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Interferência estrangeira nas eleições? Documentos, dinheiro e ações internacionais colocam Brasil em alerta

PF abriu apuração sobre possível financiamento externo, Abin relatou suspeitas envolvendo Estados Unidos e Rússia e anúncios políticos operados do exterior chegaram ao eleitor brasileiro; TSE, porém, afirma não ter identificado interferência concreta no processo de votação.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 05 de outubro de 2026 às 00:17 • Salvador - BA
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Suspeitas de interferência externa, movimentações digitais e o fluxo anormal de dados registrado pelo TSE durante a apuração colocam a segurança cibernética no centro do debate sobre as Eleições 2026. Até o momento, não há confirmação de ataque hacker nem evidência de alteração de votos.
Suspeitas de interferência externa, movimentações digitais e o fluxo anormal de dados registrado pelo TSE durante a apuração colocam a segurança cibernética no centro do debate sobre as Eleições 2026. Até o momento, não há confirmação de ataque hacker nem evidência de alteração de votos. — Imagem ilustrativa / Hoje Bahia – gerada com auxílio de IA.

As eleições brasileiras de 2026 chegaram ao primeiro turno cercadas por uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro: até que ponto atores estrangeiros tentaram influenciar o ambiente político e eleitoral brasileiro?

Uma investigação do conjunto de informações disponíveis revela que o assunto deixou de existir apenas no campo das especulações. Há procedimentos oficiais, reuniões de inteligência, movimentações diplomáticas, publicidade política operada a partir do exterior e relatos de aumento de ataques cibernéticos.

Isso, entretanto, não permite afirmar que países estrangeiros tenham alterado o resultado das urnas.

Ao contrário: até este momento, não há evidência pública de invasão das urnas, manipulação da totalização ou alteração de votos. No domingo da eleição, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que o processo transcorria normalmente e que as equipes responsáveis pelo acompanhamento do tema não haviam identificado interferência internacional concreta.

A investigação, portanto, está em outro terreno: influência política, dinheiro estrangeiro, propaganda digital, operações de informação e possíveis ações de governos ou grupos sediados fora do país.

PF abre apuração sobre financiamento e interferência externa

O fato mais recente ocorreu justamente no dia da eleição.

A Polícia Federal iniciou um procedimento prévio para investigar possível interferência e financiamento estrangeiro nas eleições brasileiras, após receber uma representação da Advocacia-Geral da União (AGU).

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou que o material foi encaminhado à Diretoria de Inteligência da corporação.

É importante a precisão: ainda não se trata de um inquérito policial formal. A PF está analisando os elementos recebidos para determinar quais providências serão adotadas posteriormente.

Isso significa que existe uma investigação preliminar oficial, mas não uma conclusão de que houve crime ou interferência comprovada.

Abin teria relatado interferência dos EUA e da Rússia

Poucos dias antes da eleição surgiu uma informação ainda mais sensível.

A Reuters revelou que uma delegação formada por representantes da França e da Alemanha esteve em Brasília entre 9 e 11 de setembro e participou de reuniões envolvendo autoridades brasileiras.

Segundo documentos analisados pela agência e fontes presentes nos encontros, funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teriam relatado a existência de interferência dos Estados Unidos e da Rússia no ambiente eleitoral brasileiro.

O documento elaborado por um participante das reuniões afirma que os representantes brasileiros classificaram a atuação norte-americana como abrangendo desde o que descreveram como instrumentalização do sistema jurídico até formas abertas de interferência.

Em relação à Rússia, porém, a reportagem não apresentou detalhes suficientes sobre quais ações concretas teriam sido identificadas. Esse ponto continua sem esclarecimento público.

A Abin não apresentou publicamente, até agora, um relatório detalhado que permita avaliar todas essas alegações de maneira independente.

Brasil barrou entrada de autoridades americanas

Outro episódio ocorreu em julho.

Segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, o governo brasileiro negou vistos a dois integrantes da administração de Donald Trump que planejavam viajar ao Brasil.

As fontes disseram que a delegação pretendia questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Entre os integrantes estariam Riley M. Barnes e Samuel Samson, ligados ao Departamento de Estado norte-americano.

As autoridades brasileiras consultadas pela Reuters interpretaram a iniciativa como tentativa de influenciar o ambiente eleitoral.

Os vistos foram negados.

O episódio ganha relevância porque ocorreu meses antes da votação e se soma às posteriores preocupações manifestadas por integrantes do aparato brasileiro de inteligência.

