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PROIBIÇÃO ASSERTIVA

Bets drenavam bilhões das famílias e ampliavam pressão sobre saúde, dívidas e consumo no Brasil

Brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões em plataformas regulamentadas em 2025; perda líquida chegou a R$ 36,9 bilhões, enquanto danos associados às apostas podem custar R$ 38,8 bilhões por ano à sociedade

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 26 de setembro de 2026 às 17:37 • Salvador - BA
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O avanço das bets no Brasil movimenta bilhões de reais e acende o alerta para impactos que vão além das perdas financeiras, atingindo o orçamento das famílias, o consumo, o endividamento e a saúde pública.
O avanço das bets no Brasil movimenta bilhões de reais e acende o alerta para impactos que vão além das perdas financeiras, atingindo o orçamento das famílias, o consumo, o endividamento e a saúde pública. — Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia

As apostas online deixaram de ser apenas uma modalidade de entretenimento para se transformar em um fenômeno econômico e em uma questão crescente de saúde pública no Brasil. Os números mais recentes ajudam a dimensionar o problema: somente em 2025, brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas casas de apostas autorizadas pelo governo federal.

Esse número, entretanto, precisa ser interpretado corretamente. Os R$ 220,6 bilhões não correspondem ao faturamento efetivo das bets, porque grande parte do dinheiro retorna aos jogadores na forma de prêmios e bônus.

Dados do Ministério da Fazenda obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, dos R$ 220,6 bilhões depositados em 2025, R$ 183,7 bilhões retornaram como prêmios e bônus sacáveis.

A diferença foi de R$ 36,9 bilhões.

Esse é o número mais próximo daquilo que efetivamente saiu do conjunto dos jogadores e permaneceu nas empresas — a chamada receita bruta de jogos, ou GGR, antes dos demais custos, despesas e tributos das operadoras. Ao longo de 2025, aproximadamente 25 milhões de brasileiros fizeram apostas nas plataformas regulamentadas. Em média, 9,25 milhões apostaram a cada mês.

Quanto isso representa para cada brasileiro?

O Brasil tem população estimada em 214,2 milhões de habitantes em 2026, segundo o IBGE.

Considerando aproximadamente 164 milhões a 165 milhões de brasileiros adultos, a dimensão econômica das bets pode ser traduzida de outra maneira.

Se os R$ 220,6 bilhões depositados em 2025 fossem divididos igualmente entre todos os brasileiros maiores de 18 anos, corresponderiam a aproximadamente R$ 1.340 por adulto por ano, ou cerca de R$ 112 por mês.

Mas esse cálculo inclui dinheiro que voltou como prêmio.

O número economicamente mais relevante é a perda líquida de R$ 36,9 bilhões.

Dividida por toda a população adulta brasileira, ela corresponderia a aproximadamente R$ 224 por adulto por ano, ou quase R$ 19 por mês.

E é importante ressaltar: isso não significa que cada brasileiro perdeu esse dinheiro. É apenas uma forma de dimensionar o tamanho do mercado. As perdas estão concentradas entre os apostadores e, dentro desse grupo, podem ser muito maiores para determinados indivíduos.

Quantos brasileiros apostam?

Não existe um único percentual porque as pesquisas utilizam períodos e universos diferentes.

O DataSenado constatou em 2024 que 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais — aproximadamente 22,1 milhões de pessoas — haviam realizado apostas esportivas nos 30 dias anteriores à pesquisa. Entre os apostadores, 62% eram homens e 56% tinham entre 16 e 39 anos. Mais da metade, 52%, recebia até dois salários mínimos.

Os registros do mercado regulamentado mostram uma dimensão ainda maior quando se considera um ano inteiro: 25 milhões de CPFs diferentes realizaram apostas em 2025, embora apenas uma parcela deles apostasse todos os meses.

Outra pesquisa, da NielsenIQ, constatou que 26,3% dos domicílios brasileiros participaram de algum tipo de aposta em 2025. São métricas diferentes — pessoas, apostadores mensais e domicílios — e, portanto, não devem ser comparadas diretamente.

Quando a aposta deixa de ser diversão

O problema ganha outra dimensão quando os números financeiros são confrontados com os indicadores de saúde.

Estudo baseado no Levantamento Nacional sobre Álcool e Drogas, da Unifesp, estimou que 10,9 milhões de brasileiros com mais de 14 anos apresentam comportamento de jogo capaz de colocar em risco a saúde, as finanças, a vida familiar ou profissional.

