Homenagear São Cosme e São Damião não é costume exclusivo dos baianos. A devoção aos dois santos atravessa diferentes regiões do Brasil e também está presente em outros países. Mas, na Bahia, a celebração ganhou uma identidade própria, marcada pela mistura de tradições religiosas que, ao longo dos séculos, ajudaram a formar a cultura do estado.
É difícil encontrar um baiano que nunca tenha participado - ou, pelo menos, ouvido falar - de um "caruru de São Cosme". Durante o mês de setembro, as mesas se enchem de quiabo, azeite de dendê, camarão, castanhas e amendoim, enquanto crianças aguardam o momento em que os pratos serão servidos.
O que durante muito tempo esteve mais associado às camadas populares da sociedade acabou se espalhando por diferentes ambientes sociais. Hoje, o caruru de São Cosme pode ser encontrado tanto na simplicidade das casas e terreiros quanto nas mesas de famílias de diferentes origens e condições econômicas.
É uma festa religiosa, mas também é memória, comida, infância, devoção e encontro.
Dois-dois

A relação entre São Cosme e São Damião e as religiões de matriz africana costuma ser explicada pelo "sincretismo religioso", fenômeno que marcou profundamente a formação cultural brasileira.
No candomblé, os gêmeos são associados a "Ibeji", orixá ligado à infância e à ideia de dualidade. A associação, entretanto, não significa que São Cosme e São Damião e Ibeji sejam a mesma entidade. São figuras distintas, pertencentes a tradições religiosas diferentes, que ao longo da história estabeleceram aproximações simbólicas.
Durante o período da escravidão, os africanos trazidos à força para o Brasil tiveram suas práticas religiosas perseguidas e reprimidas. Nesse contexto, santos católicos foram associados a orixás por meio de características, símbolos e histórias que apresentavam alguma semelhança.
Oxóssi, por exemplo, foi associado a São Jorge em determinadas tradições; Omolu, a São Lázaro. Essas aproximações ajudaram a preservar referências religiosas africanas em um ambiente no qual sua manifestação aberta era frequentemente proibida.
É nesse contexto histórico e cultural que São Cosme e São Damião passaram a ser relacionados a Ibeji.
A tradição popular também reforçou essa aproximação ao representar os dois santos como “santos meninos”, figuras protetoras das crianças.
Por isso, o caruru de setembro carrega diferentes camadas de significado. Para muitos católicos, é uma homenagem aos santos médicos. Para adeptos das religiões de matriz africana, a relação com Ibeji possui seus próprios fundamentos e rituais. E, para muitos baianos, é simplesmente uma tradição que atravessa gerações - uma daquelas coisas que fazem parte da memória afetiva da terra.
Médicos que não cobravam
A história de Cosme e Damião remonta a quase dois mil anos e chegou até nós envolta em tradição e devoção.
Segundo a tradição cristã, os irmãos eram médicos e atendiam gratuitamente, movidos pela fé em Cristo. Por professarem o cristianismo, teriam sido perseguidos durante o governo do imperador romano Diocleciano e martirizados por volta do ano 300.
A devoção aos santos chegou ao Brasil com os portugueses e encontrou aqui um território de extraordinária diversidade cultural e religiosa. Ao lado das crenças europeias estavam as tradições indígenas e, posteriormente, as diferentes religiões trazidas pelos africanos escravizados.
Desse encontro - muitas vezes marcado também por conflitos e imposições - nasceram manifestações religiosas e culturais que hoje fazem parte da identidade brasileira.
E apareceu Doum
Em algumas tradições de matriz africana, Cosme e Damião aparecem acompanhados de uma terceira criança: "Doum".
Existem diferentes versões para explicar sua origem. Uma das lendas conta que os três eram irmãos e que, depois da morte de Doum, Cosme e Damião teriam se tornado médicos para cuidar das crianças, sem cobrar pelos tratamentos.
Doum passou, assim, a ser associado à proteção das crianças pequenas.
A presença de Doum acrescenta mais uma camada à rica simbologia que envolve a celebração. São dois santos, dois irmãos, duas tradições que se aproximaram historicamente - e, no meio delas, uma criança que ganhou vida própria na religiosidade popular.
Um caruru que é muito mais que comida
Há quem veja no caruru apenas uma tradição religiosa. Há quem enxergue nele uma manifestação do sincretismo. Há quem espere o mês de setembro simplesmente porque chegou a hora de comer caruru.
Talvez todos estejam certos.
Porque, na Bahia, religião e cultura raramente caminham em estradas completamente separadas. Elas se encontram na música, na comida, nas festas, nas promessas, nos terreiros, nas igrejas e, sobretudo, na memória das pessoas.
São Cosme e São Damião chegaram de longe, atravessaram séculos e encontraram na Bahia uma maneira muito própria de serem celebrados.
E, quando setembro chega, a pergunta parece já estar respondida na letra da música:
"São Cosme mandou fazer duas camisinha azul.
No dia da festa dele, São Cosme quer caruru".
E o baiano, obediente, põe o quiabo no fogo.

