Transferências de assessores, depósitos fracionados em dinheiro, pagamentos de despesas familiares e diferenças entre as vendas de uma loja de chocolates e seus créditos bancários compuseram a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre um suposto esquema de rachadinhas no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do estado, a Alerj.
A apuração levou o MPRJ a apresentar, em outubro de 2020, denúncia contra Flávio, seu ex-assessor Fabrício Queiroz e outros 15 investigados. A acusação envolvia organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita, por fatos ocorridos entre 2007 e 2018. O senador sempre negou irregularidades.
O caso terminou com a rejeição da denúncia pelo Tribunal de Justiça do Rio, em maio de 2022, depois que decisões dos tribunais superiores invalidaram os elementos utilizados pela acusação. Não houve condenação nem julgamento de mérito que comprovasse as acusações. Também não houve sentença de absolvição que examinasse e afastasse, uma a uma, as suspeitas financeiras.
A reconstrução dos documentos públicos e das informações divulgadas sobre os autos permite compreender o que os investigadores apontaram, quais valores foram rastreados e o que permaneceu sem conclusão judicial.
Segundo o Ministério Público, funcionários nomeados no gabinete de Flávio recebiam salários pagos pela Alerj e devolviam parte dos recursos a Queiroz. Os investigadores identificaram transferências, cheques, depósitos fracionados e saques em espécie. Parte dos servidores foi apontada como funcionária fantasma, por supostamente não prestar os serviços pelos quais recebia.
Queiroz admitiu ao MP, em manifestação escrita apresentada em março de 2019, que recolhia parte dos salários. Sua explicação foi que utilizava os valores para remunerar colaboradores informais e ampliar a atuação política do então deputado estadual. Negou apropriação dos recursos e afirmou que Flávio desconhecia a estrutura de redistribuição.
Um dos assessores, Agostinho Moraes da Silva, declarou que depositava mensalmente cerca de dois terços de seu salário na conta de Queiroz. A existência de devoluções salariais, portanto, tinha respaldo em movimentações financeiras e declarações. A finalidade dos recolhimentos e a responsabilidade do parlamentar eram pontos centrais da divergência entre acusação e defesa.
O valor de aproximadamente R$ 6,1 milhões citado na denúncia correspondia às remunerações públicas incluídas na acusação de peculato envolvendo supostos funcionários fantasmas. Esse total não significava que os investigadores haviam localizado R$ 6,1 milhões depositados na conta de Flávio.
Segundo a descrição da denúncia publicada pela Folha de S.Paulo, foram identificados cerca de R$ 2,08 milhões em repasses nas contas de Queiroz. Outros R$ 2,15 milhões correspondiam a saques superiores a R$ 500 nas contas de ex-assessores, considerados pelos promotores potencialmente disponíveis ao esquema. O rastreamento das entregas em espécie, entretanto, apresentava limitações.
A investigação também procurou identificar benefícios indiretos ao parlamentar. Entre os elementos examinados estavam mensalidades escolares e despesas de saúde da família pagas em dinheiro.
Conforme levantamento do UOL baseado nos autos, 52 boletos escolares, entre 2015 e 2018, somavam R$ 153.237,65. Outras 120 parcelas de plano de saúde totalizavam R$ 108.407,98. Imagens de uma agência bancária na Alerj mostravam Queiroz pagando em espécie, em 1º de outubro de 2018, dois boletos identificados como mensalidades escolares das filhas de Flávio. Para o MP, esses pagamentos integravam os indícios de benefício pessoal com recursos do esquema.
O alerta financeiro que tornou o caso conhecido envolvia R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta de Queiroz entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. O banco considerou as operações incompatíveis com seu patrimônio, sua ocupação e sua capacidade financeira informada. O montante representava movimentação bancária, não um cálculo de dinheiro comprovadamente desviado.
Outro aspecto chamou a atenção dos investigadores: mais da metade dos depósitos em espécie examinados ocorreu no dia do pagamento dos servidores da Alerj ou até três dias úteis depois. A proximidade das datas reforçou a suspeita de devolução de salários.
Relatórios do Coaf também apontaram 48 depósitos de R$ 2 mil na conta de Flávio, totalizando R$ 96 mil, entre junho e julho de 2017. O fracionamento foi tratado como sinal de possível tentativa de dificultar a identificação da origem dos recursos. Relatórios de inteligência financeira, porém, identificam operações suspeitas e subsidiam investigações; não constituem, por si, comprovação de crime.
Flávio afirmou que os depósitos correspondiam a parte do pagamento recebido em uma transação imobiliária. O comprador Alexandre Guerra confirmou à imprensa ter pago aproximadamente R$ 100 mil em dinheiro, corroborando essa parte da explicação apresentada pelo parlamentar.
A investigação alcançou ainda familiares de Adriano da Nóbrega, ex-policial apontado pelas autoridades como integrante de milícia e do chamado Escritório do Crime. Sua mãe, Raimunda Veras Magalhães, e sua então mulher, posteriormente identificada como ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa, ocuparam cargos ligados a Flávio na Alerj.
Nos dados divulgados em dezembro de 2019, o MP apontou que as duas receberam R$ 1.029.042,48 em salários e repassaram, direta ou indiretamente, R$ 203.002,57 a Queiroz. Os investigadores também examinaram R$ 202.184,64 em saques feitos por elas. Esses saques não equivaliam automaticamente a entregas comprovadas ao ex-assessor.





