As eleições brasileiras de 2026 chegaram ao primeiro turno cercadas por uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro: até que ponto atores estrangeiros tentaram influenciar o ambiente político e eleitoral brasileiro?
Uma investigação do conjunto de informações disponíveis revela que o assunto deixou de existir apenas no campo das especulações. Há procedimentos oficiais, reuniões de inteligência, movimentações diplomáticas, publicidade política operada a partir do exterior e relatos de aumento de ataques cibernéticos.
Isso, entretanto, não permite afirmar que países estrangeiros tenham alterado o resultado das urnas.
Ao contrário: até este momento, não há evidência pública de invasão das urnas, manipulação da totalização ou alteração de votos. No domingo da eleição, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que o processo transcorria normalmente e que as equipes responsáveis pelo acompanhamento do tema não haviam identificado interferência internacional concreta.
A investigação, portanto, está em outro terreno: influência política, dinheiro estrangeiro, propaganda digital, operações de informação e possíveis ações de governos ou grupos sediados fora do país.
PF abre apuração sobre financiamento e interferência externa
O fato mais recente ocorreu justamente no dia da eleição.
A Polícia Federal iniciou um procedimento prévio para investigar possível interferência e financiamento estrangeiro nas eleições brasileiras, após receber uma representação da Advocacia-Geral da União (AGU).
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou que o material foi encaminhado à Diretoria de Inteligência da corporação.
É importante a precisão: ainda não se trata de um inquérito policial formal. A PF está analisando os elementos recebidos para determinar quais providências serão adotadas posteriormente.
Isso significa que existe uma investigação preliminar oficial, mas não uma conclusão de que houve crime ou interferência comprovada.
Abin teria relatado interferência dos EUA e da Rússia
Poucos dias antes da eleição surgiu uma informação ainda mais sensível.
A Reuters revelou que uma delegação formada por representantes da França e da Alemanha esteve em Brasília entre 9 e 11 de setembro e participou de reuniões envolvendo autoridades brasileiras.
Segundo documentos analisados pela agência e fontes presentes nos encontros, funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teriam relatado a existência de interferência dos Estados Unidos e da Rússia no ambiente eleitoral brasileiro.
O documento elaborado por um participante das reuniões afirma que os representantes brasileiros classificaram a atuação norte-americana como abrangendo desde o que descreveram como instrumentalização do sistema jurídico até formas abertas de interferência.
Em relação à Rússia, porém, a reportagem não apresentou detalhes suficientes sobre quais ações concretas teriam sido identificadas. Esse ponto continua sem esclarecimento público.
A Abin não apresentou publicamente, até agora, um relatório detalhado que permita avaliar todas essas alegações de maneira independente.
Brasil barrou entrada de autoridades americanas
Outro episódio ocorreu em julho.
Segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, o governo brasileiro negou vistos a dois integrantes da administração de Donald Trump que planejavam viajar ao Brasil.
As fontes disseram que a delegação pretendia questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Entre os integrantes estariam Riley M. Barnes e Samuel Samson, ligados ao Departamento de Estado norte-americano.
As autoridades brasileiras consultadas pela Reuters interpretaram a iniciativa como tentativa de influenciar o ambiente eleitoral.
Os vistos foram negados.
O episódio ganha relevância porque ocorreu meses antes da votação e se soma às posteriores preocupações manifestadas por integrantes do aparato brasileiro de inteligência.
Relação de Trump com Flávio Bolsonaro entra no debate
O presidente norte-americano Donald Trump também participou publicamente do ambiente político brasileiro.
Segundo a Reuters, Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca e fez elogios públicos ao senador, embora não tenha formalizado apoio eleitoral a um candidato brasileiro. O governo norte-americano, por sua vez, já rejeitou acusações de que estivesse interferindo nas eleições brasileiras.
A existência de aproximação política entre líderes de países diferentes, isoladamente, não caracteriza interferência eleitoral.
A questão investigativa é outra: verificar se houve utilização de instrumentos do Estado norte-americano, recursos financeiros, ações diplomáticas ou estruturas digitais destinadas deliberadamente a modificar o ambiente eleitoral brasileiro.
Congresso dos EUA também entrou na discussão
A controvérsia chegou ao próprio Congresso norte-americano.
Um grupo de 31 parlamentares democratas enviou carta ao secretário de Estado Marco Rubio acusando a administração Trump de aparente tentativa de interferir e potencialmente enfraquecer o processo eleitoral brasileiro.
Trata-se de uma acusação política dos parlamentares — e não de uma conclusão judicial ou de uma investigação independente —, mas demonstra que a discussão sobre o Brasil também passou a ocorrer dentro das instituições dos Estados Unidos.
Programa americano previa recursos para atuação no Brasil
Outro documento merece atenção.
Reportagem do The Guardian revelou mudanças na destinação de recursos de programas norte-americanos de direitos humanos. Entre os projetos aparecia uma iniciativa denominada “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, destinada a financiar organizações da sociedade civil que se opusessem ao que o programa classificava como excessos judiciais e censura no Brasil.
O valor informado para esse programa específico era de US$ 1 milhão.
A existência de um programa de financiamento, entretanto, não comprova que dinheiro tenha sido repassado ilegalmente a uma campanha eleitoral brasileira. Essa distinção precisa ser preservada.
É justamente o caminho do dinheiro — quem recebeu, quando recebeu, para qual finalidade e como eventualmente foi utilizado — que se torna uma das linhas centrais da investigação aberta pela PF.
Anúncios eleitorais pagos e administrados no exterior
A trilha digital apresenta elementos ainda mais concretos.
Levantamento da organização britânica Eko, divulgado pelo UOL, identificou pelo menos R$ 1,1 milhão gastos em centenas de anúncios eleitorais considerados irregulares.
O estudo analisou 26 perfis entre 25 de agosto e 2 de setembro.
Algumas páginas eram administradas a partir de países como Peru, Colômbia e Guatemala, e determinados anúncios foram pagos em moeda estrangeira.
Os conteúdos atingiram candidatos dos diferentes polos políticos: havia material contrário a Lula e também conteúdo contrário a Flávio Bolsonaro.
Esse detalhe é importante porque impede concluir, apenas a partir desse levantamento, que existisse uma única operação estrangeira trabalhando exclusivamente em favor de uma candidatura.





