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ARTIGO

Brasil em cinco anos: o país melhorou, mas a desigualdade continua cobrando a conta

Desemprego em queda, renda maior, pobreza recuando e desmatamento diminuindo convivem com desigualdades históricas, deficiências na educação, problemas na saúde e uma emergência climática que já bate à porta

Jorge Matos - Redação HOJE BAHIA
Publicada em 30 de setembro de 2026 às 08:22
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Brasil em cinco anos: o país melhorou, mas a desigualdade continua cobrando a conta
Ilustração: Gemini

O Brasil de 2025 não é o mesmo Brasil de 2021. E não se trata apenas de uma impressão política ou ideológica. Os números mostram mudanças importantes na economia e na vida social brasileira.

Nos últimos cinco anos, o país atravessou uma pandemia que deixou milhões de mortos, enfrentou inflação, desemprego elevado e perda de renda, retomou o crescimento econômico e, posteriormente, registrou uma sequência de indicadores positivos no mercado de trabalho e na redução da pobreza.

Mas há uma pergunta que os números também obrigam a fazer:

Melhorar é suficiente quando milhões de brasileiros continuam vivendo em condições muito diferentes daqueles que estão no topo da pirâmide social?

A resposta exige olhar para além do PIB.

A economia voltou a andar

Depois do choque provocado pela pandemia, a economia brasileira retomou o crescimento.

O PIB cresceu 4,8% em 2021, 2,9% em 2022, 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025.

Não foi um crescimento espetacular em todos os anos, mas foi uma sequência importante: o país não voltou a entrar em recessão durante o período.

Em 2024, a economia brasileira chegou a R$ 11,7 trilhões. Em 2025, alcançou aproximadamente R$ 12,7 trilhões.

Só que PIB não compra pão.

O crescimento econômico é importante, mas só ganha significado social quando se transforma em emprego, renda, consumo, moradia, educação, saúde e oportunidades.

E é justamente no mercado de trabalho que aparece uma das mudanças mais significativas do período.

O desemprego despencou

Em 2021, o Brasil ainda carregava os efeitos devastadores da pandemia sobre o mercado de trabalho.

Nos anos seguintes, porém, a situação mudou.

A taxa anual de desemprego caiu para 6,6% em 2024. No final daquele ano, chegou a 6,2%.

Em 2025, a taxa continuou em níveis historicamente baixos. No trimestre encerrado em agosto, estava em 5,6%, enquanto o rendimento médio real do trabalhador alcançava R$ 3.643. Hoje está em 5,3%, menor taxa da história.

É uma transformação importante.

Mas existe um "porém" que o Brasil não pode ignorar.

O mercado de trabalho brasileiro continua marcado pela informalidade e por enormes diferenças de remuneração.

Em 2024, trabalhadores brancos recebiam, em média, R$ 24,60 por hora, enquanto pretos e pardos recebiam R$ 15.

Entre homens e mulheres, a diferença também permanece.

Ou seja: o Brasil criou mais empregos, mas ainda não criou igualdade.

Milhões saíram da pobreza

Talvez seja no combate à pobreza que os números sociais apresentem uma das mudanças mais expressivas.

Entre 2023 e 2024, segundo o IBGE, 8,6 milhões de brasileiros deixaram a pobreza.

A proporção da população nessa situação caiu de 27,3% para 23,1%.

Na extrema pobreza, 1,9 milhão de pessoas deixaram essa condição.

Os programas de transferência de renda tiveram papel importante nesse resultado.

O IBGE calcula que, sem os benefícios sociais, a extrema pobreza teria alcançado 10% da população em 2024, em vez dos 3,5% registrados.

Isso revela duas coisas.

A primeira é que políticas de transferência de renda podem produzir efeitos concretos sobre a pobreza.

A segunda é que o Brasil ainda depende delas porque a economia, sozinha, não consegue distribuir renda de maneira suficientemente equilibrada.

Quase um quarto da população ainda estava abaixo da linha de pobreza utilizada pelo IBGE.

E a pobreza continua atingindo de maneira desproporcional mulheres, crianças, negros e moradores das regiões mais pobres do país.

Saúde: o SUS continua sendo uma espécie de seguro social dos brasileiros

Se existe uma instituição que ganhou dimensão histórica durante esses cinco anos, foi o Sistema Único de Saúde.

A pandemia revelou suas limitações, mas também mostrou sua importância.

Vacinação, atendimento hospitalar, vigilância epidemiológica, distribuição de medicamentos e atendimento básico fizeram do SUS uma das principais estruturas de proteção social do país.

