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QUEBRA DE SIGILO

Lula e Flávio Bolsonaro assinam acordo para abrir sigilos: veja tudo o que foi acertado e as 19 exigências

Documento apresentado ao TSE prevê divulgação de informações bancárias, fiscais e telefônicas dos candidatos, familiares e empresas. Negociação envolveu Instituto Lula, Banco Master, gastos da Presidência e offshore ligada a amigo de Flávio. A efetiva liberação dos dados ainda depende de providências judiciais.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 22 de outubro de 2026 às 16:21 • Salvador - BA
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Montagem ilustrativa reúne Lula e Flávio Bolsonaro diante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em referência ao acordo anunciado para abertura recíproca de sigilos bancários, fiscais e telefônicos. O entendimento envolve familiares, empresas e 19 exigências apresentadas pela defesa de Flávio. A divulgação efetiva dos dados depende de providências da Justiça Eleitoral.
Montagem ilustrativa reúne Lula e Flávio Bolsonaro diante do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em referência ao acordo anunciado para abertura recíproca de sigilos bancários, fiscais e telefônicos. O entendimento envolve familiares, empresas e 19 exigências apresentadas pela defesa de Flávio. A divulgação efetiva dos dados depende de providências da Justiça Eleitoral. — Arte ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) chegaram, nesta quinta-feira (22), a um acordo para a abertura recíproca de sigilos bancários, fiscais e telefônicos.

O entendimento foi formalizado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após quatro dias de discussões públicas e negociações envolvendo familiares, empresas, movimentações financeiras e informações relacionadas a investigações policiais.

O documento foi assinado pessoalmente por Lula e, em nome de Flávio Bolsonaro, pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, mediante procuração.

A proposta prevê que as informações sejam disponibilizadas simultaneamente, em plataforma de acesso público, antes da votação.

O acordo está assinado, mas a abertura efetiva dos sigilos ainda não foi concluída. O processo está sob relatoria do ministro André Mendonça, do TSE, e depende de análise judicial e de providências dos órgãos responsáveis pelos dados.

Como começou a disputa

A controvérsia começou no domingo (18), durante o debate presidencial promovido pela Band.

Em meio a acusações sobre corrupção, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a autorizar a abertura de seus sigilos bancários e telefônicos, incluindo informações de familiares.

Na ocasião, Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas questionou se a abertura das contas pessoais de Lula permitiria esclarecer movimentações atribuídas a pessoas e empresas próximas ao presidente.

Na terça-feira (20), Lula protocolou no TSE uma autorização para divulgação de seus dados e dos de familiares, condicionada à reciprocidade.

Na quarta-feira (21), Flávio apresentou uma contraproposta com 19 exigências, ampliando consideravelmente o alcance do levantamento.

A campanha de Lula anunciou que aceitava as condições e formalizou a concordância nesta quinta-feira (22).

O acordo foi anunciado depois de uma divergência adicional sobre a inclusão de uma empresa estrangeira vinculada ao advogado Willer Tomaz.

O que Lula pediu sobre Flávio Bolsonaro

O pedido inicial de Lula contempla a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Flávio, além de familiares e pessoas jurídicas apontadas como relacionadas ao senador.

Entre os familiares identificados estão Jair Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro e Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, esposa do candidato.

A solicitação também abrange quatro empresas indicadas na documentação: Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, All In One Corretora de Seguros, Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação e Bolsonaro Digital.

Uma quinta empresa passou a ocupar o centro das negociações: a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.

Na petição apresentada em 21 de outubro, Flávio declarou autorizar a abertura de seus próprios sigilos referentes aos últimos 20 anos, estendendo a manifestação aos familiares mencionados pela campanha adversária e às quatro empresas das quais afirmou ser sócio ou administrador.

Ele também declarou não se opor à divulgação de mensagens que teria trocado com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

A autorização envolvendo familiares e empresas, contudo, precisa respeitar a titularidade dos dados e os procedimentos legais aplicáveis.

As 19 exigências apresentadas por Flávio Bolsonaro

A contraproposta de Flávio foi organizada em diferentes frentes, abrangendo informações do próprio presidente, familiares, empresas, pessoas próximas e registros administrativos do governo federal.

A seguir, os 19 pontos, resumidos a partir da petição apresentada ao TSE:

  1. Lulinha e sua esposa: abertura dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, sua esposa Renata de Abreu Moreira e empresas do antigo grupo Gamecorp, com registros solicitados desde 2003.

  2. Empresas no exterior: divulgação dos dados de sociedades estrangeiras apontadas como vinculadas a Lulinha, incluindo a Synapta, sediada na Espanha.

  3. FlexBR Tecnologia: levantamento dos sigilos da empresa relacionada, segundo a petição, aos filhos Sandro Luís e Marcos Cláudio.

