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6X1 • ELEIÇÕES

Fim da escala 6x1 vira batalha política: Lula celebra vitória, Flávio muda posição e PL já planeja alternativa para 2027

Com 75 votos favoráveis e apenas um contrário no Senado, proposta avança para promulgação e pode beneficiar milhões de trabalhadores. A dez dias do segundo turno, governo e oposição disputam o protagonismo de uma mudança histórica nas relações de trabalho.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 15 de outubro de 2026 às 12:57 • Salvador - BA
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A aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, por 75 votos a 1, abre uma disputa política entre Lula e Flávio Bolsonaro pelo protagonismo da mudança na jornada de trabalho. Enquanto o governo comemora a conquista, a oposição discute modelos alternativos de contratação para 2027.
A aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, por 75 votos a 1, abre uma disputa política entre Lula e Flávio Bolsonaro pelo protagonismo da mudança na jornada de trabalho. Enquanto o governo comemora a conquista, a oposição discute modelos alternativos de contratação para 2027. — Montagem ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

A aprovação do fim da escala de trabalho 6x1 pelo Senado Federal, na noite desta quarta-feira (14), representa uma das maiores mudanças na legislação trabalhista brasileira desde a Constituição de 1988. Mas, além de alterar a rotina de milhões de trabalhadores, a decisão abriu uma disputa política pelo protagonismo da conquista, a apenas dez dias do segundo turno da eleição presidencial.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comemora a aprovação como resultado da mobilização popular e da articulação de seu governo no Congresso. Do outro, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que vinha criticando a proposta, mudou de posicionamento e votou favoravelmente à medida.

A mudança, entretanto, não encerrou as divergências. Enquanto o governo defende a redução da jornada com manutenção integral dos salários, dirigentes do PL já anunciaram que pretendem apresentar, em 2027, uma proposta alternativa baseada na flexibilização das relações de trabalho.

O resultado é um cenário incomum: adversários que concordaram na votação, mas permanecem profundamente divididos sobre qual modelo trabalhista o Brasil deverá adotar.

Aprovação histórica: 75 votos a favor e apenas um contrário

O Senado aprovou, em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que estabelece uma jornada máxima de 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial.

O placar foi de 75 votos favoráveis e apenas um contrário em cada turno. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República, foi o único a votar contra.

A proposta já havia passado pela Câmara dos Deputados, em maio, e segue agora para promulgação pelo Congresso Nacional, sem necessidade de sanção presidencial.

A nova regra será implementada gradualmente, a partir da promulgação:

  • Após 60 dias: jornada máxima de 42 horas semanais e adoção da escala 5x2.
  • Após 14 meses: jornada máxima de 40 horas semanais, mantendo os dois dias de descanso.
  • Salários: não poderá haver redução em razão da nova jornada.

O texto também prevê exceções e mecanismos de compensação negociados coletivamente, além de prazos diferenciados para determinados trabalhadores terceirizados do poder público.

Portanto, embora a escala 5x2 passe a ser a regra geral, acordos coletivos poderão permitir distribuições diferentes dos dias de trabalho, desde que respeitadas as compensações e os limites constitucionais.

Lula comemora, mas reconhece o papel da pressão popular

O presidente Lula acompanhou a votação e divulgou um vídeo comemorando o resultado ao lado de assessores e aliados.

Na manifestação, destacou o papel dos trabalhadores que participaram de atos e mobilizações pelo fim da escala e agradeceu aos parlamentares que apoiaram a mudança.

Politicamente, a aprovação representa uma conquista importante para o governo, especialmente porque a proposta conseguiu atravessar um Congresso marcado por divergências entre o Executivo e parte expressiva das bancadas.

O calendário de votação foi acelerado após requerimento da senadora Teresa Leitão (PT-PE), com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

A articulação permitiu que os dois turnos fossem realizados na mesma noite, evitando que a conclusão da votação fosse adiada para depois da eleição presidencial.

Para Lula, o novo modelo significa mais tempo para que os trabalhadores acompanhem o crescimento dos filhos, convivam com suas famílias, estudem e descansem.

O governo também busca associar a aprovação à sua agenda de valorização do trabalho, fortalecimento da renda e ampliação da proteção social.

Contudo, embora a vitória represente um ganho político para o presidente, a mobilização que colocou o fim da escala 6x1 na agenda nacional é anterior à votação e envolve sindicatos, organizações sociais e trabalhadores de diferentes orientações políticas.

