A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência contratou a Elytron, empresa de cibersegurança citada em uma denúncia sobre oferta de ferramentas de inteligência artificial para manipulação eleitoral. A contratação é reconhecida pela companhia, que afirma ter prestado exclusivamente serviços de proteção tecnológica. A campanha também nega irregularidades. Não há comprovação pública de que o sistema denunciado tenha sido utilizado pelo candidato ou pelo partido.
A revelação foi publicada pelo Intercept Brasil em 16 de outubro, a partir de documentos fornecidos pelo empreendedor norte-americano Vincent Edward Reed, apresentado como ex-consultor. Segundo seu relato, a tecnologia teria sido oferecida a interlocutores ligados à campanha de Donald Trump em 2024 e permitiria combinar dados de eleitores com perfis falsos, desinformação e conteúdos sintéticos para atingir adversários. A reportagem não confirmou contratação pela campanha americana.
Pagamentos e mudança no contrato
Segundo o levantamento do Intercept sobre registros eleitorais, duas notas válidas somam R$ 600 mil para a campanha de Flávio. Outra, de R$ 500 mil, aparece cancelada. O PL também informou pagamento separado de R$ 131,9 mil à empresa.
À Folha de S.Paulo, a Elytron explicou que o contrato inicialmente firmado por R$ 1 milhão foi cancelado e posteriormente houve formalização de um aditivo de R$ 600 mil. A companhia sustenta que os R$ 131,9 mil do partido correspondem a outra contratação. Considerados os valores informados para campanha e legenda, o total é de R$ 731,9 mil.
Campanha diz que contratou proteção contra ataques
Em resposta escrita divulgada pelo Intercept, a assessoria de Flávio afirma que o serviço foi contratado para proteger seus sistemas de comunicação contra ataques cibernéticos.
A campanha sustenta que a contratação teve escopo definido, documentação fiscal e prestação de contas à Justiça Eleitoral. Também classifica a associação com manipulação política como infundada e motivada por interesses eleitorais.
Na resposta detalhada da Elytron, o contrato presidencial contempla apoio forense, investigação de phishing — técnica de fraude usada para obter dados ou acessos —, testes de segurança, monitoramento de infraestrutura e suporte técnico ao setor jurídico.
Já o contrato com o PL inclui proteção de dispositivos e infraestrutura, monitoramento de ameaças digitais e capacitação de funcionários. A empresa nega tratar bases de eleitores, segmentar públicos, direcionar mensagens ou produzir e impulsionar conteúdos. Afirma ainda que os serviços devem ser comprovados por relatórios técnicos e registros de atividades.
Respostas distinguem empresas e representantes
Uma questão central da controvérsia é identificar quem ofereceu as ferramentas denunciadas e com qual autorização.
A Elytron brasileira afirma que Jorge Remígio e Ludgero de Sousa são parceiros comerciais independentes, remunerados pela indicação de oportunidades, e que não foram autorizados a oferecer operações de influência política.
Remígio se apresenta como co-CEO da Elytron Security Technology Consulting Lda para Europa, Oriente Médio e África. Em sua resposta, sustenta que a sociedade portuguesa é distinta da brasileira. Reconhece que Reed buscava potenciais negócios, mas nega contatos com a equipe de Trump e a oferta de campanhas de desinformação.
Sousa também declara ocupar cargo de direção na empresa portuguesa. Confirma que Reed assinou um contrato de comissão para trazer possíveis clientes, mas afirma que nenhum negócio foi concretizado. Nega reuniões com representantes de Trump e diz que as ferramentas apresentadas eram de inteligência artificial, análise de dados e cibersegurança.
Em nota pública, a Elytron brasileira afirma que nunca teve relação comercial com Reed e que tomou conhecimento dele pela reportagem. A companhia nega oferecer ou autorizar manipulação eleitoral e operações clandestinas.
Prerrogativas pediu apuração à PF e à Justiça Eleitoral
O grupo jurídico Prerrogativas, alinhado ao governo Lula, acionou a Polícia Federal e a Justiça Eleitoral para solicitar investigação sobre a contratação. Segundo a Folha, o pedido cobra transparência nos contratos, nos valores e nos serviços efetivamente entregues.
O acionamento das autoridades não equivale a uma conclusão sobre irregularidades. Nos documentos e fontes consultados para esta matéria, não foi localizada decisão que estabeleça que a campanha contratou ou executou manipulação eleitoral.
Para esclarecer essa hipótese, será necessário confrontar contratos, aditivos, comprovantes financeiros e relatórios de execução, além de verificar a autoria e a autorização das propostas comerciais denunciadas.
Regras eleitorais alcançam desinformação e deepfakes
O TSE estabelece exigências de identificação para conteúdos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial e proíbe desinformação capaz de prejudicar a integridade eleitoral ou favorecer ou prejudicar candidaturas.
Conforme a conduta e as responsabilidades comprovadas, as normas preveem remoção de conteúdos e consequências eleitorais e criminais. Sua aplicação depende da demonstração dos fatos: o reconhecimento da contratação de uma empresa de segurança, isoladamente, não comprova que houve operação ilegal de influência.
DOSSIÊ ELYTRON: o que a empresa anuncia e o que existe de evidência sobre manipulação eleitoral
Histórico reúne serviços de cibersegurança e ligação com comunicação eleitoral; denúncia sobre operações clandestinas ainda exige comprovação de execução e responsabilidade
A denúncia envolvendo a contratada da campanha de Flávio Bolsonaro levanta uma questão que vai além dos pagamentos: quais atividades a Elytron efetivamente desenvolve e o que permite associá-la às propostas de manipulação descritas nos documentos apresentados ao Intercept Brasil?
A análise das fontes públicas permite separar três aspectos: os serviços anunciados pela companhia, sua ligação comercial com comunicação eleitoral e as acusações sobre ferramentas clandestinas de influência.
Quem é a empresa brasileira
A razão social identificada nas bases cadastrais consultadas é Elytron Security Consultoria de Tecnologia S.A., inscrita no CNPJ 30.763.603/0001-06, com sede em São Paulo e atividade principal de consultoria em tecnologia da informação. João Lucas Melo Brasio aparece como presidente em informações cadastrais reproduzidas por essas bases.





