Primeiro bloco afro do Brasil, fundado no Curuzu, transformou o Carnaval de Salvador em instrumento de afirmação da identidade negra e de combate ao racismo
Neste domingo, 1º de novembro, o Ilê Aiyê completa 52 anos de uma história que se confunde com a própria trajetória de resistência e afirmação da população negra na Bahia. Nascido no bairro da Liberdade, em Salvador, o primeiro bloco afro do Brasil ultrapassou os limites do Carnaval para se transformar em uma das mais importantes instituições culturais do país, levando ao mundo a beleza, a musicalidade, a ancestralidade e a força da cultura afro-brasileira.
Fundado em 1º de novembro de 1974, por Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, e Apolônio de Jesus Filho, o bloco surgiu em um período em que o racismo se manifestava também nos espaços de lazer e nas manifestações carnavalescas de Salvador. Naquela época, a participação de pessoas negras em determinados blocos era dificultada ou simplesmente impedida por práticas discriminatórias.
Foi nesse cenário que um grupo de jovens decidiu criar uma agremiação formada exclusivamente por negros, com o propósito de ocupar as ruas, valorizar suas origens e afirmar uma identidade historicamente marginalizada.
A proposta provocou reações e incompreensões em setores da sociedade, mas abriu um caminho que jamais seria fechado. O Ilê Aiyê não queria apenas desfilar. Queria mostrar que o povo negro tinha história, cultura, beleza e o direito de ocupar todos os espaços da sociedade.

O nascimento de um símbolo

A história do Ilê está profundamente ligada ao Terreiro Ilê Axé Jitolu, no Curuzu, e à liderança espiritual de Mãe Hilda Jitolu, cuja participação foi fundamental para a construção e consolidação do bloco.
Foi também naquele território de forte presença da população negra que o sonho começou a ganhar forma. Em fevereiro de 1975, o Ilê realizou seu primeiro desfile no Carnaval de Salvador, inaugurando uma nova maneira de fazer festa, contar a história e afirmar a negritude.
A presença do bloco nas ruas representou uma ruptura com padrões estéticos e sociais que durante muito tempo relegaram a população negra a posições secundárias nas manifestações culturais da cidade.
O nome Ilê Aiyê, de origem iorubá, remete à ideia de casa e mundo terreno, expressando a ligação com a ancestralidade africana e com a identidade de um povo que jamais deixou de lutar por reconhecimento.

A beleza negra como afirmação política

Uma das maiores contribuições do Ilê Aiyê foi transformar a estética negra em instrumento de valorização e enfrentamento ao preconceito.
Em 1979, o bloco criou a Noite da Beleza Negra, evento que se tornou referência nacional na celebração da beleza da mulher negra. Mais do que um concurso, a iniciativa rompeu com padrões estéticos impostos por uma sociedade historicamente marcada pelo racismo e colocou a mulher negra no centro de uma celebração de autoestima, identidade e pertencimento.
A música, a dança, os figurinos, os turbantes, as cores e os elementos de inspiração africana passaram a compor uma linguagem artística própria, reconhecida dentro e fora do Brasil.
A máscara que identifica o bloco, criada pelo artista Jota Cunha, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da cultura afro-baiana.

Muito além do Carnaval

Ao longo de mais de cinco décadas, o Ilê Aiyê construiu uma trajetória que não se limita aos dias de folia. A instituição desenvolve projetos culturais, educacionais e sociais voltados especialmente à formação de crianças e jovens, utilizando a arte e a educação como ferramentas de transformação.
Entre suas iniciativas estão ações de educação musical, dança, percussão, literatura e valorização da história africana e afro-brasileira. Projetos como a Escola Mãe Hilda e a Banda Erê demonstram que a preocupação com o futuro das novas gerações sempre esteve presente na caminhada da entidade.
O bloco também se tornou referência para o surgimento e fortalecimento de outras agremiações afro, contribuindo decisivamente para a transformação do Carnaval baiano e para a expansão da música produzida na Bahia.
Suas composições, seus tambores e sua maneira de ocupar as ruas ajudaram a projetar internacionalmente a cultura afro-baiana.

Uma história que continua sendo escrita

Aos 52 anos, o Ilê Aiyê permanece como uma das mais importantes expressões da resistência cultural brasileira. Sua trajetória atravessou gerações, enfrentou preconceitos e ajudou a modificar a maneira como a sociedade baiana enxerga e reconhece suas raízes africanas.
O aniversário deste domingo será celebrado no Largo da Tieta, no Pelourinho, em Salvador, a partir das 19h, com apresentação da Band'Aiyê e convidados. A programação também inclui a Feir'Aiyê, iniciativa de valorização do empreendedorismo negro, e o lançamento do tema que o bloco levará ao Carnaval de 2027.
Mas a maior celebração do Ilê talvez não esteja apenas nos palcos, nos aplausos ou na multidão que acompanha seus desfiles. Está na permanência de uma ideia que nasceu no Curuzu e ganhou o mundo: a de que não existe democracia verdadeira sem igualdade racial, respeito à diversidade e reconhecimento da contribuição histórica e cultural do povo negro.
O Ilê Aiyê é patrimônio da Bahia, mas sua mensagem pertence ao Brasil e ao mundo.
Porque, quando o Ilê passa, não é apenas um bloco que desfila. É a história de um povo que se apresenta de cabeça erguida, celebrando suas raízes, sua beleza e sua liberdade.
Parabéns, Ilê Aiyê! Que os tambores continuem ecoando por muitas e muitas gerações.