Flávio Bolsonaro mudou de posição na reta final

A reação do candidato do PL foi uma das principais movimentações políticas da semana.

Flávio Bolsonaro vinha questionando o momento escolhido pelo governo para acelerar a votação, classificando a iniciativa como eleitoralmente oportunista.

Ainda assim, na terça-feira (13), depois de conversar com o ex-presidente Jair Bolsonaro, anunciou que votaria favoravelmente ao fim da escala.

Na quarta-feira, registrou seu voto a distância, enquanto participava de atividades de campanha em Porto Alegre.

A mudança ocorreu em um ambiente de pressão política. Segundo reportagem do UOL, integrantes do PL reconheceram que votar contra uma proposta de forte apoio popular poderia gerar desgaste eleitoral para Flávio.

O partido liberou seus senadores para votar, apesar de críticas de integrantes da legenda ao texto aprovado.

O comportamento do coordenador da campanha presidencial, senador Rogério Marinho (PL-RN), também chamou atenção. Embora estivesse no Senado, ele não registrou presença na sessão e não participou da votação.

A Folha de S.Paulo informou que Marinho pretendia se posicionar contra o texto, mas recuou diante da pressão política interna.

O episódio expõe a diferença entre o posicionamento eleitoral assumido por Flávio e a orientação econômica defendida por integrantes de sua campanha.

PL apoia agora, mas quer outro modelo em 2027

A principal controvérsia não está apenas na votação realizada, mas nas propostas para o futuro.

O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara, anunciou que a legenda pretende apresentar em 2027 a chamada PEC das Horas Trabalhadas, elaborada por Rogério Marinho.

A alternativa defendida pelo PL busca ampliar a liberdade de negociação entre empregadores e trabalhadores, permitindo modelos de contratação e remuneração mais flexíveis.

Segundo Sóstenes, o objetivo seria oferecer ao trabalhador a possibilidade de escolher entre permanecer no regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou adotar outro formato de contratação, incluindo modalidades relacionadas ao trabalho autônomo e ao microempreendedorismo.

Os defensores dessa proposta argumentam que a flexibilização pode estimular contratações, reduzir custos empresariais e ampliar oportunidades.

Críticos, entretanto, alertam que uma negociação individual entre empregado e empregador nem sempre ocorre em condições equivalentes de poder.

Em um mercado de trabalho no qual o trabalhador depende do salário para sua subsistência, a possibilidade formal de escolha pode não significar liberdade efetiva de negociação.

Outro ponto controverso está na relação entre jornada e remuneração. Diferentemente da PEC aprovada, que protege o salário durante a redução do tempo de trabalho, modelos de pagamento estritamente por horas podem resultar em rendimentos menores quando o número de horas contratadas diminui.

Não existe, até o momento, uma nova PEC aprovada que substitua a redução da jornada. O projeto defendido pelo PL permanece como uma proposta política para eventual tramitação futura.

Quem é o verdadeiro responsável pela conquista?

A aprovação também reacendeu uma disputa pela autoria política da mudança.

A PEC 221/2019 foi apresentada originalmente pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Em sua formulação inicial, previa uma redução gradual da jornada de trabalho para 36 horas semanais.

Posteriormente, o movimento pelo fim da escala 6x1 ganhou dimensão nacional, impulsionado especialmente pela mobilização nas redes sociais do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), fundado por Rick Azevedo.

A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) transformou a demanda em uma das principais bandeiras de sua atuação parlamentar, apresentando a PEC 8/2025, que propunha uma semana de quatro dias de trabalho.

As propostas foram analisadas conjuntamente na Câmara. O texto final, com jornada de 40 horas e dois dias de descanso, foi construído durante a negociação legislativa.

Nesse processo, houve também participação baiana relevante.

O deputado federal Leo Prates (Republicanos-BA) foi relator da proposta na comissão especial da Câmara e apresentou o substitutivo que ajudou a construir o consenso para sua aprovação.

No Senado, a relatoria ficou com Omar Aziz (PSD-AM), enquanto Teresa Leitão articulou a aceleração do calendário.

O histórico evidencia que o avanço não pertence exclusivamente a um presidente, a um partido ou a um parlamentar.

A iniciativa nasceu de uma reivindicação social, ganhou força por meio da mobilização dos trabalhadores e foi transformada em mudança constitucional pela atuação conjunta de diferentes setores da sociedade e do Congresso.

