Há um trecho em um poema de Robert Desnos que não me sai da cabeça.
Ele escreveu quando estava preso pelos nazistas, diante de uma morte que já não era uma possibilidade distante, mas uma certeza. E, mesmo assim, não escreveu sobre a morte. Ou talvez tenha escrito sobre ela da maneira mais bonita que alguém poderia escrever.
Falou de uma rosa.
Falou de uma canção.
Falou da soleira de uma casa.
E pediu, diante do abismo, que ainda se contemplasse a rosa, que ainda se escutasse a canção, que ainda se vivesse o instante permitido ao nosso ser.
Tenho pensado muito nisso ultimamente.
Talvez porque a gente passe uma parte enorme da vida acreditando que ainda terá tempo.
Tempo para entender o pai.
Tempo para dizer aos filhos aquilo que não conseguimos dizer quando eles eram pequenos.
Tempo para consertar certas coisas.
Tempo para pedir desculpas.
Tempo para voltar a lugares onde fomos felizes.
Tempo para rever amigos.
Tempo para terminar aquele livro.
Tempo para ficar sentado diante do mar sem precisar estar indo para algum lugar.
Meu pai passou a vida trabalhando para que os filhos pudessem sonhar mais alto. Era o jeito dele de amar. Não era um homem de grandes discursos. Seu amor aparecia nas coisas que fazia: não matava baratas, não trocava resistência de chuveiro, não consertava torneira, conhecia os caminhos da cidade, conhecia as pessoas e escrevia sofregamente.
Na infância, eu achava que aquilo era simplesmente o que um pai fazia.
Hoje sei que era muito mais.
Era uma forma de dizer: eu estou aqui para um moundo que insistia em não ouvir.
Talvez todo pai diga isso de maneiras diferentes.
E talvez todo filho demore demais para entender.
Entre pais e filhos existem essas coisas difíceis: expectativas, decepções, silêncios, aquilo que um esperava do outro e que nenhum dos dois conseguiu ser completamente.
Mas há vínculos que sobrevivem às nossas imperfeições.
O amor, às vezes, não é aquilo que conseguimos oferecer.
É aquilo que permanece apesar do que não conseguimos oferecer.
Penso nisso quando lembro de meu pai.
E penso nos meus filhos.
Porque chega um momento em que a gente percebe que a vida não é uma linha que vai ficando para trás. É uma casa cheia de portas. Abrimos algumas, fechamos outras, esquecemos algumas abertas. E, de vez em quando, uma lembrança atravessa o corredor e vem sentar ao nosso lado.
Tenho encontrado muitas dessas lembranças ultimamente.
Talvez seja a idade.
Talvez seja apenas o tempo cobrando seu tributo.
Ou talvez seja a vida me ensinando, finalmente, a prestar atenção.
Prestar atenção.
Essa talvez seja a grande dificuldade.
A gente viveu tantos anos olhando para a frente que não percebeu as coisas que estavam acontecendo ao lado.
Uma conversa num bar.
Um amigo que aparece sem avisar.
Uma música tocando ao longe.
Uma partida de futebol comentada com a paixão de quem discute metafísica.
O mar de Mar Grande.
Salvador acontecendo diante dos olhos — barulhenta, contraditória, bonita, às vezes cruel, quase sempre irreverente.
E essas madrugadas em que uma frase aparece e não deixa a gente dormir.
Eu aprendi que algumas frases chegam como visitas.
Não sabemos de onde vieram.
Sentam-se conosco.
Ficam um pouco.
E, se tivermos sorte, deixam alguma coisa.
Talvez esta crônica seja uma dessas visitas.
Porque, quanto mais o tempo passa, mais tenho a impressão de que a vida não está nas grandes respostas.
Está nos intervalos.
Naquilo que acontece enquanto estamos ocupados esperando que alguma coisa aconteça.
Foi preciso envelhecer para compreender que meu pai talvez soubesse disso sem saber que sabia.
Ele trabalhava para que os filhos sonhassem mais alto.
Eu, hoje, desconfio que ele também queria que sonhássemos mais longe — para além do tempo, para além das “auroras puras” que talvez tenham existido apenas no sonho.
E nós sonhamos.
Erramos.
Amamos.
Perdemos.
Tivemos filhos.
Terminamos amores.
Fizemos outros.
Fomos decepcionados e decepcionamos.
Ficamos sozinhos algumas vezes.
Atravessamos noites.
E continuamos.
É isso que me parece mais bonito na existência: continuar não porque tenhamos encontrado todas as respostas, mas porque ainda existe alguma coisa diante de nós que merece ser vista.
Uma rosa.
Uma canção.
Uma conversa.
O rosto de alguém que amamos.
O mar.
Uma lembrança do pai.
Um filho.
Um amigo.
Uma frase escrita às quatro da manhã.
Talvez seja isso que Desnos tenha querido dizer.
Que o abismo existe.
Que ele sempre existirá.
Mas que não precisamos passar a vida contemplando-o.
Enquanto houver uma rosa, olhe para ela.
Enquanto houver uma canção, escute.
Enquanto houver alguém ao seu lado, fique um pouco mais.
Enquanto houver uma casa para lembrar, volte.
Enquanto houver uma história para contar, conte.
Porque o tempo não nos deve nada.
E nós, que passamos tantos anos fazendo planos para depois, talvez devêssemos finalmente aprender uma coisa simples:
o instante que ainda se consente ao nosso ser é este.
Este.
Não o de ontem, porque ontem já virou memória.
Não o de amanhã, porque amanhã é apenas uma promessa.
Este.
Com suas imperfeições, suas ausências, seus arrependimentos, suas pequenas alegrias.
Este, com tudo aquilo que ainda temos.
E talvez viver seja exatamente isso:
estar diante do abismo,
sentir o medo,
e ainda assim
ter olhos para a rosa.


Robert Desnos (Paris, 4 de julho de 1900 – Terezín, 8 de junho de 1945) foi um importante poeta surrealista francês, jornalista e integrante da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.