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ARTIGO

Quando o lucro de poucos custa caro demais para a sociedade

Os números ajudam a entender por que o Brasil decidiu fechar a porta para uma indústria que cresceu muito mais rapidamente do que a capacidade de proteger seus consumidores

Jorge Matos - Redação HOJE BAHIA
Publicada em 01 de outubro de 2026 às 11:19
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Quando o lucro de poucos custa caro demais para a sociedade
Foto: Freepik

Durante algum tempo, as bets foram apresentadas ao brasileiro como uma espécie de diversão moderna. Bastava um celular, alguns reais e um palpite sobre o resultado de uma partida de futebol. A promessa parecia simples: quem acertasse poderia ganhar dinheiro.

Mas existe uma pergunta que deveria ter sido feita desde o começo: ganhar dinheiro para quem?

Os números ajudam a responder.

Segundo estudo do Banco Central, as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês entre janeiro e agosto de 2024, provenientes de aproximadamente 24 milhões de pessoas. A estimativa indicava que cerca de 15% do dinheiro apostado ficava com as empresas, enquanto o restante retornava aos jogadores na forma de prêmios.

Estamos falando, portanto, de uma indústria de dimensões extraordinárias.

E talvez seja justamente aí que esteja o problema.

Não é apenas uma aposta

Quando uma atividade movimenta dezenas ou centenas de bilhões de reais e alcança milhões de brasileiros, deixa de ser apenas uma questão de escolha individual.

Passa a ser também uma questão econômica, social e de saúde pública.

O Tribunal de Contas da União estimou que as apostas movimentaram até R$ 130 bilhões em 2024. O TCU também apontou a ludopatia -  o transtorno relacionado ao jogo - como um problema de saúde pública e registrou que 55,2% dos profissionais do SUS entrevistados em uma pesquisa disseram não se sentir preparados para atender pacientes com problemas relacionados ao vício em apostas.

Ou seja: criou-se uma indústria bilionária muito rapidamente, enquanto a estrutura pública destinada a enfrentar suas consequências ainda precisava correr atrás do prejuízo.

Não parece uma equação muito equilibrada.

O dinheiro que deveria comprar comida

Talvez o dado mais simbólico de todos seja aquele que envolve as famílias de menor renda.

Em agosto de 2026, cerca de 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas estavam impedidas de apostar nas plataformas autorizadas. Somadas aos beneficiários de programas sociais e às pessoas que solicitaram voluntariamente a autoexclusão, essas restrições alcançavam aproximadamente 10% das 40 milhões de pessoas ativas cadastradas no sistema de apostas.

O governo também bloqueou o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do BPC às plataformas autorizadas. Em levantamento divulgado em julho, eram 2,8 milhões de beneficiários desses programas impedidos de apostar.

Há uma imagem que resume o absurdo da situação:

o dinheiro destinado a proteger uma família da pobreza não deveria voltar para a mesma família em forma de aposta.

Foi justamente esse risco que levou o poder público a impedir o uso desses recursos nas bets.

Quando o SUS entra na conta

Outro argumento frequentemente utilizado pelos defensores das apostas é que o setor paga impostos.

É verdade.

A legislação previa tributação das empresas, outorgas e destinações sociais. Uma empresa autorizada, por exemplo, pagava R$ 30 milhões pela outorga, além de tributos e outras obrigações.

Mas existe uma pergunta fundamental:

quanto custa para a sociedade tratar as consequências de uma atividade que gera arrecadação?

Em setembro de 2026, a Advocacia-Geral da União entrou na Justiça contra 17 plataformas e pediu, entre outras medidas, R$ 1 bilhão por danos morais coletivos. A AGU também afirmou que os gastos do SUS relacionados aos danos provocados pelas apostas superavam os valores arrecadados pelo governo em impostos das empresas envolvidas.

É uma discussão que merece ser feita sem paixão ideológica:

se uma atividade privada produz lucro privado, mas parte relevante de seus prejuízos é socializada pelo sistema público de saúde, a conta real dessa atividade não pode ser calculada apenas pelo imposto que ela recolhe.

E o futebol?

Aqui aparece uma das principais resistências à proibição.

Os clubes brasileiros têm razão ao apontar que as bets se transformaram em uma importante fonte de patrocínio. Em 2025, segundo levantamento citado pela agência de notícias Reuters, os patrocínios de empresas de apostas teriam gerado aproximadamente R$ 1 bilhão em receitas publicitárias para clubes, equivalente a cerca de 10% da receita recorrente total do futebol brasileiro.

É dinheiro significativo.

Os clubes alegam que sua retirada abrupta ameaça salários, contratações, categorias de base, futebol feminino e projetos sociais.

Esse argumento precisa ser levado a sério.

