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MÚSICA EM LUTO

Morre Netinho, aos 60 anos: a Bahia se despede de uma das vozes que marcaram a história do axé

Intérprete de “Milla”, “Beijo na Boca” e “A Vida É Festa”, cantor morreu nesta terça-feira (13), em Salvador, após complicações de um câncer; artista deixa um legado que atravessa gerações e ajudou a levar a música baiana para o Brasil e o mundo

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 13 de outubro de 2026 às 12:11 • Salvador - BA
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A música baiana se despede de Netinho, um dos grandes nomes da história do axé. O cantor morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, deixando sucessos como “Milla” e “Beijo na Boca”, que marcaram gerações e ajudaram a projetar a música da Bahia para o Brasil.
A música baiana se despede de Netinho, um dos grandes nomes da história do axé. O cantor morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, deixando sucessos como “Milla” e “Beijo na Boca”, que marcaram gerações e ajudaram a projetar a música da Bahia para o Brasil. — Arte ilustrativa gerada por inteligência artificial para o Hoje Bahia. Não se trata de fotografia real do artista.

A música baiana perdeu, nesta terça-feira (13), uma das vozes mais emblemáticas da história do axé. O cantor Netinho, de 60 anos, morreu em Salvador, após enfrentar um linfoma não Hodgkin do tipo B, câncer que afeta o sistema linfático. A doença evoluiu para insuficiência renal e disfunção múltipla de órgãos, conforme comunicado divulgado pela assessoria do artista.

Dono de uma trajetória que ajudou a transformar o Carnaval de Salvador em um fenômeno musical nacional, Netinho marcou gerações com sucessos que ultrapassaram as fronteiras da Bahia e se incorporaram à memória afetiva de milhões de brasileiros.

Mais do que o intérprete de “Milla”, um dos maiores sucessos do axé na década de 1990, ele foi protagonista de uma fase decisiva de expansão da música produzida na Bahia, quando trios elétricos, micaretas e artistas locais passaram a conquistar espaços em rádios, programas de televisão e grandes palcos do país.

Sua morte representa a despedida de um artista que fez da alegria, do romantismo e da energia dos trios elétricos elementos centrais de sua identidade musical.

Do Recôncavo baiano aos grandes palcos

Nascido em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Ernesto de Souza Andrade Júnior começou a construir sua relação com a música ainda na adolescência.

Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão da mãe e aprendeu a tocar sozinho. Mais tarde, enquanto cursava Engenharia Civil na Universidade Católica do Salvador, iniciou apresentações em bares da capital baiana, interpretando canções da MPB e da bossa nova.

Foi, entretanto, no universo do Carnaval que encontrou o caminho que transformaria sua vida.

Em 1987, ingressou na Banda Beijo, grupo com o qual estreou no circuito oficial do Carnaval de Salvador em 1988.

Naquele mesmo ano, o álbum “Prove Beijo” apresentou ao Brasil a força de sua interpretação em “Beijo na Boca”, composição de João Guimarães e George Dias que se tornou um dos grandes sucessos da música carnavalesca.

A partir dali, sua voz passou a fazer parte da trilha sonora de uma geração que descobria o axé para além das ruas de Salvador.

Um dos artistas que levaram o axé ao Brasil

O final dos anos 1980 e o início da década de 1990 foram determinantes para a consolidação do axé como um dos principais movimentos da música popular brasileira.

Nesse período, Netinho participou diretamente da expansão comercial e artística do gênero.

Em 1989, apresentou-se com a Banda Beijo no programa “Domingão do Faustão”, levando a sonoridade baiana a uma audiência nacional.

No ano seguinte, protagonizou outro episódio marcante: durante a Copa do Mundo de 1990, na Itália, participou da histórica viagem de um trio elétrico brasileiro ao exterior, com apresentações em Turim.

A iniciativa simbolizava uma transformação: a música criada e popularizada nas ruas de Salvador passava a circular por novos territórios e conquistar novos públicos.

Com a Banda Beijo, também eternizou canções como “A Vida É Festa”, “Estrela Primeira” e “Barracos”, ampliando um repertório que misturava ritmos dançantes, romantismo e mensagens sociais.

Em 1993, iniciou sua carreira solo com o álbum “Um Beijo pra Você”, que trouxe sucessos como “Capricho dos Deuses”, “Total” e “Menina”.

A nova fase consolidou o cantor como uma das principais figuras da música baiana no mercado fonográfico nacional.

“Milla”: o sucesso que atravessou gerações

Se a Banda Beijo projetou Netinho, foi “Milla” que eternizou sua voz na memória popular brasileira.

Composta por Manno Góes e Tuca Fernandes, a canção ganhou projeção nacional na interpretação de Netinho, registrada no álbum “Netinho ao Vivo!”, gravado em Aracaju, em 1996.

