A decisão da Câmara Municipal de Salvador de conceder o Título de Cidadão Soteropolitano ao senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) provocou uma reação popular que ultrapassou as redes sociais e chegou à Justiça.
Um abaixo-assinado eletrônico contrário à homenagem superou a marca de 140 mil adesões, segundo levantamento divulgado pelo Bahia Notícias na manhã desta quinta-feira (15). Poucas horas depois, o portal Acorda Cidade informou que a mobilização já havia ultrapassado 150 mil assinaturas.
A contagem é dinâmica e os números divulgados pelos veículos não puderam ser integralmente reproduzidos na consulta direta à plataforma Change.org. Ainda assim, os registros publicados demonstram a rápida repercussão da iniciativa.
O movimento questiona, principalmente, quais contribuições concretas o parlamentar, eleito pelo Rio de Janeiro, teria oferecido a Salvador para justificar o recebimento de uma das principais distinções concedidas pelo Legislativo municipal.
A cerimônia está oficialmente marcada para sábado (17), às 15h, no Farol da Barra, durante um evento associado à mobilização eleitoral em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Para viabilizar a solenidade, a Câmara aprovou uma mudança temporária de sua sede institucional para o local da homenagem.
A combinação entre o reconhecimento oficial, a campanha presidencial e os questionamentos sobre os critérios de concessão transformou o episódio em uma controvérsia política e jurídica.
Abaixo-assinado questiona mérito da homenagem
A petição foi criada em 13 de outubro na plataforma Change.org por Magali de Jesus Domingues e pede a revogação da Resolução nº 3.592/2026, que formalizou a concessão do título.
Os organizadores sustentam que honrarias municipais devem reconhecer pessoas que tenham contribuído efetivamente para o desenvolvimento da cidade e o bem-estar de seus moradores.
O texto também questiona a trajetória política do senador e argumenta que o reconhecimento concedido pela Câmara não corresponde aos valores defendidos pelos signatários.
A mobilização ganhou velocidade depois que se tornou pública a realização da cerimônia durante a passagem do candidato pela capital baiana.
É importante observar que um abaixo-assinado eletrônico não equivale a uma pesquisa de opinião. A plataforma permite adesões de pessoas de diferentes localidades, e não há comprovação de que todos os participantes sejam moradores de Salvador.
Também não existe efeito jurídico automático decorrente do número de assinaturas. A decisão de modificar ou revogar a homenagem depende dos procedimentos institucionais e legais aplicáveis.
Mesmo assim, a repercussão representa uma manifestação relevante de contestação a uma decisão do poder público municipal.
Câmara aprovou título em maio; oposição votou contra
A controvérsia não começou nesta semana.
O Projeto de Resolução nº 28/2026, que concedeu o título ao senador, foi aprovado pela Câmara Municipal em 6 de maio.
Na ocasião, os dez vereadores integrantes da bancada de oposição votaram contra a proposta.
Em manifestação divulgada oficialmente pela própria Câmara, os parlamentares argumentaram que Flávio Bolsonaro não havia apresentado contribuições específicas à capital baiana que justificassem a distinção.
O líder da oposição, Randerson Leal (Podemos), declarou na época:
“Flávio Bolsonaro nunca apresentou ações concretas em benefício do povo soteropolitano.”
Também participaram do posicionamento contrário Marta Rodrigues (PT), Aladilce Souza (PCdoB), Silvio Humberto (PSB), João Cláudio Bacelar (Podemos), Hélio Ferreira (PCdoB), Eliete Paraguassu (PSOL), Hamilton Assis (PSOL), Felipe Santana (PSD) e Dr. David Rios (MDB).
A resolução foi publicada no Diário Oficial em 10 de julho, formalizando a homenagem.
Com a proximidade da entrega, os questionamentos ganharam uma nova dimensão. Parlamentares da oposição encaminharam documento à Câmara solicitando a revisão da decisão e levantando preocupações sobre os princípios da moralidade, da impessoalidade e do interesse público.
O que diz a Câmara para justificar a homenagem?
A defesa da concessão foi apresentada pelo vereador Cezar Leite (PL), responsável pela articulação da homenagem e pela entrega do título.
Em comunicado oficial divulgado em 13 de outubro, a Câmara informou que a proposta foi apresentada pela Mesa Diretora e justificada pela contribuição de Flávio Bolsonaro ao fortalecimento de valores democráticos, institucionais e sociais.
A instituição também destacou a atuação do senador em temas relacionados à segurança pública e ao desenvolvimento econômico.
Cezar Leite defendeu o reconhecimento de lideranças nacionais cuja atuação esteja relacionada a assuntos de interesse da população, mesmo quando exercem mandatos em outras unidades da Federação.
Já o presidente da Câmara, Carlos Muniz (PSDB), sustentou que a transferência temporária da sede foi aprovada pelo plenário e respeitou o regimento da Casa.
Muniz afirmou que a decisão da maioria deve ser respeitada.
Portanto, a Câmara defende a legitimidade da homenagem com base na trajetória institucional e na relevância nacional do senador.
O ponto central da contestação é outro: se essa atuação de abrangência nacional é suficiente para atender aos critérios de reconhecimento municipal previstos nas normas da própria instituição.
Na justificativa pública examinada pelo Hoje Bahia, não foram identificados exemplos específicos de projetos ou serviços executados diretamente por Flávio Bolsonaro em benefício de Salvador.
Isso não constitui, por si só, comprovação de irregularidade, mas é uma questão objetiva que pode ser esclarecida pela Câmara e pelos responsáveis pela proposta.
Ação popular pede suspensão da cerimônia
Além da mobilização na internet, a controvérsia chegou ao Poder Judiciário.
Uma ação popular ajuizada pelo estudante universitário Victor Jesus Queirós de Lima, apresentada à Justiça estadual, pede a anulação do ato que concede o título ao senador.
A iniciativa foi protocolada na quarta-feira (14), com pedido de decisão urgente.
De acordo com informações divulgadas pelo portal Acorda Cidade, que teve acesso ao documento, a ação aponta supostas irregularidades formais e materiais na tramitação da homenagem.
A argumentação menciona os artigos 204 e 205 do Regimento Interno da Câmara Municipal, relacionados aos requisitos para concessão de honrarias.
Entre os questionamentos apresentados estão a alegada ausência de documentação biográfica suficiente e de comprovação dos serviços prestados à cidade.





