O senador Flávio Bolsonaro (PL) disputou a Presidência da República, chegou ao segundo turno, conquistou quase 60 milhões de votos e viu sua família ampliar a presença no Congresso Nacional. Seu partido elegeu as maiores bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado e conquistou seis governos estaduais.
Ainda assim, uma das principais narrativas do discurso político de Flávio e de integrantes do movimento bolsonarista é a de que o Brasil vive uma ditadura e precisa ser redemocratizado.
A contradição aparente merece uma análise que ultrapasse a polarização partidária.
Como explicar que um grupo político consiga exercer amplamente seus direitos eleitorais, conquistar representação expressiva nas instituições e, simultaneamente, sustentar que essas mesmas instituições integram um regime ditatorial?
A resposta exige observar os resultados das urnas, as declarações dos líderes políticos, os critérios utilizados para avaliar uma democracia e os possíveis efeitos da narrativa de perseguição sobre o eleitorado.
O poder conquistado pelas urnas
Os números das eleições de outubro de 2026 mostram a dimensão da força eleitoral do bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21% dos votos válidos no segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A disputa terminou com uma diferença de 4.430.191 votos.
O desempenho do PL nas eleições legislativas também foi expressivo.
Na Câmara dos Deputados, o partido elegeu 121 parlamentares, conquistando a maior bancada para a legislatura que começa em fevereiro de 2027.
No Senado, a legenda deverá reunir 29 integrantes, conforme projeção divulgada em 27 de outubro pela própria Casa. O PL também passará a governar seis estados brasileiros.
A família Bolsonaro ampliou sua representação:
- Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio, foi eleito senador por Santa Catarina, com mais de 2 milhões de votos.
- Jair Renan Bolsonaro, também irmão do candidato presidencial, conquistou uma cadeira de deputado federal por Santa Catarina.
- Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi eleita senadora pelo Distrito Federal.
Os resultados ocorreram dentro do sistema eleitoral brasileiro, com candidaturas registradas, campanhas públicas, propaganda política, votação popular e proclamação dos eleitos.
O conjunto desses fatos demonstra que o grupo bolsonarista mantém capacidade de organização política, participação eleitoral e conquista de cargos públicos.
Isso não elimina a possibilidade de problemas institucionais, mas torna indispensável esclarecer quais evidências sustentariam uma caracterização do Brasil como ditadura.
O discurso da ditadura não começou com a derrota eleitoral
Em agosto de 2025, após a determinação de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio declarou, em entrevista à CNN Brasil, que o país estava oficialmente em uma ditadura.
O senador apresentou a decisão judicial como evidência de perseguição política contra seu pai.
Durante a campanha presidencial de 2026, o discurso permaneceu.
Em 6 de outubro, após a conquista das bancadas expressivas do PL no Congresso, Flávio afirmou que pretendia aproveitar a nova correlação de forças políticas para modificar a Constituição e redemocratizar o Brasil.
O argumento estava associado, entre outros pontos, à proposta de reforma do Judiciário e à revisão de poderes do Supremo Tribunal Federal.
É legítimo que parlamentares questionem decisões judiciais, proponham reformas institucionais e defendam mudanças constitucionais.
Entretanto, existe uma diferença importante entre denunciar possíveis abusos de autoridades e afirmar que o sistema democrático foi substituído por uma ditadura.
A primeira posição pode ser sustentada pela análise de decisões, procedimentos e garantias legais. A segunda requer evidências mais abrangentes sobre a estrutura e o funcionamento do regime político.
Democracia não significa ausência de problemas
A avaliação de um regime democrático não depende apenas da realização periódica de eleições.
Liberdade de imprensa, independência dos poderes, garantias individuais, direito de oposição, transparência institucional e respeito ao devido processo legal também são elementos fundamentais.
O Brasil enfrenta problemas nessas áreas.
No relatório Freedom in the World 2026, a organização internacional Freedom House classificou o país como livre, atribuindo-lhe 73 pontos em uma escala de 100.
A entidade reconhece a existência de eleições competitivas e de um debate político intenso, mas aponta preocupações com violência política, corrupção, ataques a jornalistas e desigualdades no exercício de direitos.
A Human Rights Watch também registrou preocupações com a liberdade de expressão, incluindo decisões judiciais e mecanismos de responsabilização de plataformas digitais que podem incentivar restrições excessivas a manifestações legítimas.
Esses problemas merecem análise, fiscalização e cobrança das autoridades.
Contudo, sua existência não comprova, isoladamente, a implantação de uma ditadura.
A distinção é essencial: uma democracia pode apresentar falhas graves, inclusive abusos institucionais, sem que isso signifique automaticamente a extinção do regime democrático.
Da mesma maneira, eleições competitivas não garantem, por si só, que todos os direitos estejam plenamente protegidos.
Por que a narrativa de perseguição encontra apoio?
Uma possível explicação está na maneira como a comunicação política transforma conflitos institucionais em conflitos de identidade.
Quando uma liderança afirma que está sendo perseguida por representar determinado grupo, decisões dirigidas a essa liderança podem passar a ser interpretadas por seus apoiadores como ameaças contra todos eles.
Nesse processo, uma investigação criminal pode deixar de ser discutida apenas a partir de seus fundamentos jurídicos e passar a integrar uma narrativa de enfrentamento entre o grupo político e as instituições.
O discurso pode produzir diferentes efeitos.
Pode reforçar a identificação dos apoiadores com seus representantes, preservar a mobilização após derrotas eleitorais e apresentar decisões desfavoráveis como parte de um conflito político mais amplo.
Também pode deslocar o debate público da análise de provas e procedimentos para a defesa de identidades partidárias.
Essas são hipóteses sobre os efeitos políticos da narrativa. Não permitem concluir que todos os dirigentes que a reproduzem estejam deliberadamente enganando seus eleitores.
Alguns podem acreditar sinceramente que determinados atos judiciais representam violações graves dos direitos democráticos.
O que permanece necessário, em qualquer hipótese, é distinguir convicções políticas de evidências verificáveis.
Os próprios eleitores de Flávio reconhecem a democracia
Uma pesquisa Datafolha realizada nos dias 13 e 14 de outubro de 2026 apresentou um resultado especialmente importante.





