O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, construiu sua trajetória política com posições que, em diferentes momentos, se opuseram a programas de transferência de renda, propostas de proteção trabalhista, ações afirmativas raciais e determinadas medidas voltadas aos direitos das mulheres e de minorias.
Alguns desses posicionamentos estão documentados em votações na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e no Senado Federal. Outros aparecem em entrevistas, pronunciamentos e publicações antigas nas redes sociais.
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, parte desse histórico voltou ao debate público, especialmente depois da recuperação de publicações críticas ao Bolsa Família e da divulgação de votos contrários à ampliação da licença-maternidade.
O candidato, entretanto, modificou ou esclareceu algumas dessas posições durante a campanha, comprometendo-se a preservar determinados benefícios e direitos.
O Hoje Bahia reuniu os principais registros para distinguir o histórico parlamentar, as declarações pessoais e as propostas efetivamente apresentadas para um eventual governo.
Bolsa Família: das críticas ao compromisso de manutenção
Entre 2010 e 2014, quando exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro publicou mensagens nas redes sociais criticando o Bolsa Família e relacionando o programa a estratégias eleitorais do Partido dos Trabalhadores.
Em junho de 2013, afirmou que o PT perpetuava a pobreza por meio do que chamou de "bolsa-farelo", mantendo beneficiários dependentes do auxílio para preservar apoio eleitoral.
Em outras publicações, associou o recebimento de benefícios sociais à troca de votos e questionou a eficácia das políticas de transferência de renda no combate à pobreza.
Em outubro de 2026, reportagens do Estadão, da Folha de S.Paulo e de outros veículos revelaram que algumas dessas publicações haviam sido retiradas de sua conta no X, antigo Twitter. Os registros foram recuperados porque um levantamento anterior havia arquivado as mensagens.
O histórico inclui uma votação de novembro de 2011, quando Flávio foi o único deputado estadual a votar contra o programa Renda Melhor, iniciativa do governo do Rio de Janeiro que complementava os pagamentos do Bolsa Família para famílias de baixa renda.
A proposta foi aprovada por 54 votos a um. Flávio questionou o caráter permanente do auxílio e defendeu estabelecer um limite de duração para os pagamentos.
A posição atual, porém, é diferente.
Durante a campanha presidencial de 2026, o senador afirmou que pretende manter o Bolsa Família e defendeu ampliar o período de transição para beneficiários que consigam emprego formal ou iniciem atividade empreendedora.
Portanto, os registros comprovam críticas anteriores aos programas de transferência de renda, mas não sustentam a afirmação de que o candidato tenha apresentado, atualmente, uma proposta oficial de extinção do Bolsa Família.
Fontes: CartaCapital — publicações antigas sobre o Bolsa Família e Brasil de Fato — votação do Renda Melhor.
Direitos trabalhistas: flexibilização das contratações e jornada de trabalho
A trajetória de Flávio Bolsonaro inclui apoio a propostas de flexibilização das relações trabalhistas.
Em setembro de 2021, o senador votou favoravelmente à Medida Provisória 1.045, inicialmente criada para preservar empregos durante a pandemia de Covid-19.
Depois de modificações na Câmara dos Deputados, o texto passou a incorporar modalidades especiais de contratação e alterações na legislação trabalhista, sendo classificado por parlamentares como uma minirreforma trabalhista.
Entidades sindicais criticaram dispositivos que poderiam permitir contratações com garantias inferiores às tradicionalmente previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Flávio votou favoravelmente ao texto, que acabou rejeitado pelo Senado por 47 votos contrários, 27 favoráveis e uma abstenção.
O registro comprova apoio à proposta legislativa, mas não autoriza afirmar que o senador tenha apresentado um projeto próprio para extinguir férias, FGTS ou décimo terceiro salário.
Fonte: Congresso Nacional — votação nominal da MP 1.045/2021.
Escala 6x1: da crítica à aprovação
A redução da jornada de trabalho tornou-se outro episódio de mudança de posicionamento.
Durante a campanha, Flávio criticou a proposta de acabar com a escala 6x1, classificando-a como oportunista e eleitoreira. Também defendeu alternativas que permitissem maior flexibilidade na contratação e negociação da jornada.
Entretanto, em 14 de outubro de 2026, o senador votou favoravelmente à proposta de emenda à Constituição que extingue a escala 6x1.
Dois dias depois, em entrevista ao Jornal Nacional, afirmou que havia mudado sua posição depois de ouvir trabalhadores durante suas viagens de campanha.
O senador declarou que decidiu acompanhar o entendimento da maioria das pessoas que ouviu.
A mudança, portanto, está documentada: Flávio criticou a proposta inicialmente, mas votou favoravelmente ao fim da escala 6x1.
