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GASTRONOMIA

Salvador à Mesa: do dendê da Feira de São Joaquim aos sabores africanos do Santo Antônio Além do Carmo

Uma viagem gastronômica pela capital baiana revela receitas ancestrais, histórias de resistência, cozinheiras que preservam tradições e restaurantes onde a comida se mistura à memória e à paisagem da Baía de Todos-os-Santos.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 24 de outubro de 2026 às 10:19 • Salvador - BA
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Salvador à Mesa: do dendê da Feira de São Joaquim aos sabores africanos do Santo Antônio Além do Carmo

Em Salvador, a comida não começa quando o prato chega à mesa. Ela começa muito antes: na mão de quem planta, na embarcação que transporta os ingredientes, no tabuleiro da baiana, nos corredores das feiras e nas cozinhas onde receitas atravessam gerações.

O cheiro do dendê, o camarão seco, o quiabo, o feijão-fradinho, a farinha de mandioca e o leite de coco ajudam a contar uma história que não cabe apenas nos livros de receitas.

É uma história de encontros entre culturas, de ancestralidade africana, de saberes indígenas, de trabalho popular e de tradições que resistem às transformações da cidade.

Nesta edição do Salvador à Mesa, o Hoje Bahia propõe um roteiro que começa na tradicional Feira de São Joaquim, na Cidade Baixa, e segue para o Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico.

Cinco paradas, diferentes propostas gastronômicas e um elemento em comum: a comida como expressão da identidade de Salvador.

1. Feira de São Joaquim: onde a cozinha baiana encontra suas raízes

Antes da moqueca, existe o peixe. Antes do caruru, existe o quiabo. Antes do acarajé, existem o feijão-fradinho, o dendê e o conhecimento de quem transforma ingredientes em tradição.

É nos corredores da Feira de São Joaquim que esses elementos se encontram.

Localizada na Avenida Engenheiro Oscar Pontes, às margens da Baía de Todos-os-Santos, a feira é uma das maiores expressões do comércio popular da Bahia.

Ali se encontram pimentas, folhas, farinhas, pescados, camarões secos, frutas, raízes, cerâmicas e utensílios que fazem parte do cotidiano das cozinhas baianas.

Mas a importância de São Joaquim vai além dos alimentos.

Uma feira que nasceu da resistência

A história do espaço está ligada à antiga Feira de Água de Meninos, destruída por incêndios em 1964. Os comerciantes foram transferidos para uma enseada vizinha, onde se consolidou a atual Feira de São Joaquim.

Desde então, o local se tornou referência no abastecimento da cidade e na preservação de práticas comerciais e culturais.

É também um importante centro de comercialização de folhas, contas, cerâmicas e outros artigos utilizados nas religiões de matriz africana, especialmente no candomblé.

Essa relação demonstra como alimentação, religiosidade, economia popular e identidade cultural convivem no mesmo espaço.

A feira está mudando

Em junho de 2026, o Governo da Bahia inaugurou um novo Galpão de Carnes, como parte das obras de requalificação da feira.

Em setembro, foram anunciados 68 balcões refrigerados destinados a melhorar as condições de conservação dos produtos. A previsão oficial é que a requalificação inclua novos estabelecimentos comerciais até 2027.

As melhorias estruturais representam uma oportunidade de oferecer condições mais adequadas a trabalhadores e consumidores.

O desafio é modernizar sem descaracterizar a feira, preservando seus comerciantes, suas relações comunitárias e a dinâmica de um espaço que faz parte da história de Salvador.

O que descobrir: ingredientes regionais, a história dos feirantes, a origem dos alimentos, o comércio de produtos do Recôncavo e a relação entre comida e religiosidade.

2. Restaurante Mar e Sol: comida de feira com vista para a baía

Depois de conhecer os ingredientes, é hora de descobrir como eles chegam à mesa.

Dentro da Feira de São Joaquim, o Restaurante Mar e Sol é uma das opções para quem procura comida regional em um ambiente popular, com vista para a Baía de Todos-os-Santos.

