou à discussão pública com o episódio ‘O Julgamento que Nunca Aconteceu’, da série jornalística ‘Revelando’, que reconstrói a morte da menina e acompanha a luta de seus familiares.

Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, expressou indignação diante da participação do presidenciável na defesa do policial acusado e da tentativa de impedir que ele fosse levado ao Tribunal do Júri.

“Ele tentou anular o júri de um cara que impediu uma criança de 5 anos de viver”, declarou Cristiane, em trecho divulgado pela produção.

A dor dessa mãe não deveria ser transformada em mero instrumento de disputa eleitoral. Mas tampouco pode ser ignorada quando se discute a trajetória pública de um candidato à Presidência da República.

A questão central é objetiva: por que um parlamentar decidiu atuar juridicamente para contestar uma decisão que submetia um policial acusado de matar uma criança ao julgamento popular?

O direito à defesa é uma garantia fundamental e vale para todos, independentemente da gravidade da acusação. A participação de um advogado em um processo, por si só, não comprova cumplicidade com o crime atribuído ao acusado. Isso, porém, não impede que os eleitores questionem escolhas políticas, prioridades e critérios de atuação de quem pretende governar o Brasil.

Segurança pública: discurso ou compromisso efetivo?

Lula voltou a abordar o caso em vídeo publicado nas redes sociais e relacionou o episódio à tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal.

O presidente cobrou o apoio de Flávio Bolsonaro e da bancada do PL à proposta, questionando o compromisso do adversário com medidas destinadas a fortalecer o combate ao crime organizado.

A PEC busca ampliar a integração entre União, estados, Distrito Federal e municípios, constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e fortalecer instrumentos de coordenação e compartilhamento de informações entre as instituições responsáveis pela segurança.

Após a aprovação na Câmara dos Deputados, em março de 2026, a proposta teve sua análise concluída na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 14 de outubro. A votação em plenário foi adiada em meio a divergências políticas sobre o texto, incluindo a discussão relativa à redução da maioridade penal.

A segurança pública é um dos maiores desafios brasileiros. Exige planejamento, recursos, inteligência, integração entre instituições e políticas de prevenção. Exige também que a atuação policial esteja submetida à lei, porque combater o crime não pode significar conceder a qualquer agente do Estado o direito de agir acima dela.

O enfrentamento ao crime organizado não se fortalece com a impunidade, seja ela praticada por criminosos comuns, integrantes de organizações armadas ou agentes públicos. A credibilidade das instituições depende da capacidade de investigar, julgar e responsabilizar quem comete crimes, respeitando o devido processo legal.

Outros episódios envolvendo Flávio Bolsonaro e agentes de segurança

A atuação do senador no caso Ana Clara não é o único episódio de sua trajetória política que voltou ao debate em razão de suas relações com integrantes das forças de segurança do Rio de Janeiro envolvidos em investigações ou condenações criminais.

Quando era deputado estadual, Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e esposa de Adriano da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar apontado pelo Ministério Público como líder do grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime.

Outro caso envolve Ronald Paulo Alves Pereira, ex-policial militar que recebeu uma moção de louvor apresentada por Flávio em 2004, em reconhecimento aos supostos serviços prestados ao Rio de Janeiro.

A homenagem foi concedida poucos meses depois de Ronald passar a ser investigado por seu possível envolvimento no caso da casa noturna Via Show, em São João de Meriti. Em dezembro de 2003, quatro jovens foram sequestrados e executados por policiais militares após saírem da casa de shows.

Ronald Pereira foi condenado, em 2022, a 76 anos e oito meses de prisão pelas mortes dos jovens. Em fevereiro de 2026, recebeu nova condenação do Supremo Tribunal Federal (STF), de 56 anos de prisão, por participação no planejamento dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves.

Há ainda o episódio envolvendo quatro policiais militares acusados pelo Ministério Público fluminense de matar quatro homens durante uma emboscada no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio, em 16 de janeiro de 2020.

Flávio Bolsonaro também assinou recurso no STJ em defesa dos militares. Segundo a acusação, os policiais teriam se posicionado dentro de um imóvel e disparado de surpresa contra as vítimas, reduzindo suas possibilidades de defesa. Os agentes alegaram que participavam de uma operação de combate ao tráfico de drogas.

Esses episódios precisam ser examinados individualmente, com atenção aos documentos judiciais, às acusações e às decisões efetivamente proferidas. Não se pode equiparar uma investigação a uma condenação, nem transformar relações políticas ou atos de defesa jurídica em prova automática de responsabilidade criminal.

Ainda assim, a repetição de controvérsias envolvendo a atuação parlamentar em favor de agentes de segurança acusados ou condenados por crimes graves é um tema legítimo para o escrutínio público.

O direito à justiça não pode esperar indefinidamente

O caso Ana Clara deixa uma pergunta que ultrapassa os limites de qualquer campanha eleitoral: que mensagem é transmitida à sociedade quando uma criança morre em uma ação policial e, anos depois, o julgamento do acusado ainda não aconteceu?

A presunção de inocência deve ser respeitada. O direito de defesa, garantido. Mas a família da vítima também tem direito a uma Justiça que funcione, apure os fatos e ofereça uma resposta em prazo razoável.

Nenhuma criança deveria morrer brincando na porta de casa. Nenhuma mãe deveria precisar esperar anos a fio para que um processo avance. E nenhum debate sobre segurança pública deveria esquecer que a autoridade do Estado só é legítima quando exercida dentro da lei.

Em uma eleição presidencial, os brasileiros têm o direito de conhecer a trajetória, as decisões e as prioridades dos candidatos. Não basta falar em combate ao crime: é necessário explicar que modelo de segurança pública se pretende construir, quais compromissos serão assumidos e como se garantirá que a lei valha para todos.

Ana Clara tinha cinco anos. Não participava de disputas políticas, não conhecia as estratégias eleitorais e não tinha como compreender o perigo que a cercava.

Sua história exige mais do que discursos. Exige justiça, transparência e responsabilidade pública.

Porque a vida de uma criança não pode valer menos do que os interesses de quem disputa o poder.

Comentários

Participe da conversa sobre esta notícia. Seu e-mail não será exibido.

Carregando comentários…

Assuntos
Ana ClaraAna Clara Gomes MachadoBatalhão de Polícia MilitarClaraCristiane GomesFlávio BolsonaroPresidência da RepúblicaTribunal do Júri