As denúncias de que a Meta prejudica a campanha de Lula enquanto favorece Flávio Bolsonaro chegaram ao Congresso dos Estados Unidos. Em carta enviada na quinta-feira, 22, a Mark Zuckerberg, 13 parlamentares estadunidenses cobram providências imediatas para garantir igualdade de tratamento na disputa presidencial brasileira. Dona do Instagram, Facebook e WhatsApp, a empresa é questionada sobre bloqueios a conteúdos do petista e recomendações de publicações do adversário.
Assinado pelo senador Bernie Sanders e por 12 deputados democratas, entre eles Pramila Jayapal, o documento aumenta a pressão internacional por transparência no funcionamento das plataformas. A iniciativa se soma à cobrança da campanha de Lula por uma disputa equilibrada nas redes sociais às vésperas do segundo turno, marcado para domingo, 25.
O problema vai além de uma publicação retirada do ar: envolve os mecanismos que decidem quais mensagens chegam aos eleitores e quais ficam pelo caminho. A preocupação com essas ferramentas já havia motivado um experimento da Anistia Internacional sobre falhas da Meta para barrar desinformação eleitoral. Agora, os congressistas querem acesso a informações que permitam verificar se as candidaturas recebem as mesmas condições de comunicação com a população.
“É inaceitável que qualquer plataforma de rede social favoreça um candidato ou partido político em detrimento de outro, seja deliberadamente ou inadvertidamente”, afirmam os signatários, em tradução livre.
Os parlamentares solicitaram uma reunião de esclarecimentos e respostas por escrito a seis perguntas. Também ressaltam que cabe ao Congresso fiscalizar empresas estadunidenses para impedir que influenciem o resultado de eleições em outros países.

Bloqueios de um lado, recomendações do outro

A carta reúne uma sequência de episódios que atingiram a comunicação da campanha de Lula. O primeiro é a desativação da conta de anúncios no Facebook em 23 de setembro, a 11 dias do primeiro turno. Sem essa ferramenta, a campanha ficou impedida de contratar novas propagandas pela conta afetada.
Outro caso ocorreu entre 9 e 10 de outubro, quando a campanha enfrentou restrições para pagar pela ampliação do alcance de publicações no Instagram durante quase 24 horas. Segundo estimativa da equipe de Lula citada no documento, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de receber os anúncios.
Os congressistas também mencionam reportagem da Folha de S.Paulo baseada em mensagens internas da Meta. As conversas mostram que funcionários tinham conhecimento tanto das restrições que prejudicavam Lula quanto das recomendações automáticas favoráveis a Flávio no Instagram e no WhatsApp. Essas recomendações apresentam perfis e conteúdos aos usuários sem que eles precisem procurá-los.
O documento cita ainda um levantamento da organização “Ctrl+Z” com mais de mil relatos de restrições durante a campanha eleitoral. Segundo a entidade, os casos atingiam predominantemente contas favoráveis a Lula e incluíam redução do alcance das publicações, limitação de funções e remoção de perfis e postagens.
A inteligência artificial da empresa também aparece na cobrança. A carta menciona testes divulgados pela imprensa nos quais a ferramenta produzia material de apoio a Flávio, mas recusava pedidos equivalentes em favor de Lula.

Auditoria e perguntas sobre o Governo Trump

Os parlamentares querem que a Meta permita uma auditoria independente dos dados sobre retirada, restrição e distribuição de conteúdos políticos relacionados à eleição brasileira. O objetivo é verificar, com acesso aos registros internos, se a empresa efetivamente garante tratamento igualitário aos candidatos.
Outra pergunta é dirigida à relação da companhia com o Governo Donald Trump. Os signatários questionam se houve conversas com integrantes da administração estadunidense sobre as eleições brasileiras, o Judiciário, propostas de regulação das plataformas ou a política dos Estados Unidos para o Brasil. Caso tenham ocorrido, pedem a divulgação dos registros, incluindo e-mails, mensagens e reuniões.
A carta também cobra uma explicação sobre quando a Meta tomou conhecimento das diferenças de tratamento relatadas por seus funcionários e em que momento agiu para corrigi-las.
Os congressistas querem, ainda, conhecer as 17 iniciativas que a empresa informou ter adotado para cumprir determinações da Justiça Eleitoral. Entre elas está a revisão humana, em até duas horas, de restrições automáticas às contas de anúncios das campanhas presidenciais. A cobrança é para que a companhia explique como fará essa regra funcionar e como fiscalizará seu cumprimento.