  4. Fernando Bittar: abertura de informações de empresas ligadas ao empresário, citado nos processos referentes ao sítio de Atibaia.

  5. Demais filhos de Lula: levantamento de informações empresariais relacionadas a Lurian, Marcos Cláudio, Sandro Luís e Luís Cláudio, incluindo a LFT Marketing Esportivo.

  6. Instituto Lula: divulgação dos sigilos da instituição e de seu ex-presidente Paulo Okamotto.

  7. Visitas a Daniel Vorcaro: apresentação da relação de pessoas que visitaram o fundador do Banco Master durante sua custódia.

  8. Aeronave ligada a Vorcaro: divulgação de planos de voo e identificação de passageiros de um jato particular associado ao empresário, em novembro de 2025.

  9. Reunião entre Lula e Vorcaro: apresentação da pauta, participantes e registros do encontro realizado em dezembro de 2024.

  10. Acessos aos palácios presidenciais: divulgação das entradas de Vorcaro e de pessoas apontadas como seus intermediários no Planalto e no Alvorada desde 2023.

  11. Guido Mantega e Augusto Lima: apresentação de registros de entrada no Palácio do Planalto do ex-ministro da Fazenda e do ex-executivo do Banco Master.

  12. João Vaccari Neto: abertura dos sigilos bancários e fiscais dos últimos oito anos do ex-tesoureiro do PT.

  13. Roberta Luchsinger e Edson Claro: levantamento dos sigilos dos últimos oito anos dessas pessoas e da empresa RL Consultoria e Intermediações.

  14. Visitas de Roberta ao governo: divulgação de registros de entrada e saída da empresária nos palácios presidenciais entre 2023 e 2026.

  15. Voos da FAB: apresentação da relação de voos da Força Aérea Brasileira que tenham contado com Roberta Luchsinger como passageira.

  16. Reuniões em órgãos federais: disponibilização dos registros de reuniões de Roberta Luchsinger em instituições do governo.

  17. Marco Aurélio Santana Ribeiro: abertura dos sigilos bancários e fiscais do ex-chefe de gabinete de Lula, conhecido como Marcola. A petição também solicita autorizações relativas a linhas telefônicas utilizadas no atendimento ao presidente.

  18. Frei Chico e Sindnapi: abertura dos sigilos dos últimos oito anos de José Ferreira da Silva, irmão de Lula, e do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos.

  19. Cartões corporativos e despesas da Presidência: divulgação de gastos com cartões corporativos desde janeiro de 2023, agendas da primeira-dama Janja anteriores a fevereiro de 2025, registros de visitas de familiares, uso de helicópteros e despesas do Palácio da Alvorada.

A lista corresponde às solicitações apresentadas pela defesa de Flávio. A inclusão de pessoas e instituições nesses pedidos não comprova irregularidades.

Por que o Banco Master entrou na negociação?

O caso Banco Master aparece em diferentes pontos das exigências apresentadas por Flávio Bolsonaro.

Sua defesa solicitou informações sobre reuniões, visitantes, deslocamentos e possíveis relações entre o fundador da instituição, Daniel Vorcaro, e integrantes ou pessoas próximas ao governo federal.

Entre os registros solicitados está o encontro entre Lula e Vorcaro realizado em dezembro de 2024, além de informações referentes ao ex-ministro Guido Mantega e a Augusto Lima, ex-executivo do banco.

Por outro lado, a campanha de Lula também apresentou questionamentos sobre possíveis relações financeiras envolvendo Flávio Bolsonaro, o advogado Willer Tomaz e empresas ligadas a ambos.

Assim, os pedidos relacionados ao Banco Master alcançam pessoas e fatos apontados pelas duas campanhas, com fundamentos e alegações diferentes.

É importante distinguir a existência de investigações, os questionamentos feitos pelos candidatos e a comprovação de eventuais ilegalidades.

O impasse envolvendo a Alcazar Holdings

Um dos momentos de maior tensão nas negociações ocorreu em torno da Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, vinculada ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro.

Segundo informações atribuídas a documentos analisados pela Polícia Federal, o senador teria aparecido como usuário com privilégios de administração, identificado como usuário master, de uma conta bancária da empresa.

O registro foi citado na petição da campanha de Lula como argumento para incluir a companhia no levantamento.

O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que representantes de Flávio inicialmente resistiram à inclusão da Alcazar, mas concordaram após negociação.

A empresa apresentou uma petição ao TSE declarando aceitar a abertura de seus sigilos. No mesmo documento, afirmou que Flávio Bolsonaro nunca foi seu sócio, administrador ou beneficiário e que Willer Tomaz detém integralmente seu capital.

A petição apresentada pela holding não continha, naquele momento, os extratos ou dados fiscais solicitados.

Flávio e Willer negam manter negócios em conjunto. A possível existência de vínculos econômicos continua sendo uma questão que exige verificação documental.

