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EDITORIAL IMOBILIÁRIO

Brasil cresce, emprego avança, mas juros continuam altos: quem ganha, quem perde e por que a casa própria fica mais distante?

Com a Selic em 13,75% ao ano, desemprego de 5,3% e uma dívida pública que acumula R$ 1,18 trilhão em juros nominais em 12 meses, o Brasil enfrenta um debate que ultrapassa a política monetária: a distribuição dos ganhos da economia entre investidores, empresas e trabalhadores.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 13 de outubro de 2026 às 10:20 • Salvador - BA
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Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, os juros elevados continuam influenciando o financiamento imobiliário, os investimentos e o acesso à casa própria no Brasil. Mesmo diante da melhora dos indicadores de emprego e renda, o custo do crédito evidencia as diferenças entre quem dispõe de patrimônio financeiro e quem depende de financiamento para adquirir um imóvel.
Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, os juros elevados continuam influenciando o financiamento imobiliário, os investimentos e o acesso à casa própria no Brasil. Mesmo diante da melhora dos indicadores de emprego e renda, o custo do crédito evidencia as diferenças entre quem dispõe de patrimônio financeiro e quem depende de financiamento para adquirir um imóvel. — Ilustração produzida por inteligência artificial para o Hoje Bahia, representando os impactos dos juros e do mercado financeiro sobre o setor imobiliário brasileiro.

O Brasil vive uma contradição econômica que ajuda a explicar por que tantos trabalhadores encontram dificuldades para transformar a melhora do emprego e da renda em patrimônio.

O país registra uma das menores taxas de desemprego da série histórica, apresenta crescimento econômico e mantém um mercado consumidor relevante. Entretanto, continua convivendo com uma das taxas básicas de juros mais elevadas entre as grandes economias.

Em setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo, depois de um período em que os juros chegaram a 15%.

A redução demonstra que a política monetária iniciou um processo de flexibilização. Mas também evidencia a dimensão do problema: mesmo após cinco cortes, o custo básico do dinheiro continua elevado.

Para quem tem patrimônio financeiro, esse ambiente pode representar a oportunidade de obter rendimentos expressivos em aplicações relativamente conservadoras. Para quem depende do salário, do financiamento ou do crédito para empreender, representa um obstáculo adicional.

No mercado imobiliário, essa diferença é especialmente visível.

Enquanto investidores com grande disponibilidade de recursos podem adquirir imóveis à vista ou manter o patrimônio aplicado, milhões de famílias precisam calcular se conseguirão assumir uma prestação durante 20 ou 30 anos.

É nesse encontro entre juros, renda, patrimônio e moradia que está uma das principais questões da economia brasileira: por que um país que consegue melhorar seus indicadores de emprego ainda encontra tanta dificuldade para oferecer crédito acessível à população?

1. A economia cresce, o desemprego recua, mas o dinheiro continua caro

Os indicadores recentes mostram que o Brasil mantém atividade econômica positiva.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o mesmo período de 2025, a expansão foi de 2%.

O mercado de trabalho apresenta números importantes.

A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, uma das menores da série histórica iniciada em 2012.

O rendimento médio real habitual alcançou R$ 3.777, com crescimento de 3,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A massa de rendimentos dos trabalhadores atingiu aproximadamente R$ 385,6 bilhões, alta de 4,8% na comparação anual.

São resultados relevantes porque o emprego e a renda estão entre os principais motores do consumo, da capacidade de pagamento das famílias e da demanda por moradia.

Mas existe uma diferença importante entre ganhar mais e conseguir comprar mais patrimônio.

Um trabalhador pode conquistar um emprego, obter reajuste salarial e melhorar suas condições de consumo sem necessariamente conseguir financiar um imóvel.

Isso acontece porque o preço do crédito depende de fatores que vão além de sua renda: taxas de juros, prazo, garantias, disponibilidade de recursos, risco bancário e condições gerais da economia.

Quando esses custos permanecem elevados, parte dos ganhos salariais acaba sendo absorvida pelo financiamento.

Em outras palavras, a melhora do mercado de trabalho não se transforma automaticamente em acesso à casa própria.

2. A inflação está controlada ou continua sendo um risco?

Uma das principais justificativas para a manutenção de juros elevados é a necessidade de controlar a inflação.

