Da cadeia à disputa por territórios: como as facções cresceram na Bahia e o que os candidatos prometem para enfrentar o crime organizado
Grupos surgidos no sistema prisional, alianças com organizações nacionais e disputas territoriais mudaram a dinâmica da criminalidade no estado. Enquanto forças de segurança ampliam inteligência, tecnologia e operações integradas, a segurança está entre os temas da disputa pelo Governo da Bahia
João Branko | Redação HOJE BAHIA Publicada em 02 de outubro de 2026 às 11:56 • Salvador - BA
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A expansão das facções pelo território baiano ampliou o desafio da segurança pública. Inteligência, investigação, tecnologia e integração entre forças estaduais e federais estão entre as estratégias utilizadas no enfrentamento ao crime organizado. — Imagem ilustrativa / Hoje Bahia – IA
A presença de homens armados, confrontos entre grupos rivais, operações policiais e mudanças repentinas na rotina de determinados bairros são a face mais visível de um fenômeno construído ao longo de anos na Bahia.
Por trás dos episódios cotidianos existe uma estrutura mais complexa: facções criminosas que surgiram ou se fortaleceram dentro do sistema prisional, estabeleceram alianças, sofreram divisões, expandiram áreas de influência e criaram conexões com organizações de outros estados.
O cenário atual não surgiu de uma vez.
É resultado de um processo que atravessa quase duas décadas e que transformou o combate ao crime organizado em um dos maiores desafios da segurança pública baiana.
Na outra ponta estão milhões de moradores que esperam algo muito mais simples do Estado: poder sair de casa, trabalhar, estudar, utilizar o transporte público e voltar para casa com segurança.
Às vésperas das Eleições 2026, a questão inevitavelmente chega também às urnas.
Como a Bahia chegou até aqui? O que as forças de segurança estão fazendo? E o que os candidatos ao Governo do Estado propõem?
O início: facções ganham força dentro dos presídios
Um dos marcos importantes dessa história ocorre em 2007, quando surge o Comando da Paz (CP) no sistema prisional de Salvador.
A organização ganhou projeção e passou a exercer influência fora das unidades prisionais, especialmente em territórios da capital.
Ao longo dos anos seguintes, prisões, mortes de lideranças, rompimentos internos e novas alianças contribuíram para uma sucessão de grupos e dissidências.
Nesse processo ganhou força o Bonde do Maluco (BDM), que se tornou uma das organizações criminosas de maior presença na Bahia.
Paralelamente, facções originadas fora do estado passaram a estabelecer conexões no território baiano.
Entre elas estão o Comando Vermelho (CV), surgido no Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), originário de São Paulo.
Reportagens, investigações policiais e estudos acadêmicos apontam que alianças entre grupos locais e organizações nacionais ajudaram a modificar a configuração do crime organizado no estado. (correio24horas.com.br)
A fragmentação mudou o problema
A Bahia não possui simplesmente duas organizações dividindo o território.
O quadro é mais fragmentado.
Além de BDM, CV e PCC, investigações das forças de segurança registraram ao longo dos últimos anos organizações e grupos locais como Katiara, além de dissidências e alianças que podem mudar conforme prisões, mortes de lideranças e disputas locais.
Isso significa que qualquer mapa sobre facções precisa ser interpretado como um retrato de determinado período, e não como uma fronteira permanente.
Uma área de influência pode mudar.
Um grupo pode romper uma aliança.
Uma liderança pode ser presa.
E uma disputa localizada pode alterar rapidamente a configuração de determinado território.
Por isso, o Hoje Bahia opta por não publicar um mapa rua por rua ou comunidade por comunidade atribuindo bairros a organizações criminosas.
Além do risco de desatualização, bairros são formados por milhares de trabalhadores, famílias e comerciantes e não podem ser confundidos com organizações criminosas que eventualmente atuem naquele território.
O mapa macro do problema
Em escala regional, entretanto, investigações policiais e estudos permitem visualizar a expansão do fenômeno.
Salvador e Região Metropolitana concentram parte significativa das disputas e operações relacionadas ao crime organizado.
O Recôncavo aparece conectado à dinâmica metropolitana e aos principais corredores rodoviários.
Feira de Santana, pelo tamanho populacional e posição logística estratégica, também aparece repetidamente em investigações relacionadas a organizações criminosas.
No interior, operações alcançaram cidades das regiões Sudoeste, Médio Rio de Contas, Sul e Extremo Sul, entre outras áreas.
