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CRISE

VÍDEO: Fila por emprego na Argentina reúne mais de 2 mil currículos e expõe os limites do modelo econômico de Milei

Com desemprego de 7,9% e pobreza em 32,3%, país enfrenta dificuldades na geração de empregos; experiência argentina inspira propostas de cortes de gastos, privatizações e flexibilização defendidas pela campanha de Flávio Bolsonaro no Brasil

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 13 de outubro de 2026 às 15:40 • Salvador - BA
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A busca por emprego mobilizou milhares de argentinos em Moreno, na região metropolitana de Buenos Aires. Mais de 2 mil currículos foram entregues em processo seletivo para 30 a 40 vagas, reacendendo o debate sobre os impactos sociais da política econômica do governo Javier Milei.
A busca por emprego mobilizou milhares de argentinos em Moreno, na região metropolitana de Buenos Aires. Mais de 2 mil currículos foram entregues em processo seletivo para 30 a 40 vagas, reacendendo o debate sobre os impactos sociais da política econômica do governo Javier Milei.

Uma fila que se estendeu por aproximadamente dez quarteirões, milhares de currículos e uma multidão disposta a passar a noite esperando por uma oportunidade de trabalho. As imagens registradas na segunda-feira (12), em Moreno, na região metropolitana de Buenos Aires, tornaram-se mais um retrato das dificuldades enfrentadas por trabalhadores argentinos.

A mobilização aconteceu diante de um bazar que abriu um processo de contratação. Segundo a cobertura da televisão argentina, algumas pessoas chegaram ainda na noite anterior para garantir os primeiros lugares.

O comerciante responsável pelo estabelecimento, identificado como Leo, informou à emissora TN que recebeu mais de 2 mil currículos e pretende contratar entre 30 e 40 pessoas nas próximas três semanas. As vagas oferecem salários mensais entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de pesos argentinos.

Diante das câmeras, candidatos relataram desemprego prolongado, dificuldades para sustentar suas famílias e salários insuficientes para cobrir as necessidades básicas.

O episódio ganhou repercussão em um momento de intenso debate sobre os resultados da política econômica do presidente Javier Milei, que assumiu o governo argentino em dezembro de 2023 prometendo reduzir drasticamente o Estado, controlar a inflação e recuperar a confiança dos investidores.

O interesse ultrapassa as fronteiras argentinas. No Brasil, propostas semelhantes são defendidas por setores da direita, especialmente pela campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), cuja equipe econômica já apresentou o governo Milei como referência.


O que mostram os números da economia argentina?

A avaliação do governo Milei exige considerar duas realidades simultâneas: a melhora de indicadores importantes de estabilidade macroeconômica e a persistência de dificuldades no mercado de trabalho, no consumo e na renda de parte da população.

O combate à inflação representa o principal resultado positivo reivindicado pelo governo argentino.

O país encerrou 2023 com inflação anual superior a 200%, resultado de uma crise de preços acumulada durante vários governos. Em agosto de 2026, a inflação mensal estava em 1,7%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC). Embora a variação anual ainda seja elevada, a desaceleração em relação ao período anterior a Milei é expressiva.

O governo também reorganizou as contas fiscais. Dados divulgados pelo Ministério da Economia argentino apontam superávit primário e resultado financeiro positivo acumulado nos primeiros oito meses de 2026.

No comércio exterior, a Argentina registrou superávit de US$ 2,187 bilhões em agosto, com exportações de US$ 8,883 bilhões, segundo o INDEC.

Esses resultados são destacados pelos defensores do programa liberal como evidências de que a disciplina fiscal, a redução das despesas e a abertura econômica podem contribuir para restaurar a estabilidade.

Entretanto, controlar a inflação e equilibrar as contas públicas não significa, necessariamente, que o emprego e o poder de compra tenham se recuperado na mesma velocidade.

Desemprego, pobreza e retração da atividade

No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego da Argentina chegou a 7,9%, segundo o INDEC.

A pobreza atingiu 32,3% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados no primeiro semestre de 2026. O percentual representa uma elevação em relação aos 28,2% do segundo semestre de 2025.

