O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou como uma "chantagem do mercado" a pressão por medidas de ajuste fiscal no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (31), ele defendeu que eventuais cortes de gastos atinjam privilégios, e não políticas públicas destinadas à população mais pobre.
"Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia", afirmou Boulos, ao criticar propostas de ajuste que, segundo ele, poderiam comprometer investimentos em áreas como saúde e educação.
Entre as medidas que deveriam entrar na discussão, o ministro citou a revisão das desonerações fiscais, o combate aos supersalários no serviço público e mudanças nas emendas parlamentares impositivas. Segundo Boulos, o Brasil concede quase R$ 600 bilhões anuais em desonerações tributárias. Ele também mencionou cerca de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares como parte da discussão sobre a revisão dos gastos públicos.
O debate ocorre em meio ao aumento do endividamento público. A dívida bruta do governo geral passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), no fim de 2022, para 82,5% em julho de 2026. Dados mais recentes do Banco Central apontam que o indicador chegou a 82,9% do PIB em setembro, o equivalente a R$ 11,1 trilhões.
Boulos argumentou que a trajetória da dívida brasileira deve ser comparada à de outras grandes economias e afirmou que o país não deve abandonar um projeto de desenvolvimento nacional em nome de exigências do mercado financeiro.

Governar com as ruas e as redes

Na avaliação do ministro, a sustentação do próximo mandato de Lula não deve depender exclusivamente das negociações com o Congresso Nacional e o Judiciário. Boulos defendeu a manutenção da mobilização popular e da atuação nas plataformas digitais como instrumentos de apoio à agenda do governo.
"Precisaremos governar com o Congresso, com o Judiciário, mas também terá um outro componente. Precisaremos governar com as ruas e as redes", afirmou. Segundo ele, a mobilização social pode ajudar a pressionar o Legislativo pela aprovação de pautas populares.
O ministro também minimizou as discussões sobre possíveis sucessores de Lula e afirmou que antecipar o debate pode provocar divisões na esquerda e no governo. Questionado sobre uma eventual candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2028, disse que sua prioridade é contribuir para o próximo mandato presidencial.

Divergências no PSOL

Boulos reconheceu divergências com a atual maioria do PSOL e afirmou que seu grupo político discute os próximos passos. A definição, segundo ele, deve amadurecer nas próximas semanas. O ministro, porém, não confirmou uma eventual saída da legenda ou migração para o PT.
Ao comentar a campanha presidencial, Boulos também elogiou o deputado federal André Janones (Rede-MG) e a organização do chamado "Exército do Lula", mobilização digital que atuou na campanha pela reeleição do petista.
"Janones cumpriu um papel extraordinário", afirmou. Boulos, que coordenou a mobilização da campanha, destacou ainda a participação popular nas manifestações realizadas durante o segundo turno e defendeu a continuidade da articulação entre mobilização nas ruas e atuação nas redes sociais.