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CULTURA & MÚSICA

O samba voltou ao auge — ou nunca saiu? TV, streaming e megaturnês recolocam o ritmo no centro do Brasil

Pagode quebra hegemonia do sertanejo no streaming, reality da Globo coloca o gênero frente a frente com o pop, Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão ocupam grandes arenas e até Ivete Sangalo transforma sua relação com o samba em uma turnê nacional. Mais do que um retorno, o momento revela a força de um gênero que talvez nunca tenha ido embora.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 26 de setembro de 2026 às 18:55 • Salvador - BA
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Do quintal às grandes arenas: o samba e o pagode atravessam um novo momento de protagonismo, unindo gerações, conquistando o streaming, a televisão e grandes turnês pelo Brasil.
Do quintal às grandes arenas: o samba e o pagode atravessam um novo momento de protagonismo, unindo gerações, conquistando o streaming, a televisão e grandes turnês pelo Brasil. — Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial / Hoje Bahia.

O samba voltou?

A pergunta parece inevitável diante do que está acontecendo na música brasileira. Mas talvez esteja formulada de maneira errada.

O samba está novamente nos grandes estádios, ganhou espaço privilegiado na televisão aberta, aparece entre as músicas mais consumidas nas plataformas digitais e movimenta turnês nacionais de grande porte. Artistas consagrados dividem espaço com uma nova geração do pagode, enquanto cantores identificados originalmente com outros gêneros incorporam o samba aos seus projetos.

O fenômeno é suficientemente amplo para sugerir algo maior.

Talvez o samba nunca tenha ido embora. Quem está voltando para o samba é o mainstream brasileiro.

O dado que ajuda a explicar tudo

Existe um número particularmente simbólico.

Depois de sete anos consecutivos de músicas sertanejas ocupando a liderança anual do streaming brasileiro, o primeiro lugar de 2025 pertenceu ao pagode.

“P do Pecado”, do Grupo Menos É Mais com Simone Mendes, terminou o ano como a música mais consumida no levantamento da Pro-Música Brasil, que reúne dados de Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster.

Outro sucesso do Menos É Mais, “Coração Partido (Corazón Partío)”, ficou em terceiro lugar no ranking nacional.

Ou seja: não se trata apenas de percepção cultural. Há mudança concreta no consumo musical.

O Menos É Mais terminou ainda 2025 como o segundo artista mais ouvido do Brasil no Spotify, segundo levantamento repercutido pela Billboard Brasil.

É importante fazer uma distinção: samba e pagode não são exatamente a mesma coisa. O pagode é uma vertente desenvolvida dentro do universo do samba, com transformações estéticas e comerciais próprias. Mas, quando se observa o movimento atual, os dois universos aparecem profundamente conectados.

E essa conexão está ocupando espaços que, durante anos, tiveram protagonismo de outros gêneros.

Quando a televisão percebe o movimento

Talvez um dos sinais mais fortes tenha vindo da TV Globo.

A temporada de 2026 do reality musical Estrelas da Casa foi estruturada colocando dois universos musicais frente a frente: Pop e Pagode.

Junior ficou responsável pela mentoria do Pop. Belo assumiu o Pagode. Anitta entrou como conselheira.

A escolha tem um significado de mercado difícil de ignorar: o pagode deixou de aparecer apenas como uma apresentação especial dentro de um programa musical e passou a ser um dos dois pilares de toda a competição.

Belo chegou a destacar o simbolismo de ver um programa da Globo dedicado também à formação de um novo grupo de pagode.

E o desfecho foi ainda mais significativo.

Na final realizada em 24 de setembro, o grupo de pagode Simples Detalhe venceu o Estrelas da Casa com 56,47% dos votos do público, derrotando o grupo representante do Pop.

Não significa que o pagode tenha se tornado automaticamente o gênero dominante em todos os indicadores da indústria.

Mas é um retrato poderoso do momento.

O samba também virou reality

A televisão encontrou outra narrativa dentro do próprio universo do samba.

O Multishow e o Globoplay produziram A Voz do Carnaval, reality criado para acompanhar a escolha do sucessor de Neguinho da Beija-Flor como intérprete oficial da escola de Nilópolis.

Foram oito candidatos disputando o posto, com Neguinho no júri e participações de nomes como Belo, Dudu Nobre, Teresa Cristina e Xande de Pilares.

Aquilo que tradicionalmente aconteceria dentro da dinâmica de uma escola de samba virou produto audiovisual.

A quadra virou cenário de reality.

A sucessão de um intérprete virou narrativa televisiva.

E a cultura de uma escola de samba passou a ser apresentada nacionalmente como entretenimento seriado.

É outro sinal importante: o mercado audiovisual percebeu que o samba não fornece apenas música.

Fornece personagens, histórias, tradição, competição, memória e comunidade.

Zeca, Marrom e Jorge: três gigantes em estádios

Talvez nenhuma imagem represente melhor esse momento do que Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão juntos.

Os três protagonizam em 2026 a turnê “O Maior Encontro do Samba”, projeto que percorre grandes cidades brasileiras e utiliza estruturas normalmente associadas às maiores turnês nacionais.

A agenda inclui locais como Allianz Parque, Mineirão, Beira-Rio e, em Salvador, a Arena Fonte Nova, onde o espetáculo está marcado para 19 de dezembro.

