🌤️ Previsão do tempoConsultar →
SOLIDARIEDADE

Música, afeto e solidariedade: ação leva momentos de leveza a crianças em tratamento no Martagão Gesteira

No Dia Mundial da Música, artistas se uniram voluntariamente para transformar, por alguns momentos, a rotina hospitalar; para quem participa, um sorriso de uma criança já é capaz de dar sentido à iniciativa

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 01 de outubro de 2026 às 15:15 • Salvador - BA
Ouça esta matéria
Compartilhe:
Integrantes do Amigos do Forró de Salvador durante a ação solidária realizada no Martagão Gesteira nesta quinta-feira (1º), Dia Mundial da Música. A iniciativa levou música e momentos de descontração a crianças em tratamento, familiares e profissionais da instituição.
Integrantes do Amigos do Forró de Salvador durante a ação solidária realizada no Martagão Gesteira nesta quinta-feira (1º), Dia Mundial da Música. A iniciativa levou música e momentos de descontração a crianças em tratamento, familiares e profissionais da instituição. — Foto cedida pela Assessoria de Imprensa do Martagão Gesteira.

Na primeira reportagem desta série, o Hoje Bahia contou como a solidariedade pode assumir formas que vão além da contribuição financeira. Nesta quinta-feira (1º), no Martagão Gesteira, essa ideia ganhou som, presença e, principalmente, encontros.

Em pleno Dia Mundial da Música, crianças em tratamento, familiares e profissionais que convivem diariamente com a rotina hospitalar receberam uma visita diferente. Por alguns momentos, o ambiente dos ambulatórios também teve espaço para música, forró e descontração.

A ação reuniu voluntários e integrantes do Amigos do Forró de Salvador, coletivo formado por artistas que desenvolve iniciativas musicais e solidárias em diferentes espaços.

Mas a história daquele encontro não estava apenas em quem tocava.

Estava, sobretudo, em quem ouvia.

Nas crianças que interromperam por alguns instantes a rotina de consultas e procedimentos. Nos familiares que acompanham de perto cada etapa do tratamento. Nos profissionais que diariamente cuidam desses pacientes.

E também em pessoas que dedicam parte do próprio tempo para tentar tornar esses dias um pouco mais leves.

Quando ajudar também significa estar presente

A solidariedade costuma ser associada à doação de dinheiro, alimentos, medicamentos ou outros recursos materiais. Tudo isso é fundamental para instituições filantrópicas.

Mas existe outra contribuição difícil de contabilizar: tempo.

Estar presente.

Conversar.

Contar uma história.

Cantar uma música.

Fazer alguém sorrir.

Em um hospital dedicado ao atendimento infantil, pequenos gestos podem adquirir dimensões muito maiores.

É nesse contexto que ações de humanização ajudam a criar momentos de acolhimento em meio a uma realidade marcada por tratamentos que, muitas vezes, são longos e desgastantes.

A música não substitui médicos, medicamentos ou qualquer procedimento terapêutico. Tampouco deve ser apresentada como tratamento para uma doença.

Seu papel naquele momento era outro: acolher.

O olhar de quem conhece essa rotina

Wal Conceição conhece essa realidade não apenas pela ação realizada nesta quinta-feira.

Voluntária no Martagão Gesteira por meio da Associação Viva e Deixe Viver, ela atua com contação de histórias e acompanha de perto parte da rotina vivenciada por crianças e familiares.

Foi também uma das pessoas responsáveis pela articulação da ação que aproximou o hospital e o Amigos do Forró de Salvador.

Wal faz questão de ressaltar que a iniciativa nasceu de uma construção coletiva.

O convite para levar música aos ambulatórios foi acolhido pelos artistas, que participaram voluntariamente da atividade no Dia Mundial da Música.

Mas, para ela, o resultado de todo o trabalho necessário para fazer uma iniciativa como essa acontecer pode ser percebido em algo aparentemente simples.

Um sorriso.

“A gente entra ali para tirar um sorriso daquelas crianças, dos familiares e também dos colaboradores. Conseguir um sorriso já faz o dia ser melhor.”

A frase resume também o sentimento de quem está do outro lado da ação.

Wal conta que, ao entrar no hospital para uma atividade voluntária, procura deixar do lado de fora os próprios problemas.

Naquele momento, a atenção pertence às pessoas que estão ali.

“Sempre vale a pena. O trabalho solidário é muito bom e engrandece a alma de cada ser humano.”

O forró como instrumento de encontro

Foi nesse cenário que o Amigos do Forró de Salvador entrou na história.

O coletivo aceitou o convite e reuniu artistas para levar música ao Martagão.

Sem palco grandioso, efeitos especiais ou a estrutura habitual dos eventos, a apresentação ganhou outro significado. O público estava a poucos passos dos músicos — e a interação fazia parte da própria experiência.

Ali, o forró serviu como instrumento de aproximação.

