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REPORTAGEM

Milícias no Rio de Janeiro: como surgiram, como atuam e quais são as relações investigadas com Flávio Bolsonaro

As milícias são organizações criminosas que utilizam a força armada, a intimidação e a corrupção para controlar territórios e explorar economicamente seus moradores

Jorge Matos | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 22 de outubro de 2026 às 13:33
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Milícias no Rio de Janeiro: como surgiram, como atuam e quais são as relações investigadas com Flávio Bolsonaro
Ilustração: Meta AI

As milícias estão entre os fenômenos mais preocupantes da segurança pública brasileira. O que começou, em determinadas regiões do Rio de Janeiro, com grupos formados por policiais e outros agentes armados que alegavam combater o tráfico de drogas transformou-se, em muitos territórios, em estruturas criminosas que controlam comunidades, exploram serviços essenciais, intimidam moradores e buscam influência sobre a política.

As relações entre integrantes desses grupos e pessoas ligadas à família Bolsonaro, especialmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), são objeto de controvérsias, reportagens e investigações que ganharam repercussão nacional. Para compreender esse debate, é necessário distinguir três coisas: o que são as milícias, como elas construíram seu poder e quais fatos documentados sustentam as suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro — sem confundir acusações com condenações judiciais.

As milícias são organizações criminosas que utilizam a força armada, a intimidação e a corrupção para controlar territórios e explorar economicamente seus moradores. No Rio de Janeiro, muitas delas são formadas ou foram historicamente lideradas por policiais, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários e outros indivíduos com experiência ou vínculos com estruturas de segurança.

Diferentemente da imagem que tentaram construir no início, de grupos que protegeriam a população contra o tráfico de drogas, as milícias passaram a atuar como verdadeiros poderes paralelos.

 Entre suas principais atividades estão:

  •  Cobrança de taxas de segurança: moradores e comerciantes são obrigados a pagar pela suposta proteção.
  • Controle de serviços: exploração clandestina ou coercitiva de fornecimento de gás, internet, transporte alternativo e distribuição de água.
  • Mercado imobiliário ilegal: apropriação de terrenos, construção irregular de imóveis e venda de propriedades em áreas controladas pelos grupos.
  • Extorsão e ameaças: quem se recusa a pagar ou desafia as regras impostas pode sofrer represálias.
  • Influência política: apoio ou pressão sobre candidatos, controle social do território e busca de proteção institucional.
  • Homicídios e grupos de extermínio: em determinadas estruturas, assassinatos por encomenda e eliminação de adversários fazem parte do funcionamento criminoso.

Essas atividades não são idênticas em todas as comunidades. As organizações mudam de composição, fazem alianças e disputam territórios. Pesquisas do Observatório das Metrópoles e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF apontam que o poder econômico, a força armada e as conexões políticas são elementos fundamentais para compreender sua expansão.

 2. Como surgiram as milícias no Rio de Janeiro?

A história das milícias não começou nos anos 2000. Suas raízes remontam a grupos de extermínio que atuavam no Rio de Janeiro desde meados do século XX, alguns deles ligados a agentes de segurança pública.

Nos anos 1950 e 1960, grupos de policiais passaram a atuar na perseguição e execução de pessoas consideradas criminosas. Essas estruturas ajudaram a consolidar uma cultura de violência extrajudicial, frequentemente resumida na ideia de que determinados indivíduos poderiam ser eliminados sem julgamento.

Nas décadas seguintes, algumas dessas redes evoluíram para formas mais organizadas de controle territorial.

Na Zona Oeste carioca, a comunidade de Rio das Pedras tornou-se um dos principais marcos históricos desse processo. A partir dos anos 1980, grupos conhecidos popularmente como polícia mineira passaram a exercer controle sobre a associação de moradores e a cobrar taxas dos comerciantes e habitantes em nome da segurança.

O modelo se expandiu: além de impor regras pela força, os grupos perceberam que controlar serviços e mercados locais poderia produzir uma fonte permanente de renda.