O argumento tem fundamento econômico: juros altos reduzem o estímulo ao consumo financiado, encarecem o crédito e tendem a diminuir pressões sobre os preços ao longo do tempo.

Entretanto, a análise precisa distinguir tendências de longo prazo de movimentos pontuais dos índices.

Depois de registrar deflação de 0,32% em agosto, o IPCA avançou 0,82% em setembro de 2026.

O resultado levou a inflação acumulada em 12 meses a 4,58%, ultrapassando ligeiramente o teto de 4,5% do intervalo de tolerância estabelecido para a meta.

A inflação foi pressionada especialmente pelo aumento de 7,98% nas tarifas de energia elétrica residencial, relacionado ao encerramento do chamado Bônus de Itaipu.

Alimentação, combustíveis e transportes também contribuíram para o resultado.

Portanto, não seria correto afirmar que a inflação brasileira está, neste momento, abaixo do teto da meta.

Mas o resultado também levanta outra discussão: até que ponto a elevação dos juros consegue combater aumentos provocados por tarifas, combustíveis, problemas climáticos e choques de oferta?

A Selic pode reduzir a demanda agregada e evitar que aumentos inicialmente localizados se espalhem pela economia. Contudo, ela não produz energia elétrica, amplia safras agrícolas ou elimina diretamente problemas de logística.

Essa limitação é importante.

Quando a inflação nasce de fatores sobre os quais a política monetária tem pouca influência imediata, elevar ou manter juros excessivamente restritivos pode produzir custos relevantes sobre investimentos e empregos antes que os preços sejam efetivamente afetados.

Por outro lado, mesmo choques temporários podem contaminar reajustes futuros e expectativas inflacionárias, justificando cautela.

O desafio da autoridade monetária é justamente distinguir os efeitos temporários das pressões persistentes.

3. Por que o Banco Central não reduz os juros mais rapidamente?

O Banco Central tem como objetivo fundamental assegurar a estabilidade de preços, mas sua atuação também considera os efeitos da política monetária sobre o nível de atividade e o emprego.

A decisão de setembro, que levou a Selic a 13,75%, foi tomada por unanimidade.

Na ata, o Copom destacou a moderação gradual da atividade econômica, a resiliência do mercado de trabalho e a permanência das expectativas de inflação acima da meta.

Há diferentes fatores que ajudam a compreender a cautela:

Expectativas de inflação: se empresas, investidores e consumidores acreditam que os preços continuarão subindo, podem antecipar reajustes, contratos e decisões financeiras.

Situação fiscal: a trajetória da dívida pública e a capacidade do governo de financiar suas obrigações influenciam a percepção de risco e o custo dos empréstimos de longo prazo.

Mercado de trabalho: níveis elevados de ocupação são positivos, mas também podem, em determinadas circunstâncias, intensificar pressões de custos em alguns setores.

Cenário internacional: juros praticados em outras economias, câmbio, conflitos geopolíticos e preços das commodities interferem nas condições monetárias brasileiras.

Estrutura do crédito: concentração bancária, spreads, tributação, inadimplência, garantias e fontes de financiamento também ajudam a explicar por que os juros cobrados ao consumidor permanecem altos.

Esses fatores não significam que a taxa atual seja a única alternativa possível.

Significam que a discussão precisa ir além da oposição simplificada entre elevar ou reduzir a Selic.

Há economistas que defendem uma política monetária mais cautelosa, sustentando que reduções precipitadas poderiam elevar a inflação, pressionar o câmbio e prejudicar especialmente a população de menor renda.

Outros enfatizam que a manutenção prolongada de juros reais elevados desestimula o investimento produtivo, encarece a dívida pública e impõe custos desproporcionais aos trabalhadores.

As duas perspectivas reconhecem a importância da estabilidade econômica. Divergem principalmente sobre a intensidade e a velocidade dos ajustes necessários.

4. Relatório Focus: termômetro da economia ou instrumento de influência do mercado?

Poucos documentos representam tão bem a relação entre o Banco Central e o mercado financeiro quanto o Relatório Focus.

Divulgado semanalmente, o boletim reúne projeções apresentadas por instituições financeiras, consultorias e outros participantes especializados sobre inflação, juros, crescimento econômico e câmbio.

