ELEIÇÕES 2026
Apuração oficialDados oficiais do TSE a partir das 17hVER RESULTADOS ›
🌤️ Previsão do tempoConsultar →
POLÍTICA E COMUNICAÇÃO

Das redes para as urnas: a eleição de 2026 mostra que a disputa política também é pela percepção da realidade

De Nikolas Ferreira a Ana Elisa e Thiago dos Reis, uma geração construída ou impulsionada no ambiente digital chega às urnas com força. Fenômeno atravessa direita e esquerda e deixa um alerta para governos, partidos e instituições: realizar já não significa necessariamente conseguir comunicar

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 05 de outubro de 2026 às 23:24 • Salvador - BA
Ouça esta matéria
Compartilhe:
A eleição virou feed? 📱🗳️ A força das redes sociais atravessa diferentes campos políticos e transforma a comunicação direta com o eleitor. Mais do que acumular seguidores, políticos e criadores disputam atenção, narrativas e a própria percepção dos fatos — uma dinâmica que ganhou ainda mais peso nas urnas de 2026.
A eleição virou feed? 📱🗳️ A força das redes sociais atravessa diferentes campos políticos e transforma a comunicação direta com o eleitor. Mais do que acumular seguidores, políticos e criadores disputam atenção, narrativas e a própria percepção dos fatos — uma dinâmica que ganhou ainda mais peso nas urnas de 2026. — Arte/Hoje Bahia.

As eleições de 2026 deixaram uma mensagem que vai muito além da composição do Congresso Nacional ou dos resultados para os governos estaduais.

Uma parte importante da política brasileira definitivamente mudou de endereço.

Ela continua acontecendo no Congresso, nos palácios, nas prefeituras, nos sindicatos, nas igrejas, nas universidades e nas ruas. Mas uma parcela crescente da disputa pela opinião pública acontece dentro da tela de um celular.

E os resultados das urnas ajudam a dimensionar esse fenômeno.

Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP), Ana Elisa (PT-MG), Erika Hilton (PSOL-SP), Thiago dos Reis (PT-SP) e outros nomes com forte presença digital obtiveram resultados expressivos em 2026.

São políticos de campos ideológicos distintos — e justamente por isso o fenômeno merece atenção.

Não se trata mais de dizer que “a direita domina as redes” ou que determinado grupo político descobriu uma ferramenta que os demais desconheciam.

As redes tornaram-se parte da própria infraestrutura da política.

NIKOLAS: 3,1 MILHÕES DE VOTOS

Talvez nenhum resultado simbolize isso melhor do que o de Nikolas Ferreira.

O deputado mineiro foi reeleito com aproximadamente 3,12 milhões de votos, tornando-se o deputado federal mais votado da história do país. Em 2022, já havia sido o mais votado do Brasil, com cerca de 1,49 milhão. Em apenas quatro anos, mais que dobrou sua votação.

Às vésperas da eleição, levantamento publicado pela Folha apontava cerca de 22,3 milhões de seguidores somente no Instagram.

Nikolas não utiliza as redes apenas como um mural onde divulga agenda parlamentar.

A rede é parte central de sua atividade política.

Vídeos curtos, respostas a adversários, discursos transformados em cortes, linguagem simples, assuntos de forte componente emocional e comunicação praticamente permanente com seus seguidores formaram um canal próprio de distribuição.

O político não precisa esperar o telejornal da noite.

Não precisa necessariamente ser entrevistado.

Não precisa que um jornal escolha sua declaração para a manchete do dia seguinte.

Ele próprio grava, publica e distribui sua interpretação dos acontecimentos diretamente para milhões de pessoas.

E seus seguidores fazem o restante da distribuição.

PAVANATO: OUTRO RECORDISTA DIGITAL

O fenômeno não ficou restrito a Minas Gerais.

Lucas Pavanato (PL) recebeu 3.038.438 votos para deputado federal por São Paulo.

Com isso, Nikolas e Pavanato ultrapassaram marcas históricas de votação para a Câmara.

Pavanato já havia mostrado força eleitoral em 2024, quando foi o vereador mais votado da cidade de São Paulo.

Novamente aparece a combinação entre exposição digital, linguagem adaptada às plataformas e transformação dessa audiência em capital político.

