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ESPECIAL ELEIÇÕES 2026

Compilação de pesquisas da Quaest nos estados ajuda a enxergar o mapa da disputa presidencial; entenda os números

Levantamentos realizados em 26 unidades da Federação somam mais de 24 mil entrevistas. Uma ponderação externa pelo tamanho do eleitorado coloca Lula com 37,27% e Flávio Bolsonaro com 32,68% das intenções totais; projeção de votos válidos exige metodologia adicional e não deve ser confundida com pesquisa nacional da Quaest

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 28 de setembro de 2026 às 19:03 • Salvador - BA
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Disputa presidencial ganha contornos diferentes pelo país. Compilação de pesquisas estaduais da Quaest permite observar como as intenções de voto se distribuem entre as unidades da Federação e o peso de cada região no cenário nacional.
Disputa presidencial ganha contornos diferentes pelo país. Compilação de pesquisas estaduais da Quaest permite observar como as intenções de voto se distribuem entre as unidades da Federação e o peso de cada região no cenário nacional. — Arte/Ilustração: Hoje Bahia, com uso de Inteligência Artificial (IA).

A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, uma sequência de pesquisas estaduais da Quaest permite observar a disputa por um ângulo diferente daquele oferecido pelas tradicionais pesquisas nacionais. Em vez de uma única amostra representativa de todo o país, o instituto realizou levantamentos em 26 unidades da Federação — todos os estados, com exceção do Piauí, incluindo o Distrito Federal.

Somadas, as amostras utilizadas em uma consolidação independente dos levantamentos chegam a 24.282 entrevistados. A quantidade é muito superior à de uma pesquisa nacional convencional, mas isso não significa que as 24 mil entrevistas possam simplesmente ser reunidas como se formassem uma única pesquisa nacional. Cada levantamento foi desenhado para representar seu respectivo estado.

Para transformar esse conjunto em uma estimativa nacional, é necessário ponderar os resultados conforme o peso eleitoral de cada unidade da Federação.

Foi justamente esse exercício que a plataforma independente Poll+Trend realizou: utilizou os levantamentos estaduais da Quaest feitos entre 18 e 25 de setembro e reponderou os resultados de acordo com dados do eleitorado registrado.

O resultado oferece um retrato interessante da geografia eleitoral brasileira — mas requer uma ressalva fundamental:

a consolidação não é uma pesquisa nacional produzida pela Quaest e seus números não devem ser atribuídos à Quaest como resultado nacional oficial.

O que aparece quando os 26 levantamentos são ponderados

Na consolidação das 24.282 entrevistas, ponderada pelo peso dos estados, Lula aparece com 37,27%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 32,68%.

Augusto Cury aparece com 5,31%, Ronaldo Caiado com 3,71%, Renan Santos com 2,40% e Romeu Zema com 0,78%. Os demais candidatos ficam abaixo de 0,1% nessa consolidação.

Candidato Resultado ponderado
Lula 37,27%
Flávio Bolsonaro 32,68%
Augusto Cury 5,31%
Ronaldo Caiado 3,71%
Renan Santos 2,40%
Romeu Zema 0,78%
Demais abaixo de 0,1% cada

A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro nessa conta é de aproximadamente 4,6 pontos percentuais.

Há, porém, votos brancos e nulos, indecisos e outras respostas no conjunto original. Por isso, esses números não equivalem automaticamente aos votos válidos utilizados pela Justiça Eleitoral para determinar o resultado da eleição.

O mapa revela diferentes “Brasis” eleitorais

Mais interessante do que simplesmente somar percentuais é observar como os votos estão distribuídos geograficamente.

Em análise publicada no domingo (27), Felipe Nunes, diretor da Quaest, descreveu um mapa eleitoral dividido em três grandes grupos. Considerando os levantamentos da Quaest nos 26 estados e o Datafolha para o Piauí, Lula aparecia numericamente à frente em 10 estados, Flávio Bolsonaro em oito, enquanto nove unidades da Federação estavam dentro da margem de erro.

O Nordeste é o principal território de vantagem de Lula. Pesquisas recentes apontam o presidente numericamente à frente nos nove estados da região. Em alguns deles, as diferenças são expressivas. Levantamentos reunidos pelo UOL mostram vantagens superiores a 30 pontos em estados como Bahia, Pernambuco, Maranhão e Piauí.

Flávio Bolsonaro apresenta desempenho mais forte principalmente no Sul e em partes do Centro-Oeste e do Norte.