É importante esclarecer uma questão: o Focus não determina a taxa Selic, e suas projeções não são previsões oficiais do Banco Central.

O relatório representa uma síntese das expectativas dos participantes consultados.

Nesta terça-feira (13), os dados divulgados apontam elevação da projeção de inflação para 2026, de 5,01% para 5,22%.

Ao mesmo tempo, a mediana das expectativas para a Selic no encerramento de 2026 recuou de 13,50% para 13,25%.

Para 2027, as projeções indicam inflação de 4,30% e juros de 12%.

Expectativas também influenciam decisões

As projeções do mercado não são apenas números apresentados em relatórios.

Elas influenciam decisões de investidores, empresas, bancos e gestores de recursos.

Uma empresa que acredita na manutenção de juros elevados pode adiar um investimento.

Um banco que espera inflação persistente pode exigir maior remuneração em financiamentos de longo prazo.

Um investidor que prevê juros altos pode optar por títulos de renda fixa, em vez de empreendimentos sujeitos a maiores riscos.

Esse comportamento pode reforçar determinadas tendências econômicas.

Não significa que os participantes do Focus controlem as decisões do Banco Central ou que suas projeções sejam deliberadamente manipuladas.

Entretanto, existe uma questão legítima de economia política: instituições que participam da formação de expectativas também possuem interesses financeiros, estratégias de investimento e exposições aos movimentos das taxas de juros.

Esse fato recomenda transparência, diversidade de modelos econômicos e acompanhamento de outros indicadores na formulação da política monetária.

O problema não está em ouvir o mercado.

Está em discutir se as expectativas do mercado recebem peso adequado em relação aos demais indicadores da economia real, como produção, emprego, investimento e renda.

5. Rentismo: quando o dinheiro rende mais do que a atividade produtiva

O conceito de rentismo é frequentemente utilizado para descrever a obtenção de renda por meio da posse de ativos financeiros ou patrimoniais, em vez da participação direta na produção de bens e serviços.

Nem toda remuneração financeira constitui um problema econômico.

Investimentos, títulos públicos, fundos e instrumentos de crédito são necessários para financiar empresas, infraestrutura, habitação e o próprio Estado.

O debate surge quando a remuneração do capital financeiro se torna tão elevada que diminui o incentivo relativo a determinadas atividades produtivas.

Imagine um empresário que dispõe de recursos suficientes para ampliar sua empresa, contratar funcionários e desenvolver novos negócios.

Diante da possibilidade de obter rendimentos relevantes em aplicações financeiras de risco relativamente baixo, ele poderá concluir que o investimento produtivo não oferece retorno adicional suficiente para compensar seus riscos.

Não se trata de uma decisão irracional.

É uma escolha econômica influenciada pelas condições estabelecidas pelo próprio sistema financeiro.

O mesmo dilema aparece no setor imobiliário.

Uma incorporadora precisa adquirir terreno, aprovar projetos, construir, comercializar unidades e assumir riscos durante anos.

Um investidor financeiro pode aplicar recursos em determinados títulos e obter remuneração sem enfrentar diretamente essas mesmas etapas.

Isso não significa que todos os títulos sejam mais vantajosos do que imóveis ou negócios produtivos. Rentabilidade, tributação, risco, liquidez e horizonte de investimento são diferentes.

Mas juros persistentemente elevados aumentam o retorno mínimo exigido para justificar projetos de longo prazo.

O resultado potencial é menos investimento do que haveria em um ambiente com custos de capital menores, mantidas as demais condições.

6. A dimensão da transferência financeira: R$ 1,18 trilhão em juros

Os números das contas públicas ajudam a dimensionar o peso do custo financeiro.

De acordo com o Banco Central, as despesas com juros nominais do setor público consolidado atingiram aproximadamente R$ 1,182 trilhão nos 12 meses encerrados em agosto de 2026.

O valor corresponde a 8,86% do Produto Interno Bruto.

No mesmo período, o déficit primário — que desconsidera os juros — foi de R$ 82,1 bilhões, ou 0,62% do PIB.

A diferença mostra a importância do custo financeiro na formação do déficit público.

É necessário, entretanto, interpretar os dados corretamente.