Mas talvez Minas Gerais tenha produzido o exemplo mais interessante desta eleição.

Porque, no mesmo estado de Nikolas, surgiu um fenômeno digital vindo do outro lado do espectro político.

ANA ELISA: 21 ANOS, REDES SOCIAIS E MAIS DE MEIO MILHÃO DE VOTOS

Ana Elisa Santos Silva tinha a idade mínima constitucional para assumir uma cadeira de deputada federal.

Aos 21 anos, estudante de Direito e influenciadora digital, foi eleita pelo PT com cerca de 524 mil votos.

Tornou-se uma das maiores votações de Minas Gerais.

Antes mesmo de chegar ao Congresso, Ana Elisa já falava para uma audiência gigantesca.

Levantamentos publicados durante a eleição apontavam aproximadamente 2 milhões de seguidores no Instagram, além de forte presença no TikTok.

Sua campanha ocorreu principalmente pelas redes sociais — estratégia que a própria candidata relacionou ao resultado obtido nas urnas.

Ana Elisa produziu conteúdos sobre educação pública, direitos trabalhistas, igualdade racial, juventude e fim da escala 6x1, além de vídeos respondendo diretamente a políticos adversários.

O caso é particularmente importante porque desmonta uma interpretação simplista sobre o fenômeno.

A comunicação digital não pertence a uma ideologia.

Ela é uma ferramenta.

Nikolas e Ana Elisa defendem projetos políticos profundamente diferentes.

Mas compreenderam algo semelhante:

é necessário falar diretamente com as pessoas no ambiente em que elas passam parte considerável do dia.

THIAGO DOS REIS: DA PRODUÇÃO DE CONTEÚDO PARA A CÂMARA

Outro exemplo apareceu em São Paulo.

Thiago dos Reis (PT), conhecido há anos pela produção de conteúdo político nas redes sociais, foi eleito deputado federal com 137.240 votos, segundo o resultado oficial divulgado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.

Poucos dias antes da eleição, monitoramento público registrava cerca de 750 mil seguidores em seu perfil no Instagram.

É mais um exemplo de uma trajetória que percorre caminho diferente da política tradicional.

Durante décadas, o percurso mais comum para alcançar projeção nacional passava por diretórios partidários, movimentos organizados, sindicatos, associações, cargos municipais ou exposição proporcionada pela televisão.

Agora existe outra porta.

Um celular.

Uma câmera.

Uma audiência.

E milhões de visualizações acumuladas ao longo dos anos.

Isso não elimina a política tradicional nem significa que seguidores sejam automaticamente convertidos em votos.

Mas cria algo extremamente valioso eleitoralmente:

reconhecimento.

Quando o eleitor encontra o nome na urna, muitas vezes já conhece aquele rosto.

CLEITINHO: DO FACEBOOK AO GOVERNO DE MINAS

Talvez um dos exemplos mais completos da transformação de audiência digital em trajetória política seja Cleitinho Azevedo.

Antes da projeção estadual, Cleitinho publicava vídeos com humor, reclamações sobre problemas urbanos e críticas ao poder público em Divinópolis.

Os vídeos começaram a circular pelo Facebook.

Veio o reconhecimento.

Depois vieram as urnas.

Cleitinho foi vereador, deputado estadual, senador e agora, em 2026, foi eleito governador de Minas Gerais no primeiro turno, com 55,41% dos votos válidos.

Reportagem sobre sua trajetória aponta uma audiência acumulada de aproximadamente 8,5 milhões de seguidores nas redes sociais.

É importante evitar uma conclusão fácil: não se pode atribuir uma eleição estadual exclusivamente às redes.

Existem partido, alianças, recursos, conjuntura política, rejeição aos adversários, desempenho administrativo, exposição na imprensa e inúmeros outros fatores.

Mas também seria difícil compreender a trajetória de Cleitinho ignorando a comunicação digital que ajudou a torná-lo conhecido.

JOICE: A REDE TAMBÉM PODE DEIXAR DE CONVERTER

Se alguns casos mostram ascensão, outro ajuda a compreender que audiência digital não constitui patrimônio eleitoral permanente.

Joice Hasselmann foi um dos grandes fenômenos eleitorais de 2018.

