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MANIPULAÇÃO

Campanha de Flávio pagou R$ 600 mil a empresa citada em denúncia sobre manipulação eleitoral com IA

Elytron confirma contratação, mas nega oferecer operações clandestinas; não há comprovação pública de que a campanha tenha utilizado o sistema denunciado

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 20 de outubro de 2026 às 08:38 • Salvador - BA
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Campanha de Flávio Bolsonaro contratou a Elytron, citada em denúncia sobre oferta de manipulação eleitoral com inteligência artificial. A empresa nega irregularidades; não há comprovação pública de uso do sistema pela campanha.
Campanha de Flávio Bolsonaro contratou a Elytron, citada em denúncia sobre oferta de manipulação eleitoral com inteligência artificial. A empresa nega irregularidades; não há comprovação pública de uso do sistema pela campanha. — Ilustração gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência contratou a Elytron, empresa de cibersegurança citada em uma denúncia sobre oferta de ferramentas de inteligência artificial para manipulação eleitoral. A contratação é reconhecida pela companhia, que afirma ter prestado exclusivamente serviços de proteção tecnológica. A campanha também nega irregularidades. Não há comprovação pública de que o sistema denunciado tenha sido utilizado pelo candidato ou pelo partido.

A revelação foi publicada pelo Intercept Brasil em 16 de outubro, a partir de documentos fornecidos pelo empreendedor norte-americano Vincent Edward Reed, apresentado como ex-consultor. Segundo seu relato, a tecnologia teria sido oferecida a interlocutores ligados à campanha de Donald Trump em 2024 e permitiria combinar dados de eleitores com perfis falsos, desinformação e conteúdos sintéticos para atingir adversários. A reportagem não confirmou contratação pela campanha americana.

Pagamentos e mudança no contrato

Segundo o levantamento do Intercept sobre registros eleitorais, duas notas válidas somam R$ 600 mil para a campanha de Flávio. Outra, de R$ 500 mil, aparece cancelada. O PL também informou pagamento separado de R$ 131,9 mil à empresa.

À Folha de S.Paulo, a Elytron explicou que o contrato inicialmente firmado por R$ 1 milhão foi cancelado e posteriormente houve formalização de um aditivo de R$ 600 mil. A companhia sustenta que os R$ 131,9 mil do partido correspondem a outra contratação. Considerados os valores informados para campanha e legenda, o total é de R$ 731,9 mil.

Campanha diz que contratou proteção contra ataques

Em resposta escrita divulgada pelo Intercept, a assessoria de Flávio afirma que o serviço foi contratado para proteger seus sistemas de comunicação contra ataques cibernéticos.

A campanha sustenta que a contratação teve escopo definido, documentação fiscal e prestação de contas à Justiça Eleitoral. Também classifica a associação com manipulação política como infundada e motivada por interesses eleitorais.

Na resposta detalhada da Elytron, o contrato presidencial contempla apoio forense, investigação de phishing — técnica de fraude usada para obter dados ou acessos —, testes de segurança, monitoramento de infraestrutura e suporte técnico ao setor jurídico.

Já o contrato com o PL inclui proteção de dispositivos e infraestrutura, monitoramento de ameaças digitais e capacitação de funcionários. A empresa nega tratar bases de eleitores, segmentar públicos, direcionar mensagens ou produzir e impulsionar conteúdos. Afirma ainda que os serviços devem ser comprovados por relatórios técnicos e registros de atividades.

Respostas distinguem empresas e representantes

Uma questão central da controvérsia é identificar quem ofereceu as ferramentas denunciadas e com qual autorização.

A Elytron brasileira afirma que Jorge Remígio e Ludgero de Sousa são parceiros comerciais independentes, remunerados pela indicação de oportunidades, e que não foram autorizados a oferecer operações de influência política.

Remígio se apresenta como co-CEO da Elytron Security Technology Consulting Lda para Europa, Oriente Médio e África. Em sua resposta, sustenta que a sociedade portuguesa é distinta da brasileira. Reconhece que Reed buscava potenciais negócios, mas nega contatos com a equipe de Trump e a oferta de campanhas de desinformação.

