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ANÁLISE

A bolha dos data centers: a corrida mundial pela inteligência artificial pode custar caro à sociedade

Energia, água, incentivos fiscais e interesses de gigantes da tecnologia estão por trás da expansão de megacentros de processamento de dados. Brasil entra na disputa oferecendo sua matriz elétrica renovável, mas quem pagará a conta dessa nova corrida tecnológica?

Jorge Matos | Redação HOJE BAHIA
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A bolha dos data centers: a corrida mundial pela inteligência artificial pode custar caro à sociedade
Ilustração: Chat GPT

Existe uma corrida mundial em andamento que não aparece com a mesma intensidade nas manchetes sobre inteligência artificial. Enquanto empresas disputam a liderança no desenvolvimento de novos modelos de IA, governos oferecem incentivos para atrair estruturas gigantescas destinadas a armazenar e processar informações. São os chamados data centers, instalações que consomem enormes quantidades de eletricidade, exigem sistemas permanentes de refrigeração e precisam de infraestrutura de telecomunicações e abastecimento de água.

A pergunta que se impõe é: por que tantos países estão empenhados em atrair esses empreendimentos? E, principalmente, até que ponto os benefícios econômicos e tecnológicos justificam os custos ambientais, energéticos e fiscais envolvidos?

A discussão é necessária porque existe uma diferença considerável entre a importância da infraestrutura digital e a conveniência de transformar a instalação de data centers em uma espécie de competição entre países, na qual governos parecem disputar quem oferece mais vantagens às grandes corporações.

A nova corrida do ouro digital

A expansão dos data centers está diretamente relacionada ao crescimento da inteligência artificial, dos serviços em nuvem, das transações financeiras digitais e do armazenamento de informações. Quanto mais sofisticados os sistemas de IA, maior a necessidade de capacidade computacional.

Para as grandes empresas de tecnologia, instalar data centers significa controlar uma infraestrutura estratégica. Quem domina a capacidade de processamento tem melhores condições de oferecer serviços digitais, desenvolver inteligência artificial e conquistar mercados.

Para os governos, a atração desses investimentos é apresentada como oportunidade de modernização tecnológica, geração de empregos qualificados, fortalecimento da soberania digital e inserção na economia do futuro.

Há, entretanto, um componente geopolítico nessa disputa. Estados Unidos, China e países europeus sabem que depender de estruturas digitais controladas por outras nações pode representar uma vulnerabilidade econômica, tecnológica e até de segurança nacional.

É nesse contexto que a instalação de data centers deixou de ser apenas um negócio privado e passou a integrar as estratégias nacionais de desenvolvimento e competitividade.

Mas existe uma questão que merece atenção: os investimentos anunciados são compatíveis com a demanda efetiva e com a capacidade de infraestrutura dos países que os recebem?

O apetite energético da inteligência artificial

A Agência Internacional de Energia (IEA) apresenta números que ajudam a dimensionar o problema.

Em 2024, os data centers consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade no mundo, cerca de 1,5% do consumo global. A projeção da agência era de que esse número ultrapassasse 945 TWh em 2030.

A expansão continua acelerada. Em sua atualização publicada em 2026, a IEA informou que o consumo de eletricidade dos data centers aumentou 17% em 2025, enquanto os centros voltados à inteligência artificial avançaram ainda mais rapidamente.

Não se trata de uma demanda desprezível. Um grande complexo de processamento pode consumir tanta eletricidade quanto uma cidade de porte considerável ou uma instalação industrial de uso intensivo de energia.

E há outro detalhe: os servidores precisam funcionar continuamente. Não podem simplesmente ser desligados quando a geração de energia diminui ou quando a demanda residencial aumenta.

Além dos computadores, é preciso manter equipamentos de refrigeração, sistemas de segurança, alimentação elétrica redundante e estruturas capazes de impedir interrupções.