Mas ele também permite uma pergunta incômoda:

se o futebol brasileiro ficou dependente do dinheiro das bets, o problema é a proibição das bets ou a dependência criada pelo futebol?

Uma atividade econômica não se torna socialmente indispensável simplesmente porque passou a financiar outra atividade econômica.

Se amanhã uma indústria poluente se tornasse a principal patrocinadora do esporte brasileiro, deveríamos manter a poluição para preservar os patrocínios?

Provavelmente não.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado às apostas.

A questão não é proibir a diversão

Há uma diferença importante entre uma pessoa fazer uma aposta ocasional e uma indústria construída para estimular o usuário a continuar apostando.

As plataformas funcionam 24 horas por dia, utilizam bônus, notificações, apostas em tempo real e recompensas variáveis. O próprio Ministério da Saúde reconhece que esses mecanismos podem estimular a permanência e a repetição das apostas.

O problema, portanto, não está apenas no ato de apostar.

Está em uma indústria cujo modelo econômico depende de milhões de pessoas continuarem colocando dinheiro no sistema.

Quanto mais tempo o cliente permanece apostando, maior é a possibilidade de continuar perdendo.

E, quando alguém perde, aparece uma tentação particularmente perigosa:

apostar novamente para recuperar o dinheiro perdido.

É nesse momento que diversão pode se transformar em compulsão.

Uma indústria que cresceu depressa demais

As apostas esportivas foram legalizadas no Brasil em 2018. Os jogos on-line foram incorporados ao mercado regulado pela legislação de 2023. O mercado nacional regulado começou efetivamente em 1º de janeiro de 2025.

Em poucos anos, as bets passaram a ocupar anúncios, camisas de clubes, transmissões esportivas, redes sociais e celulares.

O que era exceção virou cotidiano.

E justamente quando se percebeu o tamanho do fenômeno começaram a aparecer as consequências: endividamento, transtornos relacionados ao jogo, uso de recursos de famílias vulneráveis e necessidade de criar mecanismos de autoexclusão e bloqueio.

O próprio governo chegou a criar uma plataforma para que o cidadão pudesse bloquear simultaneamente suas contas de apostas e impedir a abertura de novas contas.

Quando uma sociedade precisa criar um mecanismo oficial para ajudar milhões de pessoas a não conseguir apostar, talvez seja razoável perguntar se o problema não ultrapassou há muito tempo a fronteira da simples diversão.

Proibir resolve tudo?

Não.

E esse talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão.

A proibição das bets não elimina automaticamente o desejo de apostar. Existe, inclusive, uma preocupação legítima com a migração de apostadores para plataformas clandestinas. Representantes do setor argumentam que isso poderia ampliar o mercado ilegal.

Por isso, proibir não significa simplesmente fechar sites.

É necessário fiscalizar pagamentos, combater plataformas clandestinas, impedir publicidade ilegal, proteger os consumidores e oferecer tratamento às pessoas que já desenvolveram problemas relacionados ao jogo.

A própria Medida Provisória criou mecanismos de fiscalização e repressão à exploração ilegal.

A pergunta que realmente importa

O debate sobre as bets costuma ser apresentado como uma disputa entre liberdade individual e intervenção do Estado.

Mas talvez seja mais complexo.

Uma pessoa tem liberdade para fazer escolhas. O Estado, entretanto, também tem responsabilidade de proteger crianças, adolescentes, famílias vulneráveis e a saúde pública.

O Brasil já aceita esse princípio em diversas áreas.

Não basta perguntar quanto dinheiro uma indústria movimenta.

É preciso perguntar quanto dinheiro ela retira das famílias, quantas pessoas coloca em situação de risco e quanto custa à sociedade administrar suas consequências.

Os números disponíveis não permitem afirmar que todo apostador ficará endividado ou desenvolverá ludopatia. Seria uma generalização sem base.

Mas os números permitem afirmar outra coisa: estamos diante de um fenômeno de escala gigantesca, que já mobilizou bilhões de reais, alcançou dezenas de milhões de brasileiros e levou o poder público a criar mecanismos específicos para impedir apostas de pessoas endividadas e beneficiárias de programas sociais.

É nesse contexto que a proibição ganha sua justificativa mais forte.

Não como uma guerra contra quem gosta de futebol.

Não como uma cruzada moral contra quem aposta.

Mas como uma tentativa de estabelecer um limite para uma indústria que cresceu numa velocidade que a sociedade talvez não tenha conseguido acompanhar.

No fim das contas, há uma diferença enorme entre vender esperança e vender uma máquina de produzir lucro a partir da esperança.

E talvez seja justamente essa diferença que os números das bets estejam nos obrigando a enxergar.

 

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