A derrota eleitoral e a saída de Flávio Bolsonaro (PL) do país, rumo aos Estados Unidos, abriram uma disputa pelo comando da direita brasileira. Sem uma liderança claramente estabelecida, diferentes personagens tentam ocupar o espaço político deixado pela família Bolsonaro, que durante os últimos anos concentrou o protagonismo do campo conservador no país.
O movimento expõe uma questão central para o futuro da oposição: o bolsonarismo conseguirá sobreviver politicamente sem o comando direto da família que lhe deu origem ou assistiremos à fragmentação de uma força que conseguiu reunir diferentes segmentos da direita brasileira?
Entre os nomes que buscam protagonismo está Renan Santos, do partido Missão, que defende a construção de uma identidade política independente dos Bolsonaro. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também sinaliza interesse em assumir a liderança da direita e se apresentar como alternativa presidencial para 2030. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta preservar sua influência política mesmo nos Estados Unidos, mantendo-se como referência do movimento.
A disputa, entretanto, está longe de representar uma ruptura consolidada.
Bolsonarismo ainda mantém força eleitoral
Na avaliação de Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é precipitado falar em desmoronamento do bolsonarismo. Embora a família enfrente dificuldades de articulação e esteja ausente de importantes espaços da política institucional, o desempenho eleitoral do Partido Liberal demonstra que o movimento continua tendo força.
A professora observa que Jair e Flávio Bolsonaro nunca demonstraram grande capacidade ou interesse em exercer uma articulação política mais ampla no Congresso Nacional. O problema atual, portanto, não seria necessariamente a perda de influência eleitoral, mas a ausência de uma liderança presencial capaz de coordenar as forças do movimento.
Segundo Goulart, ainda não está claro se Michelle Bolsonaro assumirá esse papel. Até agora, entretanto, os principais integrantes da família não demonstraram disposição para ocupar efetivamente o espaço de articulação parlamentar.
A dificuldade para substituir os Bolsonaro está justamente na capacidade que a família teve de reunir grupos bastante diferentes sob uma mesma bandeira. Economistas liberais, conservadores nos costumes, militares, setores evangélicos, ruralistas, representantes do agronegócio, defensores de políticas de segurança pública e até segmentos nacionalistas passaram a compartilhar um mesmo campo político.
Os possíveis sucessores, por enquanto, não demonstraram capacidade de reproduzir essa abrangência.
Renan Santos possui maior identificação com jovens conectados às redes sociais e setores da classe média. Tarcísio de Freitas concentra parte de sua força política em São Paulo e no eleitorado do Sudeste. Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tem forte influência entre segmentos evangélicos, especialmente em Minas Gerais.
São bases eleitorais relevantes, mas ainda insuficientes para construir uma liderança nacional capaz de substituir a família Bolsonaro.
Ascensão bolsonarista enfraqueceu a direita tradicional
Para João Feres Júnior, professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), a ascensão do bolsonarismo provocou a decadência de forças tradicionais da direita e da centro-direita brasileira, como PSDB, DEM e parcelas do MDB.
O crescimento eleitoral do PL também contribuiu para absorver lideranças e setores do chamado Centrão, que passaram a gravitar em torno dos candidatos identificados com o bolsonarismo.
O pesquisador, entretanto, faz uma distinção importante: o sucesso eleitoral do PL não significa necessariamente que o bolsonarismo tenha se transformado em uma força política independente da família que o originou.
Na sua avaliação, o desempenho do partido resulta da combinação entre uma estrutura partidária organizada e a força da marca Bolsonaro. São elementos que nem sempre funcionam em harmonia.
O movimento depende do carisma pessoal de Jair Bolsonaro, enquanto a organização partidária exige capacidade de articulação, construção de alianças e distribuição estratégica de recursos políticos e eleitorais.
Feres Júnior considera que a tentativa de reproduzir a liderança do ex-presidente por meio de seu filho não apresentou os resultados esperados. Nesse cenário, Tarcísio de Freitas surge como uma tentativa de conciliar as duas dimensões: apresentar-se como administrador competente e político pragmático, sem abrir mão da identificação com o eleitorado bolsonarista.
Mas essa combinação não é simples. Como observa o cientista político, parte da eficácia do carisma bolsonarista está justamente na rejeição a valores como racionalidade e competência administrativa.
Antipetismo é o principal elo de sustentação
Outro elemento decisivo para compreender a força do bolsonarismo é o antipetismo. Para Mayra Goulart, é justamente a capacidade de reunir diferentes grupos que compartilham a oposição ao PT que permite ao movimento manter uma dimensão nacional.
O antipetismo ultrapassa os limites de uma única corrente ideológica e alcança setores distintos da direita e até parcelas do centro político. É esse sentimento que funciona como elemento de união entre grupos que, em outras circunstâncias, poderiam apresentar interesses e projetos bastante diferentes.
A professora também ressalta que a vitória de Lula não pode ser explicada apenas como uma reação eleitoral contra Bolsonaro. O Partido dos Trabalhadores possui estrutura própria de organização e mobilização, enquanto a trajetória política e o carisma de Lula representam uma identidade consolidada, que não depende exclusivamente da rejeição ao bolsonarismo.
Da mesma forma, a derrota eleitoral não significa o desaparecimento imediato do movimento criado em torno do ex-presidente.
Goulart destaca que o bolsonarismo possui uma base social organizada, presença nas redes digitais e capacidade de mobilização em diferentes territórios. Sua principal característica, além do extremismo, seria justamente a resiliência.
A disputa pelo futuro da direita
O cenário que se desenha é de uma direita dividida entre a tentativa de preservar a identidade bolsonarista e a construção de alternativas políticas capazes de conquistar autonomia em relação à família Bolsonaro.
Tarcísio de Freitas, Renan Santos e Nikolas Ferreira representam caminhos diferentes, mas nenhum deles demonstrou, até agora, capacidade de reunir nacionalmente todas as forças que gravitam em torno do movimento.
A família Bolsonaro, por sua vez, ainda conserva influência eleitoral e simbólica, embora enfrente dificuldades para transformar esse capital político em liderança e articulação institucional.
Mais do que uma simples disputa por candidaturas, o que está em jogo é o controle de um campo político que, nos últimos anos, reorganizou a direita brasileira e enfraqueceu suas antigas lideranças.
A questão é saber se o bolsonarismo conseguirá sobreviver sem Bolsonaro ou se a disputa pelo seu espólio acabará expondo as contradições e divergências que o discurso antipetista conseguiu manter sob controle.
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