O montante de juros nominais não corresponde integralmente a dinheiro pago em espécie aos detentores de títulos durante o período. Inclui valores apropriados por competência e resultados de operações financeiras, como swaps cambiais.

Também não se pode concluir que todo esse volume foi apropriado exclusivamente por pessoas ricas.

Os títulos públicos são mantidos por instituições financeiras, fundos, entidades previdenciárias, seguradoras, investidores estrangeiros e pessoas físicas, entre outros participantes.

Ainda assim, o tamanho desses valores evidencia como o custo do endividamento integra a distribuição de recursos da economia.

Quanto da dívida depende diretamente da Selic?

Dados do Tesouro Nacional mostram que, em agosto, 52,74% da Dívida Pública Federal estavam vinculados a títulos de taxa flutuante, principalmente relacionados à Selic.

A proporção era a maior da série histórica.

Isso significa que alterações na taxa básica afetam uma parcela expressiva do custo da dívida, embora os efeitos sobre o total de juros dependam também da composição dos títulos, dos prazos, da inflação e de outras variáveis.

Há, portanto, uma interação importante: juros elevados podem ajudar a controlar a inflação, mas também aumentam o custo de determinados componentes do endividamento público.

Quando esse custo cresce, diminui a margem fiscal disponível para outras prioridades, a menos que haja aumento de receitas, reorganização de despesas ou mudanças na trajetória da dívida.

O debate envolve, portanto, não apenas investidores e governos, mas toda a sociedade.

7. A elite financeira e a população vivem a mesma economia?

Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) ajudam a compreender a concentração dos investimentos.

Em junho de 2026, o patrimônio financeiro das pessoas físicas acompanhado pela entidade alcançou R$ 9,1 trilhões.

Desse total:

  • R$ 3,4 trilhões estavam no segmento de varejo de alta renda;
  • R$ 2,8 trilhões pertenciam ao segmento private, formado por clientes com mais de R$ 5 milhões investidos;
  • R$ 3 trilhões correspondiam ao varejo tradicional.

Somados, os segmentos de alta renda e private concentravam aproximadamente R$ 6,2 trilhões, ou 67% dos valores acompanhados.

Esse indicador não representa uma medição completa da riqueza nacional nem significa que todos os recursos sejam investidos em títulos pós-fixados.

Mas demonstra que o volume financeiro está distribuído de maneira bastante desigual entre os segmentos de investidores.

A nona edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, também constatou que 36% da população possuía algum tipo de investimento financeiro.

O acesso aos produtos mais sofisticados é desigual.

Na pesquisa, 18% das pessoas da classe A/B declararam investir em títulos privados, contra apenas 1% das classes D/E.

O impacto distributivo dos juros

Uma pessoa que possui R$ 5 milhões investidos pode receber rendimentos financeiros expressivos sem depender exclusivamente da renda mensal de trabalho.

Já uma família com renda de R$ 3 mil, sem reserva financeira relevante, enfrenta uma realidade diferente.

Para ela, a elevação dos juros pode significar crédito mais caro, prestação maior, dificuldade para adquirir bens e maior exposição ao endividamento.

A consequência é uma assimetria: quem possui ativos financeiros pode receber mais rendimento, enquanto quem necessita de financiamento pode pagar mais para acessar o crédito.

A inflação também afeta essa distribuição. Famílias pobres tendem a sofrer intensamente com a alta de alimentos, transporte e energia, razão pela qual preservar o poder de compra é fundamental.

Portanto, a questão não pode ser reduzida à afirmação de que juros baixos beneficiam todos ou que juros altos prejudicam todos.

O ponto central é que os custos e os benefícios da política monetária são distribuídos de maneira desigual, conforme o patrimônio, a renda e a posição de cada pessoa na economia.

8. O maior obstáculo à casa própria está no valor do imóvel ou no financiamento?

Para muitas famílias brasileiras, o preço anunciado de um imóvel não representa o seu custo final.

A diferença está nos juros pagos durante décadas.

Considere um financiamento hipotético de R$ 300 mil, com prazo de 30 anos, parcelas constantes pelo sistema Price e sem considerar seguros, tarifas, correção monetária ou outros encargos.

Taxa efetiva anual Prestação mensal aproximada Total pago em 30 anos
10% R$ 2.538 R$ 914 mil
12% R$ 2.945 R$ 1,060 milhão
14% R$ 3.360 R$ 1,209 milhão

Os números são apenas uma simulação matemática, não representam ofertas bancárias ou taxas oficiais da Selic.