Rodovias como a BR-324 e a BR-101 também possuem importância estratégica na circulação entre Salvador, RMS e diferentes regiões do estado.
O resultado é que o problema deixou há muito tempo de ser exclusivamente da capital.
Quando a disputa chega à rua
A competição entre organizações criminosas tem consequências que ultrapassam os próprios integrantes desses grupos.
Confrontos podem modificar temporariamente o funcionamento de comunidades, afetar transporte, comércio e escolas e aumentar a sensação de insegurança entre moradores.
Há ainda outro elemento: as próprias operações policiais.
Dados do Instituto Fogo Cruzado apontaram 656 tiroteios em Salvador e Região Metropolitana durante o primeiro semestre de 2026.
Segundo a organização, 366 ocorreram durante ações ou operações policiais, correspondendo a 56% dos registros monitorados no período — a maior proporção desde que o instituto começou seu monitoramento na Bahia. (fogocruzado.org.br)
O dado acrescenta outra dimensão ao debate: como enfrentar organizações fortemente armadas reduzindo simultaneamente os riscos para a população que vive nesses territórios?
A violência continua alta — mas houve redução
Os números exigem contexto.
Evolução dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) na Bahia entre 2012 e 2025. A série mostra oscilações ao longo do período, com pico em 2016 e redução nos anos mais recentes. Em 2025, foram registrados 3.884 CVLIs, queda de 13,1% em relação a 2024.
Fonte: SSP-BA Arte: Hoje Bahia
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 contabilizou 5.473 mortes violentas intencionais na Bahia em 2025, seguindo a metodologia utilizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ao mesmo tempo, indicadores estaduais apontaram redução da violência letal.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, foram registrados 3.884 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) em 2025, queda de 13,1% em relação a 2024.
Em Salvador, a redução informada foi de 22,9%. Na Região Metropolitana, de 21,2%.
Os números não são diretamente comparáveis porque MVI e CVLI possuem metodologias e categorias distintas.
O dado importante é que a redução registrada nos indicadores recentes convive com patamares de violência que permanecem elevados.
A inteligência muda a forma de combater as facções
Se durante décadas o enfrentamento ao crime organizado esteve associado principalmente à presença policial nas ruas, uma parcela cada vez maior dessa guerra acontece longe das câmeras.
São análises de dados, interceptações autorizadas judicialmente, investigações financeiras, identificação de lideranças, cooperação interestadual e operações simultâneas.
A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado na Bahia (FICCO/BA) tornou-se uma das principais estruturas dessa estratégia.
O modelo reúne forças federais e estaduais para compartilhar informações e realizar investigações conjuntas.
Estudo publicado em 2026 sobre a atuação da FICCO entre 2023 e 2025 identificou crescimento das operações integradas e forte componente interestadual nas investigações. (revistasusp.mj.gov.br)
A lógica é simples: se as organizações criminosas ultrapassaram as fronteiras dos estados, a investigação também precisa ultrapassá-las.
A perseguição às lideranças atravessa fronteiras
Em maio deste ano, uma operação envolvendo a Secretaria da Segurança Pública, Polícia Federal, Polícia Civil e FICCO Bahia chegou até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
Um homem apontado pelas autoridades como liderança de organização criminosa com atuação na Bahia foi localizado e capturado. (ba.gov.br)
Em setembro, a Operação Eirene II cumpriu 102 mandados em uma investigação sobre organização criminosa com atuação principalmente na região de Jequié.
A operação chegou a Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
Os casos ajudam a mostrar como o crime organizado deixou de obedecer aos limites municipais — e até estaduais.
Tecnologia entra no combate ao crime
Outra frente é a tecnologia.
A SSP utiliza ferramentas de geoprocessamento para identificar concentração de ocorrências e padrões espaciais da criminalidade. (ba.gov.br)
O reconhecimento facial também se tornou uma das principais vitrines tecnológicas da segurança pública estadual.
Em maio, o Governo da Bahia informou que o sistema havia alcançado mil foragidos localizados somente em 2026.
O número, entretanto, engloba pessoas procuradas por diferentes tipos de crimes e mandados judiciais e não significa que os mil capturados fossem integrantes de facções criminosas.
O dinheiro também virou alvo
Especialistas e forças policiais vêm destacando outro componente do enfrentamento: atingir a estrutura econômica das organizações.
Uma facção precisa financiar compra de drogas, armas, veículos, imóveis, comunicação e pagamento de integrantes.
