As urnas de Salvador produziram um dos retratos mais interessantes das Eleições 2026 na Bahia.
Na mesma cabine de votação, uma parcela expressiva dos soteropolitanos escolheu Lula (PT) para presidente e ACM Neto (União Brasil) para governador.
O fenômeno aparece claramente quando os resultados são colocados lado a lado.
Na disputa presidencial, Lula alcançou 65,26% dos votos válidos em Salvador, seu melhor desempenho entre todas as capitais brasileiras.
Já na eleição para governador, o vencedor na capital foi ACM Neto, que recebeu 54,33%, contra 44,50% de Jerônimo Rodrigues (PT).
Foram cerca de 767 mil votos para Neto e 628 mil para Jerônimo.
A diferença foi de aproximadamente 139 mil votos.
Salvador separou as duas disputas
Os números demonstram que uma parte relevante do eleitorado não transferiu automaticamente para o candidato petista ao governo estadual o voto dado a Lula.
É o chamado voto cruzado.
O comportamento ocorre quando o eleitor escolhe candidatos de campos políticos diferentes dependendo do cargo em disputa.
Em Salvador, o resultado sugere que a avaliação sobre a Presidência da República e a disputa pelo governo estadual seguiram lógicas próprias para uma parcela significativa dos eleitores.
Lula conseguiu manter na capital uma forte identificação eleitoral, enquanto ACM Neto preservou força política construída ao longo de sua trajetória na cidade, onde foi prefeito por dois mandatos.
Lula teve em Salvador seu melhor resultado entre as capitais
O desempenho presidencial da capital baiana chama ainda mais atenção quando comparado ao restante do país.
Lula venceu em 11 capitais brasileiras, enquanto Flávio Bolsonaro ficou na frente em 16, considerando as 26 capitais estaduais e Brasília.
Salvador foi justamente a capital onde Lula conseguiu sua maior votação proporcional: 65,26% dos votos válidos.
O resultado reafirma a força do presidente na capital baiana e no Nordeste.
Mas Neto venceu a disputa estadual na cidade
Quando o eleitor mudou a escolha de presidente para governador, porém, o cenário também mudou.
ACM Neto terminou à frente de Jerônimo em Salvador mesmo com o governador petista conquistando a reeleição no primeiro turno no conjunto da Bahia.
Isso revela uma diferença importante entre a geografia eleitoral da capital e a do restante do estado.
Enquanto Jerônimo construiu uma vantagem suficiente no interior para garantir a reeleição, Neto manteve forte competitividade no maior colégio eleitoral baiano.
Um eleitor menos preso a blocos?
O resultado também abre espaço para uma leitura política relevante.
A votação indica que uma parcela do eleitorado soteropolitano pode estar menos vinculada a uma escolha partidária única do que uma análise puramente nacional da eleição poderia sugerir.
Votar em Lula para presidente não significou necessariamente votar em Jerônimo para governador.
Da mesma maneira, votar em ACM Neto para o governo estadual não significou necessariamente apoiar Flávio Bolsonaro para presidente.
Esse comportamento ajuda a explicar como Salvador pôde, simultaneamente, entregar a Lula seu melhor resultado entre as capitais brasileiras e dar a ACM Neto uma vitória clara na corrida estadual dentro da cidade.
Resultado deixa uma mensagem para 2028
O voto cruzado também deverá entrar nas análises sobre a próxima eleição municipal.
Salvador continua sendo um território eleitoral onde grupos políticos adversários conseguem demonstrar força em disputas diferentes.
Para o campo governista estadual, o resultado mostra o desafio de transformar a popularidade de Lula em apoio local aos seus candidatos.
Para o grupo político ligado a ACM Neto e ao prefeito Bruno Reis, demonstra que a força municipal permanece relevante mesmo diante de uma votação presidencial amplamente favorável ao PT.
As urnas de 2026, portanto, deixaram uma mensagem que vai além da eleição deste ano:
o eleitor de Salvador mostrou que sabe separar as disputas — e que seu voto para presidente não determina necessariamente sua escolha para governador.
Fonte: dados eleitorais do TSE e apuração das Eleições 2026.