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NARRATIVA

Se o Brasil vive uma ditadura, como o bolsonarismo conquistou tanto poder nas urnas?

Flávio Bolsonaro disputou livremente a Presidência, seus familiares conquistaram vagas no Congresso e o PL elegeu as maiores bancadas da Câmara e do Senado. Os resultados de 2026 colocam em debate a distância entre o discurso de perseguição política e o funcionamento das instituições democráticas brasileiras.

João Branko | Redação HOJE BAHIA
Publicada em 28 de outubro de 2026 às 09:22 • Salvador - BA
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Ilustração editorial reúne Flávio Bolsonaro, o Congresso Nacional, a urna eletrônica e apoiadores para representar o contraste entre a força eleitoral conquistada pelo bolsonarismo nas eleições de 2026 e o discurso de que o Brasil vive uma ditadura.
Ilustração editorial reúne Flávio Bolsonaro, o Congresso Nacional, a urna eletrônica e apoiadores para representar o contraste entre a força eleitoral conquistada pelo bolsonarismo nas eleições de 2026 e o discurso de que o Brasil vive uma ditadura. — Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial para o Hoje Bahia.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) disputou a Presidência da República, chegou ao segundo turno, conquistou quase 60 milhões de votos e viu sua família ampliar a presença no Congresso Nacional. Seu partido elegeu as maiores bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado e conquistou seis governos estaduais.

Ainda assim, uma das principais narrativas do discurso político de Flávio e de integrantes do movimento bolsonarista é a de que o Brasil vive uma ditadura e precisa ser redemocratizado.

A contradição aparente merece uma análise que ultrapasse a polarização partidária.

Como explicar que um grupo político consiga exercer amplamente seus direitos eleitorais, conquistar representação expressiva nas instituições e, simultaneamente, sustentar que essas mesmas instituições integram um regime ditatorial?

A resposta exige observar os resultados das urnas, as declarações dos líderes políticos, os critérios utilizados para avaliar uma democracia e os possíveis efeitos da narrativa de perseguição sobre o eleitorado.

O poder conquistado pelas urnas

Os números das eleições de outubro de 2026 mostram a dimensão da força eleitoral do bolsonarismo.

Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21% dos votos válidos no segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro. Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A disputa terminou com uma diferença de 4.430.191 votos.

O desempenho do PL nas eleições legislativas também foi expressivo.

Na Câmara dos Deputados, o partido elegeu 121 parlamentares, conquistando a maior bancada para a legislatura que começa em fevereiro de 2027.

No Senado, a legenda deverá reunir 29 integrantes, conforme projeção divulgada em 27 de outubro pela própria Casa. O PL também passará a governar seis estados brasileiros.

A família Bolsonaro ampliou sua representação:

  • Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio, foi eleito senador por Santa Catarina, com mais de 2 milhões de votos.
  • Jair Renan Bolsonaro, também irmão do candidato presidencial, conquistou uma cadeira de deputado federal por Santa Catarina.
  • Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi eleita senadora pelo Distrito Federal.

Os resultados ocorreram dentro do sistema eleitoral brasileiro, com candidaturas registradas, campanhas públicas, propaganda política, votação popular e proclamação dos eleitos.

O conjunto desses fatos demonstra que o grupo bolsonarista mantém capacidade de organização política, participação eleitoral e conquista de cargos públicos.

Isso não elimina a possibilidade de problemas institucionais, mas torna indispensável esclarecer quais evidências sustentariam uma caracterização do Brasil como ditadura.

O discurso da ditadura não começou com a derrota eleitoral

Em agosto de 2025, após a determinação de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio declarou, em entrevista à CNN Brasil, que o país estava oficialmente em uma ditadura.

O senador apresentou a decisão judicial como evidência de perseguição política contra seu pai.

Durante a campanha presidencial de 2026, o discurso permaneceu.

Em 6 de outubro, após a conquista das bancadas expressivas do PL no Congresso, Flávio afirmou que pretendia aproveitar a nova correlação de forças políticas para modificar a Constituição e redemocratizar o Brasil.

O argumento estava associado, entre outros pontos, à proposta de reforma do Judiciário e à revisão de poderes do Supremo Tribunal Federal.

É legítimo que parlamentares questionem decisões judiciais, proponham reformas institucionais e defendam mudanças constitucionais.

Entretanto, existe uma diferença importante entre denunciar possíveis abusos de autoridades e afirmar que o sistema democrático foi substituído por uma ditadura.

A primeira posição pode ser sustentada pela análise de decisões, procedimentos e garantias legais. A segunda requer evidências mais abrangentes sobre a estrutura e o funcionamento do regime político.

