A postura omissa do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), diante do escândalo do Banco Master parece ter um motivo, segundo reportagem divulgada nesta quinta-feira (24) pela revista VEJA.
O senador ignorou pedidos de instalação de uma CPI para apurar o caso, recusou-se a responder a um ofício sobre eventuais entradas do ex-banqueiro, agora preso, Daniel Vorcaro nas dependências do Senado, negou-se a fornecer à Polícia Federal a lista de visitantes do gabinete do senador Jaques Wagner (PT-BA) — suspeito de receber propina — e sempre desconversa quando indagado sobre o nível de suas relações com o ex-banqueiro.
A reportagem publicou mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro revelam que Alcolumbre é um amigo fraterno, "um irmão, um parceiro fiel com quem o dono do Master podia contar a qualquer tempo, a qualquer hora, para qualquer coisa".
Uma das mensagens mostra que quando Alcolumbre foi eleito presidente do Senado pela segunda vez em 1º de fevereiro de 2025, Vorcaro enviou uma mensagem ao senador dando-lhe os parabéns e desejando sucesso no cargo. O senador respondeu:
"Fala meu amor. Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Sou seu irmão. Pra vida toda."

O banqueiro contestou com cinco emojis de coração e juras: "E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer".
As investigações revelaram posteriormente que uma das tramoias do banqueiro foi feita em conluio com a Amprev, o fundo de previdência dos servidores do Amapá, que tinha como conselheiro um aliado do senador.

Festas e mulheres importadas

Há dezenas de mensagens em que são combinadas festas com a participação de autoridades da República. Uma delas foi organizada para atender o presidente do Congresso. Vorcaro acerta os detalhes com Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro.

"Aquela de 3 metros estará lá, Fabio", escreveu o banqueiro, num grupo de WhatsApp batizado de "Macallan", famosa marca de uísque escocês. "A dupla né. Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina", ironizou Faria. "Kkkkkk. Bonde do tigrão", completou Vorcaro.


O dono do Master costumava trazer mulheres de outros países, especialmente da Europa. Em um chat com Alcolumbre, o banqueiro repassa o endereço do evento e dá instruções ao senador: "Me avisem a hora que chegam. Vão cedo. Traje todo preto pra festa."
"Davi Alcolumbre de mochila bile com canudo com vodka", comentou um deles. "Davi falou que está com dança nova", comentou Faria em uma das conversas.

Em abril de 2024, à margem de um encontro realizado em Londres para discutir o cenário jurídico no Brasil, o banqueiro patrocinou uma degustação de Macallan para um grupo especial de convidados, entre eles os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
A conversa sobre a contratação de mulheres para um evento paralelo ao fórum jurídico continua, e Vorcaro relata ao interlocutor temer o vazamento da confraternização privada. Na sequência, admite que parte dos convidados só estava lá pela garantia de que mulheres contratadas para entretê-los estariam à disposição.
"Tô achando que não vai dar pra fazer off lá viu. Tô com receio. Foda que tem nego que tá indo só pra isso né kkkk", escreveu. Faria propõe então uma solução para tentar manter a confidencialidade e cita Alcolumbre:
"Daquele jeito dá. Fazemos pros caras e ficamos de boa. E depois vamos pra um menor. Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas 4 lá".
Com a concordância de Vorcaro, completa: "E fazemos um pacto com Davi que só pode falar pro careca".
Nessa época, Davi Alcolumbre havia deixado o primeiro mandato na presidência do Senado e ocupava o comando da Comissão de Constituição e Justiça da Casa.
Alexandre de Moraes, que em diferentes conversas entre Faria e Vorcaro era tratado como "careca", discursou no evento. Outras autoridades que aparecem em meio aos diálogos são o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo.

A venda do Master e o silêncio de Alcolumbre

Em julho do ano passado, quando o BC emperrou a venda do Master para o Banco de Brasília (BRB), Vorcaro disse a Motta que havia tentado contato, em vão, com Alcolumbre, a fim de se informar sobre uma reunião importante do BC a respeito do processo.
Motta respondeu ao banqueiro:
"Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião. Eu tava decolando quando Davi me ligou para dizer isso".
A tentativa de venda da instituição o BRB enfrentou resistência no Banco Central, que, mais tarde, decretou a liquidação do Master. Em 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso ao tentar deixar o país por suspeita de fraudes contra o sistema financeiro. Dez dias depois, foi solto pela Justiça, mas voltou a ser preso em março de 2026.