Em Salvador, a comida não começa quando o prato chega à mesa. Ela começa muito antes: na mão de quem planta, na embarcação que transporta os ingredientes, no tabuleiro da baiana, nos corredores das feiras e nas cozinhas onde receitas atravessam gerações.
O cheiro do dendê, o camarão seco, o quiabo, o feijão-fradinho, a farinha de mandioca e o leite de coco ajudam a contar uma história que não cabe apenas nos livros de receitas.
É uma história de encontros entre culturas, de ancestralidade africana, de saberes indígenas, de trabalho popular e de tradições que resistem às transformações da cidade.
Nesta edição do Salvador à Mesa, o Hoje Bahia propõe um roteiro que começa na tradicional Feira de São Joaquim, na Cidade Baixa, e segue para o Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico.
Cinco paradas, diferentes propostas gastronômicas e um elemento em comum: a comida como expressão da identidade de Salvador.
1. Feira de São Joaquim: onde a cozinha baiana encontra suas raízes
Antes da moqueca, existe o peixe. Antes do caruru, existe o quiabo. Antes do acarajé, existem o feijão-fradinho, o dendê e o conhecimento de quem transforma ingredientes em tradição.
É nos corredores da Feira de São Joaquim que esses elementos se encontram.
Localizada na Avenida Engenheiro Oscar Pontes, às margens da Baía de Todos-os-Santos, a feira é uma das maiores expressões do comércio popular da Bahia.
Ali se encontram pimentas, folhas, farinhas, pescados, camarões secos, frutas, raízes, cerâmicas e utensílios que fazem parte do cotidiano das cozinhas baianas.
Mas a importância de São Joaquim vai além dos alimentos.
Uma feira que nasceu da resistência
A história do espaço está ligada à antiga Feira de Água de Meninos, destruída por incêndios em 1964. Os comerciantes foram transferidos para uma enseada vizinha, onde se consolidou a atual Feira de São Joaquim.
Desde então, o local se tornou referência no abastecimento da cidade e na preservação de práticas comerciais e culturais.
É também um importante centro de comercialização de folhas, contas, cerâmicas e outros artigos utilizados nas religiões de matriz africana, especialmente no candomblé.
Essa relação demonstra como alimentação, religiosidade, economia popular e identidade cultural convivem no mesmo espaço.
A feira está mudando
Em junho de 2026, o Governo da Bahia inaugurou um novo Galpão de Carnes, como parte das obras de requalificação da feira.
Em setembro, foram anunciados 68 balcões refrigerados destinados a melhorar as condições de conservação dos produtos. A previsão oficial é que a requalificação inclua novos estabelecimentos comerciais até 2027.
As melhorias estruturais representam uma oportunidade de oferecer condições mais adequadas a trabalhadores e consumidores.
O desafio é modernizar sem descaracterizar a feira, preservando seus comerciantes, suas relações comunitárias e a dinâmica de um espaço que faz parte da história de Salvador.
O que descobrir: ingredientes regionais, a história dos feirantes, a origem dos alimentos, o comércio de produtos do Recôncavo e a relação entre comida e religiosidade.
2. Restaurante Mar e Sol: comida de feira com vista para a baía
Depois de conhecer os ingredientes, é hora de descobrir como eles chegam à mesa.
Dentro da Feira de São Joaquim, o Restaurante Mar e Sol é uma das opções para quem procura comida regional em um ambiente popular, com vista para a Baía de Todos-os-Santos.
A moqueca está entre os preparos mais associados ao estabelecimento nas avaliações de frequentadores.
O cardápio regional também é relacionado a pratos como feijoada, sarapatel, rabada e mocotó, receitas tradicionais que valorizam diferentes ingredientes e técnicas da cozinha brasileira.
A proposta é diferente dos restaurantes sofisticados instalados em áreas turísticas.
Aqui, o atrativo está na combinação da culinária popular com a movimentação da feira e a paisagem marítima.
O Mar e Sol é uma oportunidade de observar como a gastronomia também integra a economia cotidiana da cidade, alimentando trabalhadores, comerciantes, moradores e visitantes.
O que experimentar: a moqueca é a principal sugestão. Outras opções regionais dependem do cardápio disponível no dia.
Onde fica: Feira de São Joaquim, Box B68, nº 04, na Avenida Engenheiro Oscar Pontes.
3. Zanzibar: a África que permanece viva na cozinha de Ana Célia
Deixando a Cidade Baixa e seguindo para o Santo Antônio Além do Carmo, o roteiro chega a um espaço onde gastronomia, memória e ancestralidade africana se encontram.
O Restaurante Zanzibar, comandado pela chef Ana Célia, é uma referência na valorização da cozinha africana e de suas releituras na Bahia.
Instalado em um casarão histórico, ao lado da Igreja do Boqueirão, o estabelecimento reúne gastronomia e manifestações culturais.
Sua história começou há mais de quatro décadas e passou por outros bairros de Salvador, como Garcia e Federação, antes de chegar ao atual endereço.
A cozinha como lugar de pertencimento
A trajetória de Ana Célia é parte fundamental dessa história.
A chef começou a desenvolver sua relação com a culinária ainda na infância. Na adolescência, aprendeu com a tia Gertrudes, que trabalhava no antigo Hotel da Bahia.
Mais tarde, sua participação no Movimento Negro influenciou a criação de um espaço dedicado à valorização da identidade africana.
No Zanzibar, ingredientes como dendê, inhame, gengibre, quiabo, camarão e banana-da-terra aparecem em receitas que estabelecem conexões entre a Bahia e diferentes tradições culinárias africanas.
Entre os pratos associados à casa está o Fufu Inhá, uma preparação com peixe frito no dendê e acompanhamentos que valorizam o inhame e o quiabo.
Outras especialidades divulgadas incluem o Frango Zanzibar, com molho de gengibre e batata-doce, e o Ébubu Fulô, um ensopado de camarão.
Mais do que reproduzir pratos, a proposta do restaurante evidencia como a culinária pode preservar vínculos históricos e, ao mesmo tempo, criar novas interpretações.