Democracia não significa ausência de problemas

A avaliação de um regime democrático não depende apenas da realização periódica de eleições.

Liberdade de imprensa, independência dos poderes, garantias individuais, direito de oposição, transparência institucional e respeito ao devido processo legal também são elementos fundamentais.

O Brasil enfrenta problemas nessas áreas.

No relatório Freedom in the World 2026, a organização internacional Freedom House classificou o país como livre, atribuindo-lhe 73 pontos em uma escala de 100.

A entidade reconhece a existência de eleições competitivas e de um debate político intenso, mas aponta preocupações com violência política, corrupção, ataques a jornalistas e desigualdades no exercício de direitos.

A Human Rights Watch também registrou preocupações com a liberdade de expressão, incluindo decisões judiciais e mecanismos de responsabilização de plataformas digitais que podem incentivar restrições excessivas a manifestações legítimas.

Esses problemas merecem análise, fiscalização e cobrança das autoridades.

Contudo, sua existência não comprova, isoladamente, a implantação de uma ditadura.

A distinção é essencial: uma democracia pode apresentar falhas graves, inclusive abusos institucionais, sem que isso signifique automaticamente a extinção do regime democrático.

Da mesma maneira, eleições competitivas não garantem, por si só, que todos os direitos estejam plenamente protegidos.

Por que a narrativa de perseguição encontra apoio?

Uma possível explicação está na maneira como a comunicação política transforma conflitos institucionais em conflitos de identidade.

Quando uma liderança afirma que está sendo perseguida por representar determinado grupo, decisões dirigidas a essa liderança podem passar a ser interpretadas por seus apoiadores como ameaças contra todos eles.

Nesse processo, uma investigação criminal pode deixar de ser discutida apenas a partir de seus fundamentos jurídicos e passar a integrar uma narrativa de enfrentamento entre o grupo político e as instituições.

O discurso pode produzir diferentes efeitos.

Pode reforçar a identificação dos apoiadores com seus representantes, preservar a mobilização após derrotas eleitorais e apresentar decisões desfavoráveis como parte de um conflito político mais amplo.

Também pode deslocar o debate público da análise de provas e procedimentos para a defesa de identidades partidárias.

Essas são hipóteses sobre os efeitos políticos da narrativa. Não permitem concluir que todos os dirigentes que a reproduzem estejam deliberadamente enganando seus eleitores.

Alguns podem acreditar sinceramente que determinados atos judiciais representam violações graves dos direitos democráticos.

O que permanece necessário, em qualquer hipótese, é distinguir convicções políticas de evidências verificáveis.

Os próprios eleitores de Flávio reconhecem a democracia

Uma pesquisa Datafolha realizada nos dias 13 e 14 de outubro de 2026 apresentou um resultado especialmente importante.

Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 74% consideravam que o Brasil era uma democracia, embora a maioria desse grupo identificasse grandes problemas em seu funcionamento.

Outros 23% afirmavam que o país não era uma democracia.

O levantamento ouviu 2.520 pessoas em 153 municípios brasileiros e teve margem de erro geral de dois pontos percentuais.

O resultado revela que o eleitorado bolsonarista não apresenta uma visão uniforme sobre a situação institucional do país.

Muitos apoiadores reconhecem a existência de um regime democrático, mesmo manifestando profunda insatisfação com o funcionamento das instituições.

Essa distinção impede generalizações sobre milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro por razões possivelmente diferentes, incluindo propostas econômicas, segurança pública, valores conservadores, rejeição ao governo Lula ou identificação partidária.

A própria pesquisa ajuda a separar o discurso de algumas lideranças da percepção efetiva de seus eleitores.

A contestação do resultado e os números da votação

A tensão entre a narrativa política e os dados verificáveis ganhou um novo capítulo após o segundo turno de 25 de outubro.

Na noite da derrota, Flávio Bolsonaro declarou que não reconheceria o resultado e anunciou a intenção de pedir a anulação da eleição.

O principal argumento apresentado naquele momento foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que permitiu a extensão do horário de votação até as 19h nas seções que permaneciam abertas, diante de dificuldades relatadas por eleitores para chegar aos locais de votação.

Ocorre que as duas campanhas presidenciais haviam apresentado pedidos de prorrogação, embora com abrangências diferentes.

A campanha de Lula apontou problemas de mobilidade urbana, principalmente em Salvador e São Paulo. A de Flávio relatou dificuldades relacionadas às chuvas em municípios de diferentes estados.