Relação de Trump com Flávio Bolsonaro entra no debate

O presidente norte-americano Donald Trump também participou publicamente do ambiente político brasileiro.

Segundo a Reuters, Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca e fez elogios públicos ao senador, embora não tenha formalizado apoio eleitoral a um candidato brasileiro. O governo norte-americano, por sua vez, já rejeitou acusações de que estivesse interferindo nas eleições brasileiras.

A existência de aproximação política entre líderes de países diferentes, isoladamente, não caracteriza interferência eleitoral.

A questão investigativa é outra: verificar se houve utilização de instrumentos do Estado norte-americano, recursos financeiros, ações diplomáticas ou estruturas digitais destinadas deliberadamente a modificar o ambiente eleitoral brasileiro.

Congresso dos EUA também entrou na discussão

A controvérsia chegou ao próprio Congresso norte-americano.

Um grupo de 31 parlamentares democratas enviou carta ao secretário de Estado Marco Rubio acusando a administração Trump de aparente tentativa de interferir e potencialmente enfraquecer o processo eleitoral brasileiro.

Trata-se de uma acusação política dos parlamentares — e não de uma conclusão judicial ou de uma investigação independente —, mas demonstra que a discussão sobre o Brasil também passou a ocorrer dentro das instituições dos Estados Unidos.

Programa americano previa recursos para atuação no Brasil

Outro documento merece atenção.

Reportagem do The Guardian revelou mudanças na destinação de recursos de programas norte-americanos de direitos humanos. Entre os projetos aparecia uma iniciativa denominada “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, destinada a financiar organizações da sociedade civil que se opusessem ao que o programa classificava como excessos judiciais e censura no Brasil.

O valor informado para esse programa específico era de US$ 1 milhão.

A existência de um programa de financiamento, entretanto, não comprova que dinheiro tenha sido repassado ilegalmente a uma campanha eleitoral brasileira. Essa distinção precisa ser preservada.

É justamente o caminho do dinheiro — quem recebeu, quando recebeu, para qual finalidade e como eventualmente foi utilizado — que se torna uma das linhas centrais da investigação aberta pela PF.

Anúncios eleitorais pagos e administrados no exterior

A trilha digital apresenta elementos ainda mais concretos.

Levantamento da organização britânica Eko, divulgado pelo UOL, identificou pelo menos R$ 1,1 milhão gastos em centenas de anúncios eleitorais considerados irregulares.

O estudo analisou 26 perfis entre 25 de agosto e 2 de setembro.

Algumas páginas eram administradas a partir de países como Peru, Colômbia e Guatemala, e determinados anúncios foram pagos em moeda estrangeira.

Os conteúdos atingiram candidatos dos diferentes polos políticos: havia material contrário a Lula e também conteúdo contrário a Flávio Bolsonaro.

Esse detalhe é importante porque impede concluir, apenas a partir desse levantamento, que existisse uma única operação estrangeira trabalhando exclusivamente em favor de uma candidatura.

Teste mostrou falhas nos filtros da Meta

Outra investigação da Eko realizou um experimento ainda mais revelador.

A organização submeteu à Meta 15 anúncios políticos falsos destinados ao público brasileiro. Eles haviam sido produzidos com inteligência artificial e enviados por uma conta sediada nos Estados Unidos.

Segundo o levantamento, 13 dos 15 anúncios — 87% — foram aprovados inicialmente pelos sistemas de moderação do Facebook e Instagram.

Entre os conteúdos apresentados no teste estavam uma falsa imagem do presidente do TSE alterando a data da eleição e uma montagem em que Donald Trump aparecia pedindo voto para Flávio Bolsonaro.

Os anúncios faziam parte de um experimento e não foram efetivamente veiculados ao eleitorado, mas demonstraram uma vulnerabilidade potencial dos sistemas de controle da plataforma.

A Meta afirmou estar comprometida com a proteção da integridade eleitoral.

TSE havia firmado acordos com as plataformas

O risco não era desconhecido pela Justiça Eleitoral.

Em julho, o TSE assinou memorandos de entendimento com Meta, X, Telegram, TikTok, Kwai, LinkedIn e Google para enfrentamento à desinformação nas eleições.

Os acordos previam cooperação para identificação de riscos, divulgação de informações oficiais e proteção da integridade do processo eleitoral.

Em setembro, nove plataformas apresentaram planos específicos de conformidade à Justiça Eleitoral.