A questão, portanto, não é apenas produzir mais eletricidade. É garantir energia suficiente, estável e disponível no lugar certo.

O Brasil entrou na disputa

O Brasil reúne características que despertam o interesse internacional. Possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, potencial de expansão da geração solar e eólica, disponibilidade de recursos naturais e um mercado consumidor expressivo.

Essa combinação transformou o país em um destino atraente para empresas interessadas em instalar grandes estruturas de processamento.

O governo federal também decidiu estimular a chegada desses investimentos.

Em setembro de 2026, foi sancionada a legislação que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata. O programa prevê suspensão de tributos na aquisição de equipamentos destinados à implantação e expansão dos empreendimentos, por cinco anos.

Em contrapartida, as empresas precisam assumir compromissos, entre eles utilizar energia de fontes renováveis ou de baixa emissão para atender à demanda contratada, cumprir critérios de eficiência hídrica, destinar pelo menos 10% da capacidade instalada ao mercado interno e investir em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

A iniciativa pretende transformar o país em um polo internacional de infraestrutura digital.

Mas há uma questão econômica que não pode ser ignorada: quais serão os benefícios efetivos desses investimentos para a população brasileira? Quanto será arrecadado, quantos empregos permanentes serão criados e qual será o retorno dos incentivos fiscais concedidos?

A instalação de um data center movimenta bilhões, mas não significa necessariamente a criação de milhares de empregos permanentes. São empreendimentos altamente automatizados, com grande investimento em equipamentos e relativamente reduzida necessidade de mão de obra depois de concluídos.

É preciso distinguir o volume de dinheiro anunciado do desenvolvimento econômico efetivamente produzido.

Energia limpa não significa energia sobrando

Um dos principais argumentos utilizados para justificar a expansão dos data centers no Brasil é a abundância de energia renovável.

É verdade que o país possui uma matriz elétrica privilegiada em comparação com muitas economias industrializadas. Entretanto, energia renovável não é sinônimo de disponibilidade ilimitada.

Há diferenças entre a capacidade de geração instalada, a eletricidade efetivamente produzida e a capacidade de transmissão até o local onde será consumida.

O Brasil enfrenta situações de excedente de geração solar e eólica em determinados horários e regiões, inclusive com cortes na produção porque o sistema não consegue absorver toda a energia disponível.

Os defensores dos data centers argumentam que esses empreendimentos podem aproveitar parte desse excedente, criando mercado para a eletricidade que, em determinadas circunstâncias, seria desperdiçada.

É um argumento relevante, mas não resolve toda a questão.

Um centro de processamento precisa de energia 24 horas por dia, inclusive à noite e em períodos de baixa geração renovável. Isso exige contratos de fornecimento, armazenamento, geração complementar e reforço das linhas de transmissão.

A expansão também pode pressionar o planejamento do setor elétrico, exigindo investimentos em novas usinas, subestações e redes de transmissão.

O risco é que a sociedade termine socializando parte dos custos da infraestrutura necessária para atender a empreendimentos privados, enquanto os ganhos econômicos ficam concentrados nas empresas proprietárias.

Essa possibilidade precisa ser enfrentada com transparência regulatória e planejamento público.

Água: o outro lado da conta

O consumo de eletricidade não é o único ponto de preocupação.

Os servidores produzem calor continuamente e precisam de sistemas de refrigeração. Dependendo da tecnologia empregada, esses sistemas podem demandar volumes significativos de água.

Em regiões submetidas a secas ou com abastecimento urbano precário, a instalação de um empreendimento de grande porte pode criar disputas pelo uso dos recursos hídricos.

No Brasil, o setor empresarial apresenta dados segundo os quais o consumo de água dos data centers representa uma fração muito pequena do total nacional. Estudo divulgado pela Brasscom em agosto de 2025 estimou que o consumo consuntivo do setor, em 2022, correspondia a aproximadamente 0,003% do total utilizado no país.

