TRADIÇÃO

São Cosme mandou fazer "duas camisinha azul"

No dia da festa dele, São Cosme quer caruru

Redação HOJE BAHIA, com revista Viver Bahia
Publicada em 20 de setembro de 2026 às 11:31 • Salvador - BA
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Caruru baiano
Caruru baianoFoto: Instagram
Homenagear São Cosme e São Damião não é costume exclusivo dos baianos. A devoção aos dois santos atravessa diferentes regiões do Brasil e também está presente em outros países. Mas, na Bahia, a celebração ganhou uma identidade própria, marcada pela mistura de tradições religiosas que, ao longo dos séculos, ajudaram a formar a cultura do estado.

É difícil encontrar um baiano que nunca tenha participado - ou, pelo menos, ouvido falar - de um "caruru de São Cosme". Durante o mês de setembro, as mesas se enchem de quiabo, azeite de dendê, camarão, castanhas e amendoim, enquanto crianças aguardam o momento em que os pratos serão servidos.

O que durante muito tempo esteve mais associado às camadas populares da sociedade acabou se espalhando por diferentes ambientes sociais. Hoje, o caruru de São Cosme pode ser encontrado tanto na simplicidade das casas e terreiros quanto nas mesas de famílias de diferentes origens e condições econômicas.

É uma festa religiosa, mas também é memória, comida, infância, devoção e encontro.

Dois-dois

Foto: Instagram

A relação entre São Cosme e São Damião e as religiões de matriz africana costuma ser explicada pelo "sincretismo religioso", fenômeno que marcou profundamente a formação cultural brasileira.


No candomblé, os gêmeos são associados a "Ibeji", orixá ligado à infância e à ideia de dualidade. A associação, entretanto, não significa que São Cosme e São Damião e Ibeji sejam a mesma entidade. São figuras distintas, pertencentes a tradições religiosas diferentes, que ao longo da história estabeleceram aproximações simbólicas.

Durante o período da escravidão, os africanos trazidos à força para o Brasil tiveram suas práticas religiosas perseguidas e reprimidas. Nesse contexto, santos católicos foram associados a orixás por meio de características, símbolos e histórias que apresentavam alguma semelhança.

Oxóssi, por exemplo, foi associado a São Jorge em determinadas tradições; Omolu, a São Lázaro. Essas aproximações ajudaram a preservar referências religiosas africanas em um ambiente no qual sua manifestação aberta era frequentemente proibida.

É nesse contexto histórico e cultural que São Cosme e São Damião passaram a ser relacionados a Ibeji.

A tradição popular também reforçou essa aproximação ao representar os dois santos como “santos meninos”, figuras protetoras das crianças.

Por isso, o caruru de setembro carrega diferentes camadas de significado. Para muitos católicos, é uma homenagem aos santos médicos. Para adeptos das religiões de matriz africana, a relação com Ibeji possui seus próprios fundamentos e rituais. E, para muitos baianos, é simplesmente uma tradição que atravessa gerações - uma daquelas coisas que fazem parte da memória afetiva da terra.

Médicos que não cobravam


A história de Cosme e Damião remonta a quase dois mil anos e chegou até nós envolta em tradição e devoção.

Segundo a tradição cristã, os irmãos eram médicos e atendiam gratuitamente, movidos pela fé em Cristo. Por professarem o cristianismo, teriam sido perseguidos durante o governo do imperador romano Diocleciano e martirizados por volta do ano 300.

A devoção aos santos chegou ao Brasil com os portugueses e encontrou aqui um território de extraordinária diversidade cultural e religiosa. Ao lado das crenças europeias estavam as tradições indígenas e, posteriormente, as diferentes religiões trazidas pelos africanos escravizados.

Desse encontro - muitas vezes marcado também por conflitos e imposições - nasceram manifestações religiosas e culturais que hoje fazem parte da identidade brasileira.

E apareceu Doum


Em algumas tradições de matriz africana, Cosme e Damião aparecem acompanhados de uma terceira criança: "Doum".

Existem diferentes versões para explicar sua origem. Uma das lendas conta que os três eram irmãos e que, depois da morte de Doum, Cosme e Damião teriam se tornado médicos para cuidar das crianças, sem cobrar pelos tratamentos.

Doum passou, assim, a ser associado à proteção das crianças pequenas.

A presença de Doum acrescenta mais uma camada à rica simbologia que envolve a celebração. São dois santos, dois irmãos, duas tradições que se aproximaram historicamente - e, no meio delas, uma criança que ganhou vida própria na religiosidade popular.

Um caruru que é muito mais que comida


Há quem veja no caruru apenas uma tradição religiosa. Há quem enxergue nele uma manifestação do sincretismo. Há quem espere o mês de setembro simplesmente porque chegou a hora de comer caruru.

Talvez todos estejam certos.

Porque, na Bahia, religião e cultura raramente caminham em estradas completamente separadas. Elas se encontram na música, na comida, nas festas, nas promessas, nos terreiros, nas igrejas e, sobretudo, na memória das pessoas.

São Cosme e São Damião chegaram de longe, atravessaram séculos e encontraram na Bahia uma maneira muito própria de serem celebrados.

E, quando setembro chega, a pergunta parece já estar respondida na letra da música:

"São Cosme mandou fazer duas camisinha azul.
No dia da festa dele, São Cosme quer caruru".

E o baiano, obediente, põe o quiabo no fogo.

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