Entre os cenários de 10% e 14%, a diferença mensal chega a aproximadamente R$ 822.

No prazo integral do financiamento, a diferença acumulada supera R$ 295 mil, desconsideradas alterações futuras das condições contratuais.

É uma distância capaz de modificar completamente a capacidade de compra de uma família.

Mesmo uma pessoa com renda estável pode encontrar dificuldade para ter crédito aprovado, já que os bancos consideram a relação entre a prestação e a renda disponível.

O problema, portanto, não é apenas o preço do imóvel, mas o valor que a família consegue financiar sem comprometer excessivamente o orçamento.

Juros também pesam sobre quem constrói

Construtoras e incorporadoras enfrentam custos financeiros próprios.

A aquisição do terreno, a preparação do empreendimento, a contratação de serviços, a compra de materiais e o prazo entre o início da obra e a venda das unidades precisam ser financiados.

Quando o capital fica caro, os empreendedores podem exigir margens maiores, rever lançamentos ou adiar projetos.

A consequência pode ser a restrição da oferta futura de imóveis.

E, se a demanda continuar elevada diante de uma oferta limitada, os preços podem permanecer pressionados mesmo em um ambiente de financiamento caro.

9. Apesar dos juros elevados, o crédito imobiliário está crescendo

Existe um dado importante que impede uma interpretação simplista do cenário.

Segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), os financiamentos habitacionais com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) chegaram a R$ 132,5 bilhões entre janeiro e agosto de 2026.

O volume representa crescimento de 37,5% em comparação com igual período de 2025.

Foram financiados cerca de 384,6 mil imóveis, entre aquisições e reformas, alta de 35,9%.

Como explicar esse crescimento em um ambiente de juros tão altos?

Parte da resposta está nas mudanças regulatórias que liberaram recursos anteriormente recolhidos de forma compulsória ao Banco Central.

Essas alterações ampliaram a disponibilidade de financiamento.

Também existe demanda habitacional, capacidade de compra em determinados segmentos e atuação de programas de crédito com condições diferenciadas.

O aumento das concessões mostra que a política monetária não atua isoladamente.

Entretanto, o cenário exige atenção a outro movimento.

A poupança brasileira registrou retirada líquida de R$ 9,35 bilhões em setembro e acumula saída de aproximadamente R$ 66,4 bilhões no ano.

Como a poupança historicamente constitui uma fonte relevante de recursos para o financiamento imobiliário, a migração para outras aplicações financeiras cria desafios para o modelo tradicional de funding habitacional.

Em um ambiente de juros elevados, títulos e investimentos que remuneram melhor o poupador tornam-se concorrentes da caderneta.

O setor precisa, então, encontrar formas sustentáveis de financiar a habitação, preservando o acesso ao crédito e a estabilidade das instituições.

10. Salvador: imóveis valorizados e capacidade de compra pressionada

O mercado imobiliário de Salvador oferece um exemplo concreto de como essas forças econômicas se encontram.

Segundo o Índice FipeZAP, o preço médio dos imóveis residenciais anunciados para venda na capital baiana alcançou R$ 8.691 por metro quadrado em setembro de 2026.

Na comparação com setembro do ano anterior, a valorização nominal foi de aproximadamente 10,4%.

O levantamento, baseado em anúncios, permite acompanhar a evolução dos preços pedidos pelos vendedores, mas não corresponde necessariamente aos valores efetivamente negociados.

Nos bairros mais valorizados, as diferenças são significativas.

Na Barra, o metro quadrado anunciado chegou a R$ 13.444. No Caminho das Árvores, R$ 11.447. Em Ondina, R$ 11.165. No Rio Vermelho, R$ 10.279.

Os valores revelam que o mercado imobiliário de Salvador reúne realidades econômicas bastante distintas.

Um apartamento hipotético de 60 metros quadrados, considerado o preço médio da cidade, alcançaria aproximadamente R$ 521 mil.

É um exercício de referência, já que localização, estado de conservação, características do imóvel e negociação alteram o valor final.

