Golias deve ter estranhado o silêncio.
Acostumado ao barulho da própria armadura, talvez imaginasse que toda batalha estivesse decidida antes do primeiro movimento. Há uma espécie de solidão no poder muito grande: chega uma hora em que ele escuta a própria voz e acredita estar ouvindo o mundo inteiro.
Mas havia uma pedra, uma pequena pedra.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno de 25 de outubro, assegurou ao presidente um quarto mandato. Esse é o fato registrado pela Justiça Eleitoral. O significado da vitória, porém, continuará sendo disputado muito depois do encerramento da apuração.
Para quem acompanhou a eleição com a sensação de enfrentar forças maiores do que a própria voz, a imagem veio pronta: foi Davi contra Golias.
É preciso reconhecer os limites da comparação. Lula disputou a eleição na Presidência da República, com o país dividido por mentiras, mas apoiado por quem quase nunca é escutado nas propostas dos seus opositores. Era um exercício silencioso, desagregado, mas numeroso. Chegou ao campo descalço, carregando apenas uma funda, vendo no horizonte, à sua retaguarda, um general catando e agrupando um exército de soldados sem divisão. A política brasileira exige mais cuidado do que uma contenda entre um homem indefeso e gigantes invencíveis.
Ainda assim, metáforas alcançam lugares aos quais as planilhas e pesquisas não chegam.
O Davi dessa história talvez seja não apenas o candidato, também o eleitor comum. A pessoa que recebe bombardeio de mensagens, assiste a entrevistas com informações duvidosas, atravessa discussões de família e tenta reconhecer, no meio de tanto ruído, e mentiras, alguma coisa que corresponda à vida que leva.
Do outro lado da tela, tudo parece imenso.
A televisão fala para milhões (o que quem paga a publicidade decide). A manchete escolhe o assunto da manhã. A plataforma organiza o que aparece primeiro e também o que aparece para milhões. Um vídeo se repete até adquirir a familiaridade de uma lembrança, ou até uma mentira se tornar verdade. Outro desaparece antes de encontrar quem gostaria de assisti-lo, a verdade não gera engajamento.
Nesse ambiente, influência pode ganhar aparência de destino.
Globo, Record, SBT, Folha de S.Paulo, Veja, Estadão, Meta: os nomes aparecem na indignação de eleitores enganados, mal representados ou ignorados. São organizações diferentes, com responsabilidades diferentes. Reuni-las numa frase de protesto expressa uma percepção política; demonstrar que atuaram como um único comando exigiria provas, mas as evidências gritam.





