A
entrevista concedida por Flávio Bolsonaro ao jornal americano The New York
Times, publicada na quinta-feira (5), está longe de representar apenas uma
tentativa de explicar sua saída do Brasil depois da derrota eleitoral. O
episódio expõe um conjunto de contradições que merece atenção: a história de
uma viagem supostamente organizada sozinho, a negativa de qualquer ajuda
externa, a mudança de discurso sobre sua permanência no país e, sobretudo, a
insistência em acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas.
Durante
os 75 minutos de conversa com a correspondente Ana Ionova, Flávio procurou
construir a imagem de um político perseguido pelo sistema judicial brasileiro,
obrigado a deixar o país para escapar de uma prisão que considera inevitável.
Entretanto, ao confrontar suas declarações com os acontecimentos conhecidos e
com informações publicadas pelo próprio jornal americano, surgem perguntas
incômodas que o senador não conseguiu responder.
A fuga que ninguém ajudou?
Um dos
momentos mais reveladores da entrevista foi a explicação sobre como Flávio
chegou aos Estados Unidos.
O senador
afirmou categoricamente que organizou tudo sozinho. Disse que não recebeu ajuda
de absolutamente ninguém, muito menos de governos estrangeiros. Quando
questionado sobre os detalhes da viagem, respondeu que levaria o segredo para o
túmulo.
O
problema é que a reportagem do New York Times apresenta informações que
contradizem, pelo menos em parte, essa versão.
Segundo o
jornal, o avião particular que o transportou até Miami teria sido providenciado
por uma autoridade da Casa Branca, enquanto sua entrada nos Estados Unidos foi
autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump.
Há também
relatos sobre a participação de pessoas ligadas ao governo argentino na
operação de deslocamento.
É necessário
fazer uma distinção: o secretário de Estado americano, Marco Rubio, já havia
negado que o governo dos Estados Unidos tivesse organizado a viagem. Isso não
elimina, entretanto, a informação sobre a possível participação de um
integrante da estrutura política de Trump na obtenção da aeronave.
Flávio
pode negar ajuda institucional de governos, mas sua afirmação de que fez
absolutamente tudo sozinho não esclarece quem providenciou o avião, quem
articulou os deslocamentos e como uma viagem internacional tão complexa foi
organizada em tão pouco tempo.
A
pergunta permanece: se tudo foi obra exclusivamente sua, por que os detalhes
precisam ser levados para o túmulo?
A contradição entre o discurso público e a realidade
Outro
episódio chama a atenção.
Na manhã
seguinte à derrota eleitoral, segundo o próprio Flávio, ele foi informado de
que deveria entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. O senador
afirma que interpretou a situação como um sinal de que seria preso.
Entretanto,
pouco antes de desaparecer, publicou um vídeo nas redes sociais no qual dizia
que nunca havia pensado em deixar o Brasil e prometia liderar a oposição
política ao governo eleito.
Poucas
horas depois, já não estava mais no país.
A
contradição é evidente: como explicar a promessa pública de permanecer no
Brasil e liderar a oposição, seguida de uma saída sigilosa, com passagem por
outros países e destino final nos Estados Unidos?
Flávio
afirma que a decisão foi espontânea, tomada com a esposa depois de conversar
com o pai, Jair Bolsonaro. Não apresentou, porém, elementos que esclareçam como
uma operação internacional dessa dimensão foi viabilizada em aproximadamente 42
horas.
A
entrevista não esclareceu esse ponto. Ao contrário, deixou ainda mais
perguntas.
A fraude eleitoral que não consegue provar
Talvez o
aspecto mais grave da entrevista seja a insistência de Flávio em questionar o
resultado das eleições brasileiras.
Mesmo
derrotado por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos, o senador
classificou a vitória de Lula como matematicamente impossível e voltou a
levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas e a apuração do Tribunal Superior
Eleitoral.
Mas onde
estão as provas?
O próprio
New York Times contextualizou as acusações e destacou que elas já haviam sido
desmentidas. Observadores internacionais independentes atestaram a integridade
do processo eleitoral brasileiro.
Flávio
também questionou a prorrogação do horário de votação, insinuando que a medida
teria favorecido Lula. O detalhe que desmonta essa narrativa é que os dois
candidatos haviam solicitado a alteração, diante de problemas provocados por
chuvas e atrasos no transporte de eleitores.
Além
disso, a mudança afetou aproximadamente 34 mil votos, enquanto a diferença
entre os candidatos foi de 4,4 milhões.
Ou seja,
mesmo que se considerasse a totalidade desses votos como uma questão
controversa — o que não há fundamento para fazer —, o resultado permaneceria
inalterado.
O senador
chegou a admitir, quando pressionado sobre suas acusações, que não poderia
afirmar com absoluta certeza que estava certo ou errado.
Essa
ressalva diz muito. Quem acusa uma eleição de fraude tem a obrigação de
apresentar evidências, não de lançar suspeitas e transferir aos outros a
responsabilidade de provar sua inocência.
A perseguição política como justificativa
Outro
eixo do discurso de Flávio é a tentativa de apresentar a Justiça brasileira
como instrumento de perseguição política contra sua família.