A música se transformou em um fenômeno das rádios e dos carnavais, conquistando também ouvintes fora do Brasil.

A gravação reunia elementos que caracterizavam parte importante de seu repertório: melodia romântica, refrão marcante, interpretação expansiva e a energia contagiante do axé.

O álbum alcançou a marca de disco de diamante e, segundo a biografia oficial do cantor, ultrapassou três milhões de cópias vendidas.

“Milla” passou a integrar a memória coletiva de uma geração. Tornou-se presença recorrente em festas, celebrações e encontros, mantendo sua força mesmo com as mudanças de tendências na música brasileira.

Era a demonstração de que um sucesso de Carnaval também podia atravessar décadas.

Uma carreira além dos trios elétricos

Embora associado especialmente ao axé, Netinho construiu uma trajetória artística mais ampla.

Ao longo dos anos, investiu em grandes produções musicais, gravações internacionais, projetos audiovisuais e colaborações com outros artistas.

Em 2006, gravou na Concha Acústica de Salvador o projeto “Netinho por Inteiro”, com participações de Ivete Sangalo e do bloco afro Ilê Aiyê, reunindo sucessos de diferentes fases de sua carreira.

Sua discografia também registrou o diálogo com outros ritmos brasileiros. Em 2012, por exemplo, lançou “Uma Noite no Forró Elétrico”, projeto em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, com releituras do repertório nordestino.

Essas experiências revelavam um artista interessado não apenas em interpretar, mas também em produzir, experimentar sonoridades e participar da construção de seus próprios espetáculos.

Os desafios de saúde e a última batalha

A trajetória de Netinho também foi marcada por graves problemas de saúde.

Em 2013, o cantor enfrentou uma longa internação e complicações neurológicas que comprometeram temporariamente sua capacidade de movimentação e sua voz.

O processo de recuperação exigiu afastamento dos palcos e um prolongado período de reabilitação.

Em 2025, o artista recebeu o diagnóstico de linfoma não Hodgkin. Após tratamento e um período de melhora, voltou a enfrentar a doença em 2026.

Em setembro, sua equipe comunicou o afastamento das redes sociais para que ele concentrasse suas energias no tratamento.

A morte foi confirmada na manhã desta terça-feira, 13 de outubro.

Segundo a assessoria, Netinho enfrentou os últimos meses com serenidade e gratidão pela trajetória que construiu.

Em uma das declarações lembradas pela equipe, o cantor expressou sua maneira de enxergar a própria história:

“Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei.”

A mensagem sintetiza a relação que o artista manteve com o público e a importância que atribuía à música em sua vida.

Despedida será reservada

Por desejo manifestado pelo próprio Netinho, o velório e a cremação serão realizados em cerimônia reservada, restrita a familiares e amigos próximos.

A assessoria pediu respeito à privacidade da família durante o período de luto e agradeceu as manifestações de carinho recebidas.

Até a divulgação desta reportagem, não haviam sido anunciados publicamente detalhes sobre o local e os horários das cerimônias.

O legado de Netinho para a música baiana

A contribuição de Netinho à cultura brasileira não se resume às músicas que gravou ou aos discos que vendeu.

Sua trajetória se confunde com um período em que o axé ultrapassou os limites do Carnaval de Salvador e conquistou dimensão nacional.

Foi uma época em que a música baiana passou a ocupar espaços cada vez maiores na indústria fonográfica, nas emissoras de televisão, nas grandes casas de espetáculo e nas micaretas espalhadas pelo Brasil.

Netinho esteve entre os artistas que protagonizaram esse processo.

Sua maneira de interpretar, a presença de palco e o repertório que alternava canções românticas com músicas festivas ajudaram a consolidar uma identidade própria dentro do movimento.

Ao lado de tantos outros nomes fundamentais para a história do axé, contribuiu para transformar uma manifestação cultural de raízes profundamente baianas em um fenômeno popular de alcance nacional e internacional.

A perda também convida a uma reflexão sobre a preservação da memória artística da Bahia, especialmente das gerações que construíram os caminhos para o reconhecimento da música produzida no estado.

O artista parte, mas sua contribuição permanece nos registros fonográficos, nas imagens dos antigos carnavais, nas histórias dos trios elétricos e, sobretudo, nas lembranças de quem viveu aqueles momentos.

A voz de Netinho se cala, mas “Milla”, “Beijo na Boca” e tantos outros sucessos continuarão ecoando onde houver uma celebração da música baiana.

E, quando seus refrões voltarem a reunir diferentes gerações, a história do cantor estará novamente presente.

Porque algumas vozes não pertencem apenas a uma época. Tornam-se parte da memória cultural de um povo.

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