A iniciativa também demonstra como artistas podem utilizar aquilo que sabem fazer para participar de ações sociais sem que a contribuição precise, necessariamente, assumir uma forma financeira.

O músico oferece música.

O contador de histórias oferece histórias.

O voluntário oferece tempo.

E cada contribuição se soma a uma rede muito maior.

Música que alcançou crianças, famílias e quem trabalha no hospital

Para Marluce Barbosa, uma das artistas que participou voluntariamente da ação, o que mais marcou foi perceber como a música foi envolvendo não apenas as crianças em tratamento, mas também familiares e profissionais do Martagão.

Ela conta que, ao passar pelas alas, algumas crianças se levantavam dos leitos e iam até a porta ou o corredor para acompanhar os músicos. Algumas observavam mais timidamente; outras queriam chegar perto e experimentar os instrumentos, principalmente o triângulo e a sanfona.

“A receptividade de todos foi muito emocionante. Algumas crianças levantavam da cama e vinham até o corredor, chegavam até a porta. Umas mais tímidas, outras querendo tocar nos instrumentos.”

A participação não ficou restrita aos pequenos. Segundo Marluce, familiares cantaram junto com os artistas e, em determinado momento, o que seria uma apresentação dividida em grupos pelas diferentes alas acabou se transformando em um grande encontro.

“A gente acabou juntando tudo e fazendo um forrozão. Ficou um forró gigante.”

Profissionais que mantêm diariamente o funcionamento do hospital também entraram na roda. Marluce recorda a participação de trabalhadores da limpeza, alimentação e recepção, além de diretores, médicos e enfermeiros.

“Eles dançaram, cantaram e disseram que estavam felizes com aquela manifestação. Foi muito bom para a gente perceber que a ação alcançou também quem está todos os dias cuidando dessas pessoas.”

Para a artista, levar música a um ambiente hospitalar exige ainda sensibilidade. O repertório, o volume dos instrumentos e a própria maneira de se aproximar dos pacientes precisam respeitar as condições de quem está em tratamento.

Mas foi justamente essa aproximação cuidadosa que tornou a experiência tão significativa.

Um dos integrantes do próprio grupo, contou Marluce, já havia sido paciente do Martagão. Ao retornar desta vez como voluntário, as lembranças do período em que esteve em tratamento vieram à tona.

“Ele disse que uma vez foi servido ali e que hoje estava voltando para servir essas pessoas. Para ele, foi um momento muito marcante.”

Para Marluce, essa talvez seja uma das expressões mais fortes da solidariedade: receber cuidado e, quando possível, retornar para oferecê-lo a outras pessoas.

E o resultado da manhã pôde ser percebido em cenas simples: uma criança chegando à porta para ouvir, outra experimentando um instrumento, familiares cantando e profissionais interrompendo por alguns minutos a rotina para dançar.

“A gente acredita que está deixando a nossa semente.”

Solidariedade também faz parte do cuidado

O Martagão Gesteira é uma instituição filantrópica especializada no atendimento pediátrico e depende de uma ampla rede de apoio para manter suas atividades.

Há uma dimensão desse trabalho que envolve recursos financeiros, equipamentos, infraestrutura e manutenção dos serviços.

E existe também a dimensão humana.

Projetos de voluntariado e iniciativas de humanização convivem com a assistência médica justamente para ajudar crianças e famílias a atravessarem períodos que podem ser emocionalmente difíceis.

É importante estabelecer essa diferença: essas atividades não substituem o tratamento médico.

Elas ajudam a cuidar do ambiente no qual o tratamento acontece.

E isso explica por que uma manhã com música pode ter um significado especial.

Depois que a música termina

Toda ação solidária tem um momento em que termina.

Os instrumentos são guardados.

Os voluntários vão embora.

A rotina do hospital continua.

As crianças seguem seus tratamentos, as famílias permanecem acompanhando cada etapa e os profissionais retornam às suas atividades.

Mas talvez seja justamente aí que esteja a dimensão mais bonita dessas iniciativas.

Elas não prometem mudar aquilo que não podem mudar.

Oferecem aquilo que podem.

Nesta quinta-feira, foram alguns minutos de música, presença, conversa e alegria.

Para quem olha de fora, pode parecer pouco.

Para quem estava ali e conseguiu esquecer por alguns instantes a dureza de um dia de tratamento, talvez tenha sido muito.

E a fala de Wal, de quem conhece aquela realidade e participou da construção desse encontro, ajuda a traduzir o que números dificilmente conseguiriam medir: se uma criança sorriu, aquele momento já valeu a pena.

Comentários

Participe da conversa sobre esta notícia. Seu e-mail não será exibido.

Carregando comentários…

Assuntos
Amigos do ForrAssociação VivaDeixe ViverDia MundialHoje BahiaMartagão GesteiraNo Dia MundialWal Conceição