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LUTO NA MPB

Morre Benito di Paula, o artista que fez do piano uma roda de samba e da emoção sua assinatura

Cantor, compositor e pianista morreu aos 84 anos, em São Paulo. Autor de “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown” e “Mulher Brasileira”, construiu uma obra que atravessou gerações e se tornou parte da memória afetiva do país.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 19 de outubro de 2026 às 08:02 • Salvador - BA
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Benito di Paula fez do piano sua assinatura no samba e eternizou canções como “Retalhos de Cetim” e “Charlie Brown”, deixando uma obra que atravessa gerações e permanece na memória afetiva dos brasileiros.
Benito di Paula fez do piano sua assinatura no samba e eternizou canções como “Retalhos de Cetim” e “Charlie Brown”, deixando uma obra que atravessa gerações e permanece na memória afetiva dos brasileiros. — Reprodução Redes Sociais

Há artistas que reconhecemos antes mesmo da primeira palavra. Basta o toque no instrumento, a maneira de conduzir o ritmo, a preparação da voz. Benito di Paula pertencia a essa linhagem: ao piano, criou uma forma de cantar o samba em que cabiam a alegria, a desilusão, o amor e a vontade de seguir em frente.

O cantor, compositor e pianista morreu neste domingo (18), aos 84 anos, em São Paulo. Estava internado no Hospital 9 de Julho e enfrentava um câncer havia cerca de um ano. A morte foi confirmada pela assessoria do artista. No comunicado inicial, as informações sobre velório e sepultamento ainda não haviam sido divulgadas.

Sua partida encerra uma trajetória de mais de cinco décadas, mas encontra uma obra que permanece próxima do público. Para quem cresceu ouvindo suas músicas, a despedida também alcança lembranças pessoais: uma voz conhecida no rádio, um disco guardado em casa, um refrão aprendido sem perceber.

Da noite aos grandes públicos

Nascido em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941, Benito teve contato com a música dentro de casa. Seu pai tocava diferentes instrumentos. Antes da projeção nacional, o futuro ídolo construiu experiência cantando em hotéis e casas noturnas.

Essa formação ajudou a moldar um intérprete atento à plateia. Na noite, aprendeu a sustentar uma apresentação, dar personalidade ao repertório e estabelecer uma conversa com quem ouvia.

O reconhecimento veio de maneira gradual, entre gravações e apresentações, até a expansão de sua carreira nos anos 1970. A experiência acumulada nos pequenos palcos acompanharia o artista nos discos, na televisão e nos grandes espetáculos.

“Retalhos de Cetim”: uma história que o Brasil guardou

O grande salto teve a força de uma composição própria. “Retalhos de Cetim” consolidou Benito entre os nomes populares da música brasileira e foi um dos grandes sucessos de 1973.

A canção reúne uma das qualidades mais marcantes de sua escrita: transformar uma história em sentimento compartilhado. A expectativa do Carnaval, o esforço de preparação e a ausência que muda o sentido da festa fazem dela uma narrativa de imagens claras e emoção duradoura.

Há uma delicadeza particular nessa composição: a festa continua existindo, mas perde o sentido para quem esperava vivê-la ao lado de alguém. Benito encontrou nessa experiência uma história que o público reconheceu e guardou.

Seu alcance ultrapassou a interpretação do autor. A composição ganhou gravações de Jair Rodrigues, da orquestra de Paul Mauriat e do guitarrista americano Charlie Byrd. Mais tarde, seria retomada por Paulinho Moska e Alcione, aproximando a obra de outros públicos.

O piano como assinatura

Benito deu ao piano um lugar central em sua maneira de fazer samba. O instrumento marcava a pulsação, sustentava a harmonia e dialogava com sua voz. Ao combinar temas românticos, elementos do jazz e a cadência do gênero, desenvolveu uma linguagem imediatamente reconhecível.

Em suas apresentações, as teclas pareciam participar da conversa. Havia ritmo nos acordes, intenção nas pausas e espaço para que a interpretação crescesse junto com a música.

Essa sonoridade ficou associada ao chamado “samba-joia”. O rótulo identificava uma vertente de enorme comunicação popular, mas não esgotava as possibilidades de seu trabalho. Em entrevista à Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, Benito contou como adaptou acordes do violão para o piano e descreveu sua música como uma mistura de samba com ritmos latinos.

Sua presença também tinha força visual: o bigode, os cabelos longos, os acessórios e o piano compunham uma figura marcante. Na televisão, ampliou essa relação com o público ao comandar o programa “Brasil Som 75”, na TV Tupi.

Canções que continuaram encontrando ouvintes

“Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Tudo Está no Seu Lugar” e “Como Dizia o Mestre” ajudaram a construir um repertório de ampla identificação. São músicas em que a interpretação valoriza tanto a festa quanto a fragilidade de quem canta.

Benito sabia dar peso a uma palavra e fazer um refrão crescer. Sua interpretação permitia que a emoção aparecesse sem cerimônia, com a proximidade de quem conta uma história à mesa.

A permanência de suas composições também se revela na circulação em outras vozes. “Do Jeito Que a Vida Quer”, por exemplo, encontrou novo impulso com o grupo Revelação, mostrando a capacidade de seu cancioneiro de atravessar épocas e formas de interpretar o samba.

Esse encontro entre gerações ajuda a dimensionar sua marca na música popular brasileira. Uma composição continua viva quando outros artistas encontram nela algo para dizer — e quando novos ouvintes passam a reconhecê-la como parte da própria vida.

A criação permaneceu viva

Ao chegar aos 80 anos, Benito continuava disposto a criar. Em 2021, lançou “O Infalível Zen” ao lado do filho, o cantor e pianista Rodrigo Vellozo. O projeto abriu espaço para novas composições, parcerias e experimentações.

A colaboração entre pai e filho revelou outra dimensão de sua trajetória: a de um músico cuja inventividade continuava ativa além dos grandes sucessos. Em entrevista ao Scream & Yell, Rodrigo destacou a riqueza dos acordes e da condução musical do pai, aspectos que conviviam com seu carisma e sua facilidade de comunicação.

O trabalho permitiu ouvir Benito por outros caminhos, com a experiência de quem já havia conquistado seu lugar e ainda encontrava motivos para explorar novas possibilidades.

Uma vida que virou Carnaval

Em 2025, a homenagem ganhou a avenida. A Águia de Ouro levou sua história ao Carnaval de São Paulo com o enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito Que a Vida Quer”.

Benito acompanhou em vida o reconhecimento de uma obra transformada em desfile. O compositor que havia cantado a expectativa e a tristeza de um Carnaval se tornou, ele próprio, motivo de celebração na festa.

A memória que fica

O lugar de Benito di Paula na música brasileira está nessa combinação de personalidade, criação e afeto. Seu piano tinha assinatura. Sua voz sabia conduzir uma história. Suas canções ofereciam palavras para sentimentos que muita gente reconhecia como seus.

Para os admiradores, a perda tem a intimidade das despedidas de quem esteve presente por muito tempo, mesmo à distância. A música cria essa proximidade: um artista entra na rotina, acompanha fases da vida e passa a fazer parte da nossa história.

Agora, a saudade também fará parte dessa escuta. Mas basta o piano começar para que Benito volte a ocupar a sala.

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