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CULTURA

Do zero à sanfona: escola gratuita em Salvador forma uma nova geração de forrozeiros

Projeto da Associação Asa Branca ensina gratuitamente sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro e aposta na transmissão do conhecimento para manter vivo o forró tradicional

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 29 de setembro de 2026 às 13:45 • Salvador - BA
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Fachada da Casa do Forró, sede da Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia, em Salvador. A entidade mantém projeto de formação musical gratuita voltado à preservação e à transmissão do forró de raiz para novas gerações.
Fachada da Casa do Forró, sede da Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia, em Salvador. A entidade mantém projeto de formação musical gratuita voltado à preservação e à transmissão do forró de raiz para novas gerações. — Reprodução / Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia.

Enquanto multidões dançam forró durante o São João, existe um trabalho menos visível acontecendo durante o restante do ano: formar quem tocará essa música no futuro.

No Centro Histórico de Salvador, uma iniciativa vem tentando garantir que sanfona, zabumba e triângulo continuem passando de uma geração para outra.

A Escola de Forró de Raiz Asa Branca, mantida pela Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia, oferece formação musical gratuita dedicada aos instrumentos tradicionais do gênero.

As aulas incluem sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro e acontecem no Santo Antônio Além do Carmo. A proposta é democratizar o acesso aos instrumentos e formar novos músicos ligados ao forró tradicional.

Uma escola para preservar uma tradição

A ideia de criar um espaço de formação não surgiu agora.

A Associação Cultural Asa Branca nasceu em 2007, inicialmente em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. À frente da entidade está Marizete Nascimento, que assumiu a presidência em 2010 e tornou a defesa do forró tradicional uma das bandeiras da organização.

A escola começou a funcionar em 2025. Segundo reportagem do Correio, sua implantação contou inicialmente com quatro professores e instrumentos adquiridos para permitir que os alunos aprendessem mesmo sem possuir o próprio equipamento — uma questão especialmente relevante no caso da sanfona, cujo custo pode dificultar o acesso de iniciantes.

A lógica é simples: preservar uma manifestação cultural não significa apenas manter gravações, documentos ou homenagear seus grandes nomes.

É preciso ensinar alguém a tocar.

O desafio de formar novos sanfoneiros

A sanfona talvez seja o maior símbolo musical das festas juninas nordestinas, mas sua continuidade depende da existência de novos instrumentistas.

Em entrevista ao A Tarde neste ano, o professor e sanfoneiro Henrique Badermann apontou justamente a ampliação do acesso ao instrumento e a existência de projetos culturais e programas de ensino como caminhos para garantir sua continuidade. Festivais, oficinas e a presença da sanfona nas escolas também ajudam a aproximar novas gerações dessa tradição.

É nesse espaço que iniciativas como a Escola Asa Branca ganham relevância.

O aluno pode entrar sem saber tocar e começar a compreender não apenas um instrumento, mas uma linguagem musical construída por gerações de artistas nordestinos.

Muito além do São João

A iniciativa também ajuda a enfrentar uma característica do mercado do forró: sua enorme exposição durante o período junino e a necessidade de manter atividades de formação, circulação e trabalho durante todo o ano.

Para a presidente da Associação Asa Branca, a escola integra um esforço mais amplo por políticas públicas destinadas à manutenção da tradição.

“A gente trabalha por políticas públicas para manter a tradição, a raiz e a cultura”, afirmou Marizete Nascimento ao A Tarde.

A atuação da entidade também alcança os músicos mais antigos. A associação defende políticas de reconhecimento e proteção para mestres da cultura popular que dedicaram décadas à transmissão desses saberes.

Projeto ganha novo passo em 2026

Neste ano, o projeto entrou em uma nova etapa.

Uma proposta denominada “Escola de Música Asa Branca”, apresentada pela Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia, foi autorizada pelo Ministério da Cultura a captar até R$ 460.721,25, com prazo de captação entre 15 de julho e 31 de dezembro de 2026. A autorização para captação não significa, por si só, que todo esse valor já tenha sido obtido.

A descrição oficial do projeto prevê aulas práticas e teóricas de forró, sanfona e percussão tradicional nordestina, além de oficinas, aula inaugural e uma formatura com apresentações abertas ao público.

A proposta também estabelece como objetivos a transmissão de saberes entre gerações, a formação de novos artistas e o fortalecimento da cadeia produtiva da cultura e da economia criativa na Bahia.

Patrimônio que precisa continuar sendo tocado

As matrizes tradicionais do forró são reconhecidas pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil. A Associação Asa Branca também aparece entre as organizações baianas envolvidas no Plano de Salvaguarda das Matrizes Tradicionais do Forró.

Esse reconhecimento ajuda a proteger a memória.

Mas uma tradição musical só permanece verdadeiramente viva quando existe alguém disposto a aprender aquilo que outro alguém aprendeu antes.

É por isso que, numa sala de aula no Centro Histórico de Salvador, cada exercício aparentemente simples pode carregar algo maior.

Um aluno aprendendo os primeiros acordes de uma sanfona.

Outro descobrindo a marcação da zabumba.

Alguém tentando encontrar o tempo certo do triângulo.

Pode ser assim que começa a próxima geração do forró da Bahia.

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