O que está em jogo para 26,8 milhões de trabalhadores?

Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base em informações da PNAD de 2025, estima que a redução da jornada poderá alcançar aproximadamente 26,8 milhões de trabalhadores, entre empregados formais e informais com jornadas superiores a 40 horas.

O impacto direto das garantias da legislação, contudo, dependerá da modalidade de vínculo trabalhista de cada profissional.

Setores como comércio, alimentação, supermercados, hotéis, serviços e atividades de atendimento contínuo estão entre os mais sensíveis à mudança.

Na Bahia, a adaptação será particularmente relevante para estabelecimentos comerciais, empreendimentos turísticos, restaurantes e empresas de prestação de serviços.

Para os trabalhadores, a possibilidade de contar com mais um dia regular de descanso representa uma reorganização significativa da vida cotidiana.

Para os empregadores, o desafio estará em reorganizar equipes, horários e custos para manter suas operações.

Empresários alertam para custos; sindicatos falam em conquista histórica

Entidades empresariais demonstraram preocupação com os possíveis impactos econômicos da nova jornada.

Entre os argumentos apresentados estão o aumento dos custos de contratação, a necessidade de ampliar equipes e possíveis pressões sobre preços de produtos e serviços.

A Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) estimou que a mudança poderá representar até R$ 34,7 bilhões anuais em custos adicionais para os municípios brasileiros, especialmente em contratos terceirizados de limpeza, vigilância e outros serviços públicos.

A estimativa é uma projeção da entidade e não representa despesa já realizada. Os efeitos concretos dependerão dos contratos, das medidas de adaptação e de eventuais alterações na produtividade.

As centrais sindicais, por sua vez, comemoraram a aprovação e defenderam que a medida poderá contribuir para reduzir o desgaste físico e emocional dos trabalhadores, além de ampliar oportunidades de convívio familiar.

Há também uma discussão econômica mais ampla: empresas poderão enfrentar custos adicionais de reorganização, mas os resultados dependerão da capacidade de elevar a produtividade, reduzir a rotatividade de pessoal e adaptar os processos de trabalho.

A dimensão desses efeitos ainda será testada na prática.

O peso eleitoral da conquista

A aprovação ocorre em um momento particularmente sensível da disputa presidencial.

A pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (14) mostrou Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto e Lula com 44%, caracterizando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

O resultado demonstra a importância de conquistar eleitores ainda indecisos ou insatisfeitos com as duas candidaturas.

A redução da jornada possui forte apelo popular. Pesquisa Datafolha apontou que 71% dos brasileiros apoiavam o fim da escala 6x1.

Nesse ambiente, posicionar-se contra a medida poderia representar um risco eleitoral significativo.

O governo procura apresentar a aprovação como uma demonstração de capacidade de negociação e compromisso com direitos sociais. A oposição tenta evitar que Lula monopolize os ganhos políticos e sustenta que a votação foi acelerada por conveniência eleitoral.

Ambas as estratégias fazem parte da disputa presidencial, mas o voto favorável de Flávio não elimina as diferenças entre as propostas trabalhistas defendidas pelas duas candidaturas.

A grande questão para o eleitor não é apenas saber quem votou a favor do fim da escala 6x1, mas quais políticas cada candidato pretende adotar para garantir sua implementação e preservar os direitos conquistados.

Uma conquista social maior que a disputa eleitoral

A última grande redução da jornada máxima de trabalho no Brasil ocorreu com a Constituição de 1988, quando o limite semanal passou de 48 para 44 horas.

A nova mudança retoma um debate histórico sobre como distribuir os ganhos de produtividade, o tempo de trabalho e a qualidade de vida.

Mais do que reorganizar turnos e contratos, a discussão envolve o papel do trabalho na sociedade e o direito de milhões de brasileiros de dedicar parte maior de suas vidas à família, à educação, ao lazer e ao descanso.

A disputa política poderá definir como a conquista será apresentada ao eleitorado nos próximos dias. Entretanto, a efetividade da mudança dependerá da regulamentação, da fiscalização, da negociação coletiva e das decisões adotadas pelos próximos governos.

A votação encerrou uma etapa da luta pelo fim da escala 6x1. A próxima será garantir que a redução da jornada se traduza em mais tempo de vida para os trabalhadores, sem perda salarial e com condições sustentáveis de implementação.

Para além dos palanques, esse será o verdadeiro teste da conquista.

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