A música baiana perdeu, nesta terça-feira (13), uma das vozes mais emblemáticas da história do axé. O cantor Netinho, de 60 anos, morreu em Salvador, após enfrentar um linfoma não Hodgkin do tipo B, câncer que afeta o sistema linfático. A doença evoluiu para insuficiência renal e disfunção múltipla de órgãos, conforme comunicado divulgado pela assessoria do artista.
Dono de uma trajetória que ajudou a transformar o Carnaval de Salvador em um fenômeno musical nacional, Netinho marcou gerações com sucessos que ultrapassaram as fronteiras da Bahia e se incorporaram à memória afetiva de milhões de brasileiros.
Mais do que o intérprete de “Milla”, um dos maiores sucessos do axé na década de 1990, ele foi protagonista de uma fase decisiva de expansão da música produzida na Bahia, quando trios elétricos, micaretas e artistas locais passaram a conquistar espaços em rádios, programas de televisão e grandes palcos do país.
Sua morte representa a despedida de um artista que fez da alegria, do romantismo e da energia dos trios elétricos elementos centrais de sua identidade musical.
Do Recôncavo baiano aos grandes palcos
Nascido em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Ernesto de Souza Andrade Júnior começou a construir sua relação com a música ainda na adolescência.
Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão da mãe e aprendeu a tocar sozinho. Mais tarde, enquanto cursava Engenharia Civil na Universidade Católica do Salvador, iniciou apresentações em bares da capital baiana, interpretando canções da MPB e da bossa nova.
Foi, entretanto, no universo do Carnaval que encontrou o caminho que transformaria sua vida.
Em 1987, ingressou na Banda Beijo, grupo com o qual estreou no circuito oficial do Carnaval de Salvador em 1988.
Naquele mesmo ano, o álbum “Prove Beijo” apresentou ao Brasil a força de sua interpretação em “Beijo na Boca”, composição de João Guimarães e George Dias que se tornou um dos grandes sucessos da música carnavalesca.
A partir dali, sua voz passou a fazer parte da trilha sonora de uma geração que descobria o axé para além das ruas de Salvador.
Um dos artistas que levaram o axé ao Brasil
O final dos anos 1980 e o início da década de 1990 foram determinantes para a consolidação do axé como um dos principais movimentos da música popular brasileira.
Nesse período, Netinho participou diretamente da expansão comercial e artística do gênero.
Em 1989, apresentou-se com a Banda Beijo no programa “Domingão do Faustão”, levando a sonoridade baiana a uma audiência nacional.
No ano seguinte, protagonizou outro episódio marcante: durante a Copa do Mundo de 1990, na Itália, participou da histórica viagem de um trio elétrico brasileiro ao exterior, com apresentações em Turim.
A iniciativa simbolizava uma transformação: a música criada e popularizada nas ruas de Salvador passava a circular por novos territórios e conquistar novos públicos.
Com a Banda Beijo, também eternizou canções como “A Vida É Festa”, “Estrela Primeira” e “Barracos”, ampliando um repertório que misturava ritmos dançantes, romantismo e mensagens sociais.
Em 1993, iniciou sua carreira solo com o álbum “Um Beijo pra Você”, que trouxe sucessos como “Capricho dos Deuses”, “Total” e “Menina”.
A nova fase consolidou o cantor como uma das principais figuras da música baiana no mercado fonográfico nacional.
“Milla”: o sucesso que atravessou gerações
Se a Banda Beijo projetou Netinho, foi “Milla” que eternizou sua voz na memória popular brasileira.
Composta por Manno Góes e Tuca Fernandes, a canção ganhou projeção nacional na interpretação de Netinho, registrada no álbum “Netinho ao Vivo!”, gravado em Aracaju, em 1996.
A música se transformou em um fenômeno das rádios e dos carnavais, conquistando também ouvintes fora do Brasil.
A gravação reunia elementos que caracterizavam parte importante de seu repertório: melodia romântica, refrão marcante, interpretação expansiva e a energia contagiante do axé.
O álbum alcançou a marca de disco de diamante e, segundo a biografia oficial do cantor, ultrapassou três milhões de cópias vendidas.
“Milla” passou a integrar a memória coletiva de uma geração. Tornou-se presença recorrente em festas, celebrações e encontros, mantendo sua força mesmo com as mudanças de tendências na música brasileira.
Era a demonstração de que um sucesso de Carnaval também podia atravessar décadas.
Uma carreira além dos trios elétricos
Embora associado especialmente ao axé, Netinho construiu uma trajetória artística mais ampla.
Ao longo dos anos, investiu em grandes produções musicais, gravações internacionais, projetos audiovisuais e colaborações com outros artistas.