A turnê ainda reúne participações de artistas como Martinho da Vila, Seu Jorge, Péricles e Alexandre Pires, além do espetáculo de abertura em que Arlindinho canta a obra do pai, Arlindo Cruz.

É interessante observar a mudança de escala.

O samba continua pertencendo à roda, ao quintal, ao bar, à quadra e à comunidade.

Mas também cabe no estádio.

E vende essa experiência como grande espetáculo nacional.

E então Ivete caiu no samba

Na Bahia, talvez o exemplo mais simbólico seja Ivete Sangalo.

Uma das maiores representantes da música baiana e do axé transformou sua relação com o samba em um projeto de grandes proporções: Ivete Clareou.

A primeira temporada, realizada em 2025, reuniu aproximadamente 55 mil pessoas em cinco cidades, somou mais de 30 horas de apresentações e recebeu 31 convidados.

O resultado levou à expansão.

Em 2026, o projeto ganhou nove datas anunciadas, passando por cidades como Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza e Salvador, além de Ribeirão Preto e Campinas.

Os espetáculos chegam a ultrapassar cinco horas, com repertório formado por clássicos do samba e do pagode, músicas inéditas e canções da própria carreira de Ivete reinterpretadas dentro desse universo.

O detalhe importante é que Ivete não está simplesmente colocando “um bloco de samba” dentro de seu show.

Ela construiu uma marca, uma turnê e uma experiência inteira dedicada ao gênero.

E levou esse projeto para diferentes regiões do país.

O samba descobriu o streaming — e o streaming descobriu a roda

Existe ainda uma característica estética importante nesse novo ciclo.

Boa parte dos grandes sucessos recentes do pagode não tenta esconder a origem coletiva do gênero.

Ao contrário.

São gravações ao vivo, encontros, medleys, rodas, participações e colaborações.

O próprio ranking nacional de 2025 mostra isso: “P do Pecado” aparece como gravação ao vivo; “Coração Partido”, também.

A lógica tecnológica do streaming acabou encontrando uma característica muito antiga do samba: a música feita em encontro.

E as colaborações ajudam a romper fronteiras.

Menos É Mais grava com Simone Mendes.

Sorriso Maroto encontra Ludmilla, Ferrugem e outros artistas.

Pagode dialoga com sertanejo, pop, funk e música romântica.

Em vez de se fechar para preservar identidade, o gênero parece fazer exatamente aquilo que o samba fez repetidamente durante sua história: absorver influências sem deixar de soar brasileiro.

Mas o samba tinha desaparecido?

Não.

E essa talvez seja a parte mais importante dessa história.

Mesmo durante os anos em que sertanejo, funk e outros gêneros ocuparam mais espaço nas paradas e na indústria, o samba permaneceu vivo nas rodas, nos bairros, nos bares, nas escolas de samba, nos terreiros, nas festas populares e nas famílias brasileiras.

Continuaram existindo Zeca, Alcione, Jorge Aragão, Martinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz e tantos outros.

Depois vieram gerações como Belo, Alexandre Pires, Péricles, Thiaguinho, Sorriso Maroto e Ferrugem.

E agora Menos É Mais, Kamisa 10 e outros nomes ampliam novamente o público.

O que os números recentes indicam, portanto, não é propriamente uma ressurreição.

É uma mudança de centralidade comercial.

Durante determinado período, o samba permaneceu enorme culturalmente sem necessariamente ocupar o primeiro lugar nos principais indicadores da indústria.

Agora essas duas forças voltam a se aproximar.

Do quintal ao algoritmo

Existe uma ironia bonita nessa história.

Um gênero construído historicamente na convivência, na roda e na transmissão entre gerações encontrou no algoritmo uma nova maneira de chegar às massas.

E não precisou abandonar o quintal.

A roda virou audiovisual.

O audiovisual virou corte para redes sociais.

O corte leva ao streaming.

O streaming impulsiona o show.

E o show recria uma gigantesca roda de samba diante de milhares de pessoas.

A indústria percebeu que existe enorme valor comercial justamente naquilo que o samba sempre teve: pertencimento.

Então, o samba voltou ao auge?

Há indicadores suficientes para dizer que samba e, sobretudo, pagode atravessam um novo período de forte protagonismo comercial e midiático.

O pagode rompeu uma sequência de sete anos do sertanejo no topo anual do streaming.

Um reality da principal emissora do país colocou Pagode e Pop como os dois gêneros centrais da competição — e o grupo de pagode venceu a votação final.

Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão percorrem o país juntos em uma turnê de grandes arenas.

Ivete Sangalo transformou o samba em um projeto nacional próprio, cuja primeira temporada reuniu dezenas de milhares de pessoas e ganhou expansão em 2026.

Talvez, portanto, a melhor resposta seja outra.

O samba não voltou porque nunca foi embora.

Enquanto parte da indústria olhava para outros fenômenos, ele continuou acontecendo nas casas, nos bairros, nas rodas, nas quadras, nos bares e nas festas brasileiras.

Agora o streaming, a televisão, os grandes patrocinadores e as arenas parecem ter redescoberto aquilo que milhões de brasileiros nunca esqueceram.

O samba continua sendo uma das grandes linguagens afetivas do Brasil.

Só que, neste momento, voltou também a ocupar o centro do palco.

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