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NAS REDES

Fandoms entram na disputa presidencial e mobilizam rede de 20 milhões de seguidores em apoio a Lula

Cerca de 500 fã-clubes de artistas como Taylor Swift, Beyoncé, BTS e Lady Gaga participam de mobilização digital no segundo turno; movimento amplia o debate sobre representatividade, influência das redes e capacidade de conquistar eleitores.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 08 de outubro de 2026 às 22:37 • Salvador - BA
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Comunidades de fãs de artistas nacionais e internacionais se mobilizam nas redes sociais em apoio à candidatura de Lula à reeleição. A articulação, identificada pela hashtag #FandomsComLula, reúne aproximadamente 500 fã-clubes, que somam uma audiência potencial estimada em 20 milhões de seguidores. O movimento evidencia a crescente participação de comunidades ligadas ao entretenimento no debate político, embora o posicionamento das páginas não represente necessariamente a opinião dos artistas ou de todos os seus seguidores.
Comunidades de fãs de artistas nacionais e internacionais se mobilizam nas redes sociais em apoio à candidatura de Lula à reeleição. A articulação, identificada pela hashtag #FandomsComLula, reúne aproximadamente 500 fã-clubes, que somam uma audiência potencial estimada em 20 milhões de seguidores. O movimento evidencia a crescente participação de comunidades ligadas ao entretenimento no debate político, embora o posicionamento das páginas não represente necessariamente a opinião dos artistas ou de todos os seus seguidores. — ilustrativa gerada por inteligência artificial | Arte: Hoje Bahia

Uma mobilização que nasceu entre comunidades de fãs de artistas da música pop ganhou dimensão nacional e passou a integrar o cenário político brasileiro. Aproximadamente 500 fã-clubes estão envolvidos em uma articulação digital favorável à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa o segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), no próximo dia 25 de outubro.

Segundo levantamento divulgado pelo g1 e repercutido por outros veículos nesta semana, os perfis participantes estimam reunir cerca de 20 milhões de seguidores, uma audiência construída originalmente para compartilhar notícias, músicas, lançamentos e conteúdos de seus artistas favoritos.

Agora, parte desse espaço de comunicação está sendo utilizada para divulgar materiais eleitorais e estimular a participação política.

A mobilização, identificada pela hashtag #FandomsComLula, reúne comunidades dedicadas a Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga, BTS, BLACKPINK, Katy Perry, Ariana Grande, Harry Styles, The Weeknd, Billie Eilish, Anitta e outros nomes da música nacional e internacional.

Afinal, quantos seguidores esses fandoms alcançam?

A dimensão da rede pode ser observada em dois perfis destacados em levantamento publicado pelo portal Vermelho em 5 de outubro.

O Beyoncé Access Brasil (@beyonceaccessbr), dedicado à cantora norte-americana, tinha aproximadamente 494 mil seguidores no Instagram. Já o BTS BRASIL ON (@btsbrasil_on), voltado ao grupo sul-coreano, reunia cerca de 469 mil seguidores na mesma plataforma.

Juntas, essas duas páginas ultrapassavam 960 mil seguidores cadastrados naquela data.

Outras comunidades com milhares de seguidores participam da mobilização, incluindo páginas dedicadas a Taylor Swift, Lady Gaga e Katy Perry.

É importante, entretanto, diferenciar três indicadores: número de seguidores, alcance das publicações e pessoas efetivamente influenciadas.

Os 20 milhões representam uma estimativa da audiência potencial das comunidades participantes. Não se trata de uma medição de usuários únicos, visualizações efetivas ou eleitores convertidos.

Uma mesma pessoa pode seguir diversos fandoms, enquanto os algoritmos das plataformas não garantem que cada publicação seja visualizada por todos os seguidores.

Como começou a mobilização?

O movimento ganhou força após o resultado do primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Lula alcançou 45,16%, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos.

Diversos fã-clubes passaram a publicar mensagens dirigidas ao perfil oficial de Lula, colocando suas páginas à disposição para compartilhar conteúdos de interesse público e informações da campanha.

A organização busca principalmente dialogar com o eleitorado jovem, incentivar a participação de quem se absteve no primeiro turno e alcançar pessoas que ainda não definiram seu voto.

De acordo com Breno Scarpate Hochileitner, de 20 anos, administrador do Katy Cats Updates, em entrevista ao blog da jornalista Ana Flor, no g1, a iniciativa nasceu espontaneamente, sem convocação inicial da campanha petista.

O administrador relacionou a mobilização à defesa da cultura e dos direitos das minorias.

Lula agradece e campanha amplia aproximação com os fãs

Na terça-feira (6), Lula enviou uma mensagem de áudio agradecendo o movimento e incentivando a continuidade da mobilização até o segundo turno.