É importante observar toda a trajetória: a pobreza havia alcançado 52,9% no primeiro semestre de 2024 e recuou significativamente durante 2025. Portanto, o indicador ainda está abaixo daquele pico, embora tenha voltado a crescer na medição mais recente.

A recuperação também perdeu velocidade. O Produto Interno Bruto argentino cresceu 2% na comparação anual do segundo trimestre de 2026, mas apresentou queda de 0,6% em relação ao trimestre anterior, descontados os efeitos sazonais.

Em julho, o índice mensal de atividade econômica caiu 2,9% em relação a junho.

A desaceleração levou o Fundo Monetário Internacional a revisar suas perspectivas. Em relatório divulgado nesta terça-feira (13), o FMI reduziu de 3,5% para 2,1% a previsão de crescimento da Argentina em 2026, após expansão de 4,5% em 2025.

O cenário apresenta um desafio central: como transformar a estabilização dos preços e das contas públicas em crescimento econômico capaz de criar empregos, recuperar salários e melhorar as condições de vida?

Mais de 32 mil empregadores a menos desde 2023

Outro dado ajuda a compreender as dificuldades do mercado de trabalho.

Segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA), elaborado com informações da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), o número de unidades produtivas com trabalhadores registrados caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026.

A redução líquida foi de 32.290 empregadores, equivalente a 6,3%.

No mesmo período, a quantidade de trabalhadores cobertos nas unidades produtivas diminuiu de aproximadamente 9,86 milhões para 9,42 milhões, diferença de 437,6 mil.

Os números exigem precisão: a diminuição de unidades registradas não permite afirmar que todas fecharam definitivamente. Parte da variação pode resultar de mudanças cadastrais, reorganizações ou alterações na condição de empregador.

Ainda assim, a redução evidencia o enfraquecimento de uma parcela do mercado formal.

Empresas industriais e comerciais enfrentam desafios associados à demanda interna, aos custos de financiamento e à concorrência internacional. Já a abertura das importações pode produzir efeitos diferentes conforme o setor: oferece produtos mais baratos e oportunidades para alguns negócios, mas também pressiona empresas nacionais que competem com mercadorias estrangeiras.

O próprio dono do bazar de Moreno representa essa dualidade. Leo afirmou que a maior facilidade para importar mercadorias ajudou seu empreendimento a crescer e criar novas vagas.

Assim, o estabelecimento que concentra milhares de candidatos também demonstra que a mesma política econômica pode beneficiar determinados segmentos empresariais enquanto outros enfrentam dificuldades.

A Argentina virou referência para a direita brasileira

O modelo de Milei passou a ocupar espaço relevante na discussão econômica brasileira, especialmente durante a campanha presidencial de 2026.

Em setembro, Daniella Marques, integrante da coordenação econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro, declarou que o governo argentino era uma inspiração para a revisão de normas, a redução da burocracia e a diminuição de impostos no Brasil.

Segundo declarações divulgadas pela imprensa, a equipe do candidato pretende revisar mais de mil normas administrativas e reverter tributos criados ou ampliados durante o atual governo.

O programa de Flávio Bolsonaro utiliza a expressão tesouraço para simbolizar a redução de despesas e do tamanho da máquina pública, uma referência política que se aproxima da motosserra utilizada por Milei na campanha argentina.

Entre as diretrizes apresentadas estão a redução de pelo menos dez ministérios, a diminuição de cargos comissionados, a retomada de privatizações e concessões e a criação de uma nova regra de controle dos gastos públicos.

Integrantes da equipe econômica defendem um ajuste fiscal equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB, concentrado no início de um eventual mandato.

A proposta encontra apoio entre economistas e empresários que consideram a trajetória da dívida brasileira um obstáculo à redução dos juros e à expansão dos investimentos privados.

Para esse grupo, um Estado menos oneroso e um ambiente regulatório mais simples poderiam aumentar a produtividade, a confiança empresarial e a criação de empregos.

Entretanto, ainda existem dúvidas sobre como produzir cortes dessa magnitude sem atingir despesas obrigatórias ou comprometer serviços públicos.

O candidato afirma que pretende preservar programas sociais e a valorização das aposentadorias. Sua equipe também declarou que não planeja privatizar Petrobras e Banco do Brasil.