A moqueca está entre os preparos mais associados ao estabelecimento nas avaliações de frequentadores.

O cardápio regional também é relacionado a pratos como feijoada, sarapatel, rabada e mocotó, receitas tradicionais que valorizam diferentes ingredientes e técnicas da cozinha brasileira.

A proposta é diferente dos restaurantes sofisticados instalados em áreas turísticas.

Aqui, o atrativo está na combinação da culinária popular com a movimentação da feira e a paisagem marítima.

O Mar e Sol é uma oportunidade de observar como a gastronomia também integra a economia cotidiana da cidade, alimentando trabalhadores, comerciantes, moradores e visitantes.

O que experimentar: a moqueca é a principal sugestão. Outras opções regionais dependem do cardápio disponível no dia.

Onde fica: Feira de São Joaquim, Box B68, nº 04, na Avenida Engenheiro Oscar Pontes.

3. Zanzibar: a África que permanece viva na cozinha de Ana Célia

Deixando a Cidade Baixa e seguindo para o Santo Antônio Além do Carmo, o roteiro chega a um espaço onde gastronomia, memória e ancestralidade africana se encontram.

O Restaurante Zanzibar, comandado pela chef Ana Célia, é uma referência na valorização da cozinha africana e de suas releituras na Bahia.

Instalado em um casarão histórico, ao lado da Igreja do Boqueirão, o estabelecimento reúne gastronomia e manifestações culturais.

Sua história começou há mais de quatro décadas e passou por outros bairros de Salvador, como Garcia e Federação, antes de chegar ao atual endereço.

A cozinha como lugar de pertencimento

A trajetória de Ana Célia é parte fundamental dessa história.

A chef começou a desenvolver sua relação com a culinária ainda na infância. Na adolescência, aprendeu com a tia Gertrudes, que trabalhava no antigo Hotel da Bahia.

Mais tarde, sua participação no Movimento Negro influenciou a criação de um espaço dedicado à valorização da identidade africana.

No Zanzibar, ingredientes como dendê, inhame, gengibre, quiabo, camarão e banana-da-terra aparecem em receitas que estabelecem conexões entre a Bahia e diferentes tradições culinárias africanas.

Entre os pratos associados à casa está o Fufu Inhá, uma preparação com peixe frito no dendê e acompanhamentos que valorizam o inhame e o quiabo.

Outras especialidades divulgadas incluem o Frango Zanzibar, com molho de gengibre e batata-doce, e o Ébubu Fulô, um ensopado de camarão.

Mais do que reproduzir pratos, a proposta do restaurante evidencia como a culinária pode preservar vínculos históricos e, ao mesmo tempo, criar novas interpretações.

O que experimentar: Fufu Inhá, Frango Zanzibar ou uma das especialidades africanas disponíveis.

Onde fica: Rua Direita de Santo Antônio, 60-B, Santo Antônio Além do Carmo.

4. Abará da Vovó: uma receita que começou no fundo de um carro

Nem toda história gastronômica começa com um restaurante.

Algumas começam com uma receita de família, poucos recursos e a confiança dos primeiros clientes.

É o caso do Abará da Vovó, estabelecimento do Santo Antônio Além do Carmo que surgiu da venda de quitutes no fundo de um automóvel.

Os responsáveis, Ulisses e Graça, conquistaram uma clientela que associava o sabor de suas receitas à comida preparada pelas avós.

Foi dessa identificação afetiva que nasceu o nome do negócio.

Com o crescimento das vendas, o estabelecimento ganhou endereço fixo em 2010 e passou a oferecer outras especialidades da culinária regional.

O sabor que atravessa gerações

Abará, acarajé, caruru e vatapá integram a identidade gastronômica do espaço.

O abará, preparado com massa de feijão-fradinho temperada, envolvida em folha de bananeira e cozida no vapor, é uma das expressões da culinária afro-baiana.

Diferentemente do acarajé, que é frito no azeite de dendê, o abará apresenta outra textura e outro processo de preparação.