Dentro desse grupo, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas apresenta padrão compatível com transtorno do jogo, caracterizado pela dificuldade de controlar o comportamento mesmo diante dos prejuízos provocados pelas apostas.

O Ministério da Saúde também passou a tratar explicitamente as apostas online como questão de saúde pública. O transtorno do jogo é reconhecido internacionalmente como um transtorno comportamental aditivo, e o governo lançou campanha nacional de prevenção aos danos associados às apostas.

A conta da saúde pode chegar a R$ 30,6 bilhões por ano

Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) calculou que os danos associados às apostas relacionados à saúde representam pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano para a sociedade brasileira.

A estimativa inclui aproximadamente:

R$ 17 bilhões relacionados às mortes adicionais por suicídio associadas ao jogo problemático;

R$ 10,4 bilhões referentes à perda de qualidade de vida relacionada à depressão;

R$ 3 bilhões em tratamentos médicos relacionados à depressão;

além de custos associados ao alcoolismo e ao uso de drogas ilícitas.

O próprio estudo faz uma ressalva fundamental: trata-se de custos associados ao jogo, calculados a partir de evidências epidemiológicas e econômicas, e não da afirmação de que cada caso de depressão ou suicídio considerado tenha sido diretamente causado pelas apostas.

Quando são adicionados outros impactos sociais, como desemprego, perda de moradia e encarceramento, a estimativa sobe para R$ 38,8 bilhões por ano.

Para efeito de comparação, divididos por aproximadamente 165 milhões de brasileiros adultos, os R$ 30,6 bilhões associados somente à dimensão da saúde equivaleriam a cerca de R$ 185 por adulto ao ano.

A procura pelo SUS cresceu

Os efeitos já aparecem na rede pública.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, houve crescimento de 140% na procura por atendimento no SUS relacionado à dependência de jogos e apostas nos últimos cinco anos.

Em 2026, o governo ampliou a estrutura de teleatendimento dedicada ao problema. Desde fevereiro, cerca de 20 mil pessoas haviam se cadastrado após realizar um teste de avaliação, e a capacidade do sistema foi ampliada para até 100 mil teleatendimentos mensais.

A plataforma federal de autoexclusão também bloqueou milhões de CPFs das plataformas autorizadas. Mais de 1 milhão de pessoas solicitaram voluntariamente a própria exclusão, e quase metade delas apontou problemas de saúde mental relacionados às apostas como motivo.

O dinheiro das bets deixa de circular em outros setores

O impacto econômico não termina no apostador.

Quando uma família direciona parte da renda disponível para uma casa de apostas, esse dinheiro deixa de disputar espaço com supermercado, roupas, medicamentos, lazer, serviços, pagamento de dívidas e outras despesas.

Pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, citada pelo Instituto para Desenvolvimento do Varejo, encontrou sinais claros dessa substituição.

Entre os entrevistados afetados pelas apostas, 23% afirmaram ter deixado de comprar roupas, 19% deixaram de realizar compras em supermercados e 11% reduziram gastos com cuidados de saúde e medicamentos.

Dados da Kantar reforçam o impacto sobre itens básicos. No segundo trimestre de 2025, o valor destinado às apostas correspondeu a 13% do montante destinado a alimentos e bebidas nos lares analisados, com peso especialmente relevante entre as classes C, D e E.

A NielsenIQ identificou outro sinal preocupante: 10% dos apostadores admitiram substituir outros gastos para conseguir encaixar as apostas no orçamento doméstico. Quase metade dos lares apostadores, 49%, afirmou buscar nas apostas uma forma de obter "renda extra".

Comércio calcula perda bilionária

A Confederação Nacional do Comércio estimou que o varejo brasileiro tenha deixado de movimentar R$ 103 bilhões em 2024 em consequência da expansão das apostas online.

A estimativa não deve ser interpretada como R$ 103 bilhões comprovadamente retirados dos caixas das lojas. Trata-se de uma modelagem econômica da CNC, construída a partir de cenários sobre o deslocamento do consumo das famílias.

O estudo também estimou que aproximadamente 1,8 milhão de brasileiros chegaram à inadimplência após comprometer renda com apostas.

Quem perde quando a renda vai para as bets?

Os dados disponíveis apontam reflexos principalmente sobre supermercados e alimentação; vestuário e calçados; farmácias e cuidados pessoais; lazer e entretenimento; restaurantes e serviços; comércio eletrônico; pagamento de contas; crédito e sistema financeiro.