No Paraná, por exemplo, levantamento estadual citado pelo UOL registrou Flávio com 40% e Lula com 26%. Em Santa Catarina, o placar foi de 50% a 23%. No Rio Grande do Sul, a pesquisa Quaest registrou 35% para Flávio e 31% para Lula, diferença dentro da margem de erro do levantamento.

O peso decisivo do Sudeste

O cenário fica particularmente importante quando se chega aos maiores colégios eleitorais.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram uma parcela enorme dos eleitores brasileiros. Por isso, pequenas diferenças nesses estados podem representar milhões de votos.

Na rodada estadual da Quaest, São Paulo apresentava Flávio numericamente à frente, com 34% contra 31% de Lula, mas dentro do limite da margem de erro de dois pontos para cada candidato. Levantamento posterior do Datafolha apontou 38% para Flávio e 33% para Lula.

Em Minas Gerais, a situação era inversa: Lula aparecia numericamente à frente, mas também em cenário de empate técnico.

No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro aparecia numericamente à frente.

É justamente essa combinação — vantagem ampla de Lula em boa parte do Nordeste, vantagem de Flávio em estados do Sul e Centro-Oeste e disputas mais apertadas em grandes colégios eleitorais — que ajuda a explicar por que a soma nacional permanece competitiva.

E se transformarmos os levantamentos em uma projeção de votos válidos?

Aqui é necessário separar pesquisa de projeção.

A Poll+Trend realizou uma etapa adicional: além de ponderar as pesquisas estaduais, construiu uma projeção nacional, incorporando tratamento próprio para o Piauí e o eleitorado no exterior.

Nesse modelo, os números projetados são:

Candidato Projeção
Lula 45,71%
Flávio Bolsonaro 39,32%
Augusto Cury 6,46%
Ronaldo Caiado 4,47%
Renan Santos 2,93%
Romeu Zema 0,94%
Rui Costa Pimenta 0,11%
Samara Martins 0,03%
Hertz Dias 0,02%
Edmilson Costa 0,01%

Os demais aparecem próximos de zero.

A diferença entre os dois primeiros nessa projeção é de 6,39 pontos percentuais.

Mas é fundamental repetir: 45,71% não é um resultado divulgado pela Quaest.

Trata-se de uma projeção produzida pela Poll+Trend a partir dos levantamentos estaduais da Quaest, com ponderação e ajustes metodológicos próprios. A própria publicação informa que utilizou as pesquisas dos 26 estados, ponderação pelo eleitorado registrado e uma estimativa para Piauí e exterior baseada em metodologia própria.

Portanto, a formulação correta é:

“Projeção baseada nas pesquisas estaduais da Quaest aponta 45,71% para Lula e 39,32% para Flávio.”

E não:

“Quaest aponta Lula com 45,71%.”

São afirmações metodologicamente diferentes.

Por que não basta somar as 24 mil entrevistas?

Imagine dois estados hipotéticos.

Um possui 500 mil eleitores e outro 30 milhões. Se cada pesquisa estadual entrevistou aproximadamente mil pessoas e simplesmente juntássemos as duas amostras, cada estado teria praticamente metade do peso no resultado final.

Mas nas urnas eles têm pesos completamente diferentes.

É por isso que uma compilação nacional precisa atribuir pesos proporcionais ao eleitorado.

O tamanho total da amostra, portanto, é impressionante — 24.282 entrevistas —, mas sozinho não transforma os levantamentos estaduais em uma pesquisa nacional.

Além disso, há outra questão estatística: cada pesquisa estadual possui sua própria margem de erro. Na rodada da Quaest, a margem foi geralmente de três pontos percentuais, enquanto São Paulo teve margem de dois pontos.

Uma consolidação posterior cria um modelo diferente e não herda automaticamente uma margem de erro nacional simplesmente porque reúne muitas entrevistas.

E o que diz a pesquisa nacional da própria Quaest?

Há agora uma comparação especialmente interessante.

Nesta segunda-feira, 28 de setembro, a Quaest divulgou uma nova pesquisa efetivamente nacional.

Nela, Lula registra 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro, 34%. Augusto Cury aparece com 4%, Ronaldo Caiado também com 4%, Renan Santos tem 3% e Romeu Zema, 1%. Os indecisos são 5%, enquanto 10% dizem que votarão em branco, anularão ou não comparecerão.

A pesquisa ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, entre 24 e 28 de setembro, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pela TV Globo e pelo jornal O Globo e registrado no TSE sob o número BR-06520/2026.

