27 de outubro de 2026 — Atualizada às 17h — A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, dois dias depois de sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais, desencadeou uma crise jurídica e política com possíveis repercussões internacionais.
Nesta terça-feira (27), a agência Reuters informou que o parlamentar viajou para os Estados Unidos. A informação foi confirmada à agência por duas fontes: um aliado próximo de Flávio e uma pessoa ligada ao governo norte-americano.
A revelação ocorreu poucas horas depois de a Polícia Federal cancelar os passaportes brasileiros do senador por descumprimento de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio havia sido intimado na segunda-feira (26) a entregar os documentos no prazo de 24 horas e estava proibido de deixar o território brasileiro. A ordem não foi cumprida.
O episódio provocou a reação de parlamentares, que solicitaram ao STF a prisão preventiva do senador e a inclusão de seu nome na difusão vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localizar pessoas procuradas pela Justiça.
A situação, entretanto, reúne particularidades constitucionais: Flávio ainda exerce mandato no Senado Federal e mantém imunidades específicas que limitam a possibilidade de prisão.
Além disso, seu mandato termina em 31 de janeiro de 2027, circunstância que poderá modificar profundamente o cenário jurídico nos próximos meses.
Da promessa de permanecer no Brasil à viagem para os Estados Unidos
A sequência de acontecimentos começou na segunda-feira (26), quando Flávio Bolsonaro foi abordado por agentes da Polícia Federal ao deixar a residência de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília.
Na ocasião, recebeu a intimação judicial que determinava a entrega dos passaportes e proibia sua saída do país.
A decisão foi adotada pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro, o advogado Willer Tomaz e empresas relacionadas a operações financeiras e apostas online.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o parlamentar criticou a decisão e declarou que nunca havia pensado em abandonar o Brasil.
Também afirmou que entregaria os documentos, exerceria seu direito de defesa e permaneceria no país para organizar a oposição ao governo Lula.
A determinação judicial foi tomada em um contexto de preocupação com uma possível saída do senador. Dias antes, seu irmão Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, havia defendido publicamente que Flávio deixasse o território brasileiro caso perdesse a eleição presidencial.
Na manhã desta terça-feira, entretanto, o prazo judicial terminou sem a entrega dos documentos.
A Polícia Federal cancelou os passaportes comum e diplomático do parlamentar e anunciou que comunicaria formalmente o descumprimento ao Supremo Tribunal Federal.
Reuters confirma viagem com duas fontes
O caso ganhou nova dimensão às 14h33 desta terça-feira, quando a Reuters publicou uma reportagem informando que Flávio Bolsonaro havia viajado para os Estados Unidos.
A agência ouviu um aliado próximo do senador e uma fonte do governo norte-americano, ambos confirmando a viagem.
A Reuters destacou, porém, que não conseguiu estabelecer com precisão o destino final do voo, o horário de chegada ou a eventual intenção de solicitar asilo político.
Também não confirmou quem acompanhava o senador. Uma terceira fonte informou que suas duas filhas não compareceram às escolas em Brasília nesta terça-feira.
Antes disso, veículos brasileiros, incluindo Folha de S.Paulo, CNN Brasil e Metrópoles, já haviam divulgado relatos de pessoas próximas à família segundo os quais Flávio deixara o Brasil acompanhado de familiares.
As informações reforçam a conclusão jornalística de que houve uma saída do território brasileiro, embora permaneçam sem esclarecimento oficial completo a rota utilizada, os documentos apresentados e a situação migratória do senador.
A conexão argentina e o mistério do avião particular
As primeiras notícias sobre uma possível saída do Brasil surgiram durante a madrugada, a partir de reportagens do portal argentino Infobae.
Segundo as informações divulgadas inicialmente, Flávio teria atravessado a fronteira entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina, para embarcar em um avião executivo com destino aos Estados Unidos.
A investigação jornalística mencionou um jato particular que se encontrava no Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú.
No entanto, o governo argentino apresentou uma versão que contraria parte desses relatos.
A Direção Nacional de Migrações informou não ter identificado registros oficiais de entrada do senador no território argentino.
As autoridades também inspecionaram a aeronave citada nas reportagens e informaram que não encontraram plano de voo que identificasse Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família como passageiros.
O governo de Javier Milei declarou ainda que não havia recebido pedido de asilo político do parlamentar.
A ausência de registro de entrada na Argentina não comprova que o senador tenha utilizado uma passagem clandestina. Tampouco elimina, isoladamente, a possibilidade de ter percorrido uma rota não identificada pelos controles migratórios regulares.
O esclarecimento dessas circunstâncias dependerá de informações de viagem, registros aeroportuários, controles fronteiriços e eventual cooperação entre autoridades de diferentes países.
Aliado de Trump afirma que Flávio chegou aos Estados Unidos
Outra informação ganhou repercussão na tarde desta terça-feira.
O investidor e ex-secretário de Turismo do México Simón Levy, que se apresenta como aliado de Donald Trump, publicou uma mensagem afirmando que Flávio Bolsonaro havia chegado em segurança aos Estados Unidos.
Levy também atribuiu ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a articulação da suposta operação de deslocamento, que chamou de Operação Alba.
A declaração, divulgada por volta das 15h30, não veio acompanhada de provas documentais ou confirmação pública do Departamento de Estado americano.
