Uma fila que se estendeu por aproximadamente dez quarteirões, milhares de currículos e uma multidão disposta a passar a noite esperando por uma oportunidade de trabalho. As imagens registradas na segunda-feira (12), em Moreno, na região metropolitana de Buenos Aires, tornaram-se mais um retrato das dificuldades enfrentadas por trabalhadores argentinos.
A mobilização aconteceu diante de um bazar que abriu um processo de contratação. Segundo a cobertura da televisão argentina, algumas pessoas chegaram ainda na noite anterior para garantir os primeiros lugares.
O comerciante responsável pelo estabelecimento, identificado como Leo, informou à emissora TN que recebeu mais de 2 mil currículos e pretende contratar entre 30 e 40 pessoas nas próximas três semanas. As vagas oferecem salários mensais entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de pesos argentinos.
Diante das câmeras, candidatos relataram desemprego prolongado, dificuldades para sustentar suas famílias e salários insuficientes para cobrir as necessidades básicas.
O episódio ganhou repercussão em um momento de intenso debate sobre os resultados da política econômica do presidente Javier Milei, que assumiu o governo argentino em dezembro de 2023 prometendo reduzir drasticamente o Estado, controlar a inflação e recuperar a confiança dos investidores.
O interesse ultrapassa as fronteiras argentinas. No Brasil, propostas semelhantes são defendidas por setores da direita, especialmente pela campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), cuja equipe econômica já apresentou o governo Milei como referência.
O que mostram os números da economia argentina?
A avaliação do governo Milei exige considerar duas realidades simultâneas: a melhora de indicadores importantes de estabilidade macroeconômica e a persistência de dificuldades no mercado de trabalho, no consumo e na renda de parte da população.
O combate à inflação representa o principal resultado positivo reivindicado pelo governo argentino.
O país encerrou 2023 com inflação anual superior a 200%, resultado de uma crise de preços acumulada durante vários governos. Em agosto de 2026, a inflação mensal estava em 1,7%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC). Embora a variação anual ainda seja elevada, a desaceleração em relação ao período anterior a Milei é expressiva.
O governo também reorganizou as contas fiscais. Dados divulgados pelo Ministério da Economia argentino apontam superávit primário e resultado financeiro positivo acumulado nos primeiros oito meses de 2026.
No comércio exterior, a Argentina registrou superávit de US$ 2,187 bilhões em agosto, com exportações de US$ 8,883 bilhões, segundo o INDEC.
Esses resultados são destacados pelos defensores do programa liberal como evidências de que a disciplina fiscal, a redução das despesas e a abertura econômica podem contribuir para restaurar a estabilidade.
Entretanto, controlar a inflação e equilibrar as contas públicas não significa, necessariamente, que o emprego e o poder de compra tenham se recuperado na mesma velocidade.
Desemprego, pobreza e retração da atividade
No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego da Argentina chegou a 7,9%, segundo o INDEC.
A pobreza atingiu 32,3% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados no primeiro semestre de 2026. O percentual representa uma elevação em relação aos 28,2% do segundo semestre de 2025.
É importante observar toda a trajetória: a pobreza havia alcançado 52,9% no primeiro semestre de 2024 e recuou significativamente durante 2025. Portanto, o indicador ainda está abaixo daquele pico, embora tenha voltado a crescer na medição mais recente.
A recuperação também perdeu velocidade. O Produto Interno Bruto argentino cresceu 2% na comparação anual do segundo trimestre de 2026, mas apresentou queda de 0,6% em relação ao trimestre anterior, descontados os efeitos sazonais.
Em julho, o índice mensal de atividade econômica caiu 2,9% em relação a junho.
A desaceleração levou o Fundo Monetário Internacional a revisar suas perspectivas. Em relatório divulgado nesta terça-feira (13), o FMI reduziu de 3,5% para 2,1% a previsão de crescimento da Argentina em 2026, após expansão de 4,5% em 2025.
O cenário apresenta um desafio central: como transformar a estabilização dos preços e das contas públicas em crescimento econômico capaz de criar empregos, recuperar salários e melhorar as condições de vida?
Mais de 32 mil empregadores a menos desde 2023
Outro dado ajuda a compreender as dificuldades do mercado de trabalho.
Segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA), elaborado com informações da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), o número de unidades produtivas com trabalhadores registrados caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026.
A redução líquida foi de 32.290 empregadores, equivalente a 6,3%.
No mesmo período, a quantidade de trabalhadores cobertos nas unidades produtivas diminuiu de aproximadamente 9,86 milhões para 9,42 milhões, diferença de 437,6 mil.
Os números exigem precisão: a diminuição de unidades registradas não permite afirmar que todas fecharam definitivamente. Parte da variação pode resultar de mudanças cadastrais, reorganizações ou alterações na condição de empregador.
Ainda assim, a redução evidencia o enfraquecimento de uma parcela do mercado formal.
Empresas industriais e comerciais enfrentam desafios associados à demanda interna, aos custos de financiamento e à concorrência internacional. Já a abertura das importações pode produzir efeitos diferentes conforme o setor: oferece produtos mais baratos e oportunidades para alguns negócios, mas também pressiona empresas nacionais que competem com mercadorias estrangeiras.
O próprio dono do bazar de Moreno representa essa dualidade. Leo afirmou que a maior facilidade para importar mercadorias ajudou seu empreendimento a crescer e criar novas vagas.
Assim, o estabelecimento que concentra milhares de candidatos também demonstra que a mesma política econômica pode beneficiar determinados segmentos empresariais enquanto outros enfrentam dificuldades.
A Argentina virou referência para a direita brasileira
O modelo de Milei passou a ocupar espaço relevante na discussão econômica brasileira, especialmente durante a campanha presidencial de 2026.
Em setembro, Daniella Marques, integrante da coordenação econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro, declarou que o governo argentino era uma inspiração para a revisão de normas, a redução da burocracia e a diminuição de impostos no Brasil.
Segundo declarações divulgadas pela imprensa, a equipe do candidato pretende revisar mais de mil normas administrativas e reverter tributos criados ou ampliados durante o atual governo.





