STF X CASO MASTER

Mensagens do caso Master ligam filho de Kassio Nunes Marques a consultoria paga pelo banco

Diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil; Kevin Marques confirma ter recebido R$ 281,6 mil de empresa contratada pelo Master, mas nega vínculo com o banqueiro ou atuação relacionada ao STF

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 20 de setembro de 2026 às 23:49 • Salvador - BA
Ouça esta matéria
Compartilhe:
Montagem ilustrativa reúne Kevin Marques, o ministro do STF Kassio Nunes Marques e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, personagens citados nas mensagens e movimentações financeiras abordadas pela reportagem.
Montagem ilustrativa reúne Kevin Marques, o ministro do STF Kassio Nunes Marques e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, personagens citados nas mensagens e movimentações financeiras abordadas pela reportagem.Arte: Hoje Bahia — imagem gerada por inteligência artificial

Mensagens obtidas pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master colocaram o advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, no centro de novos questionamentos envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira.

Os diálogos não comprovam, por si sós, que Kevin tenha recebido R$ 500 mil mensais, nem demonstram a participação do ministro em algum acordo. Eles revelam, no entanto, que o nome e o telefone do advogado circularam entre Vorcaro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, acompanhados de referências a pagamentos e à Consult Inteligência Tributária.

Kevin confirma que recebeu R$ 281,6 mil da Consult pela prestação de serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa. Ele nega ter trabalhado para o Banco Master, recebido dinheiro de Vorcaro ou realizado qualquer atividade relacionada ao Supremo.

O que aparece nas mensagens

Em outubro de 2024, Luiz Rennó encaminhou a Vorcaro uma planilha contendo o nome e o telefone de Kevin Marques. Na sequência, escreveu: “Dominado aqui”.

Em julho de 2025, o executivo enviou novamente os dados do advogado e perguntou se um pagamento de “R$ 500 mil mês” deveria ser mantido. A conversa continuou em tom de risada entre Rennó e Vorcaro, sem que o material divulgado esclareça se o valor mencionado foi efetivamente pago, a qual serviço corresponderia ou quem seria o destinatário final.

No mês seguinte, Rennó afirmou que, entre os chamados “pagamentos essenciais”, estaria faltando a Consult. Ele voltou a encaminhar a identificação de Kevin e acrescentou que aquele seria o único pagamento ligado a ele ainda pendente.

As conversas foram extraídas do aparelho celular de Daniel Vorcaro e integram o material reunido pela Polícia Federal. A existência das mensagens demonstra que o advogado era mencionado pelos executivos, mas não permite concluir, isoladamente, que Kevin tivesse conhecimento da forma como seu nome era tratado dentro do banco.

O caminho do dinheiro

A Consult Inteligência Tributária é uma empresa sediada em Teresina, no Piauí. Segundo informações de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, divulgadas pela imprensa, a consultoria recebeu aproximadamente R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025.

O relatório teria classificado as movimentações como incompatíveis com a capacidade financeira declarada pela empresa, que registrava faturamento muito inferior aos valores recebidos do banco.

A Consult, por sua vez, transferiu R$ 281,6 mil para Kevin Marques. Reportagens apontam que o montante foi repassado em 11 operações. A defesa do advogado reconhece o recebimento, mas sustenta que os pagamentos remuneraram serviços jurídicos efetivamente prestados à própria consultoria.

A sequência financeira identificada até agora é a seguinte:


Essa movimentação não prova que o dinheiro transferido a Kevin tenha se originado especificamente dos recursos pagos pelo Master. Para estabelecer essa relação, seria necessário analisar contratos, notas fiscais, serviços realizados, datas e a rastreabilidade individual das transações.

Decisão do STF entrou na apuração

As revelações também chamaram atenção para um julgamento de 2024 no qual Kassio Nunes Marques votou favoravelmente à destilaria Alcídia. A discussão envolvia uma tese tributária com potencial impacto sobre uma carteira de precatórios de interesse do Banco Master.

Nunes Marques chegou a constar como impedido no processo porque havia atuado no caso quando era vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Posteriormente, reconsiderou a situação, participou do julgamento e proferiu o voto que desempatou a disputa em favor da empresa.

