O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, realizado pela TV Globo na noite desta sexta-feira (23), colocou frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). A discussão foi marcada por confrontos sobre economia, programas sociais, infraestrutura, saúde pública e o histórico político dos dois candidatos.
Além das divergências políticas, as falas apresentaram números imprecisos, exageros e informações que precisam ser contextualizadas.
Levantamento do Hoje Bahia, com base nas verificações da Agência Lupa e em dados de instituições públicas, identifica declarações problemáticas de ambos os presidenciáveis, mas também registra informações confirmadas como verdadeiras.
A votação do segundo turno acontece neste domingo, 25 de outubro.
Obras paralisadas: os dois candidatos apresentaram números diferentes dos levantamentos oficiais
Um dos primeiros confrontos envolveu a situação das obras públicas financiadas pelo governo federal.
Lula afirmou que recebeu aproximadamente 6 mil obras paralisadas ao assumir a Presidência, em 2023. O número, entretanto, ficou abaixo do registrado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
De acordo com o órgão, em agosto de 2022, durante o último ano do governo Jair Bolsonaro, havia aproximadamente 8,6 mil obras paralisadas.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou que o governo Lula acumulava mais de 11,5 mil obras paradas.
A declaração também exige contextualização.
Um levantamento do TCU identificou 11.944 obras paralisadas em 2024, mas o número abrangia empreendimentos financiados com recursos federais e não apenas obras iniciadas na atual administração.
Dados mais recentes, consolidados em abril de 2026, apontavam 4.215 obras paralisadas.
Portanto, os números apresentados pelos candidatos se referem a situações e períodos diferentes. A comparação precisa considerar o ano de referência e o universo de obras analisado.
Combate à fome: Lula exagerou ao afirmar que havia acabado com o problema em 2012
O presidente também declarou que havia acabado com a fome no Brasil em 2012.
A afirmação foi classificada como exagerada pela Agência Lupa.
O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2014, quando o indicador de subalimentação ficou abaixo do limite utilizado pela organização.
A conquista representou uma redução importante da fome, mas não sua eliminação completa.
Além disso, em 2012, o país era governado por Dilma Rousseff, já que Lula havia encerrado seu segundo mandato em dezembro de 2010.
Em outra declaração, Lula afirmou que encontrou aproximadamente 33 milhões de brasileiros passando fome quando retornou ao Palácio do Planalto.
Nesse caso, a informação foi considerada verdadeira.
Pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), divulgada em junho de 2022, identificou 33,1 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave.
O número representa a situação identificada pela pesquisa em 2022 e não deve ser confundido com uma medição específica realizada em janeiro de 2023.
Bolsa Família: Flávio atribui aumento a Bolsonaro, mas benefício de R$ 600 não estava garantido para 2023
O histórico dos programas de transferência de renda também provocou divergências.
Flávio Bolsonaro destacou que o governo de seu pai elevou o benefício social para R$ 600.
O pagamento nesse valor realmente ocorreu em 2022, mas a afirmação omite elementos importantes.
O Auxílio Brasil, criado pelo governo Bolsonaro para substituir o Bolsa Família, inicialmente estabeleceu um benefício mínimo de R$ 400.
O valor foi elevado para R$ 600 em 2022, porém a autorização adicional tinha validade prevista até dezembro daquele ano.
A proposta orçamentária encaminhada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa o retorno ao valor de R$ 400.
O benefício mínimo de R$ 600 foi mantido em 2023, durante o governo Lula, que recriou o Bolsa Família e estabeleceu benefícios adicionais conforme a composição das famílias.
Durante o confronto, Lula também relembrou que Flávio havia utilizado a expressão "bolsa farelo" ao comentar programas de transferência de renda.
A Agência Lupa confirmou a existência de publicações antigas do senador com essa expressão, posteriormente apagadas das redes sociais.
Dívida pública: Flávio cita R$ 11 trilhões, mas valor não corresponde apenas ao governo federal
Outro momento importante ocorreu quando Flávio Bolsonaro afirmou que o atual governo deixaria uma dívida de aproximadamente R$ 11 trilhões.
O valor possui fundamento em dados oficiais, mas sua apresentação exige explicação.
Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, correspondentes a 82,9% do Produto Interno Bruto.
Entretanto, essa estatística abrange diferentes esferas do setor público, incluindo a União, estados e municípios, e não apenas a dívida pública federal.
Em agosto, a dívida pública federal estava em aproximadamente R$ 9,29 trilhões.
Isso não significa que o crescimento do endividamento não seja um problema econômico, mas que os indicadores possuem abrangências diferentes.
Também houve discussão sobre os juros elevados, a autonomia do Banco Central e as consequências das políticas fiscais sobre o custo do crédito e o orçamento das famílias.
R$ 400 bilhões para reeleição: acusação de Flávio mistura gastos e impacto orçamentário
Flávio Bolsonaro afirmou que Lula teria utilizado mais de R$ 400 bilhões para tentar garantir sua reeleição.
O número se aproxima de um levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, que identificou medidas de impacto orçamentário estimadas em R$ 405 bilhões no ano eleitoral.
Contudo, o montante não representa necessariamente dinheiro integralmente desembolsado.
Parte dos valores corresponde a renúncias tributárias, benefícios e despesas previstas em programas públicos.