Seu plano econômico continua defendendo medidas de flexibilização das relações de trabalho, redução de custos de contratação e maior espaço para negociação entre empregados e empregadores.
Fonte: UOL — Flávio explica mudança de posição sobre a escala 6x1.
Direitos das mulheres: três episódios na Assembleia Legislativa
A atuação de Flávio Bolsonaro na Alerj apresenta votações e manifestações contrárias a propostas específicas de proteção às mulheres.
Um levantamento recuperado pela imprensa identificou episódios ocorridos em 2006 e 2009.
2006 — Combate à exploração da imagem de mulheres no turismo sexual
Flávio foi o único deputado estadual a votar contra a aplicação de sanções a estabelecimentos que comercializassem cartões-postais explorando imagens de mulheres seminuas associadas aos pontos turísticos fluminenses.
A proposta recebeu 37 votos favoráveis e um contrário.
Na discussão, o parlamentar argumentou que a beleza das mulheres brasileiras também integrava os atributos turísticos do país e questionou a responsabilização dos comerciantes.
2009 — Ampliação da licença-maternidade
Em abril de 2009, Flávio foi novamente o único parlamentar a votar contra uma proposta, desta vez a ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses para servidoras públicas civis do estado do Rio de Janeiro.
A emenda constitucional foi aprovada por 54 votos favoráveis e um contrário.
Na ocasião, o deputado argumentou que a ampliação do benefício poderia dificultar a contratação de mulheres.
Dezessete anos depois, no debate presidencial da TV Globo de 23 de outubro de 2026, reconheceu o erro.
Questionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio afirmou que votaria de maneira diferente atualmente e destacou a importância da convivência entre mães e filhos nos primeiros meses de vida.
2009 — Armas e violência doméstica
Outro episódio envolveu um projeto estadual que previa restrições à posse ou ao porte de armas por agentes de segurança envolvidos em situações de violência doméstica.
Flávio manifestou oposição à proposta, argumentando que policiais poderiam sofrer consequências profissionais em razão de acusações ainda não comprovadas.
A posição foi registrada durante a tramitação do texto. Nesse caso, é necessário distinguir sua manifestação contrária de um voto nominal individual, já que a votação ocorreu de forma simbólica.
Fontes: Brasil de Fato — levantamento das votações na Alerj e UOL — reconhecimento do erro sobre licença-maternidade.
Igualdade salarial: posição contrária ao projeto de 2023
Em 31 de maio de 2023, durante discussão na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Flávio Bolsonaro anunciou voto contrário ao projeto que fortalecia os mecanismos de igualdade salarial entre mulheres e homens.
O texto ampliava instrumentos de fiscalização e responsabilização diante de discriminação remuneratória.
Flávio e o senador Rogério Marinho argumentaram que a proposta poderia aumentar a judicialização das relações trabalhistas sem alcançar os resultados pretendidos.
Ambos declararam apoiar o princípio da igualdade salarial, mas discordar dos mecanismos previstos no projeto.
A distinção é importante: a votação demonstra oposição àquela iniciativa legislativa, e não uma declaração expressa de que mulheres devam receber menos que homens pelo mesmo trabalho.
Fonte: Agência Senado — votação da igualdade salarial na CAE.
Aborto: posicionamento contrário e debate sobre hipóteses legais
Flávio Bolsonaro também se posicionou publicamente contra o aborto.
Em pronunciamento no Senado, em junho de 2024, elogiou a atuação do senador Eduardo Girão no debate sobre a interrupção da gravidez e manifestou apoio a restrições envolvendo procedimentos realizados em fases avançadas da gestação.
O parlamentar também abordou situações de gravidez decorrente de estupro, reconhecendo a existência de hipóteses previstas na legislação brasileira.
Por isso, embora sua oposição geral ao aborto esteja documentada, não seria correto atribuir-lhe, com base apenas nesse pronunciamento, uma proposta de proibição absoluta de todas as situações de aborto legal.
Fonte: Senado Federal — pronunciamento de 18 de junho de 2024.
População negra: oposição às cotas raciais e defesa de critérios econômicos
As políticas de cotas raciais constituem outro tema em que Flávio Bolsonaro apresenta uma posição histórica definida.
Em maio de 2024, durante discussões no Senado sobre reserva de vagas em concursos públicos, o parlamentar defendeu substituir critérios raciais por critérios socioeconômicos.
Seu argumento foi o de que renda e oportunidades educacionais seriam parâmetros mais adequados para enfrentar desigualdades.
O senador apresentou propostas de alteração das regras, com prioridade para candidatos de baixa renda.
O posicionamento representa oposição ao modelo de ações afirmativas baseado especificamente na raça, embora não signifique rejeição a toda forma de reserva de vagas.
Na Assembleia Legislativa do Rio, Flávio também votou contra a criação do Diploma Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, destinado ao reconhecimento de mulheres negras.