O efeito pode ser especialmente intenso nas famílias de menor renda porque elas possuem menor parcela do orçamento disponível depois das despesas essenciais.

Em 2024, o Banco Central encontrou um dado que chamou atenção para essa vulnerabilidade: em apenas um mês, 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para empresas de apostas. A mediana transferida foi de R$ 100 por apostador.

A aposta também aparece na inadimplência

Pesquisa divulgada em setembro de 2026 pelo Sicredi, utilizando uma amostra de 1,3 milhão de pessoas com crédito ativo, encontrou inadimplência 40% maior entre associados que haviam realizado apostas online em 2025 do que entre aqueles que não apostaram.

O estudo também encontrou relação entre maior frequência e volume de apostas e maior inadimplência. Como se trata de uma associação observacional, o resultado não significa que as apostas expliquem sozinhas toda a diferença de inadimplência entre os grupos.

A Serasa encontrou outro comportamento preocupante: entre consumidores inadimplentes pesquisados que já haviam apostado, 44% disseram ter feito apostas tentando conseguir dinheiro para quitar dívidas.

Cria-se, assim, um mecanismo potencialmente perverso: uma pessoa endividada tenta resolver o problema financeiro por meio de uma atividade cuja expectativa matemática favorece a casa de apostas e pode terminar ainda mais endividada.

R$ 36,9 bilhões saíram dos jogadores; custo social estimado chega a R$ 38,8 bilhões

A comparação resume a dimensão do fenômeno.

Em 2025, as plataformas regulamentadas ficaram com aproximadamente R$ 36,9 bilhões líquidos entre apostas e prêmios pagos.

Paralelamente, pesquisadores estimam em R$ 38,8 bilhões anuais os custos sociais associados ao jogo problemático, dos quais R$ 30,6 bilhões estão relacionados à saúde.

Os dois valores não devem ser simplesmente somados, porque medem fenômenos diferentes e existem limitações metodológicas nas estimativas de custos sociais.

Mas a comparação revela uma questão econômica importante: o tamanho do setor não pode ser avaliado apenas pela arrecadação tributária que produz.

Em 2025, o governo federal arrecadou aproximadamente R$ 9,95 bilhões do setor de apostas, considerando a tributação específica sobre a receita das apostas e outros impostos federais pagos pelas empresas.

Ao mesmo tempo, apenas uma fração da destinação incidente sobre a receita das apostas chega diretamente à saúde. O IEPS aponta que 1% da arrecadação destinada por lei é direcionada ao Ministério da Saúde.

Um setor bilionário que gera relativamente poucos empregos

Há ainda uma diferença importante entre as bets e setores tradicionais que disputam o mesmo dinheiro das famílias.

Segundo levantamento do IEPS com dados da Relação Anual de Informações Sociais, o segmento contabilizava apenas 1.144 empregos formais, distribuídos entre 60 empregadores, com média de 19 trabalhadores por empresa.

O estudo calcula que, para cada R$ 291 de receita, apenas R$ 1 se transforma em salário formal no setor.

Isso significa que o deslocamento de consumo de setores intensivos em mão de obra — comércio, alimentação, serviços e varejo — para plataformas digitais de apostas pode produzir efeitos econômicos muito diferentes daqueles provocados pelo consumo convencional.

O verdadeiro tamanho da conta

O Brasil chegou a uma situação peculiar.

Em apenas um ano, 25 milhões de pessoas apostaram nas plataformas regulamentadas. Elas depositaram R$ 220,6 bilhões e perderam, coletivamente, cerca de R$ 36,9 bilhões líquidos.

Ao mesmo tempo, milhões apresentam padrões de aposta classificados como de risco; aproximadamente 1,4 milhão apresenta comportamento compatível com transtorno do jogo; cresce a procura pelo SUS; pesquisas detectam associação com inadimplência; e famílias admitem substituir supermercado, roupas, medicamentos e pagamento de contas pelas apostas.

O problema, portanto, não está nos R$ 220 bilhões que circularam pelas plataformas.

Está principalmente nos R$ 36,9 bilhões que não voltaram para os apostadores — e nas consequências que não aparecem no extrato bancário: dívidas, redução do consumo, conflitos familiares, sofrimento mental, perda de produtividade e pressão adicional sobre o sistema público de saúde.

As bets já constituem uma indústria bilionária no Brasil.

A questão que os números colocam agora é outra: quanto dessa receita privada está sendo produzida pela transferência de renda de famílias que não têm condições financeiras — e, em alguns casos, psicológicas — de suportar as perdas?

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