As milícias estão entre os fenômenos mais preocupantes da segurança pública brasileira. O que começou, em determinadas regiões do Rio de Janeiro, com grupos formados por policiais e outros agentes armados que alegavam combater o tráfico de drogas transformou-se, em muitos territórios, em estruturas criminosas que controlam comunidades, exploram serviços essenciais, intimidam moradores e buscam influência sobre a política.
As relações entre integrantes desses grupos e pessoas ligadas à família Bolsonaro, especialmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), são objeto de controvérsias, reportagens e investigações que ganharam repercussão nacional. Para compreender esse debate, é necessário distinguir três coisas: o que são as milícias, como elas construíram seu poder e quais fatos documentados sustentam as suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro — sem confundir acusações com condenações judiciais.
As milícias são organizações criminosas que utilizam a força armada, a intimidação e a corrupção para controlar territórios e explorar economicamente seus moradores. No Rio de Janeiro, muitas delas são formadas ou foram historicamente lideradas por policiais, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários e outros indivíduos com experiência ou vínculos com estruturas de segurança.
Diferentemente da imagem que tentaram construir no início, de grupos que protegeriam a população contra o tráfico de drogas, as milícias passaram a atuar como verdadeiros poderes paralelos.
Entre suas principais atividades estão:
- Cobrança de taxas de segurança: moradores e comerciantes são obrigados a pagar pela suposta proteção.
- Controle de serviços: exploração clandestina ou coercitiva de fornecimento de gás, internet, transporte alternativo e distribuição de água.
- Mercado imobiliário ilegal: apropriação de terrenos, construção irregular de imóveis e venda de propriedades em áreas controladas pelos grupos.
- Extorsão e ameaças: quem se recusa a pagar ou desafia as regras impostas pode sofrer represálias.
- Influência política: apoio ou pressão sobre candidatos, controle social do território e busca de proteção institucional.
- Homicídios e grupos de extermínio: em determinadas estruturas, assassinatos por encomenda e eliminação de adversários fazem parte do funcionamento criminoso.
Essas atividades não são idênticas em todas as comunidades. As organizações mudam de composição, fazem alianças e disputam territórios. Pesquisas do Observatório das Metrópoles e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF apontam que o poder econômico, a força armada e as conexões políticas são elementos fundamentais para compreender sua expansão.
2. Como surgiram as milícias no Rio de Janeiro?
A história das milícias não começou
nos anos 2000. Suas raízes remontam a grupos de extermínio que atuavam no Rio
de Janeiro desde meados do século XX, alguns deles ligados a agentes de
segurança pública.
Nos anos 1950 e 1960, grupos de policiais passaram a atuar na perseguição e execução de pessoas consideradas criminosas. Essas estruturas ajudaram a consolidar uma cultura de violência extrajudicial, frequentemente resumida na ideia de que determinados indivíduos poderiam ser eliminados sem julgamento.
Nas décadas seguintes, algumas dessas redes evoluíram para formas mais organizadas de controle territorial.
Na Zona Oeste carioca, a comunidade de Rio das Pedras tornou-se um dos principais marcos históricos desse processo. A partir dos anos 1980, grupos conhecidos popularmente como polícia mineira passaram a exercer controle sobre a associação de moradores e a cobrar taxas dos comerciantes e habitantes em nome da segurança.
O modelo se expandiu: além de impor regras pela força, os grupos perceberam que controlar serviços e mercados locais poderia produzir uma fonte permanente de renda.
Nos anos 2000, o termo milícia ganhou maior visibilidade pública. Em 2008, a tortura de jornalistas do jornal O Dia que investigavam a atuação desses grupos contribuiu para ampliar a repercussão do problema. Naquele ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as milícias.
As apurações expuseram redes de extorsão, homicídios, corrupção e participação de agentes públicos. Também evidenciaram como o poder armado poderia se converter em influência eleitoral.
3. Como as milícias conquistam e mantêm o poder?
A força das milícias não está apenas nas armas. Está na capacidade de combinar violência, exploração econômica e relações políticas.
O mecanismo costuma funcionar em etapas:
1. A promessa de segurança
O grupo apresenta-se como alternativa
ao tráfico de drogas e explora o medo e a insegurança dos moradores.
2. A imposição de pagamentos
A suposta proteção transforma-se em
cobrança obrigatória. Serviços e atividades comerciais passam a ser controlados
pelo grupo.
3. O controle pela violência
Ameaças, agressões e assassinatos
podem ser usados para impedir denúncias, eliminar concorrentes e silenciar
opositores.
4. A busca por influência institucional
Relações com agentes públicos, intermediários
e políticos podem dificultar a fiscalização, favorecer interesses econômicos e
ampliar o poder territorial.
O resultado é uma situação em que o morador deixa de ser plenamente livre para escolher de quem comprar, qual serviço contratar ou a quem recorrer. Em determinadas áreas, o grupo armado passa a exercer funções que deveriam pertencer ao Estado, mas sem controle democrático, transparência ou respeito aos direitos individuais.
É importante ressaltar que nem todo policial ou agente público tem ligação com milícias. O problema está na atuação criminosa de indivíduos e redes que utilizam cargos, informações, armas ou relações institucionais para obter vantagens ilegais.
4. Flávio Bolsonaro e as relações com personagens ligados às milícias
A trajetória política de Flávio Bolsonaro inclui episódios envolvendo pessoas que, posteriormente, foram associadas a milícias ou investigadas por crimes graves. O conjunto dessas relações tornou-se tema de debate público, sobretudo durante a campanha presidencial de 2026.
É fundamental examinar os episódios individualmente, distinguindo fatos documentados, acusações do Ministério Público, decisões judiciais e explicações apresentadas pelo senador.
Adriano da Nóbrega: a homenagem que ganhou repercussão nacional
Adriano Magalhães da Nóbrega - Ex-capitão do Bope, foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das principais lideranças do grupo conhecido como Escritório do Crime, associado a assassinatos por encomenda e à estrutura miliciana carioca.
Um dos episódios mais conhecidos
ocorreu em 2005, quando Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, entregou a
Adriano a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro.
O detalhe que provocou controvérsia foi
que Adriano estava preso preventivamente, acusado de envolvimento no
assassinato de um guardador de carros. Posteriormente, ele foi absolvido nesse
processo específico, segundo registros jornalísticos, mas acabou associado a
outras investigações criminais.
Em 2020, Adriano morreu durante uma operação policial na Bahia.
Flávio justificou a homenagem
afirmando que, naquele momento, Adriano era reconhecido por sua atuação
policial e que não poderia prever os acontecimentos posteriores. Seu pai, Jair
Bolsonaro, também afirmou que o ex-capitão era considerado um herói da Polícia
Militar à época da homenagem.
A questão jornalística, portanto, não se resume à existência da medalha. É necessário investigar os critérios utilizados para conceder honrarias públicas, as informações disponíveis naquele momento e a natureza das relações estabelecidas entre representantes eleitos e agentes posteriormente associados ao crime organizado.
A mãe e a ex-mulher de Adriano no gabinete de Flávio
Outro ponto relevante diz respeito a duas mulheres que trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa: Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa, ex-mulher do ex-capitão.
As duas foram nomeadas para cargos
comissionados durante o período em que Flávio exercia mandato de deputado
estadual. As nomeações ganharam destaque nas investigações sobre o esquema
conhecido como rachadinha, no qual funcionários públicos seriam obrigados a
devolver parte de seus salários.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2020, as duas teriam participado do mecanismo de devolução de salários. A investigação também apontou Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, como operador financeiro do suposto esquema.
O senador e seus aliados negaram as
acusações.






