Há dias em que a vida parece um jogo de tabuleiro
desmontado: peças perdidas, regras improvisadas, e um dado que teima em cair
sempre no mesmo número. Foi pensando nisso que me lembrei daquela música antiga
"Brincar de Viver", de Guilherme Arantes, aquela que fala de girar,
pular, dançar, como se o mundo fosse um parque de diversões abandonado, mas
ainda cheio de graça.
Arantes tinha razão: a gente "vira
criança" quando se permite esquecer, por um minuto, que crescer é
obrigatório. Vejo isso no senhor carrancudo que, preso no trânsito da avenida Paralela, faz caretas
na janela para o menino no carro ao lado e ambos sorriem. Ou na mulher que, ao
fechar a loja, dá uma pirueta discreta no meio da calçada vazia, só para sentir
o vento. São fugazes, esses momentos em que a vida vira um "carrossel de
origamis", mesmo que o 'ingresso' custe horas de trabalho, contas e o
ônibus lotado.
Mas eis o detalhe irônico: a música fala de
"brincar", e nós, adultos, transformamos até isso em meta.
"Preciso me divertir mais!", anotamos na lista entre "pagar o
IPTU" e "marcar terapia". Compramos tênis coloridos, matrículas
em academias e até aulas de dança, viagens relâmpago para postar fotos no Instagram; tudo muito
planejado, muito "adulto".





