Uma investigação publicada pelo site PlatôBR trouxe à tona um conjunto de mensagens, fotografias, áudios, notas fiscais e outros documentos guardados pelo empresário Alexandre Ferreira Dias Santini, antigo amigo e ex-sócio do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

O material, posteriormente repercutido por veículos como UOL, Folha de S.Paulo e R7, mistura fatos documentados, relatos de Santini e acusações que ainda carecem de comprovação independente.

Entre os pontos de maior interesse público estão a compra de um relógio Rolex de R$ 305 mil em nome de uma pessoa próxima a Flávio, o pagamento de despesas pessoais por terceiros e uma mensagem na qual Santini afirma que o senador teria tratado diretamente com o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), de interesses relacionados a um cliente com processo no gabinete do magistrado.

O Rolex de R$ 305 mil

Entre os documentos divulgados está uma nota fiscal de fevereiro de 2022 referente à aquisição de um Rolex Submariner Date de ouro branco pelo valor de R$ 305 mil.

A nota está em nome do advogado Alan Belaciano, pessoa próxima a Flávio Bolsonaro.

Segundo a investigação do PlatôBR, mensagens preservadas por Santini indicariam que o relógio teria sido destinado a Flávio.

A existência da nota fiscal e a compra do relógio estão documentadas. A afirmação de que o objeto foi efetivamente dado de presente ao senador, entretanto, depende da interpretação das mensagens e relatos reunidos pelo ex-sócio.

O UOL informou que procurou Flávio Bolsonaro, Alexandre Santini e Alan Belaciano após a divulgação do material e não havia obtido resposta deles até a publicação.

Despesas na residência

O material também relaciona Belaciano ao pagamento de mais de R$ 90 mil em equipamentos para uma academia instalada na residência de Flávio Bolsonaro em Brasília.

Esse episódio já havia se tornado público anteriormente.

Na ocasião, Flávio afirmou que a aquisição feita por um amigo constituía um “empréstimo pessoal” que estava sendo quitado.

O conjunto de documentos divulgado agora menciona ainda outras despesas supostamente bancadas por pessoas próximas ao senador, incluindo reparos na residência, televisão e mensalidades de academia.

A disputa de R$ 1,4 milhão

Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini foram sócios de uma franquia da Kopenhagen localizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

A relação entre os dois acabou se deteriorando.

Em setembro de 2023, Santini enviou uma notificação extrajudicial cobrando aproximadamente R$ 1,4 milhão do então sócio.

O empresário sustentava que havia ocorrido uma divisão desigual de lucros e que teria arcado com despesas da empresa sem receber posteriormente o ressarcimento.

Flávio negou dever dinheiro ao ex-sócio.

Foi durante esse conflito que Santini passou a utilizar o acervo de mensagens e documentos acumulados ao longo dos anos como instrumento de pressão sobre o antigo amigo.

A mensagem envolvendo Kassio Nunes Marques

É nesse contexto que aparece um dos episódios potencialmente mais relevantes da investigação.

No final de 2023, Santini enviou uma mensagem a Flávio Bolsonaro afirmando saber que o senador teria conversado diretamente com Kassio Nunes Marques para tratar dos interesses de um cliente que possuía processo no gabinete do ministro do STF.

Segundo o relato de Santini, a demanda era acompanhada por Alan Belaciano.

O ex-sócio também mencionou a realização de um jantar que teria participação de integrante do gabinete do ministro.

A reportagem, porém, não identifica o cliente nem o processo judicial a que Santini se referia.

Também não foi apresentada, até o momento, comprovação independente de que Flávio tenha efetivamente intermediado a demanda ou de que tenha ocorrido qualquer favorecimento no processo.

A resposta do ministro

Procurado após a publicação das mensagens, Kassio Nunes Marques afirmou, por intermédio de sua assessoria, que recebe parlamentares de diferentes partidos e que essa prática não compromete a imparcialidade dos magistrados.

O ministro não respondeu especificamente se discutiu com Flávio Bolsonaro o processo mencionado por Santini.

Depois da mensagem enviada pelo empresário, Flávio respondeu e marcou uma reunião com o antigo sócio em seu gabinete.

Não se sabe o que foi discutido nesse encontro.

Posteriormente, Santini informou a interlocutores que a disputa entre os dois estava encerrada.

Vida privada também aparece nos arquivos

Outra parte da reportagem do PlatôBR envolve encontros privados com garotas de programa.

Segundo o veículo, Santini guardou mensagens e fotografias relacionadas a esses episódios e, durante o rompimento entre os antigos sócios, teria mostrado parte do material à mulher de Flávio Bolsonaro.

Há também uma mensagem atribuída a Flávio na qual ele afirma ter se arrependido de “muitas escolhas erradas” e diz que não voltaria a errar com sua família.

A mensagem, entretanto, não especifica quais seriam essas escolhas.

Por isso, isoladamente, ela não comprova participação do senador nos episódios descritos por Santini.

O Hoje Bahia opta por registrar esse trecho da investigação por fazer parte do conjunto documental revelado, mas ressalta que aspectos estritamente relacionados à vida privada não possuem, por si só, o mesmo interesse público dos questionamentos envolvendo pagamentos, presentes e eventual atuação perante agentes do Estado.

O que está documentado e o que ainda é alegação

A distinção é fundamental.

Há documentação sobre a compra de um Rolex de R$ 305 mil em nome de Alan Belaciano.

Também existem registros relativos aos equipamentos de academia e documentos e mensagens referentes à disputa financeira entre Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini.

Existem ainda mensagens nas quais Santini afirma ter conhecimento de uma atuação de Flávio junto a Kassio Nunes Marques.

Isso, entretanto, não significa que todas as acusações estejam comprovadas.

Até o momento, não foi demonstrado de maneira independente que houve favorecimento de algum processo pelo ministro, nem foi identificado publicamente qual seria o processo mencionado.

Também não há, no material publicado, conclusão judicial estabelecendo que o Rolex tenha constituído vantagem indevida.

Flávio evitou responder às perguntas 

Após a publicação da investigação, Flávio Bolsonaro foi questionado por jornalistas durante uma agenda de campanha em São Paulo.

Segundo a Folha de S.Paulo, o candidato não respondeu às perguntas relacionadas às revelações naquele momento. A assessoria de sua campanha também foi procurada pelo jornal e não havia se manifestado até a publicação.

As revelações passaram imediatamente para o debate eleitoral e foram exploradas por adversários políticos do candidato.

O fato de acusações serem utilizadas eleitoralmente, contudo, não constitui prova de sua veracidade.

O núcleo de interesse público permanece nos documentos apresentados e nas questões ainda sem resposta: qual foi exatamente a natureza dos pagamentos realizados por pessoas próximas ao senador, qual a destinação do Rolex de R$ 305 mil e, principalmente, qual processo estaria por trás da mensagem que menciona Kassio Nunes Marques.

Essas perguntas continuam abertas.

O Hoje Bahia manterá este conteúdo atualizado caso Flávio Bolsonaro, Alan Belaciano, Alexandre Santini ou o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques apresentem novos esclarecimentos sobre os fatos.

Fontes: PlatôBR, UOL, Folha de S.Paulo e R7.