Durante
algum tempo, as bets foram apresentadas ao brasileiro como uma espécie de
diversão moderna. Bastava um celular, alguns reais e um palpite sobre o
resultado de uma partida de futebol. A promessa parecia simples: quem acertasse
poderia ganhar dinheiro.
Mas
existe uma pergunta que deveria ter sido feita desde o começo: ganhar
dinheiro para quem?
Os
números ajudam a responder.
Segundo
estudo do Banco Central, as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8
bilhões por mês entre janeiro e agosto de 2024, provenientes de
aproximadamente 24 milhões de pessoas. A estimativa indicava que cerca
de 15% do dinheiro apostado ficava com as empresas, enquanto o restante
retornava aos jogadores na forma de prêmios.
Estamos
falando, portanto, de uma indústria de dimensões extraordinárias.
E talvez
seja justamente aí que esteja o problema.
Não é apenas uma aposta
Quando
uma atividade movimenta dezenas ou centenas de bilhões de reais e alcança
milhões de brasileiros, deixa de ser apenas uma questão de escolha individual.
Passa a
ser também uma questão econômica, social e de saúde pública.
O
Tribunal de Contas da União estimou que as apostas movimentaram até R$ 130
bilhões em 2024. O TCU também apontou a ludopatia - o transtorno relacionado ao jogo - como um
problema de saúde pública e registrou que 55,2% dos profissionais do SUS
entrevistados em uma pesquisa disseram não se sentir preparados para atender
pacientes com problemas relacionados ao vício em apostas.
Ou seja:
criou-se uma indústria bilionária muito rapidamente, enquanto a estrutura
pública destinada a enfrentar suas consequências ainda precisava correr atrás
do prejuízo.
Não
parece uma equação muito equilibrada.
O dinheiro que deveria comprar comida
Talvez o
dado mais simbólico de todos seja aquele que envolve as famílias de menor
renda.
Em agosto
de 2026, cerca de 800 mil pessoas que haviam renegociado dívidas estavam
impedidas de apostar nas plataformas autorizadas. Somadas aos beneficiários
de programas sociais e às pessoas que solicitaram voluntariamente a
autoexclusão, essas restrições alcançavam aproximadamente 10% das 40 milhões
de pessoas ativas cadastradas no sistema de apostas.
O governo
também bloqueou o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do BPC às
plataformas autorizadas. Em levantamento divulgado em julho, eram 2,8
milhões de beneficiários desses programas impedidos de apostar.
Há uma
imagem que resume o absurdo da situação:
o
dinheiro destinado a proteger uma família da pobreza não deveria voltar para a
mesma família em forma de aposta.
Foi
justamente esse risco que levou o poder público a impedir o uso desses recursos
nas bets.
Quando o SUS entra na conta
Outro
argumento frequentemente utilizado pelos defensores das apostas é que o setor paga
impostos.
É
verdade.
A
legislação previa tributação das empresas, outorgas e destinações sociais. Uma
empresa autorizada, por exemplo, pagava R$ 30 milhões pela outorga, além
de tributos e outras obrigações.
Mas
existe uma pergunta fundamental:
quanto custa
para a sociedade tratar as consequências de uma atividade que gera arrecadação?
Em
setembro de 2026, a Advocacia-Geral da União entrou na Justiça contra 17
plataformas e pediu, entre outras medidas, R$ 1 bilhão por danos morais
coletivos. A AGU também afirmou que os gastos do SUS relacionados aos danos
provocados pelas apostas superavam os valores arrecadados pelo governo em
impostos das empresas envolvidas.
É uma
discussão que merece ser feita sem paixão ideológica:
se uma
atividade privada produz lucro privado, mas parte relevante de seus prejuízos é
socializada pelo sistema público de saúde, a conta real dessa atividade não
pode ser calculada apenas pelo imposto que ela recolhe.
E o futebol?
Aqui
aparece uma das principais resistências à proibição.
Os clubes
brasileiros têm razão ao apontar que as bets se transformaram em uma importante
fonte de patrocínio. Em 2025, segundo levantamento citado pela agência de notícias Reuters, os
patrocínios de empresas de apostas teriam gerado aproximadamente R$ 1 bilhão
em receitas publicitárias para clubes, equivalente a cerca de 10% da
receita recorrente total do futebol brasileiro.
É
dinheiro significativo.
Os clubes
alegam que sua retirada abrupta ameaça salários, contratações, categorias de
base, futebol feminino e projetos sociais.
Esse
argumento precisa ser levado a sério.
Mas ele
também permite uma pergunta incômoda:
se o
futebol brasileiro ficou dependente do dinheiro das bets, o problema é a
proibição das bets ou a dependência criada pelo futebol?
Uma
atividade econômica não se torna socialmente indispensável simplesmente porque
passou a financiar outra atividade econômica.
Se amanhã
uma indústria poluente se tornasse a principal patrocinadora do esporte
brasileiro, deveríamos manter a poluição para preservar os patrocínios?
Provavelmente
não.
O mesmo
raciocínio pode ser aplicado às apostas.