Em 27 de outubro, o TSE divulgou o levantamento oficial: 34.393 votos foram registrados após as 17h em todo o Brasil.

O número representa aproximadamente 0,027% dos votos computados no segundo turno.

Além disso, parte desses votos poderia ter sido registrada normalmente, já que a legislação assegura o direito de votar aos eleitores que estiverem na fila até o horário regular de encerramento.

Mesmo na hipótese extrema de todos os votos posteriores às 17h terem favorecido Lula, o volume seria insuficiente para explicar ou reverter a diferença superior a 4,4 milhões de votos entre os candidatos.

Isso não impede questionamentos jurídicos específicos sobre a decisão. Mas os números não sustentam a afirmação de que a prorrogação tenha determinado o vencedor.

O próprio PL reconheceu a vitória de Lula

Em 26 de outubro, um dia após o segundo turno, a direção nacional do PL adotou uma posição distinta daquela inicialmente apresentada por Flávio.

O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, divulgou uma nota reconhecendo o resultado presidencial proclamado pelo TSE.

O partido afirmou, entretanto, que determinados questionamentos sobre a campanha deveriam ser esclarecidos, especialmente em relação a medidas econômicas e gastos públicos às vésperas da votação.

Flávio também alterou a estratégia anunciada inicialmente, passando a defender uma contestação judicial por suposto abuso de poder político e econômico da chapa vencedora.

As acusações precisam ser examinadas pelos órgãos competentes, mediante apresentação e avaliação das provas.

Esse episódio demonstra uma diferença importante entre questionar a regularidade de atos eleitorais, reconhecer a totalização dos votos e pedir judicialmente a cassação de uma candidatura.

O direito de apresentar ações e recorrer ao Judiciário faz parte do próprio sistema democrático.

Entre a crítica às instituições e a deslegitimação da democracia

O debate brasileiro exige separar duas questões que frequentemente aparecem misturadas.

A primeira é se integrantes do Supremo Tribunal Federal, do governo ou de outros órgãos públicos adotaram medidas incompatíveis com a Constituição e as garantias individuais.

Essa é uma discussão legítima, que deve ser conduzida com argumentos jurídicos, transparência e possibilidade de fiscalização.

A segunda é se essas situações permitem caracterizar o Brasil como uma ditadura.

Nesse caso, a avaliação precisa considerar o funcionamento do conjunto das instituições, a liberdade de oposição, a competitividade eleitoral, a proteção dos direitos e os mecanismos de alternância de poder.

Os resultados de 2026 mostram que o bolsonarismo participou intensamente da disputa política e conquistou representação expressiva nas instituições que critica.

Ao mesmo tempo, os relatórios internacionais indicam que o funcionamento da democracia brasileira apresenta problemas reais, que não devem ser ignorados.

A pergunta que permanece

Flávio Bolsonaro teve sua candidatura registrada, realizou campanha nacional, participou da disputa presidencial e recebeu quase 60 milhões de votos.

Seus familiares conquistaram novos mandatos. Seu partido elegeu as maiores bancadas do Congresso, passará a governar seis estados e terá instrumentos institucionais expressivos para fiscalizar o Executivo, apresentar projetos, propor reformas e exercer oposição.

Esses fatos são relevantes para avaliar o discurso de que o país vive sob uma ditadura.

A questão não é negar a possibilidade de abusos praticados por autoridades nem presumir que todas as instituições brasileiras funcionem de maneira adequada.

É exigir que afirmações graves sobre a natureza do regime político sejam sustentadas por evidências proporcionais à sua gravidade.

Uma democracia precisa permitir que seus adversários disputem o poder, critiquem o governo, questionem tribunais e proponham mudanças. Também precisa garantir que denúncias contra autoridades sejam investigadas e que nenhuma liderança esteja acima da lei.

O desafio para a sociedade é reconhecer problemas reais sem confundir divergências políticas, decisões judiciais contestadas e derrotas eleitorais com a extinção automática da democracia.

Em um país profundamente polarizado, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem afirma estar sendo perseguido, mas quais fatos demonstram essa perseguição e quais mecanismos institucionais continuam disponíveis para combatê-la.

A força de uma democracia também se mede pela capacidade de submeter tanto o governo quanto seus adversários aos mesmos critérios de verdade, legalidade e responsabilidade.


Fontes de apuração: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Câmara dos Deputados, Senado Federal, Agência Brasil, CNN Brasil, Datafolha, BBC News Brasil, Freedom House e Human Rights Watch.

Hoje Bahia — Jornalismo com informação, contexto e responsabilidade.

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