O cardápio divulgado pelo estabelecimento também reúne bolinho de estudante, camarão na tapioca e outras receitas.

A trajetória do Abará da Vovó demonstra como pequenos empreendimentos alimentícios podem crescer sem abandonar suas referências culturais e afetivas.

O que experimentar: abará, acarajé, caruru e bolinho de estudante.

Onde fica: Rua Direita de Santo Antônio, 18, Santo Antônio Além do Carmo.

5. Cafélier: café, memória e pôr do sol na Baía de Todos-os-Santos

O último destino do roteiro convida a desacelerar.

Localizado na Rua do Carmo, o Cafélier ocupa um imóvel histórico decorado com objetos antigos e oferece uma vista panorâmica da Baía de Todos-os-Santos.

A combinação entre café, gastronomia, arquitetura e paisagem tornou o estabelecimento um dos endereços conhecidos do bairro.

Além das bebidas à base de café, a casa é associada a sobremesas, lanches e refeições leves.

A varanda é um dos principais atrativos, especialmente para quem deseja acompanhar a mudança das cores do céu no fim da tarde.

O encerramento do passeio permite contemplar a paisagem que também acompanhou o início do roteiro, na Feira de São Joaquim.

A mesma baía que historicamente conectou Salvador ao Recôncavo, transportando pessoas, mercadorias e tradições, aparece agora como cenário de um momento de descanso.

O que experimentar: café, cappuccino, sobremesas e opções de lanches do cardápio.

Onde fica: Rua do Carmo, 50, Santo Antônio Além do Carmo.

Muito além do dendê: comida também é patrimônio

A gastronomia baiana representa uma herança cultural transmitida por gerações.

Um exemplo desse reconhecimento é o Ofício das Baianas de Acarajé, registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Livro dos Saberes, em 2005.

O registro valoriza não apenas a preparação dos alimentos, mas também as práticas, conhecimentos, elementos simbólicos e relações sociais envolvidos no trabalho das baianas.

A tradição está ligada à presença africana no Brasil, às religiões de matriz africana e ao protagonismo de mulheres que fizeram da comida um instrumento de sustento, autonomia e preservação cultural.

Em Salvador, o alimento pode ser memória familiar, expressão religiosa, negócio popular, experiência turística e manifestação artística.

Reduzir essa diversidade a um simples produto turístico seria deixar de perceber sua dimensão histórica.

Um roteiro para conhecer Salvador de outro jeito

O passeio proposto pelo Salvador à Mesa pode começar pela manhã, na Feira de São Joaquim, seguir com uma refeição regional e continuar pelo Centro Histórico durante a tarde.

No Santo Antônio Além do Carmo, as paradas permitem conhecer diferentes interpretações da culinária baiana, desde os quitutes tradicionais até preparações de inspiração africana.

Não é necessário consumir uma refeição completa em cada estabelecimento. A proposta é conhecer histórias, compartilhar pequenas porções quando possível e descobrir os personagens por trás da comida.

Horários, preços, disponibilidade de pratos e reservas devem ser confirmados diretamente com os estabelecimentos.

Mais do que escolher onde comer, o roteiro apresenta uma forma de compreender a própria cidade.

Porque, em Salvador, o dendê é ingrediente, mas também é memória. O abará é alimento, mas também é herança. E cada cozinha tem uma história que merece ser contada.

Salvador à Mesa é uma série especial do Hoje Bahia dedicada a descobrir sabores, personagens e tradições gastronômicas de Salvador e da Bahia.

Reportagem elaborada a partir de pesquisa documental, informações dos estabelecimentos e fontes públicas. O roteiro é uma proposta de visita, não um relato de degustação presencial realizada pela equipe.

Fontes de apuração: Secretaria de Turismo da Bahia, Governo da Bahia, Iphan, portal Visit Salvador da Bahia/Salvador Capital Afro, Tempero Oficial e informações públicas dos estabelecimentos.

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