Nos anos 2000, o termo milícia ganhou maior visibilidade pública. Em 2008, a tortura de jornalistas do jornal O Dia que investigavam a atuação desses grupos contribuiu para ampliar a repercussão do problema. Naquele ano, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as milícias.

As apurações expuseram redes de extorsão, homicídios, corrupção e participação de agentes públicos. Também evidenciaram como o poder armado poderia se converter em influência eleitoral. 

3. Como as milícias conquistam e mantêm o poder?

A força das milícias não está apenas nas armas. Está na capacidade de combinar violência, exploração econômica e relações políticas.

O mecanismo costuma funcionar em etapas:

1. A promessa de segurança

O grupo apresenta-se como alternativa ao tráfico de drogas e explora o medo e a insegurança dos moradores.

2. A imposição de pagamentos

A suposta proteção transforma-se em cobrança obrigatória. Serviços e atividades comerciais passam a ser controlados pelo grupo.

3. O controle pela violência

Ameaças, agressões e assassinatos podem ser usados para impedir denúncias, eliminar concorrentes e silenciar opositores.

4. A busca por influência institucional

Relações com agentes públicos, intermediários e políticos podem dificultar a fiscalização, favorecer interesses econômicos e ampliar o poder territorial.

O resultado é uma situação em que o morador deixa de ser plenamente livre para escolher de quem comprar, qual serviço contratar ou a quem recorrer. Em determinadas áreas, o grupo armado passa a exercer funções que deveriam pertencer ao Estado, mas sem controle democrático, transparência ou respeito aos direitos individuais.

É importante ressaltar que nem todo policial ou agente público tem ligação com milícias. O problema está na atuação criminosa de indivíduos e redes que utilizam cargos, informações, armas ou relações institucionais para obter vantagens ilegais.

4. Flávio Bolsonaro e as relações com personagens ligados às milícias

A trajetória política de Flávio Bolsonaro inclui episódios envolvendo pessoas que, posteriormente, foram associadas a milícias ou investigadas por crimes graves. O conjunto dessas relações tornou-se tema de debate público, sobretudo durante a campanha presidencial de 2026.

É fundamental examinar os episódios individualmente, distinguindo fatos documentados, acusações do Ministério Público, decisões judiciais e explicações apresentadas pelo senador.

Adriano da Nóbrega: a homenagem que ganhou repercussão nacional

Adriano Magalhães da Nóbrega - Ex-capitão do Bope, foi apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das principais lideranças do grupo conhecido como Escritório do Crime, associado a assassinatos por encomenda e à estrutura miliciana carioca.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 2005, quando Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, entregou a Adriano a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

O detalhe que provocou controvérsia foi que Adriano estava preso preventivamente, acusado de envolvimento no assassinato de um guardador de carros. Posteriormente, ele foi absolvido nesse processo específico, segundo registros jornalísticos, mas acabou associado a outras investigações criminais.

Em 2020, Adriano morreu durante uma operação policial na Bahia.

Flávio justificou a homenagem afirmando que, naquele momento, Adriano era reconhecido por sua atuação policial e que não poderia prever os acontecimentos posteriores. Seu pai, Jair Bolsonaro, também afirmou que o ex-capitão era considerado um herói da Polícia Militar à época da homenagem.

A questão jornalística, portanto, não se resume à existência da medalha. É necessário investigar os critérios utilizados para conceder honrarias públicas, as informações disponíveis naquele momento e a natureza das relações estabelecidas entre representantes eleitos e agentes posteriormente associados ao crime organizado.

 A mãe e a ex-mulher de Adriano no gabinete de Flávio

Outro ponto relevante diz respeito a duas mulheres que trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa: Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa, ex-mulher do ex-capitão.

As duas foram nomeadas para cargos comissionados durante o período em que Flávio exercia mandato de deputado estadual. As nomeações ganharam destaque nas investigações sobre o esquema conhecido como rachadinha, no qual funcionários públicos seriam obrigados a devolver parte de seus salários.

Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2020, as duas teriam participado do mecanismo de devolução de salários. A investigação também apontou Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, como operador financeiro do suposto esquema.

O senador e seus aliados negaram as acusações.

Em 2021, decisões judiciais anularam provas bancárias e fiscais centrais da investigação criminal, levando à queda da denúncia. Isso não equivale a uma condenação, mas também não deve ser descrito, sem as devidas ressalvas, como uma absolvição após julgamento do mérito das acusações. 

 Fabrício Queiroz e uma movimentação financeira revelada em 2026

O caso ganhou novo capítulo em maio de 2026, quando a Folha de S.Paulo noticiou que Fabrício Queiroz havia recebido R$ 6.300 de uma empresa de estética que, segundo o Ministério Público fluminense, teria sido utilizada em um esquema de lavagem de dinheiro atribuído a Adriano da Nóbrega.

A transferência ocorreu em 2017, quando Queiroz ainda trabalhava no gabinete de Flávio na Alerj. A mãe de Adriano também aparece entre as pessoas denunciadas na investigação relacionada a essa rede financeira.

É indispensável registrar uma distinção: Queiroz não foi acusado nesse caso específico de participar da lavagem de dinheiro, e a reportagem não demonstrou que Flávio Bolsonaro tivesse conhecimento ou participação nessa operação. Queiroz contestou as acusações, e Flávio declarou não ter relação com os fatos nem conhecimento de eventuais atividades ilícitas atribuídas aos envolvidos. 

A relevância jornalística do episódio está na necessidade de esclarecer as relações financeiras entre pessoas que circularam pelo mesmo ambiente político e personagens associados a investigações criminais — sem transformar uma transferência identificada em prova automática de cumplicidade.

Outras homenagens e relações sob questionamento

Reportagem publicada pelo Brasil de Fato em outubro de 2026 reuniu outros episódios da trajetória parlamentar de Flávio:

Major Ronald: Flávio apresentou homenagem ao então capitão Ronald Paulo Alves Pereira em 2004. Em março de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou o ex-major a 56 anos de prisão por sua participação no planejamento do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. A assessoria de Flávio afirmou que as homenagens se baseavam em informações oficiais sobre operações policiais e que ele não tinha conhecimento de eventuais crimes.

Robson Calixto, conhecido como Peixe: reportagem apontou que uma emenda parlamentar de R$ 200 mil destinada por Flávio, em 2023, a um projeto esportivo na Zona Oeste do Rio teve sua liberação solicitada por Peixe, ex-policial e ex-assessor de Domingos Brazão. Peixe foi condenado por integrar a organização criminosa armada responsável pelo planejamento do assassinato de Marielle Franco. A assessoria do senador afirmou que os recursos foram destinados a um projeto social, seguindo critérios técnicos, e que a execução ocorreu regularmente.

Policiais conhecidos como gêmeos da PM: dois agentes que atuaram na segurança de Flávio foram presos em 2018 sob suspeita de integrar uma milícia envolvida em extorsão. A assessoria do parlamentar afirmou que ele não tinha conhecimento de eventuais condutas ilícitas praticadas pelos policiais fora do serviço.

Esses episódios possuem circunstâncias e níveis de evidência diferentes. Homenagens, nomeações, contatos e destinação de verbas públicas são fatos que podem ser examinados; por si sós, contudo, não comprovam que o parlamentar integre uma organização criminosa.

5. Flávio Bolsonaro defendia as milícias?

 Este é um aspecto político importante do debate.

Em declarações públicas registradas pela imprensa, Flávio Bolsonaro manifestou compreensão pela percepção de moradores que consideravam a presença das milícias preferível à atuação do tráfico de drogas.

Em uma declaração reproduzida pela Folha de S.Paulo, o então deputado argumentou que alguns moradores de comunidades supostamente dominadas por milicianos se sentiam mais seguros em comparação com a situação anterior, marcada pela imposição dos traficantes.

