O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026 começou com propostas sobre o futuro do Brasil, passou por discussões sobre o custo de vida, a segurança pública e os programas sociais e terminou com uma intensa troca de acusações. Na noite desta sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram na TV Globo, sob mediação do jornalista César Tralli.
O confronto ocorreu a apenas dois dias da votação, marcada para domingo (25), em um cenário de forte polarização e disputa acirrada. Na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22), os candidatos apareciam empatados, com 50% dos votos válidos cada.
Organizado em quatro blocos, além das considerações finais, o debate apresentou uma mudança importante em relação ao primeiro confronto do segundo turno, promovido pela Band em 18 de outubro. As regras da Globo restringiram a movimentação dos candidatos, contribuindo para discussões mais concentradas nos temas propostos durante boa parte do programa.
Ainda assim, os ataques pessoais e as acusações de corrupção voltaram a ocupar o centro da disputa na reta final.
Economia: salário mínimo, endividamento e custo de vida
A situação econômica dos brasileiros foi um dos principais assuntos da noite.
Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo, destacando os reajustes acima da inflação adotados nos governos petistas. O presidente afirmou que, sem essa política, o piso nacional seria significativamente inferior ao valor atual de R$ 1.621.
Flávio Bolsonaro prometeu manter aumentos reais do salário mínimo e das aposentadorias, mas criticou a condução da economia e relacionou o endividamento das famílias aos juros elevados e ao custo dos alimentos.
O senador citou a existência de mais de 80 milhões de brasileiros inadimplentes, informação confirmada pelos dados da Serasa: em agosto de 2026, o país registrava aproximadamente 83,9 milhões de pessoas com contas atrasadas.
Os dois candidatos apresentaram propostas para renegociar dívidas.
Lula destacou o programa Desenrola e anunciou a intenção de ampliar as iniciativas para retirar consumidores dos cadastros de inadimplentes, inclusive mediante a compra de carteiras de dívidas com desconto.
Flávio propôs transformar a Caixa Econômica Federal em um instrumento de refinanciamento, denominado Banco da Prosperidade. A medida incluiria períodos de carência para pessoas físicas e empresas.
Apesar das promessas, o debate não esclareceu integralmente como cada proposta seria financiada ou quais seriam seus efeitos sobre as contas públicas.
Obras paralisadas: números diferentes e informações sem contexto
A infraestrutura abriu o debate e provocou divergências sobre a quantidade de obras públicas interrompidas no país.
Flávio Bolsonaro afirmou que o atual governo acumulava mais de 11,5 mil obras paralisadas, atribuindo o número ao Tribunal de Contas da União (TCU).
Lula contestou a declaração e disse ter recebido cerca de 6 mil obras paradas do governo anterior, defendendo os investimentos do Novo PAC.
A Agência Lupa verificou as duas afirmações.
Segundo a checagem, um levantamento do TCU registrou 11.944 empreendimentos paralisados em 2024. Entretanto, o dado se refere a obras financiadas com recursos federais de diferentes períodos, não exclusivamente a projetos iniciados no governo Lula.
Já o painel mais recente utilizado pela agência indicava 4.215 obras paralisadas em abril de 2026.
A informação apresentada por Lula também foi considerada subestimada: o TCU contabilizava cerca de 8,6 mil obras paralisadas em agosto de 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro.
O confronto demonstrou como números oficiais podem produzir interpretações equivocadas quando são apresentados sem a identificação do período ou da metodologia utilizada.
Nordeste: transposição do São Francisco e disputa por investimentos
O Nordeste teve espaço destacado nas discussões.
Lula ressaltou a expansão de universidades e institutos federais, a instalação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará e os investimentos em infraestrutura regional.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro a conclusão da transposição do Rio São Francisco.
A declaração foi classificada como exagerada pela Agência Lupa.
O projeto foi formalizado durante o governo Lula, com obras iniciadas em 2007. Governos posteriores realizaram e entregaram diferentes etapas. Jair Bolsonaro inaugurou trechos importantes, incluindo partes do Eixo Norte, mas a transposição não foi integralmente concluída durante seu mandato.
Trata-se, portanto, de uma obra executada ao longo de diferentes governos, cuja continuidade e conclusão não podem ser atribuídas exclusivamente a um único presidente.
Flávio também prometeu ampliar a malha ferroviária, incluindo uma ligação entre Salvador e São Luís, e expandir a conectividade regional.