O que foi estabelecido sobre a divulgação?

O entendimento apresentado ao TSE prevê reciprocidade na abertura dos sigilos e divulgação simultânea dos dados abrangidos pelas autorizações.

A proposta menciona a utilização do sistema DivulgaCandContas, da Justiça Eleitoral, ou de outro endereço eletrônico público.

Para viabilizar a entrega, foram solicitadas providências envolvendo instituições financeiras, Banco Central, Receita Federal e operadoras de telefonia.

As campanhas discutiram a divulgação até o fim desta quinta-feira (22), com prazo mencionado de 23h59.

Entretanto, não basta assinar uma autorização para que todas as informações sejam automaticamente publicadas.

O levantamento de dados bancários, fiscais e telefônicos depende de procedimentos jurídicos e operacionais. No caso de terceiros, a autorização individual ou uma decisão judicial adequada pode ser necessária.

Também existe uma diferença entre permitir acesso a registros telefônicos e autorizar a divulgação do conteúdo privado de comunicações.

Por que ainda existe divergência entre as campanhas?

Mesmo com o acordo assinado, representantes dos dois candidatos apresentaram interpretações diferentes sobre o cumprimento dos compromissos.

A campanha de Lula considera que a documentação protocolada demonstra a aceitação integral das condições e permite que o TSE conduza as providências necessárias.

A defesa de Flávio, por sua vez, afirma que a concordância formal não substitui a apresentação efetiva dos documentos.

A advogada Maria Claudia Bucchianeri declarou que a equipe do senador pretende conferir previamente o material relacionado a Lula.

O ex-procurador da República e senador eleito Deltan Dallagnol, que participa dessa análise pela campanha de Flávio, também afirmou que o presidente apresentou autorizações, mas não todos os dados que teriam sido solicitados.

A campanha petista contesta a exigência de uma conferência prévia feita unilateralmente pelo adversário, defendendo a abertura simultânea e a atuação da Justiça.

Dessa forma, a existência do acordo não eliminou as divergências sobre sua execução.

O que ainda precisa acontecer?

O ministro André Mendonça deverá examinar os requerimentos apresentados no processo de número 0603195-27.2026.6.00.0000.

Entre as questões jurídicas estão o alcance das autorizações, a situação de pessoas e empresas que não são signatárias, a necessidade de requisição de documentos e as condições para eventual divulgação pública.

Outro ponto relevante é o período abrangido pelas solicitações.

A proposta inicial de Lula mencionava os últimos oito anos. A petição de Flávio autorizou, para seus próprios dados, os últimos 20 anos e ampliou pedidos relacionados a Lula e a terceiros, em alguns casos com registros desde 2003.

Ainda será necessário verificar como essas diferenças serão tratadas na implementação do acordo.

Até a conclusão desta apuração, não havia confirmação de que os sigilos de ambos os candidatos tivessem sido integralmente levantados e disponibilizados ao público.

O que esse acordo permite esclarecer?

Uma eventual divulgação poderá oferecer elementos adicionais para examinar a evolução patrimonial dos candidatos, movimentações financeiras, relações empresariais e informações administrativas submetidas à análise.

Isso não significa que a simples movimentação de recursos constitua indício de crime.

Uma apuração adequada precisará considerar a origem dos valores, os períodos envolvidos, a documentação de suporte, a legislação aplicável e as explicações dos titulares.

O mesmo cuidado deverá ser adotado em relação às empresas, familiares e demais pessoas citadas pelas campanhas.

A Justiça também terá de considerar os direitos de privacidade e proteção de dados de pessoas que não disputam a eleição.

Transparência, Justiça e o direito à informação

O acordo firmado entre Lula e Flávio Bolsonaro representa uma iniciativa incomum na reta final de uma disputa presidencial, ao colocar informações financeiras privadas e questionamentos sobre terceiros no centro de uma negociação pública.

Entretanto, o alcance prático do entendimento dependerá das medidas adotadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e do efetivo cumprimento dos compromissos.

Para além das acusações de campanha, o interesse público está na possibilidade de examinar informações verificáveis, respeitando o devido processo legal e distinguindo fatos comprovados de alegações políticas.

O Hoje Bahia continuará acompanhando os desdobramentos do processo, especialmente eventual decisão do ministro André Mendonça, apresentação dos documentos e divulgação dos dados.

A questão central permanece: quais informações serão efetivamente disponibilizadas à sociedade antes da votação de domingo, 25 de outubro?


Fontes e documentos consultados: Agência Brasil; Folha de S.Paulo; UOL; Poder360; petição de Flávio Bolsonaro protocolada no TSE em 21 de outubro de 2026.

Documento original: Leia a petição com as exigências de Flávio Bolsonaro (PDF).

Apuração atualizada em 22 de outubro de 2026, com base nas informações disponíveis durante a tarde.

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