Mensagens obtidas pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master colocaram o advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, no centro de novos questionamentos envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira.
Os diálogos não comprovam, por si sós, que Kevin tenha recebido R$ 500 mil mensais, nem demonstram a participação do ministro em algum acordo. Eles revelam, no entanto, que o nome e o telefone do advogado circularam entre Vorcaro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, acompanhados de referências a pagamentos e à Consult Inteligência Tributária.
Kevin confirma que recebeu R$ 281,6 mil da Consult pela prestação de serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa. Ele nega ter trabalhado para o Banco Master, recebido dinheiro de Vorcaro ou realizado qualquer atividade relacionada ao Supremo.
O que aparece nas mensagens
Em outubro de 2024, Luiz Rennó encaminhou a Vorcaro uma planilha contendo o nome e o telefone de Kevin Marques. Na sequência, escreveu: “Dominado aqui”.
Em julho de 2025, o executivo enviou novamente os dados do advogado e perguntou se um pagamento de “R$ 500 mil mês” deveria ser mantido. A conversa continuou em tom de risada entre Rennó e Vorcaro, sem que o material divulgado esclareça se o valor mencionado foi efetivamente pago, a qual serviço corresponderia ou quem seria o destinatário final.
No mês seguinte, Rennó afirmou que, entre os chamados “pagamentos essenciais”, estaria faltando a Consult. Ele voltou a encaminhar a identificação de Kevin e acrescentou que aquele seria o único pagamento ligado a ele ainda pendente.
As conversas foram extraídas do aparelho celular de Daniel Vorcaro e integram o material reunido pela Polícia Federal. A existência das mensagens demonstra que o advogado era mencionado pelos executivos, mas não permite concluir, isoladamente, que Kevin tivesse conhecimento da forma como seu nome era tratado dentro do banco.
O caminho do dinheiro
A Consult Inteligência Tributária é uma empresa sediada em Teresina, no Piauí. Segundo informações de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, divulgadas pela imprensa, a consultoria recebeu aproximadamente R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025.
O relatório teria classificado as movimentações como incompatíveis com a capacidade financeira declarada pela empresa, que registrava faturamento muito inferior aos valores recebidos do banco.
A Consult, por sua vez, transferiu R$ 281,6 mil para Kevin Marques. Reportagens apontam que o montante foi repassado em 11 operações. A defesa do advogado reconhece o recebimento, mas sustenta que os pagamentos remuneraram serviços jurídicos efetivamente prestados à própria consultoria.
A sequência financeira identificada até agora é a seguinte:

Essa movimentação não prova que o dinheiro transferido a Kevin tenha se originado especificamente dos recursos pagos pelo Master. Para estabelecer essa relação, seria necessário analisar contratos, notas fiscais, serviços realizados, datas e a rastreabilidade individual das transações.
Decisão do STF entrou na apuração
As revelações também chamaram atenção para um julgamento de 2024 no qual Kassio Nunes Marques votou favoravelmente à destilaria Alcídia. A discussão envolvia uma tese tributária com potencial impacto sobre uma carteira de precatórios de interesse do Banco Master.
Nunes Marques chegou a constar como impedido no processo porque havia atuado no caso quando era vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Posteriormente, reconsiderou a situação, participou do julgamento e proferiu o voto que desempatou a disputa em favor da empresa.
A assessoria do ministro afirma que a anotação de impedimento havia sido feita pela Secretaria do tribunal e que, após reexaminar o caso, Nunes Marques concluiu que poderia participar porque o julgamento tratava de uma tese jurídica ampla.
Segundo a manifestação, o entendimento poderia beneficiar diversas empresas e não constituía uma decisão especificamente destinada ao Banco Master.
A defesa também ressalta que o ministro já havia adotado a mesma interpretação jurídica quando integrava o TRF-1. No julgamento do STF, votaram pela tese os ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
As mensagens mostram executivos do Master comemorando o resultado, mas isso não prova que o voto tenha sido combinado ou influenciado pelo banco.
O que dizem Kevin e o ministro
A assessoria de Kevin Marques afirma que o advogado:
não prestou serviços ao Banco Master;
não recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro;
recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos tributários;
não atuou em assuntos relacionados ao Supremo Tribunal Federal.





