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CHECAGEM

Debate Lula x Flávio na Globo: checagem revela dados exagerados, informações fora de contexto e confronto sobre economia e programas sociais

Último encontro antes do segundo turno é marcado por divergências sobre dívida pública, Bolsa Família, obras paralisadas e combate à fome; levantamento também identifica declarações verdadeiras dos dois candidatos.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 23 de outubro de 2026 às 23:05 • Salvador - BA
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Legenda: Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentam no último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026. O confronto na TV Globo foi marcado por discussões sobre economia, programas sociais e infraestrutura, além de declarações exageradas ou apresentadas sem contexto, segundo agências de checagem.
Legenda: Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentam no último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026. O confronto na TV Globo foi marcado por discussões sobre economia, programas sociais e infraestrutura, além de declarações exageradas ou apresentadas sem contexto, segundo agências de checagem. — Montagem ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, realizado pela TV Globo na noite desta sexta-feira (23), colocou frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). A discussão foi marcada por confrontos sobre economia, programas sociais, infraestrutura, saúde pública e o histórico político dos dois candidatos.

Além das divergências políticas, as falas apresentaram números imprecisos, exageros e informações que precisam ser contextualizadas.

Levantamento do Hoje Bahia, com base nas verificações da Agência Lupa e em dados de instituições públicas, identifica declarações problemáticas de ambos os presidenciáveis, mas também registra informações confirmadas como verdadeiras.

A votação do segundo turno acontece neste domingo, 25 de outubro.

Obras paralisadas: os dois candidatos apresentaram números diferentes dos levantamentos oficiais

Um dos primeiros confrontos envolveu a situação das obras públicas financiadas pelo governo federal.

Lula afirmou que recebeu aproximadamente 6 mil obras paralisadas ao assumir a Presidência, em 2023. O número, entretanto, ficou abaixo do registrado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

De acordo com o órgão, em agosto de 2022, durante o último ano do governo Jair Bolsonaro, havia aproximadamente 8,6 mil obras paralisadas.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou que o governo Lula acumulava mais de 11,5 mil obras paradas.

A declaração também exige contextualização.

Um levantamento do TCU identificou 11.944 obras paralisadas em 2024, mas o número abrangia empreendimentos financiados com recursos federais e não apenas obras iniciadas na atual administração.

Dados mais recentes, consolidados em abril de 2026, apontavam 4.215 obras paralisadas.

Portanto, os números apresentados pelos candidatos se referem a situações e períodos diferentes. A comparação precisa considerar o ano de referência e o universo de obras analisado.

Combate à fome: Lula exagerou ao afirmar que havia acabado com o problema em 2012

O presidente também declarou que havia acabado com a fome no Brasil em 2012.

A afirmação foi classificada como exagerada pela Agência Lupa.

O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2014, quando o indicador de subalimentação ficou abaixo do limite utilizado pela organização.

A conquista representou uma redução importante da fome, mas não sua eliminação completa.

Além disso, em 2012, o país era governado por Dilma Rousseff, já que Lula havia encerrado seu segundo mandato em dezembro de 2010.

Em outra declaração, Lula afirmou que encontrou aproximadamente 33 milhões de brasileiros passando fome quando retornou ao Palácio do Planalto.

Nesse caso, a informação foi considerada verdadeira.

Pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), divulgada em junho de 2022, identificou 33,1 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave.

O número representa a situação identificada pela pesquisa em 2022 e não deve ser confundido com uma medição específica realizada em janeiro de 2023.

Bolsa Família: Flávio atribui aumento a Bolsonaro, mas benefício de R$ 600 não estava garantido para 2023

O histórico dos programas de transferência de renda também provocou divergências.

Flávio Bolsonaro destacou que o governo de seu pai elevou o benefício social para R$ 600.

O pagamento nesse valor realmente ocorreu em 2022, mas a afirmação omite elementos importantes.