Bolsa Família: Flávio promete manter benefício e Lula cobra críticas antigas
Os programas de transferência de renda provocaram um dos embates mais significativos.
Flávio Bolsonaro garantiu que manterá o Bolsa Família caso seja eleito, prometendo preservar e reajustar o benefício.
O senador também defendeu mecanismos para que beneficiários que consigam emprego formal ou abram pequenos negócios continuem recebendo temporariamente o auxílio.
Lula questionou a mudança de posicionamento do adversário, lembrando publicações antigas nas quais Flávio utilizou a expressão "bolsa farelo" para criticar o programa.
A Agência Lupa confirmou que o senador empregou a expressão em publicações nas redes sociais.
Outra divergência envolveu o valor de R$ 600.
Flávio atribuiu ao governo Jair Bolsonaro a implantação do benefício nesse patamar. Embora o Auxílio Brasil tenha chegado a R$ 600 em 2022, o aumento estava previsto apenas até o fim daquele ano.
A proposta orçamentária enviada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa o retorno do benefício a R$ 400.
Lula, por sua vez, destacou o combate à fome. A afirmação de que aproximadamente 33 milhões de pessoas enfrentavam fome quando ele retornou à Presidência foi considerada verdadeira pela Lupa, com base em levantamento divulgado pela Rede Penssan em 2022.
Entretanto, o presidente exagerou ao afirmar que havia acabado com a fome no país em 2012. O Brasil saiu do Mapa da Fome da FAO em 2014, o que não significava a erradicação completa do problema.
Segurança pública: caso Ana Clara gera momento de forte tensão
Um dos momentos mais delicados ocorreu na discussão sobre criminalidade.
Flávio Bolsonaro prometeu ampliar o combate às organizações criminosas e recuperar territórios controlados por facções. Também defendeu endurecimento de penas, redução da maioridade penal e classificação de grandes facções e milícias como organizações narcoterroristas.
Lula defendeu o fortalecimento das forças federais de segurança, a aprovação da PEC da Segurança Pública e a atuação integrada da União, estados e municípios.
O debate mudou de tom quando o presidente questionou Flávio sobre sua atuação como advogado na defesa de um policial militar acusado de envolvimento na morte de Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos.
A criança morreu em 2021, em Niterói, no Rio de Janeiro, após ser atingida por um disparo de fuzil durante uma ação policial.
A mãe da menina, Cristiane Gomes da Silva, estava presente no estúdio.
Flávio reconheceu sua atuação na defesa e afirmou acreditar que o policial acusado não foi o responsável pelo disparo.
O agente ainda não havia sido condenado pelo caso, sendo necessário preservar a distinção entre acusação formal e responsabilidade criminal comprovada pela Justiça.
O episódio ganhou repercussão por confrontar diretamente o discurso de endurecimento da segurança pública com a necessidade de responsabilização por abusos policiais.
Licença-maternidade e ataque à deficiência física de Lula
No segundo bloco, Lula voltou a questionar Flávio Bolsonaro sobre seu voto contrário, em 2009, à ampliação da licença-maternidade de servidoras estaduais do Rio de Janeiro, de 120 para 180 dias.
Desta vez, Flávio admitiu o erro.
O senador explicou que, naquele momento, acreditava que a ampliação do afastamento poderia prejudicar a contratação de mulheres. Afirmou ter mudado de opinião após se casar e se tornar pai de duas filhas.
Outro momento de tensão envolveu a expressão "nove dedos", utilizada por Flávio em referência à deficiência física de Lula, que perdeu um dedo em acidente de trabalho na juventude.
O presidente exigiu respeito e relatou as circunstâncias do acidente. Posteriormente, Flávio pediu desculpas caso tivesse ofendido o adversário.
O episódio evidenciou como ataques pessoais podem desviar a discussão das políticas públicas para conflitos individuais.
Saúde, educação e direitos sociais
No debate sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), Lula cobrou do adversário garantias de manutenção do caráter público e universal do atendimento.
O presidente também retomou críticas à condução da pandemia de Covid-19 durante o governo Jair Bolsonaro, mencionando a defesa de tratamentos sem eficácia comprovada e declarações que minimizaram a gravidade da doença.
Flávio negou qualquer intenção de privatizar o SUS e prometeu ampliar investimentos, atualizar valores pagos pelos procedimentos, renegociar dívidas das santas casas e fortalecer a rede de atendimento.





