Existe uma corrida mundial em andamento que não aparece com a mesma intensidade nas manchetes sobre inteligência artificial. Enquanto empresas disputam a liderança no desenvolvimento de novos modelos de IA, governos oferecem incentivos para atrair estruturas gigantescas destinadas a armazenar e processar informações. São os chamados data centers, instalações que consomem enormes quantidades de eletricidade, exigem sistemas permanentes de refrigeração e precisam de infraestrutura de telecomunicações e abastecimento de água.
A pergunta que se impõe é: por que tantos países estão empenhados em atrair esses empreendimentos? E, principalmente, até que ponto os benefícios econômicos e tecnológicos justificam os custos ambientais, energéticos e fiscais envolvidos?
A discussão é necessária porque existe uma diferença considerável entre a importância da infraestrutura digital e a conveniência de transformar a instalação de data centers em uma espécie de competição entre países, na qual governos parecem disputar quem oferece mais vantagens às grandes corporações.
A nova corrida do ouro digital
A expansão dos data centers está diretamente relacionada ao crescimento da inteligência artificial, dos serviços em nuvem, das transações financeiras digitais e do armazenamento de informações. Quanto mais sofisticados os sistemas de IA, maior a necessidade de capacidade computacional.
Para as grandes empresas de tecnologia, instalar data centers significa controlar uma infraestrutura estratégica. Quem domina a capacidade de processamento tem melhores condições de oferecer serviços digitais, desenvolver inteligência artificial e conquistar mercados.
Para os governos, a atração desses investimentos é apresentada como oportunidade de modernização tecnológica, geração de empregos qualificados, fortalecimento da soberania digital e inserção na economia do futuro.
Há, entretanto, um componente geopolítico nessa disputa. Estados Unidos, China e países europeus sabem que depender de estruturas digitais controladas por outras nações pode representar uma vulnerabilidade econômica, tecnológica e até de segurança nacional.
É nesse contexto que a instalação de data centers deixou de ser apenas um negócio privado e passou a integrar as estratégias nacionais de desenvolvimento e competitividade.
Mas existe uma questão que merece atenção: os investimentos anunciados são compatíveis com a demanda efetiva e com a capacidade de infraestrutura dos países que os recebem?
O apetite energético da inteligência artificial
A Agência Internacional de Energia (IEA) apresenta números que ajudam a dimensionar o problema.
Em 2024, os data centers consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade no mundo, cerca de 1,5% do consumo global. A projeção da agência era de que esse número ultrapassasse 945 TWh em 2030.
A expansão continua acelerada. Em sua atualização publicada em 2026, a IEA informou que o consumo de eletricidade dos data centers aumentou 17% em 2025, enquanto os centros voltados à inteligência artificial avançaram ainda mais rapidamente.
Não se trata de uma demanda desprezível. Um grande complexo de processamento pode consumir tanta eletricidade quanto uma cidade de porte considerável ou uma instalação industrial de uso intensivo de energia.
E há outro detalhe: os servidores precisam funcionar continuamente. Não podem simplesmente ser desligados quando a geração de energia diminui ou quando a demanda residencial aumenta.
Além dos computadores, é preciso manter equipamentos de refrigeração, sistemas de segurança, alimentação elétrica redundante e estruturas capazes de impedir interrupções.
A questão, portanto, não é apenas produzir mais eletricidade. É garantir energia suficiente, estável e disponível no lugar certo.
O Brasil entrou na disputa
O Brasil reúne características que despertam o interesse internacional. Possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, potencial de expansão da geração solar e eólica, disponibilidade de recursos naturais e um mercado consumidor expressivo.
Essa combinação transformou o país em um destino atraente para empresas interessadas em instalar grandes estruturas de processamento.
O governo federal também decidiu estimular a chegada desses investimentos.
Em setembro de 2026, foi sancionada a legislação que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata. O programa prevê suspensão de tributos na aquisição de equipamentos destinados à implantação e expansão dos empreendimentos, por cinco anos.
Em contrapartida, as empresas precisam assumir compromissos, entre eles utilizar energia de fontes renováveis ou de baixa emissão para atender à demanda contratada, cumprir critérios de eficiência hídrica, destinar pelo menos 10% da capacidade instalada ao mercado interno e investir em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
A iniciativa pretende transformar o país em um polo internacional de infraestrutura digital.
Mas há uma questão econômica que não pode ser ignorada: quais serão os benefícios efetivos desses investimentos para a população brasileira? Quanto será arrecadado, quantos empregos permanentes serão criados e qual será o retorno dos incentivos fiscais concedidos?
A instalação de um data center movimenta bilhões, mas não significa necessariamente a criação de milhares de empregos permanentes. São empreendimentos altamente automatizados, com grande investimento em equipamentos e relativamente reduzida necessidade de mão de obra depois de concluídos.
É preciso distinguir o volume de dinheiro anunciado do desenvolvimento econômico efetivamente produzido.
Energia limpa não significa energia sobrando
Um dos principais argumentos utilizados para justificar a expansão dos data centers no Brasil é a abundância de energia renovável.
É verdade que o país possui uma matriz elétrica privilegiada em comparação com muitas economias industrializadas. Entretanto, energia renovável não é sinônimo de disponibilidade ilimitada.
Há diferenças entre a capacidade de geração instalada, a eletricidade efetivamente produzida e a capacidade de transmissão até o local onde será consumida.
O Brasil enfrenta situações de excedente de geração solar e eólica em determinados horários e regiões, inclusive com cortes na produção porque o sistema não consegue absorver toda a energia disponível.
Os defensores dos data centers argumentam que esses empreendimentos podem aproveitar parte desse excedente, criando mercado para a eletricidade que, em determinadas circunstâncias, seria desperdiçada.
É um argumento relevante, mas não resolve toda a questão.