Para famílias cuja renda se aproxima da média nacional do trabalho, a distância entre o rendimento mensal e o preço de aquisição continua expressiva.

E essa distância cresce quando o financiamento incorpora juros elevados por longos períodos.

11. Alto padrão, médio padrão e habitação popular: três mercados diferentes

Embora todos sejam influenciados pela política monetária, os segmentos imobiliários não respondem da mesma maneira.

Alto padrão: maior poder de negociação e proteção patrimonial

No mercado de alto padrão, os compradores geralmente possuem maior patrimônio e menor dependência proporcional do financiamento bancário tradicional.

Parte das operações ocorre com recursos próprios, venda de outros ativos ou estruturas financeiras específicas.

A decisão de compra está frequentemente relacionada à preservação patrimonial, localização, exclusividade, renda de aluguel e expectativa de valorização.

Juros altos também afetam esse público, porque aumentam a atratividade de aplicações financeiras e o custo de oportunidade de manter capital imobilizado.

Mas a necessidade de financiamento costuma ser menor do que entre compradores de renda intermediária.

Em condições específicas, quem possui liquidez pode até encontrar oportunidades de negociação com vendedores que necessitam vender rapidamente.

Médio padrão: o comprador mais sensível à prestação

A classe média enfrenta um dilema diferente.

Muitas famílias possuem renda suficiente para assumir um compromisso imobiliário, mas dependem das condições do financiamento para determinar o valor máximo que podem pagar.

Uma pequena variação na taxa pode alterar a prestação e a quantia aprovada pelo banco.

Esse segmento tende a responder significativamente à redução dos juros, à melhora dos salários, à ampliação dos prazos e à disponibilidade de crédito.

Quando o financiamento encarece, a família pode adiar a compra, procurar um imóvel menor ou mudar de bairro.

A valorização dos preços anunciados agrava o desafio quando supera o crescimento da capacidade de pagamento.

Habitação popular: a importância do Minha Casa, Minha Vida

Para famílias de menor renda, programas habitacionais com subsídios, garantias e condições especiais exercem papel decisivo.

O Minha Casa, Minha Vida passou a contemplar famílias urbanas com renda mensal de até R$ 13 mil, distribuídas entre diferentes faixas.

Na Faixa 1, o limite de renda é de R$ 3.200 mensais, conforme as regras atualizadas de 2026.

As condições financeiras variam conforme a renda, a região, a modalidade de contratação e os recursos utilizados.

As taxas nominais informadas pela Caixa para modalidades do programa podem variar entre 4% e 10% ao ano, segundo os critérios aplicáveis.

Isso significa que parte do financiamento habitacional funciona com regras diferentes das operações convencionais de mercado.

A existência dessas linhas ajuda a reduzir os efeitos da Selic sobre determinados compradores.

Mas o acesso não depende exclusivamente dos juros.

Disponibilidade de unidades, valor dos terrenos, infraestrutura urbana, custos de construção, renda familiar, entrada e critérios de aprovação também influenciam os resultados.

A política habitacional, portanto, exige uma combinação de financiamento acessível e planejamento urbano.

12. Juros altos, aluguel e a dificuldade de acumular patrimônio

Há ainda uma consequência social menos visível do crédito imobiliário caro.

Quando famílias adiam a compra da casa própria, permanecem por mais tempo no mercado de locação.

Isso pode manter a demanda por aluguel elevada, especialmente em áreas próximas a empregos, serviços, escolas e corredores de transporte.

Em Salvador, o mercado de aluguel apresenta dinâmica própria, influenciada por turismo, localização, oferta de imóveis, renda dos moradores e valorização de determinadas regiões.

Juros altos não provocam automaticamente aumento do aluguel.

Entretanto, ao dificultarem a transição da locação para a propriedade, podem contribuir para prolongar a permanência de parte da população como inquilina.

Forma-se, assim, uma dificuldade de acumulação patrimonial.

A família precisa pagar aluguel, manter as despesas básicas e, ao mesmo tempo, reunir recursos para entrada, documentação e custos da mudança.

O crescimento da renda pode melhorar essa capacidade, mas nem sempre acompanha a valorização imobiliária e o custo do financiamento.

Para parte da população, a casa própria continua sendo um projeto que exige anos de planejamento.