Naquele ano, recebeu 1.078.666 votos para deputada federal por São Paulo e tornou-se a mulher mais votada para a Câmara até então.

Sua projeção política estava profundamente ligada ao ambiente digital e à onda política que marcou aquela eleição.

Depois vieram rompimentos políticos, mudanças de posicionamento e perda de espaço.

Em 2022, Joice recebeu pouco mais de 13 mil votos na tentativa de retornar à Câmara.

Dois anos depois, candidata a vereadora em São Paulo, terminou a eleição com apenas 1.673 votos, segundo a apuração divulgada na ocasião.

A comparação precisa ser feita com cautela porque eram eleições, cargos e contextos diferentes.

Ainda assim, existe uma lição importante:

ter sido grande nas redes não significa permanecer politicamente relevante para sempre.

Audiência também precisa ser mantida.

Confiança também.

Identificação também.

E O “JAPONÊS DA FEDERAL”? UM CASO QUE MOSTRA O LIMITE DA FAMA

Há ainda um personagem interessante para compreender a diferença entre reconhecimento público e capacidade eleitoral.

Newton Ishii ficou nacionalmente conhecido como o “Japonês da Federal” durante a Operação Lava Jato.

Sua imagem tornou-se tão popular que virou máscara de Carnaval, marchinha e personagem recorrente da cobertura jornalística.

Em 2022, Ishii participou de uma tentativa de transformar essa notoriedade em força eleitoral através de uma candidatura apresentada como mandato coletivo com Fábio Nakashima.

O resultado foi apenas 2.765 votos, insuficientes para a eleição.

O episódio ajuda a estabelecer uma distinção fundamental.

Ser conhecido não é a mesma coisa que possuir uma comunidade digital politicamente mobilizada.

É uma diferença importante.

NÃO É SÓ TER SEGUIDORES

Os resultados de 2026 também impedem outra conclusão precipitada.

Se número de seguidores fosse igual a número de votos, eleições poderiam ser previstas olhando apenas Instagram e TikTok.

Não podem.

O que parece importar é algo mais complexo:

a capacidade de criar comunidade.

O seguidor que apenas observa tem determinado valor.

O seguidor que comenta aumenta a distribuição.

O que compartilha leva a mensagem para outras pessoas.

E aquele que incorpora a narrativa e passa a defendê-la em seus próprios grupos multiplica a capacidade de comunicação original.

Nesse momento, o eleitor deixa de ser apenas receptor.

Torna-se também distribuidor.

MAIS DA METADE DOS BRASILEIROS CONSOME NOTÍCIAS PELAS REDES

O tamanho dessa transformação pode ser medido.

O Digital News Report 2026, do Reuters Institute da Universidade de Oxford, aponta que mais da metade dos brasileiros utiliza redes sociais semanalmente para consumir notícias.

As redes já mantêm vantagem de nove pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias no país.

Outro dado chama atenção:

33% dos brasileiros recebem conteúdo de criadores ou influenciadores cujo foco principal são notícias.

Isso altera profundamente a cadeia tradicional de informação.

Durante décadas, a sequência predominante era relativamente simples:

fato → imprensa → cidadão.

Hoje ela pode assumir inúmeras formas:

fato → político → rede → cidadão.

fato → influenciador → rede → cidadão.

fato → imprensa → rede → cidadão.

E, em determinadas situações:

interpretação → algoritmo → repetição → percepção.

A DISPUTA PELA PERCEPÇÃO

É aqui que talvez esteja a principal consequência política dessa transformação.

Governos sempre disputaram comunicação.

Oposição sempre contestou governos.

Imprensa sempre interpretou acontecimentos.

Isso não começou com Instagram, TikTok ou WhatsApp.

O que mudou foi a velocidade, a escala e a descentralização da distribuição.

Imagine um governo que conclua uma obra, reduza determinado indicador econômico ou implante um programa público.

O fato existe.

Mas, se a informação não alcançar uma parcela significativa da população enquanto outra narrativa — correta, incompleta, exagerada ou falsa — circular milhões de vezes dizendo exatamente o contrário, existe uma disputa entre realidade factual e realidade percebida.

Isso não significa que a versão mais compartilhada se transforme em verdade.

Significa algo diferente e politicamente muito importante:

ela pode se transformar na versão mais conhecida.