Depois da emergência sanitária, veio outro desafio: reconstruir coberturas vacinais, recuperar serviços represados e responder ao envelhecimento da população.

O Brasil está ficando mais velho.

E isso significa que o sistema de saúde terá de lidar cada vez mais com doenças crônicas, tratamentos prolongados e necessidade de cuidados para uma população idosa crescente.

A questão não será apenas construir hospitais.

Será preciso prevenir doenças, ampliar a atenção básica e garantir que o cidadão consiga chegar ao especialista antes que o problema vire emergência.

Educação: avançamos no acesso, mas continuamos devendo na qualidade e na igualdade

Na educação, o Brasil também tem duas histórias para contar.

Uma é a história do avanço.

Outra é a história daquilo que ainda não conseguimos resolver.

A média de anos de estudo dos brasileiros jovens aumentou e a frequência escolar melhorou.

Mas o analfabetismo continua existindo e apresenta diferenças regionais assustadoras.

Em 2024, a taxa nacional de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais era de 5,3%.

No Nordeste, chegava a 11,1%.

É mais do que o dobro.

E a desigualdade começa cedo.

Jovens das famílias mais pobres estudam menos anos do que aqueles pertencentes às famílias de maior renda.

Para muitos adolescentes brasileiros, o dilema continua sendo brutal:

estudar ou trabalhar para ajudar em casa.

Enquanto essa escolha existir para milhões de jovens, nenhuma reforma educacional poderá ser considerada concluída.

E o meio ambiente?

Aqui aparece uma das mudanças mais importantes dos últimos anos.

O desmatamento da Amazônia caiu significativamente.

Em 2024, foram 6.288 km² desmatados, uma redução de 30,6% em relação ao período anterior.

Em 2025, o índice caiu novamente, para 5.731 km².

É uma redução expressiva.

Mas existe uma diferença entre reduzir o desmatamento e acabar com ele.

Cinco mil quilômetros quadrados continuam sendo uma área gigantesca.

E a questão ambiental deixou de ser apenas uma discussão sobre árvores.

As enchentes do Rio Grande do Sul, as secas, as queimadas e as temperaturas extremas mostraram que o problema climático já interfere na agricultura, na infraestrutura, na saúde, na economia e na vida cotidiana.

O clima passou a cobrar a conta.

E a conta não é pequena.

Um país menos pobre, mas ainda profundamente desigual

Talvez essa seja a melhor síntese dos últimos cinco anos.

O Brasil avançou.

O desemprego caiu.

A renda aumentou.

A pobreza diminuiu.

A economia cresceu.

A educação avançou em alguns indicadores.

O desmatamento da Amazônia caiu.

Mas nada disso apagou as desigualdades históricas.

O Brasil continua sendo um país em que o lugar onde uma pessoa nasce, sua cor, seu gênero, a renda de sua família e a região onde vive podem determinar boa parte de suas oportunidades.

É por isso que celebrar os avanços não exige fechar os olhos para os problemas.

E apontar os problemas não exige negar os avanços.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

O próximo desafio é transformar crescimento em desenvolvimento

O Brasil já mostrou que consegue crescer.

Já mostrou que consegue reduzir o desemprego.

Já mostrou que políticas sociais podem retirar milhões da pobreza.

Também mostrou que é possível reduzir o desmatamento quando existe fiscalização, política pública e prioridade institucional.

Agora vem a parte mais difícil.

Transformar esses avanços em mudanças permanentes.

Isso significa melhorar a educação básica, reduzir as desigualdades, ampliar o saneamento, aumentar a produtividade, modernizar a infraestrutura, fortalecer o SUS, enfrentar o déficit habitacional e preparar o país para as mudanças climáticas.

E significa fazer tudo isso sem deixar para trás justamente aqueles que mais precisam do Estado.

Porque o grande desafio brasileiro nunca foi apenas produzir riqueza.

É fazer com que a riqueza produzida por um país de mais de 200 milhões de habitantes não fique concentrada nas mãos de poucos.

Os números dos últimos cinco anos permitem uma conclusão simples:

o Brasil melhorou em vários aspectos.

Mas também mostram que ainda existe um Brasil que espera por sua vez.

E talvez seja esse o verdadeiro desafio dos próximos anos:

não apenas fazer o Brasil crescer, mas fazer com que crescer signifique viver melhor para a maioria dos brasileiros.

“Os fatos são sagrados. As opiniões são livres”.

 

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