Sousa também declara ocupar cargo de direção na empresa portuguesa. Confirma que Reed assinou um contrato de comissão para trazer possíveis clientes, mas afirma que nenhum negócio foi concretizado. Nega reuniões com representantes de Trump e diz que as ferramentas apresentadas eram de inteligência artificial, análise de dados e cibersegurança.

Em nota pública, a Elytron brasileira afirma que nunca teve relação comercial com Reed e que tomou conhecimento dele pela reportagem. A companhia nega oferecer ou autorizar manipulação eleitoral e operações clandestinas.

Prerrogativas pediu apuração à PF e à Justiça Eleitoral

O grupo jurídico Prerrogativas, alinhado ao governo Lula, acionou a Polícia Federal e a Justiça Eleitoral para solicitar investigação sobre a contratação. Segundo a Folha, o pedido cobra transparência nos contratos, nos valores e nos serviços efetivamente entregues.

O acionamento das autoridades não equivale a uma conclusão sobre irregularidades. Nos documentos e fontes consultados para esta matéria, não foi localizada decisão que estabeleça que a campanha contratou ou executou manipulação eleitoral.

Para esclarecer essa hipótese, será necessário confrontar contratos, aditivos, comprovantes financeiros e relatórios de execução, além de verificar a autoria e a autorização das propostas comerciais denunciadas.

Regras eleitorais alcançam desinformação e deepfakes

O TSE estabelece exigências de identificação para conteúdos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial e proíbe desinformação capaz de prejudicar a integridade eleitoral ou favorecer ou prejudicar candidaturas.

Conforme a conduta e as responsabilidades comprovadas, as normas preveem remoção de conteúdos e consequências eleitorais e criminais. Sua aplicação depende da demonstração dos fatos: o reconhecimento da contratação de uma empresa de segurança, isoladamente, não comprova que houve operação ilegal de influência.

DOSSIÊ ELYTRON: o que a empresa anuncia e o que existe de evidência sobre manipulação eleitoral

Histórico reúne serviços de cibersegurança e ligação com comunicação eleitoral; denúncia sobre operações clandestinas ainda exige comprovação de execução e responsabilidade

A denúncia envolvendo a contratada da campanha de Flávio Bolsonaro levanta uma questão que vai além dos pagamentos: quais atividades a Elytron efetivamente desenvolve e o que permite associá-la às propostas de manipulação descritas nos documentos apresentados ao Intercept Brasil?

A análise das fontes públicas permite separar três aspectos: os serviços anunciados pela companhia, sua ligação comercial com comunicação eleitoral e as acusações sobre ferramentas clandestinas de influência.

Quem é a empresa brasileira

A razão social identificada nas bases cadastrais consultadas é Elytron Security Consultoria de Tecnologia S.A., inscrita no CNPJ 30.763.603/0001-06, com sede em São Paulo e atividade principal de consultoria em tecnologia da informação. João Lucas Melo Brasio aparece como presidente em informações cadastrais reproduzidas por essas bases.

Existe documentação pública de contratação anterior para segurança da informação. A Prefeitura de São Paulo registra o contrato 002/2019, assinado em 5 de abril daquele ano, para consultoria e auditoria em sistema informatizado municipal, pelo valor de R$ 14.987,33. Esse registro comprova uma contratação com objeto de cibersegurança, sem demonstrar relação com atividades eleitorais.

Quais são suas finalidades declaradas

Em seu site institucional, a Elytron afirma atuar na proteção de organizações, com investigação, segurança de aplicações, defesa tecnológica e identificação antecipada de ameaças. O portfólio inclui testes de invasão, análise de ameaças, perícia digital e resposta a incidentes.

A companhia também anuncia o serviço Red Team, descrito como uma simulação de ataques para avaliar sistemas, processos e pessoas. A metodologia apresentada inclui reconhecimento, tentativa de acesso, movimentação em redes e simulação de retirada de dados, seguida de relatório com recomendações de defesa. A descrição desse serviço, por si só, não demonstra invasão ilícita nem manipulação eleitoral.