13. Qual seria o caminho para juros menores e crédito mais acessível?

A redução sustentável dos juros brasileiros depende de condições que ultrapassam uma única reunião do Copom.

Entre elas estão maior previsibilidade fiscal, expectativas de inflação compatíveis com a meta, ambiente competitivo no sistema financeiro, segurança jurídica e fontes estáveis de financiamento de longo prazo.

O aprimoramento das garantias, a redução de custos de intermediação e o aumento da concorrência entre instituições também podem contribuir para diminuir o preço do crédito.

No setor habitacional, o desenvolvimento de instrumentos de financiamento, a aplicação eficiente de recursos públicos e a ampliação da oferta de imóveis são igualmente importantes.

Existe ainda uma dimensão distributiva.

Se os benefícios do crescimento econômico ficarem concentrados em grupos com patrimônio financeiro elevado, a expansão do PIB não necessariamente se traduzirá em maior acesso à moradia.

Da mesma forma, se a inflação voltar a se acelerar de maneira persistente, a perda de poder de compra poderá comprometer os ganhos sociais obtidos com a melhora do emprego e da renda.

O desafio está em combinar estabilidade monetária, responsabilidade fiscal, investimento produtivo e inclusão econômica.

Não basta que o dinheiro seja rentável para quem já possui patrimônio. É necessário que o financiamento da produção e da moradia também seja economicamente viável para quem precisa construir seu patrimônio.

14. A questão que permanece: para quem o crescimento econômico produz riqueza?

O Brasil reúne condições importantes para ampliar o investimento e a oferta de moradias.

Possui mercado consumidor relevante, demanda habitacional, empresas construtoras, instituições financeiras, trabalhadores qualificados e programas públicos de financiamento.

A combinação de crescimento econômico, expansão da renda e juros progressivamente menores poderia ampliar o número de famílias com capacidade de aquisição de imóveis.

Mas o movimento exige equilíbrio.

Não é possível ignorar os riscos inflacionários, assim como não é adequado desconsiderar os custos sociais e produtivos de uma política monetária excessivamente restritiva.

O debate sobre rentismo, nesse contexto, é essencialmente um debate sobre incentivos econômicos e distribuição de renda.

Quem dispõe de capital tem acesso a oportunidades financeiras que não estão igualmente disponíveis para toda a população.

Quem depende do trabalho e do crédito enfrenta custos diferentes.

Por isso, a avaliação de uma economia não deveria se limitar ao crescimento dos investimentos financeiros, ao desempenho da Bolsa ou à rentabilidade dos títulos públicos.

Também precisa considerar quantas famílias conseguem melhorar a qualidade de vida, iniciar um negócio, adquirir patrimônio e conquistar uma moradia digna.

O crescimento econômico é uma conquista importante. Sua capacidade de ampliar oportunidades para a população é uma dimensão igualmente relevante.

15. Informação, transparência e novas oportunidades no mercado imobiliário

Além de crédito acessível, o mercado imobiliário depende de informação clara e de oportunidades para aproximar quem deseja vender, comprar ou alugar.

Comparar preços, conhecer diferentes regiões, avaliar condições de financiamento e encontrar imóveis compatíveis com o orçamento são etapas essenciais para uma decisão patrimonial responsável.

Com essa perspectiva, o Hoje Bahia prepara para novembro o lançamento de sua plataforma de Classificados Hoje Bahia, que abrirá espaço para anúncios e oportunidades no mercado imobiliário, aproximando proprietários, compradores, imobiliárias, construtoras e interessados em locação.

A iniciativa pretende ampliar a circulação de informações sobre imóveis disponíveis, permitindo que o público conheça e compare alternativas de mercado.

Afinal, em um país onde conquistar a casa própria ainda exige tanto planejamento, o acesso à informação também representa uma ferramenta importante para transformar oportunidades em decisões conscientes.

Porque mais importante do que saber quanto vale um imóvel é entender quanto custa conquistá-lo — e quais caminhos podem tornar esse objetivo possível.


Editorial Imobiliário | Hoje Bahia

Análise econômica e imobiliária com base em indicadores oficiais do Banco Central, IBGE, Tesouro Nacional, Anbima, Abecip, Ministério das Cidades, Caixa Econômica Federal e Índice FipeZAP. Dados atualizados até 13 de outubro de 2026.

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