Até o fechamento desta reportagem, não havia manifestação oficial dos governos brasileiro ou norte-americano confirmando a alegada participação de autoridades dos Estados Unidos na organização da viagem.
Assim, a afirmação de Levy permanece uma declaração atribuída ao empresário, não um fato independentemente comprovado.
Flávio possui cidadania e passaporte italianos
Uma informação relevante para compreender as possibilidades de deslocamento internacional do senador foi confirmada pelo R7 e pelo UOL: Flávio Bolsonaro possui cidadania e passaporte italianos.
Segundo autoridades italianas, sua cidadania foi reconhecida em 2023.
O documento italiano tem uma particularidade jurídica importante. A Polícia Federal brasileira não possui competência para cancelar diretamente um passaporte emitido pelo governo da Itália.
Isso, entretanto, não significa que o parlamentar estivesse autorizado a deixar o Brasil.
A proibição determinada pelo STF alcançava sua saída do território nacional, independentemente de qual documento de viagem fosse utilizado.
A determinação judicial também abrangia a entrega de eventuais passaportes estrangeiros.
Portanto, se comprovado que o senador deixou o país após a proibição e sem autorização do Judiciário, a utilização de outra nacionalidade não afastaria o descumprimento da medida cautelar.
Não há, até o momento, confirmação pública de que o passaporte italiano tenha sido efetivamente utilizado no deslocamento.
O que a Polícia Federal investiga contra Flávio Bolsonaro?
A situação envolvendo os passaportes não surgiu isoladamente.
O senador é investigado em diferentes procedimentos que apuram suspeitas de irregularidades financeiras.
Suspeitas envolvendo Willer Tomaz e plataformas de apostas
Uma das investigações em andamento no Supremo Tribunal Federal examina operações financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz, empresas a ele relacionadas e movimentações realizadas em plataformas de apostas.
Segundo informações publicadas pela Agência Brasil e pela GZH, a Polícia Federal identificou movimentações consideradas atípicas, incluindo transações milionárias e possíveis mecanismos de ocultação de recursos.
Uma das contas bancárias relacionadas ao advogado teria movimentado aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, segundo relatório policial mencionado pela imprensa.
Os investigadores procuram esclarecer a origem e o destino dos valores, a eventual utilização de empresas para movimentar recursos e a participação de diferentes pessoas nas operações.
O nome de Flávio Bolsonaro apareceu em materiais examinados pela investigação, incluindo referências a relações com empresas vinculadas ao advogado.
A Agência Brasil também informou que a apuração preliminar da PF aponta o senador como possível beneficiário de recursos relacionados à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.
Na semana passada, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores relacionados a Willer Tomaz, no contexto das investigações.
É importante ressaltar que esse bloqueio não representa uma condenação do advogado ou do senador, nem significa que R$ 6 bilhões tenham sido comprovadamente desviados.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades.
Investigação sobre o filme Dark Horse e o Banco Master
Outra frente de investigação envolve o financiamento da produção audiovisual Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo reportagem da GZH, o procedimento examina suspeitas relacionadas a repasses de quase R$ 70 milhões associados ao Banco Master e à produção do filme.
Os investigadores procuram verificar a legalidade dos pagamentos e a possibilidade de parte dos recursos ter sido destinada a finalidades distintas do financiamento audiovisual, incluindo eventual apoio a atividades políticas.
A apuração é relatada pelo ministro André Mendonça, do STF, e constitui um procedimento separado daquele relacionado a Willer Tomaz.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os recursos empregados na produção eram privados.
Em ambos os casos, as suspeitas precisam ser comprovadas por meio de investigação e processo judicial. A condição de investigado não significa que exista condenação ou culpa estabelecida.
Parlamentares pedem prisão preventiva e alerta da Interpol
As informações sobre a viagem internacional levaram deputados do Partido dos Trabalhadores a apresentar um pedido de prisão preventiva ao ministro Alexandre de Moraes.
A solicitação foi encaminhada pelos deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), acompanhados da deputada federal eleita Ana Elisa Santos (PT-MG).
Os autores argumentam que o descumprimento da determinação de entrega dos passaportes e a possibilidade de saída do país representam risco à aplicação da lei penal.
O documento também solicita a inclusão do senador na difusão vermelha da Interpol, caso seja expedida uma ordem de prisão.
Os parlamentares pedem ainda providências para esclarecer seu paradeiro, manifestação da Procuradoria-Geral da República e cooperação com autoridades estrangeiras.
Até o fechamento desta reportagem, não havia confirmação de que Alexandre de Moraes tivesse decretado a prisão do senador.
É fundamental distinguir um pedido formulado por parlamentares de uma decisão judicial efetivamente proferida.
O STF pode mandar prender Flávio Bolsonaro imediatamente?
A resposta exige uma análise da Constituição Federal.
O artigo 53, parágrafo 2º, estabelece que deputados federais e senadores, desde a expedição do diploma, não podem ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável.
Essa proteção busca preservar a independência do Poder Legislativo e impedir que prisões sejam utilizadas para interferir arbitrariamente no exercício da representação parlamentar.
Em 2017, no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 5526, o Supremo Tribunal Federal confirmou que a prisão preventiva comum prevista no Código de Processo Penal não se aplica a parlamentares federais abrangidos por essa imunidade.