Ligação com comunicação eleitoral aparece em apresentação pública

Uma conexão diretamente verificável com o mercado de campanhas está no site da Katana. A agência se apresenta como resultado da união entre a Nova Estratégia Comunicação Institucional Pública e Eleitoral e a Elytron Security.

A Katana anuncia estratégias de comunicação hipersegmentadas, apoiadas em análises de dados. Em sua apresentação, atribui à Nova Estratégia a experiência em comunicação institucional, pública e eleitoral, e à Elytron a proteção contra invasões e vazamentos.

Essa apresentação documenta uma associação comercial entre segurança digital e comunicação de campanhas. Entretanto, não demonstra que a Katana tenha participado do contrato de Flávio, utilizado dados de maneira irregular ou executado as ações clandestinas denunciadas.

O que os documentos denunciados descrevem

Segundo a investigação do Intercept, os materiais fornecidos por Vincent Edward Reed descrevem coleta e cruzamento de dados, identificação de grupos de eleitores e ações para influenciar sua percepção. Entre as práticas mencionadas estão contas falsas, disseminação de rumores, avatares de inteligência artificial, deepfakes e infiltração em redes adversárias.

Uma especialista em operações de influência ouvida pela reportagem avaliou que o planejamento descrito ultrapassa o monitoramento convencional de redes. Essa avaliação diz respeito ao conteúdo dos documentos; não constitui comprovação de que as ações foram executadas para determinado cliente.

A quem devem ser atribuídas as propostas?

A autoria, a autorização e a responsabilidade pelas ofertas são pontos centrais ainda controversos.

A Elytron brasileira afirma que não oferece operações de influência política e que não autorizou parceiros a comercializá-las. Diz também que Jorge Remígio e Ludgero de Sousa são parceiros independentes para indicação de negócios, sem integrar a direção da empresa brasileira.

Remígio se identifica como co-CEO da sociedade portuguesa Elytron Security Technology Consulting Lda e sustenta que ela é distinta da brasileira. Reconhece que Reed buscava possíveis negócios, mas nega tratativas com a equipe de Donald Trump e campanhas de desinformação.

Sousa também declara ocupar cargo de direção na sociedade portuguesa. Confirma a existência de um contrato de comissão com Reed para prospecção de clientes, mas afirma que não houve negócios concretizados nem contatos com representantes de Trump.

Já a nota pública da Elytron brasileira afirma que a companhia nunca manteve relação comercial com Reed. Para esclarecer essas versões, é necessário identificar as pessoas jurídicas envolvidas em cada contrato e o alcance da autorização concedida aos representantes.

Há comprovação de manipulação efetivamente realizada?

Nas fontes públicas consultadas para este levantamento, não foi localizado um caso de manipulação eleitoral executada pela Elytron e comprovada por decisão judicial, perícia independente ou relatório técnico de plataforma que atribua a operação à empresa.

Isso delimita o alcance desta apuração e não representa uma certificação de inexistência de irregularidades.

Até aqui, o material permite distinguir:

  • Atividades anunciadas: serviços de cibersegurança e associação comercial com comunicação eleitoral.
  • Acusação documentada pela reportagem: oferta de métodos clandestinos de influência, cuja autorização e atribuição são contestadas.
  • Execução para a campanha brasileira: não demonstrada publicamente no material examinado.
  • Alteração de resultados eleitorais: não comprovada.

A reportagem original também ressalva que não encontrou evidências de uso do sistema denunciado pela campanha de Flávio ou pelo PL.

O que falta esclarecer

A comprovação de uma operação exigiria ligar as propostas comerciais a ordens de serviço, pagamentos, responsáveis e atividades concretas. Entre os documentos relevantes estão contratos e aditivos, relatórios de execução, arquivos originais das apresentações e comunicações sobre sua oferta.

Também seriam necessários elementos capazes de atribuir eventuais perfis falsos, conteúdos fabricados e redes de distribuição aos executores e contratantes.

A existência de ferramentas ou de uma apresentação comercial não demonstra, isoladamente, seu uso. Da mesma forma, a negativa dos envolvidos não substitui o exame dos registros. O ponto decisivo é estabelecer o que foi autorizado, contratado e efetivamente entregue.

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