O Instituto Iter, fundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding pertencente ao empresário Lucas Kallas, que manteve negócios com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A informação foi revelada pelo UOL e posteriormente repercutida por outros veículos. O acordo foi firmado em abril de 2024 por meio de um contrato de mútuo conversível, modalidade de empréstimo que pode permitir a conversão do crédito em participação societária ou a devolução dos recursos.
O contrato previa um valor total de R$ 5,9 milhões, dos quais R$ 5,2 milhões chegaram a ser repassados ao Iter. Segundo o instituto, os recursos foram depositados diretamente na conta da pessoa jurídica e utilizados exclusivamente na estruturação e nas atividades da instituição.
Quem é Lucas Kallas
Lucas Kallas é proprietário da Cedro Participações, holding com atuação principalmente nos setores de mineração, agronegócio e logística..Registros citados pela reportagem mostram ainda que Kallas e Vorcaro tiveram entrada registrada no Palácio do Planalto no mesmo minuto, em 4 de dezembro de 2023, poucos dias depois da viagem à Venezuela.
A Cedro, entretanto, afirma que Vorcaro jamais teve relação societária ou vínculo empresarial com a holding ou suas controladas. A empresa sustenta que investimentos simultâneos em companhias abertas não caracterizam, por si só, sociedade comercial.
Kallas não é apontado como investigado na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master.
Iter começou a devolver o dinheiro
Os repasses ao Instituto Iter foram interrompidos no fim de 2025. Em janeiro de 2026, a instituição iniciou o processo de devolução dos recursos.
De acordo com o Iter, a decisão ocorreu porque o instituto já havia alcançado sustentabilidade financeira. Um termo aditivo antecipou o vencimento da dívida e estabeleceu que os valores seriam devolvidos com juros calculados pela taxa Selic.
Até a divulgação do caso, aproximadamente 5,3% da dívida havia sido paga, segundo informações fornecidas pelo próprio instituto.
A cronologia ganhou repercussão porque, no mês seguinte ao início da devolução, André Mendonça foi sorteado relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF.
A proximidade temporal entre os acontecimentos não demonstra, por si só, relação entre o contrato e a atuação do ministro.
Instituto diz que Mendonça não participou da negociação
O Iter afirma que André Mendonça não participou das negociações envolvendo o empréstimo.
Segundo a instituição, o acordo foi conduzido pelo presidente do Iter e ex-ministro da Educação Victor Godoy Veiga, juntamente com representantes da Cedro. O instituto sustenta que Mendonça e Lucas Kallas não discutiram valores ou condições e não assinaram o contrato.
A entidade também afirma que os R$ 5,2 milhões foram contabilizados regularmente e destinados às atividades institucionais, sem distribuição de lucros ou dividendos aos acionistas.
Mendonça anunciou sua saída da sociedade do Iter no início de setembro de 2026. De acordo com a instituição, durante o período em que esteve vinculado ao instituto, o ministro atuou no âmbito acadêmico e não recebeu dividendos, distribuição de lucros ou participação nos resultados.
Encontro de Mendonça com Vorcaro
Outro elemento que passou a integrar a discussão pública foi a confirmação de que André Mendonça se encontrou com Daniel Vorcaro em março de 2025, na sede do Instituto Iter.
Segundo Mendonça, a reunião tratou de precatórios relacionados a um processo que estava em discussão no Supremo. O ministro também informou ter recebido, no mesmo período, um advogado ligado a Vorcaro em seu gabinete no STF para tratar do mesmo tema.
Mendonça sustenta que sua atuação posterior no processo não beneficiou os interesses do banqueiro.
O Iter, por sua vez, afirma que Daniel Vorcaro nunca manteve relação com a instituição e que não participou da negociação do empréstimo realizado pela Cedro.
O que dizem os envolvidos
O Instituto Iter sustenta que a operação de R$ 5,2 milhões ocorreu dentro da legislação, foi registrada contabilmente e teve os recursos aplicados exclusivamente nas atividades da instituição.
A Cedro Participações também nega qualquer irregularidade e afirma que Daniel Vorcaro nunca integrou seu quadro societário ou manteve vínculo empresarial com a holding.
As informações disponíveis até o momento mostram a existência do contrato entre Cedro e Iter e relações empresariais anteriores envolvendo Kallas e negócios dos quais Vorcaro também participou. Não há, nas informações publicadas até agora, demonstração de que o empréstimo ao Iter tenha sido realizado por Daniel Vorcaro ou com recursos do Banco Master.
O caso ganha relevância pública pela combinação entre o vínculo anterior de Mendonça com o instituto, as relações empresariais de Kallas e Vorcaro e o fato de o ministro atualmente atuar como relator de investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo.