Esse tipo de argumento reflete um problema real: a população que vive sob o domínio de grupos armados frequentemente enfrenta a ausência de serviços públicos eficazes e a violência de diferentes organizações criminosas.

Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer o medo vivido pelos moradores e legitimar a atuação de milícias.

Uma organização que cobra taxas compulsórias, controla serviços, ameaça comerciantes e decide quem pode permanecer em determinado território não representa segurança pública. Representa uma forma de dominação criminosa.

Em 2026, Flávio passou a defender publicamente que milícias e facções criminosas fossem enquadradas como grupos narcoterroristas, conforme suas declarações à imprensa. Essa posição também precisa ser confrontada com seu histórico de homenagens e relações políticas. 

6. O que está comprovado e o que continua sendo acusação?

Imagem: Meta AI

Para que o debate seja sério, é preciso separar os fatos documentados das conclusões que ainda dependem de provas.

O que se pode afirmar

Homenagem a Adriano da Nóbrega - A homenagem foi concedida por Flávio em 2005, quando Adriano estava preso preventivamente.

Familiares de Adriano no gabinete - A mãe e a ex-mulher do ex-capitão foram nomeadas para cargos no gabinete de Flávio.

Investigação das rachadinhas - Houve denúncia do Ministério Público, mas provas centrais foram anuladas judicialmente e a denúncia caiu.

Transferência de R$ 6.300 a Queiroz - Foi noticiada em 2026; Queiroz não foi acusado de lavagem de dinheiro nesse caso específico.

Emenda parlamentar de R$ 200 mil - A destinação e a solicitação intermediada por Peixe foram noticiadas; isso, isoladamente, não prova participação de Flávio em crimes.

Participação direta de Flávio em milícias - As reportagens consultadas não apresentam prova material conclusiva de que ele integrasse essas organizações.

Essa distinção não elimina o interesse público sobre o assunto. Pelo contrário: permite que a imprensa investigue relações políticas, examine documentos e cobre explicações sem antecipar conclusões que competem à Justiça.

7. O que as milícias representam para a democracia brasileira?

As milícias representam uma ameaça que vai além da segurança pública. Quando um grupo armado controla o território, explora serviços, impõe regras e exerce influência política, o direito de escolha dos cidadãos fica comprometido.

O problema torna-se ainda mais grave quando há suspeitas de conexões entre esses grupos e agentes públicos. O Estado, que deveria proteger a população, corre o risco de ser utilizado para favorecer interesses privados e criminosos.

Por isso, combater as milícias exige investigação financeira, controle da corrupção, proteção às testemunhas, responsabilização de agentes públicos envolvidos e garantia de eleições livres nos territórios dominados por grupos armados.

Também exige que a segurança pública seja tratada como um direito de todos, e não como mercadoria oferecida por quem dispõe de armas e poder de intimidação.

Conclusão: relações políticas exigem respostas, não condenações antecipadas

O histórico de Flávio Bolsonaro contém fatos documentados que justificam questionamentos públicos: a homenagem a Adriano da Nóbrega, a presença de familiares do ex-capitão em seu gabinete e outros episódios envolvendo personagens posteriormente associados a organizações criminosas.

Esses fatos merecem investigação jornalística rigorosa, transparência e explicações consistentes. Mas a responsabilidade por eventuais crimes precisa ser estabelecida com base em provas e decisões judiciais, não apenas em proximidades políticas ou pessoais.

O princípio vale para qualquer partido, governante ou parlamentar.

Para o Hoje Bahia, a questão central é a defesa do interesse público: nenhuma autoridade está acima do escrutínio da imprensa, e nenhuma acusação deve ser apresentada como condenação sem que os fatos e o devido processo legal sustentem essa conclusão.

Porque, numa democracia, combater o crime organizado também significa impedir que a força, o dinheiro e a influência política se sobreponham à lei.

 

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