Ou seja:

Pesquisa nacional Quaest de 28/9

  • Lula: 39%
  • Flávio Bolsonaro: 34%
  • diferença: 5 pontos

Compilação independente dos 26 levantamentos estaduais

  • Lula: 37,27%
  • Flávio: 32,68%
  • diferença: 4,59 pontos

Apesar de serem metodologias diferentes e, portanto, não diretamente intercambiáveis, chama atenção a proximidade da distância entre os dois primeiros colocados.

Na pesquisa nacional, a diferença nominal é de cinco pontos. Na ponderação das pesquisas estaduais, é de cerca de 4,6 pontos.

Isso não transforma uma metodologia na validação estatística da outra, mas mostra que os dois retratos apresentam distâncias nominais semelhantes neste momento.

A reta final também mostra redução dos indecisos

Outro dado importante da pesquisa nacional divulgada nesta segunda é a redução do grupo que ainda não escolheu candidato.

Segundo a Quaest, os indecisos eram 10% em 14 de setembro e agora representam 5%. Ao mesmo tempo, a soma dos candidatos fora de Lula e Flávio caiu de 16% para 12%.

Esses movimentos podem refletir consolidação de escolhas e migração entre candidaturas, mas pesquisas de intenção de voto são fotografias do momento e não determinam como esses eleitores efetivamente votarão.

Segundo turno permanece mais apertado

A fotografia muda quando a Quaest pergunta sobre um eventual segundo turno.

Na pesquisa nacional divulgada nesta segunda, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem numericamente empatados, com 42% cada. Na rodada anterior, eram 41% para Lula e 42% para Flávio, também em empate técnico.

Assim, os dados disponíveis descrevem duas situações diferentes: no cenário estimulado de primeiro turno da pesquisa nacional, Lula aparece cinco pontos numericamente à frente; na simulação de segundo turno, os dois registram o mesmo percentual.

Isso reforça a importância de não extrapolar os dados de uma pergunta para outra.

O que os 26 estados acrescentam à leitura da eleição

Uma pesquisa nacional informa qual é a intenção de voto do conjunto do eleitorado brasileiro dentro daquela amostra.

As pesquisas estaduais acrescentam outra dimensão: mostram onde cada candidato constrói seus percentuais.

E o mapa revela contrastes importantes.

Lula registra suas maiores vantagens sobretudo no Nordeste. Flávio Bolsonaro possui vantagens importantes no Sul, em parte do Centro-Oeste e em alguns estados do Norte e Sudeste. Grandes colégios eleitorais apresentam disputas mais estreitas, o que faz com que alterações relativamente pequenas nesses territórios possam produzir efeitos relevantes no agregado nacional.

A própria Quaest disponibiliza em sua área de relatórios diversos levantamentos estaduais da rodada, incluindo Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Distrito Federal.

Afinal, o que essa compilação permite afirmar?

O conjunto das pesquisas estaduais oferece uma amostra excepcionalmente ampla para estudar a geografia do voto, mas não deve ser tratado como uma única pesquisa nacional de 24 mil entrevistados.

Quando um modelo externo pondera as 24.282 entrevistas de acordo com o peso eleitoral dos estados, encontra 37,27% para Lula e 32,68% para Flávio Bolsonaro nas respostas totais consideradas.

Quando a Poll+Trend aplica uma metodologia adicional para produzir uma projeção nacional, incluindo tratamento para Piauí e exterior, chega a 45,71% para Lula, 39,32% para Flávio, 6,46% para Cury, 4,47% para Caiado, 2,93% para Renan e 0,94% para Zema. Esses percentuais pertencem ao modelo da Poll+Trend, não à Quaest.

E quando a própria Quaest realiza uma pesquisa nacional, divulgada nesta segunda-feira (28), encontra 39% para Lula e 34% para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, com margem de erro de dois pontos.

São três maneiras diferentes de olhar para o mesmo processo eleitoral — pesquisas estaduais, uma consolidação/projeção independente e uma pesquisa nacional — e cada uma responde a uma pergunta diferente.

O dado mais valioso das 26 pesquisas talvez esteja justamente aí: além do placar agregado, elas permitem visualizar como uma eleição nacional é construída estado por estado e como regiões com comportamentos eleitorais bastante diferentes se combinam para formar o resultado brasileiro.

Nota metodológica do Hoje Bahia: os percentuais de 45,71% e 39,32% citados nesta reportagem são de uma projeção independente da Poll+Trend baseada nas pesquisas estaduais da Quaest e não constituem resultado oficial de pesquisa nacional da Quaest. Pesquisas eleitorais medem intenção de voto no período de coleta e não constituem previsão do resultado das urnas. 

Relatórios oficiais da Quaest

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