Portanto, embora haja inspiração expressa no programa argentino, não se pode tratar todas as medidas de Milei como compromissos assumidos pela candidatura brasileira.

Direitos trabalhistas também estão no centro da discussão

A comparação ganha importância quando alcança as relações de trabalho.

Setores liberais da direita brasileira defendem maior liberdade de negociação entre empregados e empregadores, flexibilização de contratos e remuneração proporcional às horas efetivamente trabalhadas.

Uma proposta apresentada por parlamentares do PL prevê contratos com pagamento por hora e regras próprias de remuneração e direitos proporcionais.

Os defensores argumentam que essas modalidades podem reduzir obstáculos à contratação e ampliar oportunidades formais.

Os críticos alertam que a flexibilização pode criar insegurança de renda, sobretudo em mercados marcados pelo desemprego e pela desigualdade entre o poder de negociação das empresas e dos trabalhadores.

Na terça-feira (13), Flávio Bolsonaro também anunciou apoio à proposta de fim da escala 6x1, depois de ter criticado anteriormente a mudança. A posição representa uma alteração importante no debate trabalhista e convive com a defesa de modelos contratuais mais flexíveis.

A experiência argentina oferece elementos para avaliar essas propostas, mas não permite prever automaticamente seus resultados no Brasil. Os dois países possuem estruturas produtivas, sistemas de proteção social e históricos inflacionários diferentes.

Brasil e Argentina: duas situações econômicas distintas

A comparação entre os países precisa partir dessas diferenças.

No trimestre encerrado em agosto de 2026, o desemprego brasileiro foi estimado em 5,3%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.

A taxa argentina foi de 7,9% no segundo trimestre. Embora os períodos e as metodologias não sejam idênticos, os indicadores apontam condições distintas de ocupação.

No campo fiscal, ambos os países enfrentam o desafio de conciliar a sustentabilidade das contas públicas com as necessidades de investimento e proteção social.

A diferença está principalmente na intensidade, na velocidade e na composição dos ajustes propostos.

Enquanto o governo Lula defende a manutenção de regras fiscais acompanhadas de investimento público, políticas industriais e programas sociais, a candidatura de Flávio Bolsonaro propõe uma redução mais acelerada de despesas e maior protagonismo da iniciativa privada.

Nenhuma dessas estratégias dispensa a necessidade de melhorar produtividade, controlar a dívida, estimular investimentos e garantir oportunidades de trabalho.

O ponto central do debate é quem suporta os custos das mudanças e como os benefícios econômicos são distribuídos.

A pergunta que as filas deixam

A política econômica argentina produziu avanços mensuráveis no controle da inflação e no equilíbrio fiscal. Também convive com redução de empregadores registrados, dificuldades de contratação e um contingente expressivo de pessoas em situação de pobreza.

Parte desses problemas antecede Milei. Outros foram agravados ou modificados pelos ajustes econômicos e pelo contexto internacional. Não é possível atribuir cada indicador exclusivamente a uma decisão de governo, mas é necessário avaliar o conjunto dos resultados.

Para o Brasil, a experiência do país vizinho não deveria funcionar como modelo a ser copiado integralmente nem como exemplo a ser descartado sem análise.

Ela oferece uma oportunidade de discutir a qualidade do ajuste fiscal, o papel do Estado, a proteção do emprego e a importância de políticas capazes de combinar estabilidade com desenvolvimento.

A fila de Moreno, por si só, não determina o sucesso ou o fracasso de um programa econômico. Mas mostra uma realidade que os indicadores agregados nem sempre conseguem traduzir.

Para os milhares de argentinos que aguardaram com seus currículos, o debate sobre inflação, superávit e crescimento tem uma dimensão muito concreta: encontrar um emprego e conseguir viver com o próprio salário.

Afinal, de que serve uma economia financeiramente mais estável se essa estabilidade não se transforma também em trabalho, renda e oportunidades para a população?


Vídeo: Reportagem da emissora argentina A24, com imagens da fila em Moreno.

Apuração: Hoje Bahia, com informações da A24, TN, INDEC, SRT, FMI, Ministério da Economia da Argentina, IBGE, Reuters e Folha de S.Paulo.

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