O Auxílio Brasil, criado pelo governo Bolsonaro para substituir o Bolsa Família, inicialmente estabeleceu um benefício mínimo de R$ 400.

O valor foi elevado para R$ 600 em 2022, porém a autorização adicional tinha validade prevista até dezembro daquele ano.

A proposta orçamentária encaminhada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa o retorno ao valor de R$ 400.

O benefício mínimo de R$ 600 foi mantido em 2023, durante o governo Lula, que recriou o Bolsa Família e estabeleceu benefícios adicionais conforme a composição das famílias.

Durante o confronto, Lula também relembrou que Flávio havia utilizado a expressão "bolsa farelo" ao comentar programas de transferência de renda.

A Agência Lupa confirmou a existência de publicações antigas do senador com essa expressão, posteriormente apagadas das redes sociais.

Dívida pública: Flávio cita R$ 11 trilhões, mas valor não corresponde apenas ao governo federal

Outro momento importante ocorreu quando Flávio Bolsonaro afirmou que o atual governo deixaria uma dívida de aproximadamente R$ 11 trilhões.

O valor possui fundamento em dados oficiais, mas sua apresentação exige explicação.

Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, correspondentes a 82,9% do Produto Interno Bruto.

Entretanto, essa estatística abrange diferentes esferas do setor público, incluindo a União, estados e municípios, e não apenas a dívida pública federal.

Em agosto, a dívida pública federal estava em aproximadamente R$ 9,29 trilhões.

Isso não significa que o crescimento do endividamento não seja um problema econômico, mas que os indicadores possuem abrangências diferentes.

Também houve discussão sobre os juros elevados, a autonomia do Banco Central e as consequências das políticas fiscais sobre o custo do crédito e o orçamento das famílias.

R$ 400 bilhões para reeleição: acusação de Flávio mistura gastos e impacto orçamentário

Flávio Bolsonaro afirmou que Lula teria utilizado mais de R$ 400 bilhões para tentar garantir sua reeleição.

O número se aproxima de um levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, que identificou medidas de impacto orçamentário estimadas em R$ 405 bilhões no ano eleitoral.

Contudo, o montante não representa necessariamente dinheiro integralmente desembolsado.

Parte dos valores corresponde a renúncias tributárias, benefícios e despesas previstas em programas públicos.

Desse total, aproximadamente R$ 73,2 bilhões dizem respeito a medidas de renúncia fiscal, enquanto R$ 51,1 bilhões estavam fora do orçamento originalmente aprovado para 2026.

O levantamento não demonstra, por si só, que todas as medidas tenham sido adotadas com finalidade eleitoral.

O governo federal negou essa interpretação e sustentou que se tratava da execução de políticas públicas.

Chocolate menor e inflação: exemplo apresentado por Flávio não retrata toda a história

Para ilustrar a perda do poder de compra dos brasileiros, Flávio Bolsonaro afirmou que barras de chocolate antes comercializadas com 120 gramas passaram a ter apenas 80 gramas.

A Agência Lupa classificou a declaração como falsa, considerando o contexto apresentado.

Embalagens de 80 gramas já eram comercializadas durante o governo Jair Bolsonaro, em 2022.

Além disso, a redução gradual das quantidades comercializadas é um fenômeno observado há décadas.

Isso não significa que a chamada reduflação — diminuição da quantidade do produto sem redução proporcional de seu preço — não exista.

O problema é atribuir a mudança a um único governo sem considerar o histórico dos produtos e os custos de produção.

BR-319: Lula apresenta recuperação de uma rodovia que já havia sido construída

Na discussão sobre infraestrutura, Lula mencionou investimentos na BR-319, ligação rodoviária entre Manaus e Porto Velho.

O presidente apresentou a iniciativa como uma obra que administrações anteriores não haviam realizado.

Entretanto, a rodovia começou a ser construída em 1968 e foi inaugurada em 1976, durante a ditadura militar.

