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CRÔNICA

Davi, Golias e o segredo da urna

Na vitória de Lula ficou evidente: há uma leitura sobre os limites do poder de influenciar e a liberdade de escolha.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 26 de outubro de 2026 às 01:14 • Salvador - BA
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Na metáfora de Davi contra Golias, Lula encara um gigante de telas e antenas, símbolo do poder da comunicação e das plataformas digitais sobre o debate público.
Na metáfora de Davi contra Golias, Lula encara um gigante de telas e antenas, símbolo do poder da comunicação e das plataformas digitais sobre o debate público. — Ilustração gerada por inteligência artificial para o Hoje Bahia.

Golias deve ter estranhado o silêncio.

Acostumado ao barulho da própria armadura, talvez imaginasse que toda batalha estivesse decidida antes do primeiro movimento. Há uma espécie de solidão no poder muito grande: chega uma hora em que ele escuta a própria voz e acredita estar ouvindo o mundo inteiro.

Mas havia uma pedra, uma pequena pedra.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno de 25 de outubro, assegurou ao presidente um quarto mandato. Esse é o fato registrado pela Justiça Eleitoral. O significado da vitória, porém, continuará sendo disputado muito depois do encerramento da apuração.

Para quem acompanhou a eleição com a sensação de enfrentar forças maiores do que a própria voz, a imagem veio pronta: foi Davi contra Golias.

É preciso reconhecer os limites da comparação. Lula disputou a eleição na Presidência da República, com o país dividido por mentiras, mas apoiado por quem quase nunca é escutado nas propostas dos seus opositores. Era um exercício silencioso, desagregado, mas numeroso. Chegou ao campo descalço, carregando apenas uma funda, vendo no horizonte, à sua retaguarda, um general catando e agrupando um exército de soldados sem divisão. A política brasileira exige mais cuidado do que uma contenda entre um homem indefeso e gigantes invencíveis.

Ainda assim, metáforas alcançam lugares aos quais as planilhas e pesquisas não chegam.

O Davi dessa história talvez seja não apenas o candidato, também o eleitor comum. A pessoa que recebe bombardeio de mensagens, assiste a entrevistas com informações duvidosas, atravessa discussões de família e tenta reconhecer, no meio de tanto ruído, e mentiras, alguma coisa que corresponda à vida que leva.

Do outro lado da tela, tudo parece imenso.

A televisão fala para milhões (o que quem paga a publicidade decide). A manchete escolhe o assunto da manhã. A plataforma organiza o que aparece primeiro e também o que aparece para milhões. Um vídeo se repete até adquirir a familiaridade de uma lembrança, ou até uma mentira se tornar verdade. Outro desaparece antes de encontrar quem gostaria de assisti-lo, a verdade não gera engajamento.

Nesse ambiente, influência pode ganhar aparência de destino.

Globo, Record, SBT, Folha de S.Paulo, Veja, Estadão, Meta: os nomes aparecem na indignação de eleitores enganados, mal representados ou ignorados. São organizações diferentes, com responsabilidades diferentes. Reuni-las numa frase de protesto expressa uma percepção política; demonstrar que atuaram como um único comando exigiria provas, mas as evidências gritam.

A crítica fica mais forte quando sabe exatamente onde pisa.

E há terreno suficiente para uma pergunta incômoda: quanto espaço resta à escolha individual em uma sociedade na qual poucas empresas têm tamanho poder sobre a circulação da informação?

A resposta de uma eleição nunca é completa. Mas ela existe.

Existe quando alguém fecha um aplicativo e continua pensando. Quando uma conversa muda de rumo. Quando o cidadão compara o que ouviu com o que viveu e decide guardar sua conclusão até chegar à urna.

Ali, por alguns instantes, acaba a discussão.

Nenhum apresentador acompanha o eleitor à cabine. Nenhum editorial aperta a tecla por ele. O dono da plataforma fica do lado de fora.

É essa pequena distância entre a influência e a decisão que sustenta uma democracia.

A vitória de Lula pode ser lida, por seus apoiadores, como uma afirmação dessa autonomia. Celebrá-la, contudo, também significa aceitar que milhões de brasileiros escolheram, ou foram influenciados a escolher, Flávio e continuam pertencendo, por inteiro, ao país que será governado.

O vencedor recebe um mandato. Recebe junto a obrigação de prestar contas, ouvir críticas e responder às necessidades de quem votou nele — e de quem não votou.

Davi também precisa ser cobrado depois da batalha.

Mas, na noite de 25 de outubro/26, a imagem da pedra encontrou seu lugar. Pequena, quase sem peso diante das armaduras, ela lembrava uma coisa que o poder costuma esquecer: o eleitor pode ouvir o mundo inteiro e, ainda assim, decidir com a própria cabeça.

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