A assessoria do ministro afirma que a anotação de impedimento havia sido feita pela Secretaria do tribunal e que, após reexaminar o caso, Nunes Marques concluiu que poderia participar porque o julgamento tratava de uma tese jurídica ampla.

Segundo a manifestação, o entendimento poderia beneficiar diversas empresas e não constituía uma decisão especificamente destinada ao Banco Master.

A defesa também ressalta que o ministro já havia adotado a mesma interpretação jurídica quando integrava o TRF-1. No julgamento do STF, votaram pela tese os ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.

As mensagens mostram executivos do Master comemorando o resultado, mas isso não prova que o voto tenha sido combinado ou influenciado pelo banco.

O que dizem Kevin e o ministro

A assessoria de Kevin Marques afirma que o advogado:

  • não prestou serviços ao Banco Master;

  • não recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro;

  • recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos tributários;

  • não atuou em assuntos relacionados ao Supremo Tribunal Federal.

A manifestação de Kassio Nunes Marques sustenta que o ministro nunca votou em um processo no qual o Banco Master figurasse diretamente como parte e que seu filho jamais recebeu recursos de Vorcaro.

Em 15 de setembro, depois da divulgação das mensagens, Nunes Marques declarou-se impedido de participar da sessão do STF que discutia a possível abertura de investigação sobre as relações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro.

Ao justificar o afastamento, Nunes Marques afirmou que não se sentia confortável para participar do julgamento e reiterou que Kevin não havia prestado serviços ao Master.

Não há acusação formal

Até a divulgação dessas informações, não havia denúncia ou acusação formal contra Kassio Nunes Marques ou Kevin Marques relacionada aos pagamentos mencionados nas mensagens.

Versões preliminares de uma proposta de colaboração de Daniel Vorcaro teriam citado o ministro e seu filho, mas essas referências foram retiradas da versão final encaminhada à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal.

Vorcaro também não teria apresentado, nessas versões, uma acusação direta de crime ou favorecimento praticado por Nunes Marques.

A proposta de colaboração acabou rejeitada pelas autoridades responsáveis, que entenderam não haver provas concretas suficientes naquele material.

O que ainda precisa ser esclarecido

O caso permanece cercado por questões que dependem de investigação documental:

  • Quais serviços foram efetivamente prestados por Kevin à Consult?

  • Existem contratos, pareceres, notas fiscais e registros dessas atividades?

  • Por que executivos do Master associavam o nome do advogado a R$ 500 mil mensais?

  • Qual era a finalidade dos R$ 6,6 milhões pagos pelo banco à Consult?

  • O valor citado nas mensagens chegou a ser pago ou era apenas uma previsão?

  • Por que Luiz Rennó usou a expressão “dominado aqui”?

  • O julgamento da destilaria Alcídia produziu benefício financeiro efetivo para a carteira do Master?

  • Kevin sabia que seu nome constava das planilhas discutidas pelos executivos?

Sem essas respostas, não é possível afirmar que tenha ocorrido tráfico de influência, venda de decisões ou repasse disfarçado de recursos.

O material conhecido justifica apuração, mas exige cautela para que indícios, referências internas e coincidências temporais não sejam apresentados como fatos criminosos já comprovados.

Fontes consultadas:

Folha de S.Paulo — Diálogos de Vorcaro citam filho de Kassio Nunes Marques e pagamento de R$ 500 mil:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/09/dialogos-de-vorcaro-citam-filho-de-kassio-nunes-marques-e-pagamento-de-r-500-mil.shtml

UOL — Diretor menciona a Vorcaro R$ 500 mil por mês a filho de Nunes Marques:
https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-bilenky/2026/09/15/diretor-menciona-a-vorcaro-r-500-mil-por-mes-a-filho-de-nunes-marques.ghtm

UOL — Quem são os filhos de Luiz Fux e Nunes Marques citados por Vorcaro:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/16/quem-sao-rodrigo-fux-e-kevin-marques-filhos-ministros-stf.ghtm

UOL — Nunes Marques e Toffoli decidem não votar em julgamento no STF:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/15/ministros-stf-declaram-impedidos-sessao-moraes.ghtm

Assuntos
Banco MasterConsult Inteligência TributáriaDaniel VorcaroKassio Nunes MarquesKevinKevin MarquesNunes MarquesPolícia Federal