Esse dado precisa ser considerado, mas não encerra o debate.

Uma média nacional pode esconder problemas localizados. O impacto de um empreendimento instalado em uma região com abundância hídrica não é necessariamente o mesmo de outro construído em uma área sujeita a estiagens.

O que interessa à população não é apenas quanto o setor consome em relação ao país inteiro, mas de onde vem a água, quanto será utilizado, como será devolvida ao ambiente e quais comunidades poderão ser afetadas.

Existe uma bolha?

A expressão bolha dos data centers não significa que essas instalações sejam inúteis ou que a demanda por processamento digital seja fictícia.

A questão é outra.

Existe uma corrida de investimentos impulsionada por expectativas extraordinárias de crescimento da inteligência artificial. Grandes empresas anunciam projetos bilionários, governos disputam empreendimentos e investidores apostam na expansão praticamente contínua da demanda por capacidade computacional.

Mas nem todos os projetos anunciados sairão do papel. Nem toda capacidade planejada será efetivamente utilizada. E nem toda expectativa de rentabilidade se converterá em resultado econômico.

Quando o volume de investimentos cresce mais rapidamente do que a demanda comprovada, surge o risco de superdimensionamento, desperdício de capital e estruturas subutilizadas.

É preciso lembrar que a infraestrutura tecnológica tem custos elevados, equipamentos sujeitos à rápida obsolescência e necessidade permanente de atualização.

A pergunta que os governos deveriam fazer não é apenas quantos bilhões serão investidos, mas qual será a utilização efetiva dessas estruturas daqui a cinco, dez ou quinze anos.

A própria Agência Internacional de Energia aponta gargalos relacionados à disponibilidade de equipamentos, transformadores, turbinas, conexões à rede elétrica e autorizações para novos empreendimentos.

Ou seja, a corrida tecnológica está esbarrando em limites físicos que não podem ser resolvidos apenas com dinheiro e discursos sobre inovação.

E quem ganha com tudo isso?

É importante reconhecer que os data centers fazem parte da infraestrutura necessária à sociedade contemporânea. Não há desenvolvimento digital sem capacidade de processamento, armazenamento e transmissão de informações.

Também seria equivocado ignorar as oportunidades de pesquisa, inovação, formação profissional e fortalecimento da soberania tecnológica brasileira.

Entretanto, o interesse público não pode ficar subordinado aos interesses comerciais das gigantes da tecnologia.

Se o Brasil concede benefícios fiscais, disponibiliza infraestrutura energética e facilita a instalação de grandes empreendimentos, precisa exigir contrapartidas proporcionais.

Isso significa transparência sobre os contratos de energia, fiscalização do consumo de água, avaliação dos impactos ambientais, compromissos de pesquisa com universidades brasileiras, geração de empregos qualificados e participação efetiva de empresas nacionais na cadeia tecnológica.

Significa, também, garantir que a expansão do setor não comprometa o abastecimento residencial, não aumente injustamente os custos da eletricidade e não transfira para os consumidores os riscos de projetos privados.

A discussão não é entre ser contra ou a favor da tecnologia. É sobre quem controla essa tecnologia, quem financia sua expansão e quem recebe seus benefícios.

O Brasil não pode trocar sua riqueza energética e seus recursos naturais por uma promessa de modernidade sem saber exatamente o que receberá em troca.

A inteligência artificial pode representar uma transformação extraordinária na economia mundial. Mas, se a corrida para sustentá-la exigir energia, água, incentivos públicos e infraestrutura em escala crescente, a sociedade tem o direito de perguntar se está construindo o futuro ou apenas pagando a conta de uma nova aposta bilionária das grandes corporações.

Porque, no final das contas, os servidores podem armazenar bilhões de informações. Mas não deveriam armazenar, também, as perguntas que os governos precisam responder à população.

Hoje Bahia — Os fatos são sagrados, as opiniões são livres.

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