A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, uma sequência de pesquisas estaduais da Quaest permite observar a disputa por um ângulo diferente daquele oferecido pelas tradicionais pesquisas nacionais. Em vez de uma única amostra representativa de todo o país, o instituto realizou levantamentos em 26 unidades da Federação — todos os estados, com exceção do Piauí, incluindo o Distrito Federal.
Somadas, as amostras utilizadas em uma consolidação independente dos levantamentos chegam a 24.282 entrevistados. A quantidade é muito superior à de uma pesquisa nacional convencional, mas isso não significa que as 24 mil entrevistas possam simplesmente ser reunidas como se formassem uma única pesquisa nacional. Cada levantamento foi desenhado para representar seu respectivo estado.
Para transformar esse conjunto em uma estimativa nacional, é necessário ponderar os resultados conforme o peso eleitoral de cada unidade da Federação.
Foi justamente esse exercício que a plataforma independente Poll+Trend realizou: utilizou os levantamentos estaduais da Quaest feitos entre 18 e 25 de setembro e reponderou os resultados de acordo com dados do eleitorado registrado.
O resultado oferece um retrato interessante da geografia eleitoral brasileira — mas requer uma ressalva fundamental:
a consolidação não é uma pesquisa nacional produzida pela Quaest e seus números não devem ser atribuídos à Quaest como resultado nacional oficial.
O que aparece quando os 26 levantamentos são ponderados
Na consolidação das 24.282 entrevistas, ponderada pelo peso dos estados, Lula aparece com 37,27%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 32,68%.
Augusto Cury aparece com 5,31%, Ronaldo Caiado com 3,71%, Renan Santos com 2,40% e Romeu Zema com 0,78%. Os demais candidatos ficam abaixo de 0,1% nessa consolidação.
| Candidato | Resultado ponderado |
|---|---|
| Lula | 37,27% |
| Flávio Bolsonaro | 32,68% |
| Augusto Cury | 5,31% |
| Ronaldo Caiado | 3,71% |
| Renan Santos | 2,40% |
| Romeu Zema | 0,78% |
| Demais | abaixo de 0,1% cada |
A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro nessa conta é de aproximadamente 4,6 pontos percentuais.
Há, porém, votos brancos e nulos, indecisos e outras respostas no conjunto original. Por isso, esses números não equivalem automaticamente aos votos válidos utilizados pela Justiça Eleitoral para determinar o resultado da eleição.
O mapa revela diferentes “Brasis” eleitorais
Mais interessante do que simplesmente somar percentuais é observar como os votos estão distribuídos geograficamente.
Em análise publicada no domingo (27), Felipe Nunes, diretor da Quaest, descreveu um mapa eleitoral dividido em três grandes grupos. Considerando os levantamentos da Quaest nos 26 estados e o Datafolha para o Piauí, Lula aparecia numericamente à frente em 10 estados, Flávio Bolsonaro em oito, enquanto nove unidades da Federação estavam dentro da margem de erro.
O Nordeste é o principal território de vantagem de Lula. Pesquisas recentes apontam o presidente numericamente à frente nos nove estados da região. Em alguns deles, as diferenças são expressivas. Levantamentos reunidos pelo UOL mostram vantagens superiores a 30 pontos em estados como Bahia, Pernambuco, Maranhão e Piauí.
Flávio Bolsonaro apresenta desempenho mais forte principalmente no Sul e em partes do Centro-Oeste e do Norte.
No Paraná, por exemplo, levantamento estadual citado pelo UOL registrou Flávio com 40% e Lula com 26%. Em Santa Catarina, o placar foi de 50% a 23%. No Rio Grande do Sul, a pesquisa Quaest registrou 35% para Flávio e 31% para Lula, diferença dentro da margem de erro do levantamento.
O peso decisivo do Sudeste
O cenário fica particularmente importante quando se chega aos maiores colégios eleitorais.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram uma parcela enorme dos eleitores brasileiros. Por isso, pequenas diferenças nesses estados podem representar milhões de votos.
Na rodada estadual da Quaest, São Paulo apresentava Flávio numericamente à frente, com 34% contra 31% de Lula, mas dentro do limite da margem de erro de dois pontos para cada candidato. Levantamento posterior do Datafolha apontou 38% para Flávio e 33% para Lula.
Em Minas Gerais, a situação era inversa: Lula aparecia numericamente à frente, mas também em cenário de empate técnico.
No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro aparecia numericamente à frente.
É justamente essa combinação — vantagem ampla de Lula em boa parte do Nordeste, vantagem de Flávio em estados do Sul e Centro-Oeste e disputas mais apertadas em grandes colégios eleitorais — que ajuda a explicar por que a soma nacional permanece competitiva.
E se transformarmos os levantamentos em uma projeção de votos válidos?
Aqui é necessário separar pesquisa de projeção.
A Poll+Trend realizou uma etapa adicional: além de ponderar as pesquisas estaduais, construiu uma projeção nacional, incorporando tratamento próprio para o Piauí e o eleitorado no exterior.
Nesse modelo, os números projetados são:
| Candidato | Projeção |
|---|---|
| Lula | 45,71% |
| Flávio Bolsonaro | 39,32% |
| Augusto Cury | 6,46% |
| Ronaldo Caiado | 4,47% |
| Renan Santos | 2,93% |
| Romeu Zema | 0,94% |
| Rui Costa Pimenta | 0,11% |
| Samara Martins | 0,03% |
| Hertz Dias | 0,02% |
| Edmilson Costa | 0,01% |
Os demais aparecem próximos de zero.
A diferença entre os dois primeiros nessa projeção é de 6,39 pontos percentuais.
Mas é fundamental repetir: 45,71% não é um resultado divulgado pela Quaest.
Trata-se de uma projeção produzida pela Poll+Trend a partir dos levantamentos estaduais da Quaest, com ponderação e ajustes metodológicos próprios. A própria publicação informa que utilizou as pesquisas dos 26 estados, ponderação pelo eleitorado registrado e uma estimativa para Piauí e exterior baseada em metodologia própria.
Portanto, a formulação correta é:
“Projeção baseada nas pesquisas estaduais da Quaest aponta 45,71% para Lula e 39,32% para Flávio.”
E não:
“Quaest aponta Lula com 45,71%.”
São afirmações metodologicamente diferentes.
Por que não basta somar as 24 mil entrevistas?
Imagine dois estados hipotéticos.
Um possui 500 mil eleitores e outro 30 milhões. Se cada pesquisa estadual entrevistou aproximadamente mil pessoas e simplesmente juntássemos as duas amostras, cada estado teria praticamente metade do peso no resultado final.
Mas nas urnas eles têm pesos completamente diferentes.





