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EDITORIAL

Cortar benefícios sociais é ameaçar a economia do interior do Brasil

Estudo da USP alerta que a estagnação de aposentadorias, BPC e Bolsa Família pode reduzir a renda dos municípios em até 10,8%, ampliar a pobreza e prejudicar o comércio local. Na Bahia, até 336 mil pessoas poderiam ser empurradas para a pobreza em um cenário sem valorização real dos benefícios.

Redação HOJE BAHIA - Jorge Matos
Publicada em 18 de outubro de 2026 às 10:00
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Cortar benefícios sociais é ameaçar a economia do interior do Brasil
Foto: Joédson Alves / Agência Brasil

O dinheiro que chega às famílias mais pobres não fica parado na conta bancária. Ele vira comida na mesa, remédio, gás de cozinha, material escolar e compras na mercearia da esquina. É esse recurso que também ajuda a manter pequenos negócios funcionando, empregos de pé e a economia de milhares de municípios brasileiros em movimento.

É por isso que a estagnação ou o corte no poder de compra de aposentadorias, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e do Bolsa Família pode provocar consequências que vão muito além do orçamento doméstico. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), alerta para o risco de uma retração econômica significativa nas cidades do interior do país.

A pesquisa demonstra que os benefícios sociais e previdenciários têm peso decisivo na renda de milhões de brasileiros, especialmente nos municípios distantes dos grandes centros urbanos. Nessas localidades, o dinheiro transferido pelo poder público não representa apenas proteção social: é também um dos motores da atividade econômica.

O dinheiro dos benefícios movimenta as cidades

Dos 5.569 municípios brasileiros considerados pelo levantamento, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, a participação das transferências públicas na economia pode chegar ao dobro daquela observada nos grandes centros urbanos.

O Ceará oferece um exemplo expressivo: enquanto aposentadorias e benefícios sociais representam 22% da renda agregada da capital e de sua região metropolitana, no interior essa participação chega a 40%.

A explicação é simples. Famílias com rendimentos baixos destinam grande parte do dinheiro recebido à compra de produtos e serviços essenciais. O recurso circula no comércio, sustenta pequenos empreendedores e contribui para a manutenção de postos de trabalho.

Segundo Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, uma redução no poder de compra dessas famílias pode desencadear uma reação em cadeia, atingindo inclusive pessoas que não dependem diretamente dos programas sociais.

Quando a aposentadoria perde valor, o aposentado compra menos. Quando o beneficiário do Bolsa Família precisa reduzir suas despesas, o mercadinho vende menos, o pequeno comerciante fatura menos e a economia local sente os efeitos. O impacto, portanto, não se limita a quem recebe o benefício.

O que acontece se os benefícios perderem valor?

O estudo comparou diferentes trajetórias de renda dos benefícios sociais e previdenciários, tomando como referência os períodos de 2019 a 2022 e de 2022 a 2025, e projetou possíveis efeitos econômicos para os três anos seguintes.

Nas simulações, a ausência de reajustes que garantam ganhos reais poderia deixar a renda agregada dos municípios do interior entre 6,8% e 10,8% abaixo do nível alcançado no cenário de valorização dos benefícios.

As perdas seriam ainda mais expressivas em alguns estados. No interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, a retração projetada chegaria a 17% ou 18%. Amazonas, Sergipe e Pernambuco também apresentariam perdas expressivas, próximas de 15%.

Na Bahia, no Maranhão, no Ceará e em Alagoas, a redução estimada ficaria entre 10% e 13%.

São projeções baseadas em cenários econômicos, e não previsões de que esses cortes necessariamente ocorrerão. Ainda assim, os números mostram a dimensão do risco associado à perda de poder de compra das famílias que dependem dessas transferências.

Bahia: o alerta para a pobreza

Para a Bahia, os dados merecem atenção especial. De acordo com as simulações do levantamento, a ausência de ganhos reais nos benefícios no período analisado poderia ter levado até 336 mil pessoas a mais à pobreza no estado.

Em todo o conjunto dos municípios brasileiros situados fora das regiões metropolitanas, o estudo estima que aproximadamente 2,7 milhões de pessoas poderiam ter sido empurradas para a pobreza caso os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025. Desse total, cerca de 2,4 milhões estariam em situação de extrema pobreza.

A pesquisa ressalta que, para famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa, os benefícios podem representar até metade do rendimento familiar.

Nesse contexto, reajustes inferiores à inflação significam perda efetiva de poder de compra. O dinheiro recebido passa a comprar menos alimentos, menos medicamentos e menos itens essenciais, aumentando a vulnerabilidade de quem já vive com recursos limitados.


Proteção social também é política econômica

O debate sobre aposentadorias, BPC e Bolsa Família não pode ser reduzido a uma discussão sobre despesas do governo. É necessário considerar também os efeitos desses recursos sobre o consumo, a geração de renda e a sobrevivência dos pequenos negócios.

Isso não significa ignorar a importância da responsabilidade fiscal ou a necessidade de avaliar a sustentabilidade das políticas públicas. Significa reconhecer que decisões sobre benefícios sociais produzem consequências concretas na vida das pessoas e no funcionamento das economias locais.

Em municípios onde aposentadorias e transferências de renda têm grande participação na atividade econômica, a perda de poder aquisitivo pode enfraquecer o comércio, reduzir a circulação de dinheiro e aprofundar desigualdades.

A valorização real dos benefícios, por sua vez, ajuda a preservar a capacidade de compra das famílias e a movimentação econômica das comunidades.

Como destaca o estudo do Made-USP, garantir o poder de compra da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é fundamental para proteger as famílias mais vulneráveis e evitar impactos negativos sobre o comércio local.

No Brasil profundo, onde o pequeno comércio muitas vezes representa uma das principais fontes de trabalho e renda, o dinheiro destinado à proteção social também movimenta a economia.

O desafio do país é conciliar responsabilidade fiscal, combate à pobreza e desenvolvimento econômico. Ignorar a relação entre esses fatores significa desconsiderar uma realidade que milhões de brasileiros conhecem todos os dias: quando falta dinheiro na mesa de uma família, a economia da comunidade inteira pode sentir o impacto.

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