A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) chegaram, nesta quinta-feira (22), a um acordo para a abertura recíproca de sigilos bancários, fiscais e telefônicos.
O entendimento foi formalizado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após quatro dias de discussões públicas e negociações envolvendo familiares, empresas, movimentações financeiras e informações relacionadas a investigações policiais.
O documento foi assinado pessoalmente por Lula e, em nome de Flávio Bolsonaro, pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, mediante procuração.
A proposta prevê que as informações sejam disponibilizadas simultaneamente, em plataforma de acesso público, antes da votação.
O acordo está assinado, mas a abertura efetiva dos sigilos ainda não foi concluída. O processo está sob relatoria do ministro André Mendonça, do TSE, e depende de análise judicial e de providências dos órgãos responsáveis pelos dados.
Como começou a disputa
A controvérsia começou no domingo (18), durante o debate presidencial promovido pela Band.
Em meio a acusações sobre corrupção, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a autorizar a abertura de seus sigilos bancários e telefônicos, incluindo informações de familiares.
Na ocasião, Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas questionou se a abertura das contas pessoais de Lula permitiria esclarecer movimentações atribuídas a pessoas e empresas próximas ao presidente.
Na terça-feira (20), Lula protocolou no TSE uma autorização para divulgação de seus dados e dos de familiares, condicionada à reciprocidade.
Na quarta-feira (21), Flávio apresentou uma contraproposta com 19 exigências, ampliando consideravelmente o alcance do levantamento.
A campanha de Lula anunciou que aceitava as condições e formalizou a concordância nesta quinta-feira (22).
O acordo foi anunciado depois de uma divergência adicional sobre a inclusão de uma empresa estrangeira vinculada ao advogado Willer Tomaz.
O que Lula pediu sobre Flávio Bolsonaro
O pedido inicial de Lula contempla a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Flávio, além de familiares e pessoas jurídicas apontadas como relacionadas ao senador.
Entre os familiares identificados estão Jair Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro e Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, esposa do candidato.
A solicitação também abrange quatro empresas indicadas na documentação: Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, All In One Corretora de Seguros, Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação e Bolsonaro Digital.
Uma quinta empresa passou a ocupar o centro das negociações: a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.
Na petição apresentada em 21 de outubro, Flávio declarou autorizar a abertura de seus próprios sigilos referentes aos últimos 20 anos, estendendo a manifestação aos familiares mencionados pela campanha adversária e às quatro empresas das quais afirmou ser sócio ou administrador.
Ele também declarou não se opor à divulgação de mensagens que teria trocado com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
A autorização envolvendo familiares e empresas, contudo, precisa respeitar a titularidade dos dados e os procedimentos legais aplicáveis.
As 19 exigências apresentadas por Flávio Bolsonaro
A contraproposta de Flávio foi organizada em diferentes frentes, abrangendo informações do próprio presidente, familiares, empresas, pessoas próximas e registros administrativos do governo federal.
A seguir, os 19 pontos, resumidos a partir da petição apresentada ao TSE:
-
Lulinha e sua esposa: abertura dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, sua esposa Renata de Abreu Moreira e empresas do antigo grupo Gamecorp, com registros solicitados desde 2003.
-
Empresas no exterior: divulgação dos dados de sociedades estrangeiras apontadas como vinculadas a Lulinha, incluindo a Synapta, sediada na Espanha.
-
FlexBR Tecnologia: levantamento dos sigilos da empresa relacionada, segundo a petição, aos filhos Sandro Luís e Marcos Cláudio.
-
Fernando Bittar: abertura de informações de empresas ligadas ao empresário, citado nos processos referentes ao sítio de Atibaia.
-
Demais filhos de Lula: levantamento de informações empresariais relacionadas a Lurian, Marcos Cláudio, Sandro Luís e Luís Cláudio, incluindo a LFT Marketing Esportivo.
-
Instituto Lula: divulgação dos sigilos da instituição e de seu ex-presidente Paulo Okamotto.
-
Visitas a Daniel Vorcaro: apresentação da relação de pessoas que visitaram o fundador do Banco Master durante sua custódia.
-
Aeronave ligada a Vorcaro: divulgação de planos de voo e identificação de passageiros de um jato particular associado ao empresário, em novembro de 2025.
-
Reunião entre Lula e Vorcaro: apresentação da pauta, participantes e registros do encontro realizado em dezembro de 2024.
-
Acessos aos palácios presidenciais: divulgação das entradas de Vorcaro e de pessoas apontadas como seus intermediários no Planalto e no Alvorada desde 2023.
-
Guido Mantega e Augusto Lima: apresentação de registros de entrada no Palácio do Planalto do ex-ministro da Fazenda e do ex-executivo do Banco Master.
-
João Vaccari Neto: abertura dos sigilos bancários e fiscais dos últimos oito anos do ex-tesoureiro do PT.
-
Roberta Luchsinger e Edson Claro: levantamento dos sigilos dos últimos oito anos dessas pessoas e da empresa RL Consultoria e Intermediações.
-
Visitas de Roberta ao governo: divulgação de registros de entrada e saída da empresária nos palácios presidenciais entre 2023 e 2026.
-
Voos da FAB: apresentação da relação de voos da Força Aérea Brasileira que tenham contado com Roberta Luchsinger como passageira.
-
Reuniões em órgãos federais: disponibilização dos registros de reuniões de Roberta Luchsinger em instituições do governo.
-
Marco Aurélio Santana Ribeiro: abertura dos sigilos bancários e fiscais do ex-chefe de gabinete de Lula, conhecido como Marcola. A petição também solicita autorizações relativas a linhas telefônicas utilizadas no atendimento ao presidente.
-
Frei Chico e Sindnapi: abertura dos sigilos dos últimos oito anos de José Ferreira da Silva, irmão de Lula, e do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos.
-
Cartões corporativos e despesas da Presidência: divulgação de gastos com cartões corporativos desde janeiro de 2023, agendas da primeira-dama Janja anteriores a fevereiro de 2025, registros de visitas de familiares, uso de helicópteros e despesas do Palácio da Alvorada.
A lista corresponde às solicitações apresentadas pela defesa de Flávio. A inclusão de pessoas e instituições nesses pedidos não comprova irregularidades.
Por que o Banco Master entrou na negociação?
O caso Banco Master aparece em diferentes pontos das exigências apresentadas por Flávio Bolsonaro.
Sua defesa solicitou informações sobre reuniões, visitantes, deslocamentos e possíveis relações entre o fundador da instituição, Daniel Vorcaro, e integrantes ou pessoas próximas ao governo federal.
Entre os registros solicitados está o encontro entre Lula e Vorcaro realizado em dezembro de 2024, além de informações referentes ao ex-ministro Guido Mantega e a Augusto Lima, ex-executivo do banco.





