O samba voltou?
A pergunta parece inevitável diante do que está acontecendo na música brasileira. Mas talvez esteja formulada de maneira errada.
O samba está novamente nos grandes estádios, ganhou espaço privilegiado na televisão aberta, aparece entre as músicas mais consumidas nas plataformas digitais e movimenta turnês nacionais de grande porte. Artistas consagrados dividem espaço com uma nova geração do pagode, enquanto cantores identificados originalmente com outros gêneros incorporam o samba aos seus projetos.
O fenômeno é suficientemente amplo para sugerir algo maior.
Talvez o samba nunca tenha ido embora. Quem está voltando para o samba é o mainstream brasileiro.
O dado que ajuda a explicar tudo
Existe um número particularmente simbólico.
Depois de sete anos consecutivos de músicas sertanejas ocupando a liderança anual do streaming brasileiro, o primeiro lugar de 2025 pertenceu ao pagode.
“P do Pecado”, do Grupo Menos É Mais com Simone Mendes, terminou o ano como a música mais consumida no levantamento da Pro-Música Brasil, que reúne dados de Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster.
Outro sucesso do Menos É Mais, “Coração Partido (Corazón Partío)”, ficou em terceiro lugar no ranking nacional.
Ou seja: não se trata apenas de percepção cultural. Há mudança concreta no consumo musical.
O Menos É Mais terminou ainda 2025 como o segundo artista mais ouvido do Brasil no Spotify, segundo levantamento repercutido pela Billboard Brasil.
É importante fazer uma distinção: samba e pagode não são exatamente a mesma coisa. O pagode é uma vertente desenvolvida dentro do universo do samba, com transformações estéticas e comerciais próprias. Mas, quando se observa o movimento atual, os dois universos aparecem profundamente conectados.
E essa conexão está ocupando espaços que, durante anos, tiveram protagonismo de outros gêneros.
Quando a televisão percebe o movimento
Talvez um dos sinais mais fortes tenha vindo da TV Globo.
A temporada de 2026 do reality musical Estrelas da Casa foi estruturada colocando dois universos musicais frente a frente: Pop e Pagode.
Junior ficou responsável pela mentoria do Pop. Belo assumiu o Pagode. Anitta entrou como conselheira.
A escolha tem um significado de mercado difícil de ignorar: o pagode deixou de aparecer apenas como uma apresentação especial dentro de um programa musical e passou a ser um dos dois pilares de toda a competição.
Belo chegou a destacar o simbolismo de ver um programa da Globo dedicado também à formação de um novo grupo de pagode.
E o desfecho foi ainda mais significativo.
Na final realizada em 24 de setembro, o grupo de pagode Simples Detalhe venceu o Estrelas da Casa com 56,47% dos votos do público, derrotando o grupo representante do Pop.
Não significa que o pagode tenha se tornado automaticamente o gênero dominante em todos os indicadores da indústria.
Mas é um retrato poderoso do momento.
O samba também virou reality
A televisão encontrou outra narrativa dentro do próprio universo do samba.
O Multishow e o Globoplay produziram A Voz do Carnaval, reality criado para acompanhar a escolha do sucessor de Neguinho da Beija-Flor como intérprete oficial da escola de Nilópolis.
Foram oito candidatos disputando o posto, com Neguinho no júri e participações de nomes como Belo, Dudu Nobre, Teresa Cristina e Xande de Pilares.
Aquilo que tradicionalmente aconteceria dentro da dinâmica de uma escola de samba virou produto audiovisual.
A quadra virou cenário de reality.
A sucessão de um intérprete virou narrativa televisiva.
E a cultura de uma escola de samba passou a ser apresentada nacionalmente como entretenimento seriado.
É outro sinal importante: o mercado audiovisual percebeu que o samba não fornece apenas música.
Fornece personagens, histórias, tradição, competição, memória e comunidade.
Zeca, Marrom e Jorge: três gigantes em estádios
Talvez nenhuma imagem represente melhor esse momento do que Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão juntos.
Os três protagonizam em 2026 a turnê “O Maior Encontro do Samba”, projeto que percorre grandes cidades brasileiras e utiliza estruturas normalmente associadas às maiores turnês nacionais.
A agenda inclui locais como Allianz Parque, Mineirão, Beira-Rio e, em Salvador, a Arena Fonte Nova, onde o espetáculo está marcado para 19 de dezembro.
A turnê ainda reúne participações de artistas como Martinho da Vila, Seu Jorge, Péricles e Alexandre Pires, além do espetáculo de abertura em que Arlindinho canta a obra do pai, Arlindo Cruz.
É interessante observar a mudança de escala.
O samba continua pertencendo à roda, ao quintal, ao bar, à quadra e à comunidade.
Mas também cabe no estádio.
E vende essa experiência como grande espetáculo nacional.
E então Ivete caiu no samba
Na Bahia, talvez o exemplo mais simbólico seja Ivete Sangalo.
Uma das maiores representantes da música baiana e do axé transformou sua relação com o samba em um projeto de grandes proporções: Ivete Clareou.
A primeira temporada, realizada em 2025, reuniu aproximadamente 55 mil pessoas em cinco cidades, somou mais de 30 horas de apresentações e recebeu 31 convidados.
O resultado levou à expansão.
Em 2026, o projeto ganhou nove datas anunciadas, passando por cidades como Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza e Salvador, além de Ribeirão Preto e Campinas.
Os espetáculos chegam a ultrapassar cinco horas, com repertório formado por clássicos do samba e do pagode, músicas inéditas e canções da própria carreira de Ivete reinterpretadas dentro desse universo.