A aproximação do governo com comunidades organizadas de fãs, entretanto, não começou nesta semana.

Em 31 de agosto, representantes de fandoms estiveram no Palácio do Planalto durante um evento relacionado às novas regras de comercialização de ingressos para shows e ao combate ao cambismo digital.

O encontro também abordou medidas de proteção ao público de grandes eventos culturais, incluindo o acesso gratuito à água potável.

A reunião anterior às eleições demonstra a existência de diálogo institucional com representantes dessas comunidades, mas não comprova que a mobilização eleitoral posterior tenha sido organizada pelo governo.

Fã-clubes representam os artistas ou seus seguidores?

Essa é uma das principais questões levantadas pelo crescimento do movimento.

Uma página dedicada a Beyoncé, Taylor Swift ou BTS não representa necessariamente o posicionamento político oficial desses artistas.

Da mesma maneira, uma manifestação feita pelos administradores de determinado fã-clube não significa que todos os seus seguidores concordem com a posição adotada.

Os fandoms são comunidades construídas a partir de interesses culturais compartilhados. Seus integrantes podem ter diferentes visões políticas, religiosas e ideológicas.

A decisão de transformar um perfil de entretenimento em espaço de campanha é legítima quando respeita a legislação, mas também abre discussão sobre a autonomia dos administradores e a representatividade das comunidades.

Além disso, nem todas as organizações de fãs seguem a mesma estratégia. Algumas desenvolvem campanhas de conscientização e participação eleitoral sem indicar apoio a uma candidatura específica.

Oposição questiona mobilização e campanha nega remuneração

O crescimento da articulação também provocou reações políticas.

O deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP) questionou publicamente o caráter espontâneo das publicações e levantou dúvidas sobre eventual financiamento das ações.

A campanha de Lula, por sua vez, afirmou que a mobilização ocorreu voluntariamente, por iniciativa dos próprios administradores dos perfis.

Até o momento, as informações consultadas pelo Hoje Bahia não demonstram a existência de pagamentos aos fandoms por essas publicações.

A legislação eleitoral permite manifestações políticas espontâneas de eleitores, mas estabelece restrições à propaganda digital remunerada, incluindo a contratação de terceiros para realizar publicações político-eleitorais em suas próprias páginas.

A existência de uma articulação coletiva, isoladamente, não comprova irregularidade.

Os 20 milhões de seguidores podem decidir a eleição?

O potencial de circulação das mensagens é expressivo, sobretudo em uma disputa presidencial marcada pelo protagonismo das plataformas digitais.

A diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos entre os candidatos no primeiro turno ajuda a dimensionar por que a campanha considera importante alcançar novas audiências.

Mas transformar audiência em voto é um processo muito mais complexo.

Parte dos seguidores já possui posição política definida. Outros podem ser menores de idade, não estar inscritos no eleitorado brasileiro ou discordar do posicionamento dos administradores.

Também não há dados públicos consolidados que permitam medir quantos eleitores mudaram de preferência após consumir conteúdos publicados pelos fandoms.

O principal diferencial dessas comunidades está na capacidade de produzir conteúdos próprios, mobilizar seguidores e compartilhar mensagens com uma linguagem familiar ao público jovem.

Vídeos curtos, montagens, músicas, memes e campanhas com hashtags são recursos já utilizados pelos fãs para promover lançamentos e artistas. Agora, essas estratégias também começam a ser empregadas de maneira organizada no debate eleitoral.

Uma nova força na comunicação política brasileira

O crescimento dos fandoms como espaços de participação política revela uma transformação mais ampla na comunicação.

Páginas originalmente dedicadas ao entretenimento passaram a reunir audiências que rivalizam, em número de seguidores, com as de grandes influenciadores e veículos de comunicação.

São comunidades que dominam mecanismos de engajamento, conhecem o comportamento dos próprios públicos e conseguem mobilizar milhares de interações em pouco tempo.

A experiência também evidencia que a influência eleitoral não está mais concentrada apenas em partidos, candidatos, sindicatos, entidades organizadas ou veículos tradicionais.

Ela passa a ser exercida por administradores de comunidades, criadores de conteúdo e grupos que construíram credibilidade em assuntos muitas vezes distantes da política.

Resta saber se essa força digital será suficiente para mobilizar eleitores ausentes, convencer indecisos ou apenas ampliar a repercussão de posições já consolidadas.

O resultado dessa mobilização permanece incerto. Mas o fenômeno já coloca uma questão importante para a democracia digital: quando uma comunidade de fãs se posiciona politicamente, quem está falando — seus administradores, seus seguidores ou uma nova força de participação coletiva?

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