Mesmo assim, a publicidade irregular encontrada posteriormente mostra que mecanismos de moderação e fiscalização não necessariamente impediram todas as tentativas de burlar as regras.

Ataques cibernéticos quase dobraram, diz autoridade

O componente cibernético também entrou no radar.

Uma autoridade brasileira de alto escalão da área de segurança cibernética disse à Reuters que o número de ataques cibernéticos no Brasil quase dobrou em comparação com 2025.

Segundo a fonte, também ocorreu aumento expressivo de invasões e tentativas de phishing contra a Presidência da República, episódios que a autoridade relacionou ao período eleitoral.

Novamente existe uma distinção fundamental: aumento de ataques cibernéticos não significa invasão das urnas eletrônicas.

Não há evidência pública de que esses ataques tenham conseguido modificar votos ou penetrar no sistema de votação.

E a Rússia?

Aqui existe uma lacuna importante.

O relatório das reuniões entre brasileiros, franceses e alemães citado pela Reuters afirma que representantes da Abin mencionaram interferência russa.

Mas, ao contrário das alegações relacionadas aos Estados Unidos, a reportagem informa que não foram apresentados detalhes sobre a natureza dessa suposta atuação russa.

Moscou historicamente nega interferir em eleições estrangeiras e não respondeu especificamente às perguntas da Reuters sobre o episódio brasileiro relatado pela agência.

Portanto, qualquer afirmação de que a Rússia executou determinada operação nas eleições brasileiras, sem documentação adicional, seria prematura.

Uma aparente contradição dentro do Estado brasileiro

Há um aspecto particularmente relevante nessa história.

De um lado, documentos vistos pela Reuters indicam que representantes da inteligência brasileira teriam falado a autoridades europeias sobre interferência estrangeira.

Do outro, no próprio domingo da eleição, o presidente do TSE declarou que nenhum relatório recebido da PF, Abin ou outros órgãos havia apresentado ao Tribunal indicativo concreto de ameaça externa ao processo eleitoral.

As duas informações não são necessariamente incompatíveis.

Uma agência de inteligência pode acompanhar tentativas de influência política e operações informacionais sem que isso represente ameaça à integridade tecnológica da votação.

Mas permanece uma pergunta jornalisticamente relevante:

quais informações estavam em poder da inteligência brasileira e quais delas foram formalmente encaminhadas ao TSE?

Essa resposta ainda não está pública.

O que está comprovado — e o que ainda não está

Até aqui, é possível estabelecer alguns fatos: a PF abriu uma apuração preliminar; representantes da inteligência brasileira teriam discutido suspeitas de interferência com autoridades europeias; o Brasil barrou uma delegação norte-americana que, segundo fontes brasileiras, pretendia questionar o sistema eleitoral; houve anúncios políticos administrados ou financiados a partir do exterior; e ataques cibernéticos aumentaram durante o período eleitoral.

Mas não está demonstrado publicamente que um governo estrangeiro financiou diretamente Lula ou Flávio Bolsonaro; que os Estados Unidos ou a Rússia tenham alterado votos; que urnas tenham sido invadidas; ou que eventual atuação externa tenha determinado o resultado do primeiro turno.

Também não existe base documental pública suficiente, neste momento, para atribuir eventual mudança de comportamento de grandes veículos de comunicação brasileiros a pressão estrangeira.

Esse último ponto é especialmente importante: coincidências editoriais, patrimônio empresarial no exterior ou mudanças na cobertura jornalística podem justificar perguntas e investigação, mas não constituem prova de pressão internacional.

A eleição acabou; a investigação, não

O primeiro turno terminou sem registro pelo TSE de interferência estrangeira capaz de comprometer a votação.

A questão sobre influência externa no ambiente político, porém, permanece aberta.

Agora, a investigação da Polícia Federal poderá estabelecer se recursos vindos do exterior chegaram a organizações ou estruturas utilizadas para influenciar o eleitor brasileiro, quem financiou eventuais operações e se alguma delas violou a legislação eleitoral ou penal.

O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro ocorrerá em 25 de outubro, o que torna a investigação ainda mais relevante.

O desafio das instituições brasileiras será distinguir influência diplomática — comum nas relações internacionais — de propaganda estrangeira, financiamento irregular e operações clandestinas.

E o desafio do jornalismo será igualmente importante: investigar tudo, mas não transformar suspeitas em fatos antes que as provas apareçam.

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