Por isso, investigações financeiras, bloqueio judicial de valores, identificação de empresas utilizadas para lavagem de dinheiro e apreensão patrimonial passaram a integrar grandes operações.
A lógica é tentar atingir não apenas quem executa crimes na rua, mas a estrutura financeira que permite à organização continuar funcionando.
O medo não aparece apenas nas estatísticas de homicídio
Existe uma dimensão da segurança pública difícil de medir: a liberdade de circular.
Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 41,2% dos brasileiros entrevistados disseram perceber a presença de facções ou milícias em seus bairros.
Nas capitais, a proporção chegou a 55,9%.
Entre aqueles que percebem a presença desses grupos, 81% disseram ter medo de ficar no meio de um confronto armado e 74,9% afirmaram evitar determinados locais. Os números são nacionais e não representam especificamente a população baiana, mas ajudam a dimensionar a percepção social do problema. (fontesegura.forumseguranca.org.br)
Segurança, portanto, não significa apenas reduzir homicídios.
Para quem vive sob medo permanente, segurança também significa poder atravessar uma rua, abrir um comércio, mandar o filho para a escola ou pegar um ônibus sem precisar saber se determinada área está vivendo um conflito naquele dia.
E o que os candidatos ao Governo da Bahia propõem?
Com a segurança pública no centro do debate eleitoral, os candidatos apresentam diferentes propostas para enfrentar violência e criminalidade.
O Hoje Bahia consultou propostas divulgadas durante a campanha e documentos eleitorais. A apresentação abaixo é descritiva e não representa avaliação sobre a eficácia das medidas.
O candidato do União Brasil apresenta entre suas propostas a criação de unidades estaduais de segurança máxima destinadas ao isolamento de lideranças criminosas.
Também defende expansão do monitoramento tecnológico, utilização de drones integrada a câmeras e sistemas de leitura de placas e implantação de modelo de policiamento comunitário territorializado.
A candidatura também relaciona o enfrentamento das facções ao controle do sistema prisional e ao uso de inteligência policial. (bahianoticias.com.br)
Candidato à reeleição pelo PT, Jerônimo propõe ampliar a capacidade investigativa e a resolução de inquéritos, concentrar policiamento ostensivo em áreas consideradas críticas e consolidar o chamado Policiamento Orientado pela Inteligência.
Entre as propostas está uma Plataforma Estadual Integrada de Dados e Inteligência, além da ampliação da cooperação entre Estado e municípios.
Na campanha, Jerônimo também apresenta a redução recente dos indicadores de violência letal, investimentos em infraestrutura e ampliação do efetivo como resultados de sua administração. (bahianoticias.com.br)
O candidato do PSOL associa sua política de segurança pública a direitos humanos, prevenção e políticas sociais.
Entre suas propostas estão capacitação permanente das forças policiais, protocolos públicos para operações, utilização de câmeras por policiais em serviço nas ruas e investigação autônoma pelo Ministério Público das mortes provocadas por agentes do Estado. (bahianoticias.com.br)
Demais candidaturas
A disputa pelo Governo da Bahia também possui as candidaturas de Ariel Capistrano (DC), Maria Bona (PCO) e Aroldo Felix (UP), conforme o registro eleitoral consultado no TSE. (sig.tse.jus.br)
As propostas específicas dessas candidaturas para segurança pública devem ser consideradas conforme seus programas registrados e manifestações públicas, observando o nível de detalhamento apresentado por cada campanha.
A eleição termina. O problema, não.
Prisões de lideranças, apreensões, tecnologia e operações policiais podem modificar a estrutura de organizações criminosas. Mas a experiência das últimas décadas mostra também a capacidade desses grupos de reorganização, fragmentação e substituição de lideranças.
Daí surge talvez a questão mais importante deste debate.
Como impedir que a prisão de uma liderança simplesmente abra espaço para outra?
A resposta passa por policiamento, investigação e inteligência, mas o debate público inclui também sistema penitenciário, lavagem de dinheiro, controle de armas, prevenção, urbanização, educação, oportunidades econômicas e presença permanente do Estado em territórios vulneráveis.
No domingo, os baianos escolherão quem comandará o Estado pelos próximos quatro anos.
Independentemente do resultado das urnas, o próximo governo receberá um desafio que já atravessou diferentes administrações: reduzir a capacidade das organizações criminosas de controlar territórios e, principalmente, devolver à população algo que deveria ser cotidiano — o direito de viver e circular sem medo.
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