E aquilo que é mais conhecido tende a ocupar maior espaço na conversa pública.

FAZER E COMUNICAR PASSARAM A SER PROBLEMAS DIFERENTES

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades dos governos contemporâneos.

Administrar e comunicar são tarefas diferentes.

Uma política pública pode apresentar resultados positivos e, ainda assim, ser desconhecida.

Da mesma maneira, uma administração pode divulgar intensamente determinado resultado sem que isso signifique que sua interpretação seja verdadeira ou completa.

Por isso, comunicação pública não pode substituir transparência, dados ou resultados.

Mas resultados sem comunicação podem permanecer invisíveis para boa parte da sociedade.

A equação política contemporânea ganhou, portanto, uma nova variável:

não basta perguntar o que aconteceu.

É necessário observar também:

qual versão do que aconteceu chegou às pessoas?

O ALGORITMO NÃO É UMA URNA, MAS INFLUENCIA A CONVERSA QUE CHEGA ATÉ ELA

Também seria incorreto concluir que Instagram, TikTok, YouTube ou WhatsApp elegem candidatos sozinhos.

Não elegem.

A decisão continua sendo do eleitor.

Mas essas plataformas ajudam a determinar quais assuntos serão vistos, repetidos, comentados e discutidos durante meses antes de o eleitor chegar à urna.

O algoritmo não deposita voto.

O algoritmo distribui atenção.

E atenção tornou-se um dos recursos mais valiosos da política contemporânea.

2026 PODE TER MARCADO UMA VIRADA

A eleição brasileira de 2026 talvez seja lembrada também por isso.

Nikolas Ferreira ultrapassou 3,1 milhões de votos.

Lucas Pavanato passou de 3 milhões.

Erika Hilton chegou a aproximadamente 1,6 milhão em São Paulo.

Ana Elisa saiu das redes sociais para conquistar mais de meio milhão de votos aos 21 anos.

Thiago dos Reis transformou anos de produção de conteúdo político em uma cadeira na Câmara.

Cleitinho percorreu uma trajetória que começou com vídeos locais e chegou ao governo de Minas Gerais.

Direita e esquerda aprenderam — em ritmos e estilos diferentes — que a política também acontece no feed.

E provavelmente não existe retorno.

A NOVA PRAÇA PÚBLICA

Durante séculos, a política procurou o lugar onde estavam as pessoas.

Foi para as praças.

Depois para os jornais.

Foi para o rádio.

Chegou à televisão.

Agora está no celular.

A diferença é que essa nova praça pública acompanha o cidadão durante praticamente todo o dia.

Está no ônibus, no trabalho, no almoço, no sofá e antes de dormir.

E cada pessoa carrega dentro dela uma praça diferente, organizada por algoritmos, escolhas pessoais, influenciadores e grupos de relacionamento.

Por isso, compreender as redes sociais deixou de ser apenas uma questão de marketing eleitoral.

Tornou-se fundamental para compreender a própria democracia contemporânea.

As urnas de 2026 oferecem uma fotografia poderosa desse processo.

Mas deixam também um alerta para governos, oposição, partidos, imprensa e sociedade:

na era das redes sociais, existe uma disputa permanente não apenas pelo voto, mas pela atenção e pela interpretação dos fatos.

Um governo pode realizar e não conseguir comunicar.

Um adversário pode criticar e conseguir alcançar milhões.

Uma informação falsa pode viralizar.

Uma informação verdadeira também.

E nenhuma dessas possibilidades, isoladamente, determina uma eleição.

Mas todas influenciam o ambiente no qual o cidadão forma suas opiniões.

No século passado, dizia-se que quem não aparecia na televisão praticamente não existia para uma parcela do eleitorado.

Em 2026, a frase precisa ser atualizada.

Na política digital, aquilo que não chega ao feed corre o risco de não entrar na conversa.

E aquilo que domina a conversa — verdadeiro ou falso — passa a disputar algo ainda mais precioso do que um simples clique:

a percepção da realidade.

Comentários

Participe da conversa sobre esta notícia. Seu e-mail não será exibido.

Carregando comentários…

Assuntos
Ana ElisaLucas PavanatoMinas GeraisNikolasNikolas FerreiraSão PauloThiago dos ReisVOTOS