A estrada sofreu deterioração ao longo das décadas, exigindo novas intervenções de recuperação e pavimentação.

Em 2022, durante o governo Bolsonaro, o Ibama concedeu licença prévia para intervenções no chamado Trecho do Meio.

Posteriormente, o governo Lula retomou obras de asfaltamento e autorizou novas melhorias.

Portanto, existem iniciativas de diferentes administrações relacionadas à rodovia, e as intervenções atuais não equivalem à construção original da estrada.

Licença-maternidade e ataques pessoais elevam tensão

O debate também teve momentos de confronto direto sobre a trajetória política dos candidatos.

Lula questionou Flávio Bolsonaro por seu voto, em 2009, contrário à ampliação de quatro para seis meses da licença-maternidade para servidoras públicas do Rio de Janeiro.

Flávio reconheceu sua posição na época e afirmou que, atualmente, votaria de outra maneira.

Em outro momento, o senador se referiu ao presidente como "nove dedos", numa alusão à perda de um dedo sofrida por Lula em um acidente de trabalho.

O presidente reagiu, exigiu respeito e solicitou um pedido de desculpas.

Flávio pediu desculpas, mas o episódio aumentou a tensão entre os candidatos.

O confronto também envolveu acusações sobre o histórico de atuação política de ambos.

Nem todas as declarações estavam incorretas

A verificação identificou informações verdadeiras apresentadas pelos dois candidatos.

Lula acertou ao citar a existência de aproximadamente 33 milhões de brasileiros enfrentando insegurança alimentar grave em 2022.

Também foi confirmada a informação de que o Brasil havia alcançado 700 aberturas de novos mercados para produtos agropecuários desde 2023, segundo divulgação do Ministério da Agricultura.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, acertou ao atribuir ao governo Jair Bolsonaro a apresentação do projeto que deu origem à revisão do Marco Legal do Saneamento Básico, sancionada em 2020.

Também foi considerada verdadeira a informação de que o Centro-Oeste liderava o Valor Bruto da Produção Agropecuária entre as regiões brasileiras, com estimativa de R$ 431,2 bilhões.

Esses dados demonstram que o debate reuniu afirmações verificáveis corretas, além de exageros e informações apresentadas sem o contexto necessário.

O que ainda precisa ser esclarecido

Outras declarações apresentadas no debate exigem análises complementares.

Entre elas estão as comparações sobre o poder de compra do salário mínimo, o crescimento da população em situação de rua e os investimentos em saúde pública.

Também precisam ser diferenciadas as propostas de governo e as afirmações sobre fatos já ocorridos. Promessas eleitorais não podem ser classificadas como falsas apenas porque ainda não foram executadas.

A verificação jornalística deve observar dados, documentos, períodos de referência e metodologias equivalentes.

Debate reforça importância de conferir os fatos antes de compartilhar informações

A poucos dias da decisão nas urnas, o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro evidenciou como números oficiais podem ser empregados para sustentar narrativas políticas distintas.

Um dado verdadeiro pode produzir uma impressão equivocada quando apresentado sem seu período de referência ou quando diferentes indicadores são tratados como equivalentes.

Da mesma forma, erros numéricos não devem ser automaticamente interpretados como tentativas deliberadas de enganar o eleitor.

O papel da checagem é esclarecer exatamente o que foi afirmado, quais evidências existem e onde estão as imprecisões.

O Hoje Bahia continuará acompanhando as verificações do debate, com o compromisso de apresentar informações documentadas, contextualizadas e acessíveis à população.


Fontes consultadas: Agência Lupa — checagem ao vivo do debate, Tribunal de Contas da União (TCU), Banco Central do Brasil, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Rede Penssan, Ministério da Agricultura e Pecuária e revista Veja — cobertura em tempo real.

Matéria elaborada com base nas informações disponíveis até as 22h59 de 23 de outubro de 2026. As classificações atribuídas à Agência Lupa poderão receber atualizações conforme novas verificações forem publicadas.

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